domingo, 30 de novembro de 2025

Leão XIV neste domingo:

Líbano, aqui a paz é um desejo e uma vocação

Em seu discurso às autoridades libanesas, o Papa ressaltou que "o compromisso e o amor pela paz não conhecem o medo diante das aparentes derrotas, nem se deixam abater pelas desilusões, mas sabem olhar para o futuro, acolhendo e abraçando todas as realidades com esperança". "A paz é saber viver juntos, em comunhão, como pessoas reconciliadas", disse Leão XIV, sublinhando "o papel indispensável das mulheres no árduo e paciente esforço de preservar e construir a paz".

O Papa Leão XIV iniciou, neste domingo (30/11), a segunda etapa de sua primeira viagem apostólica internacional que o leva ao Líbano.

O Pontífice chegou a Beirute onde encontrou-se com as autoridades, os representantes da sociedade civil e o Corpo diplomático, no Palácio Presidencial. O Papa iniciou o seu discurso com as seguintes palavras:

“É uma grande alegria encontrar-vos e visitar esta terra onde “paz” é muito mais do que uma palavra: aqui a paz é um desejo e uma vocação, é um dom e um canteiro sempre aberto.”

A obra da paz é um contínuo recomeçar

Recordando as palavras de Jesus, «Felizes os que promovem a paz», o Santo Padre refletiu sobre o que significa ser promotor de paz "em circunstâncias muito complexas, conflituosas e incertas". Ressaltou uma qualidade que distingue os libaneses: "Sois um povo que não sucumbe e que, diante das provações, sabe sempre renascer com coragem".

“A vossa resiliência é uma característica imprescindível dos autênticos promotores da paz: realmente, a obra da paz é um contínuo recomeçar. O compromisso e o amor pela paz não conhecem o medo diante das aparentes derrotas, nem se deixam abater pelas desilusões, mas sabem olhar para o futuro, acolhendo e abraçando todas as realidades com esperança. É preciso tenacidade para construir a paz; é preciso perseverança para cuidar e fazer a vida crescer.”

Uma sociedade civil vivaz, bem formada, rica em jovens 

Portanto, falar a "língua da esperança", aquela que sempre permitiu os libaneses de recomeçar, num mundo em que "uma espécie de sentimento de impotência e pessimismo parece ter levado a melhor: as pessoas parecem já nem sequer conseguir perguntar-se o que podem fazer para mudar o rumo da história".

“Sofrestes muito as consequências de uma economia que mata, da instabilidade global – que também no Levante tem repercussões devastadoras –, bem como da radicalização das identidades e dos conflitos; mas sempre quisestes e soubestes recomeçar.”

"O Líbano pode orgulhar-se de uma sociedade civil vivaz, bem formada, rica em jovens capazes de expressar os sonhos e as esperanças de todo um País", frisou o Papa. "Que vos ajude também o profundo laço de afeto que une tantos libaneses espalhados pelo mundo ao seu país", sublinhou.

Recomeçar através do árduo caminho da reconciliação

A seguir, o Pontífice falou sobre a segunda característica dos que promovem a paz: eles sabem recomeçar sobretudo através do árduo caminho da reconciliação. "Existem feridas pessoais e coletivas que para poderem cicatrizar exigem longos anos, às vezes gerações inteiras. Se não forem tratadas, se não se trabalhar, por exemplo, na cura da memória, na aproximação entre aqueles que sofreram ofensas e injustiças, dificilmente se alcançará a paz", disse ainda o Papa Leão.

De acordo com o Santo Padre, "não há reconciliação duradoura sem uma meta comum, sem uma abertura para um futuro em que o bem prevaleça sobre o mal sofrido ou infligido, no passado ou no presente".

A paz é saber viver juntos, em comunhão

Segundo o Papa Leão, "uma cultura da reconciliação não nasce apenas de baixo, da disponibilidade e da coragem de alguns, mas precisa de autoridades e instituições que reconheçam o bem comum como superior ao bem parcial".

“A paz é, na verdade, muito mais do que um sempre precário equilíbrio entre aqueles que vivem separados sob o mesmo teto. A paz é saber viver juntos, em comunhão, como pessoas reconciliadas. Uma reconciliação que, além de nos fazer conviver, nos ensinará a trabalhar juntos, lado a lado, por um futuro partilhado. Estamos inseridos juntos num desígnio que Deus preparou para que nos tornemos uma família.”

Sangria de jovens e famílias

A terceira característica dos que promovem a paz é que "eles ousam permanecer, mesmo quando isso implica sacrifício".

“Sabemos que a incerteza, a violência, a pobreza e muitas outras ameaças produzem aqui, como em outros lugares do mundo, uma sangria de jovens e famílias que procuram um futuro melhor noutro lugar, mesmo com grande dor por deixarem a sua pátria. Temos de reconhecer que muito de positivo chega-vos dos Libaneses espalhados pelo mundo. No entanto, não devemos esquecer que permanecer na pátria e colaborar dia após dia para o desenvolvimento da civilização do amor e da paz continua sendo algo muito apreciável.”

O Papa sublinhou que "a Igreja não se preocupa apenas com a dignidade daqueles que se deslocam para países diferentes do seu, mas deseja que ninguém seja obrigado a partir e que todos aqueles que o desejem possam regressar em segurança".

De acordo com o Pontífice, "a mobilidade humana representa uma imensa oportunidade de encontro e de enriquecimento mútuo, mas não apaga o vínculo especial que une cada um a determinados lugares, aos quais deve a sua identidade de uma forma totalmente peculiar. E a paz cresce sempre num contexto vital concreto, feito de laços geográficos, históricos e espirituais. É preciso encorajar aqueles que os favorecem e promovem, sem ceder a localismos e nacionalismos. Na Encíclica Fratelli tutti, o Papa Francisco indicava este caminho".

O papel das mulheres na construção da paz

Leão XIV convidou a se perguntar sobre o que fazer para que os jovens não se sintam obrigados a abandonar a sua terra. De acordo com o Pontífice, "cristãos e muçulmanos, com todos os componentes religiosos e civis da sociedade libanesa, são chamados a fazer a sua parte nesse sentido e a comprometer-se em sensibilizar a Comunidade internacional sobre o assunto".

“Neste contexto, gostaria de sublinhar o papel indispensável das mulheres no árduo e paciente esforço de preservar e construir a paz. Não esqueçamos que as mulheres têm uma capacidade específica de promover a paz, porque sabem conservar e desenvolver laços profundos com a vida, com as pessoas e com os lugares. A participação delas na vida social e política, bem como na vida das suas comunidades religiosas, à semelhança da energia que emana dos jovens, representa em todo o mundo um fator de verdadeira renovação. Portanto, felizes as pacificadoras e os jovens que permanecem ou que regressam, para que o Líbano continue sendo uma terra cheia de vida.”

Paz, um caminho movido pelo Espírito

O Papa concluiu, ressaltando que o povo libanês é um "povo que ama a música, que, nos dias de festa, se transforma em dança, linguagem de alegria e comunhão". Um traço da cultura libanesa que nos ajuda "a compreender que a paz não é apenas o resultado de um esforço humano", mas "um dom que vem de Deus e que, antes de mais nada, habita no nosso coração". "É como um movimento interior que se derrama para o exterior, permitindo-nos ser guiados por uma melodia maior do que nós mesmos: a do amor divino", disse ainda Leão XIV.

“Assim é a paz: um caminho movido pelo Espírito, que coloca o coração em escuta e o torna mais atento e respeitoso para com o outro. Que cresça entre vós este desejo de paz que nasce de Deus e pode transformar, já hoje, a maneira de olhar para os outros e de habitar juntos esta Terra que Ele ama profundamente e continua a abençoar.”

Mariangela Jaguraba - Vatican News

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                                                             Fonte: vaticannews.va   Vídeo: (@Vatican Media

Advento:

a chama que nos desperta para o futuro de Deus

Dom Leomar Brustolin - Arcebispo de Santa Maria (RS)

O Advento chega sempre como quem acende uma vela no escuro. De repente, a pequena chama abre espaço na noite e revela que há algo mais: um caminho, uma promessa, um horizonte que insiste em nascer. Em um mundo fatigado por urgências, distrações e um presente que muitas vezes parece repetir-se sem sentido, o Advento é a estação espiritual que nos devolve a coragem de esperar — não de braços cruzados, mas com o coração aceso. 

A liturgia deste tempo recorda que a fé cristã não é memória de um passado remoto, mas vigília pelo Cristo que vem. A Igreja convida-nos a entrar num tempo em que o futuro de Deus se torna urgente, quase palpável. A cada ano, a comunidade cristã repete com os primeiros discípulos: “Vem, Senhor!” – não como devoção ingênua, mas como confissão madura de que a criação inteira geme e sofre à espera de plenitude. O Advento, por isso, não celebra apenas o nascimento de Jesus em Belém; ele reacende em nós a esperança obstinada de sua vinda gloriosa, quando toda lágrima será enxugada e a justiça terá a última palavra. 

Entre ruídos do mundo e a casa interior 

No fundo, este tempo é uma provocação. A pergunta que ressoa, delicada e firme, é: ainda sabemos esperar? Entre telas luminosas, rotinas aceleradas e uma avalanche de informações, corremos o risco de perder a interioridade — aquela casa silenciosa onde Deus costuma falar. O Advento devolve-nos essa morada interior. Ensina que a verdadeira preparação acontece quando voltamos ao coração, onde o Espírito mantém viva a inquietação dos que buscam o Senhor como a aurora. 

Os antigos Padres afirmavam que o cristão é aquele que permanece vigilante, “sabendo que o Senhor vem”. Mas, para muitos, o Advento tornou-se apenas prólogo do Natal, uma espécie de cenário decorativo antes das festas. O texto que inspira esta reflexão denuncia esse perigo: a regressão simplória que reduz o Mistério à lembrança de um bebê na manjedoura. Quando isso acontece, empobrece-se a esperança cristã e perde-se a força transformadora deste tempo. O Advento não celebra apenas o Deus que veio — celebra o Deus que virá e que já vem hoje, misteriosamente, em cada gesto de justiça, em cada recomeço, em cada partilha. 

Há uma tensão bonita neste tempo: caminhamos “pela fé e não pela visão”. A salvação já foi inaugurada, mas ainda não chegou em sua plenitude. Vivemos entre o “já” e o “ainda não”, sustentados por uma esperança que não decepciona. Por isso, o Advento é o tempo dos que não desistem de acreditar que Deus reserva ao mundo um futuro de luz; tempo dos que lutam por dignidade, enfrentam a violência e caminham com os pobres à espera do dia em que a verdade brilhará como sol sem ocaso. 

Vigiar, discernir e manter a chama acesa 

Teilhard de Chardin perguntava: “Cristãos, que fizemos da espera do Senhor?” O Advento devolve atualidade a essa pergunta. Ele convoca-nos a manter acesa, sobre a terra, a chama do desejo. Ensina-nos a reconhecer os sinais discretos da chegada de Deus: um perdão concedido, uma reconciliação que parecia improvável, uma comunidade que reza e trabalha pela paz. A vinda do Senhor acontece onde há gestos de ternura, onde vidas feridas encontram cuidado, onde a justiça floresce mesmo em meio ao frio da noite. 

Celebrar o Advento é ousar acreditar que Deus vem ao nosso encontro — não apenas no final dos tempos, mas já agora, no entrelaçar da história humana com a história da graça. É permitir que a promessa do Reino reoriente nossas escolhas, desperte nossa solidariedade e renove nossa missão. É caminhar com o coração atento, como vigias que pressentem a aurora antes que ela apareça. 

Que este Advento reacenda em nós a chama do desejo de Deus. Que se abram nossos olhos para perceber sua passagem. Que despertemos para a urgência de sua vinda. E que nossa vida inteira se transforme em oração antiga e sempre nova: 

“Vem, Senhor Jesus!” 

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                                                                  Fonte: cnbb.org.br   Imagem: vaticannews.va

Reflexão para o seu domingo:

Como despertar?

José Antonio Pagola

Jesus o repetiu constantemente: “Estai sempre despertos”. Ele temia que o fogo inicial apagasse e seus seguidores dormissem. Esse é o nosso grande risco: instalar-nos comodamente em nossas crenças, “acostumar-nos” ao Evangelho e viver adormecidos na observância tranquila de uma religião apagada. Como despertar?

O primeiro a fazer é voltar a Jesus e sintonizar com a experiência primeira que tudo desencadeou. Não basta instalar-nos “corretamente” na tradição. Temos que enraizar nossa fé na pessoa de Jesus, voltar a nascer de seu espírito. Não há nada mais importante que isto na Igreja. Só Jesus pode conduzir-nos de novo ao essencial.

Além disso, precisamos reavivar a experiência de Deus. O essencial do Evangelho não se aprende de fora, mas cada um o descobre em seu interior como Boa Notícia de Deus. Devemos aprender e ensinar caminhos para encontrar-nos com Deus. De pouco adianta desenvolver temas didáticos de religião ou continuar discutindo sobre questões de “moral sexual” se não despertamos em nada o gosto por um Deus amigo, fonte de vida digna e feliz.

Mais ainda. A chave a partir da qual Jesus vivia a Deus e olhava a vida inteira não era o pecado, a moral ou a lei, mas o sofrimento das pessoas. Jesus não só amava os desgraçados, mas nada amava mais ou acima deles. Não estamos seguindo corretamente os passos de Jesus, se vivemos mais preocupados com a religião do que com o sofrimento das pessoas. Nada despertará a Igreja de sua rotina, imobilismo ou mediocridade, se não nos comove mais a fome, a humilhação e o sofrimento das pessoas.

Para Jesus, o importante é sempre a vida digna e feliz das pessoas. Por isso, se nosso “cristianismo” não serve para fazer viver e crescer, não serve para o essencial, por mais nomes piedosos e veneráveis com que o queiramos designar. Não temos que olhar os outros. Cada um de nós deve sacudir-se da indiferença, da rotina e da passividade que nos fazem viver adormecidos.

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JOSÉ ANTONIO PAGOLA cursou Teologia e Ciências Bíblicas na Pontifícia Universidade Gregoriana, no Pontifício Instituto Bíblico de Roma e na Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. É autor de diversas obras de teologia, pastoral e cristologia. Atualmente é diretor do Instituto de Teologia e Pastoral de São Sebastião. Este comentário é do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, da Editora Vozes.

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                                          Fonte: franciscanos.org.br   Banner: Frei Fábio M. Vasconcelos

sábado, 29 de novembro de 2025

Reflexão do frei Almir Guimarães:

Atenção, muita atenção!

Entrando no tempo do desejo

Frei Almir Guimarães

Vocês não estão ouvindo seus passos silenciosos? Ele está chegando, está chegando, está realmente chegando. A todo  momento, em qualquer tempo, a cada dia e cada noite.  Ele está chegando… (Tagore)

Vinde todos da casa de Jacó e deixemo-nos guiar pela luz do Senhor. (Isaías 2, 5)

 Quatro semanas, vinte e poucos dias nos separam da comemoração do nascimento de Jesus. Os fatos são conhecidos e a fé nos diz que o Deus altíssimo e belo resolveu armar sua tenda entre nós. Somos convidados a fazer brotar em nós o desejo de Deus. Importante que o Natal do Senhor penetre em nossa vida e na vida da Igreja. Não pode ser  uma comemoração rotineira e vazia de seu significado. Fundamental que nos abismemos diante de tão grande maravilha: o Altíssimo se faz presente na fragilidade humana.

 Elredo de Rielvaux, monge, afirma: “Determinou a Igreja com sabedoria que no tempo do Advento recitemos as palavras dos que antecederam a primeira vinda do Senhor e revivamos os seus desejos. E não celebramos o seu desejo só por um dia, mas por tempo mais prolongado, pois o objeto de nossos desejos, quando tarda, parece ao chegar, mais doce ao nosso amor”.

Desejo, anelo, esperança e expectativas perpassam a liturgia e devem acompanhar as batidas de nosso coração nessa quadra do ano. Não queremos viver um dezembro nas coisas que se repetem monótona e rotineiramente: compras, bolas coloridas, enfeites, presentes, almoço de Natal, panettone, missa do galo, roupa nova, ‘pisca-pisca chinês’, as mesmas coisas sempre as mesmas coisas. “Então é Natal!”

Alimentar o desejo de Deus. Tudo está feito e pressentimos que tudo precisa ser refeito. Falta plenitude em nossa vida pessoal, tudo está por acabar, há sempre este gosto de insatisfação, do inacabado. Somos convidados a vigiar.  Caminhar serenamente pela vida mas cuidado de ter atenção.  Atenção às visitas inesperadas do Senhor.

Viver despertos:

>> Significa seguir de verdade os passos de Jesus:  seguimento.

>> Não cair no ceticismo e na indiferença diante da marcha do mundo: não se entregar ao pessimismo.

>> Não deixar que nosso coração endureça:  delicadeza interior, sensibilidade.

>> Alimentar a esperança das pessoas desalentadas.

>> Atrever-nos a ser diferentes, sem afetação, crer na força do Evangelho vivido.

>>Não deixar que se apague o nosso desejo de buscar o bem para todos.

>> Viver com paixão a pequena aventura de cada dia.

>> Continuar a fazer pequenos gestos que aparentemente não servem para nada.

 Pagola tem palavras contundentes, mas que precisamos ouvir:  “Um dos riscos que ameaçam  nossa fé  é cair numa vida superficial,  mecânica,  rotineira…  Não é fácil escapar. Com o passar dos anos, os projetos, as metas, as ideias de muita gente acabam apagando-se. Não poucos acabam levantando-se cada dia “só para ir levando a vida”.  O apelo de Jesus à vigilância nos chama a despertar da indiferença, da passividade ou do descuido com que vivemos  frequentemente nossa fé. Para vivê-la de maneira lúcida precisamos conhecê-la mais profundamente, confrontá-la com outras atitudes possíveis perante a vida e procurar vive-las com todas as suas consequências. É muito fácil viver dormindo.  Basta fazer o que todos fazem: imitar, amoldar-nos, ajustar-nos ao que está na moda.  Basta viver buscando segurança externa ou interna.  Basta defender o nosso pequeno bem-estar enquanto a vida vai se apagando em nós” (cf. Pagola, Lucas, p.213-214).

 Não é possível que as expressões de nossa fé se resumam ao cumprimento de ritos e à observância de meia dúzia de prescrições. Será preciso dar um espaço dentro de nós para acolhimento do mistério da encarnação.  Precisamos um pouco ou muito de lentidão. José  Tolentino Mendonça fala da urgência da lentidão  que pode se traduzir em atenção  para as visitas do  Senhor: “Passamos pelas coisas sem as habitar, falamos com os outros sem os ouvir, juntamos informações que nunca  chegamos a aprofundar. Tudo transita num galope ruidoso. Na verdade, a velocidade em que vivemos, impede-nos de viver”. O Natal não pode passar como num galope ruidoso.  Afinal de contas, é a chegada no humano  daquele que os espaços não podem conter.

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Texto seleto

Senhor, eis-nos à espera.

No fundo de nossas correrias, no coração desses dias agitados, que nos dividem literalmente ao meio, entre mil pequenas tarefas e mil pequenos pensamentos, há um silêncio que soletra o teu nome.

No fundo nós sabemos que só um Deus pode nos salvar.

Pode até ser que no meio de tanto ruído, que te dispensamos.

Pode até ser que não tenhamos a força dos verdadeiros gestos do Natal.

Mas eis-nos à espera,

Acredita que, por vezes,  enquanto trocamos cartões, augúrios, presentes há um momento em que nossas mãos ficam vazias, fixas  no ar, como se rezassem.

É quando te pedimos que faças brilhar em nós a estrela luminosa do teu Natal.

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Para refletir

Vigiar as visitas do  Senhor com velas acesas:

Deixando que as mensagens dos acontecimentos alegres ou os apertos do coração possam  apontar para insinuações do  Senhor.

Sem nos desesperar com incômodos remorsos, servir-se deles para jogar-se no Senhor.

Saber que ele nos visita numa palavra ouvida ou lida que ressoa fortemente em nosso interior.

Na habitual convivência com a Palavra.

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FREI ALMIR GUIMARÃES, OFM, ingressou na Ordem Franciscana em 1958. Estudou catequese e pastoral no Institut Catholique de Paris, a partir de 1966, período em que fez licenciatura em Teologia. Em 1974, voltou a Paris para se doutorar em Teologia. Tem diversas obras sobre espiritualidade, sobretudo na área da Pastoral familiar. É o editor da Revista “Grande Sinal”.

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Leão XIV em missa neste sábado em Istambul:

caminhar juntos, valorizando o que nos une

Na homilia da missa celebrada na Volkswagen Arena, em Istambul, na Turquia, o Papa convidou a derrubar "os muros do preconceito e da desconfiança, promovendo o conhecimento e a estima recíproca, para dar a todos uma forte mensagem de esperança". Pediu aos cristãos para "favorecer e fortalecer os laços que nos unem, para enriquecermo-nos mutuamente e sermos, diante do mundo, um sinal crível do amor universal e infinito do Senhor".

O Papa Leão XIV celebrou a missa na "Volkswagen Arena", em Istambul, neste sábado (29/11), no âmbito de sua primeira viagem apostólica à Turquia, por ocasião do aniversário de 1700 anos do Primeiro Concílio de Niceia.

“Celebramos esta Santa Missa na véspera do dia em que a Igreja recorda Santo André, Apóstolo e Padroeiro desta terra. Ao mesmo tempo, iniciamos o Advento, preparando-nos para reviver, no Natal, o mistério de Jesus, Filho de Deus, «gerado, não criado, consubstancial ao Pai», como os Padres reunidos no Concílio de Niceia solenemente declararam há 1700 anos.”

A seguir, Leão XIV meditou "sobre o nosso ser Igreja", detendo-se em algumas passagens do Livro do Profeta Isaías "onde ressoa o convite dirigido a todos os povos para subirem ao monte do Senhor, lugar de luz e de paz".

Renovar na fé a força do nosso testemunho

A primeira é a do monte «mais alto de todos», que "nos lembra que os frutos da ação de Deus em nossa vida não são um dom apenas para nós, mas para todos", pois "a alegria do bem é contagiante". "Encontramos confirmação disso na vida de muitos santos", disse ainda o Papa, citando São Pedro que encontra "Jesus graças ao entusiasmo do seu irmão André, que, por sua vez, junto com o apóstolo João, é conduzido ao Senhor pelo zelo de João Batista. Séculos mais tarde, Santo Agostinho chega a Cristo graças à apaixonada pregação de Santo Ambrósio, e assim muitos outros".

De acordo com o Pontífice, "em tudo isto há um convite, também para nós, a renovar na fé a força do nosso testemunho. São João Crisóstomo, grande Pastor desta Igreja, falava do encanto da santidade como um sinal mais eloquente do que muitos milagres".

O Papa Leão convidou a cultivar "a nossa fé com a oração e os Sacramentos", a vivê-la "coerentemente na caridade", a rejeitar, como disse São Paulo, "as obras das trevas e vestir as armas da luz". "O Senhor, a quem esperamos em sua vinda gloriosa no fim dos tempos, vem todos os dias bater à nossa porta. Estejamos prontos com o compromisso sincero de uma vida boa, como nos ensinam os numerosos modelos de santidade de que é rica a história desta terra", sublinhou.

Comuns esforços pela unidade

"A segunda imagem que nos vem do profeta Isaías é a de um mundo onde reina a paz", disse o Papa, tão necessária nos tempos atuais. "Quanta necessidade de paz, unidade e reconciliação existe à nossa volta, dentro de nós e entre nós! Como podemos contribuir para corresponder a esta exigência?" Perguntou o Papa Leão.

Para uma melhor compreensão, o Santo Padre recorreu "ao símbolo desta viagem, em que um dos elementos escolhidos é o da ponte, que também nos faz pensar no famoso e grande viaduto que, nesta cidade, atravessa o Estreito de Bósforo e une dois continentes: a Ásia e a Europa". "A ele, com o passar do tempo, somaram-se outras duas passagens, de modo que atualmente existem três pontos de ligação entre as duas margens. Três grandes estruturas de comunicação, de intercâmbio, de encontro: imponentes à vista, mas tão pequenas e frágeis quando comparadas aos imensos territórios que conectam", disse Leão XIV, acrescentando:

“A sua tríplice extensão através do Estreito faz-nos pensar na importância dos nossos comuns esforços pela unidade em três níveis: dentro da comunidade, nas relações ecumênicas com os membros de outras Confissões cristãs e no encontro com os irmãos e irmãs pertencentes a outras religiões. Cuidar destas três pontes, reforçando-as e ampliando-as de todas as formas possíveis, faz parte da nossa vocação de ser uma cidade construída sobre o monte.”

Dar a todos uma forte mensagem de esperança

O Papa recordou que "dentro desta Igreja existem quatro tradições litúrgicas diferentes – latina, armênia, caldeia e siríaca –, cada uma delas dotada de uma própria riqueza a nível espiritual, histórico e eclesial". Segundo o Pontífice, a partilha das "diferenças pode mostrar de forma excelente uma das características mais belas do rosto da Esposa de Cristo: a da catolicidade que une. A unidade que se consolida em torno do Altar é um dom de Deus e, como tal, é forte e invencível, porque é obra da sua graça. Ao mesmo tempo, porém, a sua realização na história é confiada aos nossos esforços". "Empenhemo-nos, portanto, em favorecer e fortalecer os laços que nos unem, para enriquecermo-nos mutuamente e sermos, diante do mundo, um sinal crível do amor universal e infinito do Senhor", frisou Leão XIV.

"Um segundo vínculo de comunhão que esta liturgia nos sugere é o ecumênico, comprovado pela presença dos Representantes de outras Confissões, a quem saúdo com vivo reconhecimento. Com efeito, a mesma fé no Salvador une-nos não só entre nós, mas também com todos os irmãos e irmãs pertencentes a outras Igrejas cristãs", disse o Papa. Recordando as palavras de João XXIII que «se realize o grande mistério daquela unidade, que Jesus Cristo pediu com oração ardente ao Pai celeste, pouco antes do seu sacrifício», Leão XIV convidou a renovar "hoje o nosso “sim” à unidade, «para que todos sejam um só»".

"Um terceiro vínculo ao qual a Palavra de Deus nos remete é aquele com os membros de comunidades não cristãs. Vivemos num mundo em que, com demasiada frequência, a religião é usada para justificar guerras e atrocidades", disse ainda o Papa Leão.

“Por isso, queremos caminhar juntos, valorizando o que nos une, derrubando os muros do preconceito e da desconfiança, promovendo o conhecimento e a estima recíproca, para dar a todos uma forte mensagem de esperança e um convite a tornarem-se “operadores de paz”.”

O Santo Padre concluiu, convidando a fazer desses "valores os nossos propósitos para o tempo do Advento e, mais ainda, para a nossa vida, tanto pessoal quanto comunitária".

Mariangela Jaguraba - Vatican News

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                                                             Fonte: vaticannews.va   Fotos: (@Vatican Media

sexta-feira, 28 de novembro de 2025

1º Domingo do Advento:

Leituras e reflexão
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1ª Leitura: Is 2,1-5

Leitura do Segundo Livro do Profeta Isaías

Visão de Isaías, filho de Amós, sobre Judá e Jerusalém.

Acontecerá, nos últimos tempos, que o monte da casa do Senhor estará firmemente estabelecido no ponto mais alto das montanhas e dominará as colinas. A ele acorrerão todas as nações, para lá irão numerosos povos e dirão: “Vamos subir ao monte do Senhor, à casa do Deus de Jacó, para que ele nos mostre seus caminhos e nos ensine a cumprir seus preceitos”; porque de Sião provém a lei e de Jerusalém, a palavra do Senhor.

Ele há de julgar as nações e arguir numerosos povos; estes transformarão suas espadas em arados e suas lanças em foices; não pegarão em armas uns contra os outros e não mais travarão combate. Vinde, todos da casa de Jacó, e deixemo-nos guiar pela luz do Senhor.

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Responsório: Sl 121

— Que alegria, quando me disseram:/ “Vamos à casa do Senhor!”

— Que alegria, quando me disseram:/ “Vamos à casa do Senhor!”

— Que alegria, quando ouvi que me disseram:/ “Vamos à casa do Senhor!”/ E agora nossos pés já se detêm,/ Jerusalém, em tuas portas.

— Para lá sobem as tribos de Israel,/ as tribos do Senhor./ Para louvar, segundo a lei de Israel,/ o nome do Senhor./ A sede da justiça lá está/ e o trono de Davi.

— Rogai que viva em paz Jerusalém,/ e em segurança os que te amam!/ Que a paz habite dentro de teus muros,/ tranquilidade em teus palácios!

— Por amor a meus irmãos e meus amigos,/ peço: “A paz esteja em ti!”/ Pelo amor que tenho à casa do Senhor,/ eu te desejo todo bem!

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2ª Leitura: Rm 13,11-14a

Leitura da Carta de São Paulo aos Romanos

Irmãos: Vós sabeis em que tempo estamos, pois já é hora de despertar. Com efeito, agora a salvação está mais perto de nós do que quando abraçamos a fé.

A noite já vai adiantada, o dia vem chegando; despojemo-nos das ações das trevas e vistamos as armas da luz.

Procedamos honestamente, como em pleno dia; nada de glutonerias e bebedeiras, nem de orgias sexuais e imoralidades, nem de brigas e rivalidades. Pelo contrário, revesti-vos do Senhor Jesus Cristo.

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Evangelho: Mt 24,37-44

Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo São Mateus

A vinda do Filho do Homem será como no tempo de Noé. Porque, nos dias antes do dilúvio todos comiam e bebiam, casavam-se e davam-se em casamento, até o dia em que Noé entrou na arca. E eles nada perceberam, até que veio o dilúvio, e arrastou a todos. Assim acontecerá também na vinda do Filho do Homem.  Dois homens estarão trabalhando no campo: um será levado, e o outro será deixado. Duas mulheres estarão moendo no moinho: uma será levada, a outra será deixada. Portanto, fiquem vigiando! Porque vocês não sabem em que dia virá o Senhor de vocês. Compreendam bem isto: se o dono da casa soubesse a que horas viria o ladrão, certamente ficaria vigiando, e não deixaria que a sua casa fosse arrombada. Por isso, também vocês estejam preparados. Porque o Filho do Homem virá na hora em que vocês menos esperarem.

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Reflexão do padre Johan Konings

A vinda de Cristo

Estamos iniciando um novo ano litúrgico, o ano A (do ciclo trienal da liturgia dominical), no qual os evangelhos, via de regra, são tomados de Mateus. As quatro primeiras semanas do ano litúrgico chamam-se Advento, termo que significa ‘vinda’: a vinda de Cristo. Todavia, não se trata da lembrança apagada de um fato ocorrido há dois mil anos atrás. Avinda de Cristo tem atualidade ainda hoje.

A 1ª leitura recua longe para olhar melhor: descreve a visão “utópica” de Isaías, por volta de 700 a.C: todos os povos se unirão em tomo do templo de Jerusalém. As armas serão transformadas em instrumentos agrícolas. Haverá paz…

Setecentos anos depois, a primeira vinda de Cristo marcou o irreversível início da realização desse “projeto” de Deus. Sua nova vinda, no fim dos tempos, marcará o ponto final. O evangelho fixa nossa atenção nesta nova vinda. Não podemos viver dormindo. Devemos viver em estado desperto, à luz do dia de Cristo, para que ele sempre nos possa encontrar dispostos para a vinda de incansável caridade que ele nos ensinou (2ª leitura).

Jesus veio inaugurar o projeto definitivo de Deus para o mundo. Ele será também o juiz da História na sua vinda final. Esse projeto de Deus, que Jesus veio inaugurar e que ele julgará, é comunitário. É a constituição de um povo de Deus, formado por todas as nações, dispostos a praticar a justiça e a caridade fraterna. Para que isso se realize, deve acontecer uma transformação histórica. Nós devemos dar os necessários passos históricos, para que o plano de Deus chegue até nós: preparar, pela transformação de nossos corações e de nossa sociedade, a plenitude que vem de Deus. Nossa participação no projeto de Deus consiste em tornar nossa sociedade “digna” de uma nova vinda de Cristo. Nisto se inserem, além de nosso empenho pessoal, os passos da comunidade para maior solidariedade: mutirões, cooperativismo etc.

O Cristo vem também, cada dia, na vida de cada um. Que ele nos encontre comprometidos com a construção da História como ele a “sonhou” e com os critérios que ele usará para julgar: o amor aos mais pequenos dos irmãos, sustentado pela oração, na qual expomos nossa vida diante dele. Atentos às coisas do Senhor, teremos paz profunda e seremos capazes de dedicação total na alegria, no trabalho e na luta.

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PE. JOHAN KONINGS nasceu na Bélgica em 1941, onde se tornou Doutor em Teologia pela Universidade Católica de Lovaina, ligado ao Colégio para a América Latina (Fidei Donum). Veio ao Brasil, como sacerdote diocesano, em 1972. Em 1985 entrou na Companhia de Jesus (Jesuítas) e, desde 1986, atuou como professor de exegese bíblica na FAJE, Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, em Belo Horizonte. Faleceu no dia 21 de maio de 2022. Este comentário é do livro “Liturgia Dominical, Editora Vozes.

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Papa nesta manhã em Istambul:

“A lógica da pequenez é a verdadeira força da Igreja”

Durante o encontro com bispos, sacerdotes, religiosos e agentes pastorais em Istambul, na manhã desta sexta-feira (28/11), Leão XIV recorda as profundas raízes cristãs da região e encoraja a pequena comunidade católica do país a cultivar esperança, serviço e renovada missão.

No início do segundo dia de sua Viagem Apostólica à Türkiye (Turquia), o Papa Leão XIV reuniu-se, nesta sexta-feira, 28 de novembro, com bispos, sacerdotes, diáconos, consagrados e agentes pastorais na Catedral do Espírito Santo, em Istambul. Participaram do encontro cerca de 800 pessoas, entre fiéis reunidos dentro e fora da igreja.

“Agradeço ao Senhor que me permite, na minha primeira Viagem Apostólica, visitar esta ‘terra santa’ que é a Turquia, onde a história do povo de Israel se encontra com o cristianismo nascente, o Antigo e o Novo Testamento se abraçam, e se escrevem as páginas de numerosos Concílios.”

Após ser acolhido com muita alegria pelos fiéis, o Pontífice, em seu discurso, evocou a densidade histórica da fé neste território, lembrando que aqui “o povo de Israel se encontra com o cristianismo nascente” e que, desde Abraão até os Apóstolos, esta terra viu surgir algumas das páginas mais decisivas da história da salvação. A memória desses acontecimentos, porém, não deve ser mero orgulho arqueológico — exortou o Papa — mas inspiração viva para o presente.


A força que nasce do pequeno

Ao falar da identidade e da missão da Igreja no país, o Papa destacou um critério evangélico que define o verdadeiro modo de Deus agir ao longo da história:

“A lógica da pequenez é a verdadeira força da Igreja. Efetivamente, esta não reside nos seus recursos e nas suas estruturas, nem os frutos da missão da Igreja derivam do consenso numérico, poder econômico ou relevância social. Em vez disso, ela vive da luz do Cordeiro […] e é novamente chamada a sempre confiar na promessa do Senhor: ‘Não temais, pequenino rebanho, porque aprouve ao vosso Pai dar-vos o Reino’.”

Leão XIV reconheceu que a comunidade católica na Turquia é numericamente pequena, mas insistiu que ela permanece “fecunda como semente e fermento do Reino”. Por isso, convidou todos a testemunhar o Evangelho com “alegria e esperança confiante”, observando que já hoje surgem sinais promissores, como o crescente número de jovens que procuram a Igreja com perguntas e inquietações espirituais.

Prioridades pastorais

O Santo Padre indicou âmbitos fundamentais para a missão da Igreja na Turquia: o diálogo ecumênico e inter-religioso, a transmissão da fé à população local e o serviço pastoral aos refugiados e migrantes. Ao mesmo tempo, encorajou a perseverança no trabalho catequético, especialmente no acompanhamento dos muitos jovens que procuram a Igreja com perguntas e inquietações, sinal promissor que exige escuta e criatividade missionária.

Sobre a pastoral relacionada aos migrantes e refugiados, o Papa destacou que a presença muito significativa de pessoas deslocadas no país interpela diretamente a comunidade católica, chamada “a acolher e servir aqueles que estão entre os mais vulneráveis”. Recordou ainda que muitos agentes pastorais vêm de outras nações, o que torna essencial o esforço “especial e decidido de inculturação”, para que a fé seja comunicada de modo enraizado na língua, nos costumes e na sensibilidade do povo turco. Essa inculturação, afirmou, é condição para um anúncio verdadeiramente fecundo do Evangelho.

Niceia e os desafios teológicos de hoje

Por ocasião dos 1700 anos do Primeiro Concílio de Niceia, celebrado em território turco, o Papa apontou três desafios atuais para a Igreja universal. O primeiro é a necessidade de redescobrir a essência da fé cristã em torno do Credo, “bússola” que orienta discernimentos e preserva a unidade. O segundo, combater o que chamou de um “novo arianismo”, quando Jesus é admirado apenas como figura histórica, mas não reconhecido plenamente como Filho de Deus:

“Niceia lembra-nos: Cristo Jesus não é uma figura do passado, é o Filho de Deus que está no meio de nós, que guia a história para o futuro que Deus nos prometeu.”

O terceiro desafio diz respeito ao desenvolvimento da doutrina, que — explicou — cresce como um organismo vivo, mantendo a verdade essencial da fé ao mesmo tempo em que aprofunda sua forma de expressão.

Intercessão de Maria Santíssima, Theotokos

Antes de encerrar, o Papa recordou a figura querida de São João XXIII, que serviu na Turquia e demonstrou profundo afeto pelo país e seu povo. Inspirado por esse exemplo, o Papa exortou a Igreja local a manter viva a alegria:

“Desejo que sejam animados por esta paixão, que conservem a alegria da fé, que trabalhem como pescadores intrépidos no barco do Senhor. Que Maria Santíssima, a Theotokos, interceda por vocês e os proteja”, concluiu Leão XIV.

Assista:

Thulio Fonseca - Vatican News

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Leão XIV:
somos convidados a superar
o escândalo das divisões e a buscar a unidade

“A reconciliação é hoje um apelo que vem da inteira humanidade afligida por conflitos e violência. O desejo de plena comunhão entre todos os que creem em Jesus Cristo é sempre acompanhado pela busca da fraternidade entre todos os seres humanos”, disse o Santo Padre no Encontro ecumênico de oração em Iznik - antiga Niceia -, ponto alto desta visita do Santo Padre à Turquia, por ocasião dos 1.700 anos do Primeiro Concílio de Niceia.

Na tarde desta sexta-feira, 28 de novembro, segundo dia da visita do Papa à Turquia (Türkiye), o Santo Padre deslocou-se de Istambul para Iznik - antiga Niceia -, situada a 130km de Istambul, para o Encontro ecumênico de oração, ponto alto da primeira etapa desta Viagem Apostólica Internacional de Leão XIV, por ocasião dos 1.700 anos do Primeiro Concílio de Niceia. Na cidade onde convergem história e fé, nas proximidades das escavações arqueológicas da antiga Basílica de São Neófito, o Bispo de Roma encontrou-se com o patriarca ecumênico Bartolomeu I, metropolitas e vários líderes religiosos, Chefes das Igrejas e Representantes das Comunhões Cristãs mundiais para um momento ecumênico de oração e recitaram juntos o Credo Niceno-Constantinopolitano.

No discurso que dirigiu aos presentes no local onde foi celebrado o Concílio que proclamou a divindade de Cristo, Leão XIV foi direto ao ponto, evidenciando o que estava em jogo em Niceia e está em jogo hoje: a fé no Deus que, em Jesus Cristo, se fez como nós para nos tornar “participantes da natureza divina”.

Superar o escândalo das divisões

Esta confissão de fé cristológica é de fundamental importância no caminho que os cristãos estão percorrendo rumo à plena comunhão: ela é partilhada, efetivamente, por todas as Igrejas e Comunidades cristãs no mundo, inclusive aquelas que, por várias razões, não utilizam o Credo Niceno-Constantinopolitano nas suas liturgias.

Com efeito, prosseguiu o Santo Padre, a fé “em um só Senhor, Jesus Cristo, Filho unigênito de Deus, nascido do Pai antes de todos os séculos […] consubstancial ao Pai” (Credo Niceno) é um vínculo profundo que já une todos os cristãos. Nesse sentido, para citar Santo Agostinho, também no âmbito ecumênico, acrescentou, podemos dizer que “embora nós, cristãos, sejamos muitos, no único Cristo somos um”. Partindo da consciência de que já nos encontramos unidos por este vínculo profundo – através de um caminho de adesão cada vez mais total à Palavra de Deus revelada em Jesus Cristo e sob a direção do Espírito Santo, no amor recíproco e no diálogo – somos todos convidados a superar o escândalo das divisões infelizmente ainda existentes e a alimentar o anseio em busca da unidade, pela qual o Senhor Jesus orou e deu a sua vida.

A reconciliação, um apelo que vem da inteira humanidade

“Quanto mais nós cristãos estivermos reconciliados - ressaltou o Pontífice -, tanto mais poderemos dar um testemunho crível do Evangelho de Jesus Cristo, que é anúncio de esperança para todos, mensagem de paz e de fraternidade universal que ultrapassa as fronteiras das nossas comunidades e nações”.

A reconciliação é hoje um apelo que vem da inteira humanidade afligida por conflitos e violência. O desejo de plena comunhão entre todos os que creem em Jesus Cristo é sempre acompanhado pela busca da fraternidade entre todos os seres humanos. No Credo Niceno professamos a nossa fé “em um só Deus, Pai todo-poderoso”; no entanto, não seria possível invocar Deus como Pai se recusássemos reconhecer os outros homens e mulheres como irmãos e irmãs, também eles criados à imagem de Deus.

Rejeitar uso da religião para justificar a guerra e a violência

Leão XIV prosseguiu afirmando que existe uma fraternidade e sororidade universal, que não depende da etnia, nacionalidade, religião ou opinião. Por sua natureza, as religiões são depositárias desta verdade e deveriam encorajar as pessoas, os grupos humanos e os povos a reconhecê-la e a praticá-la.

“O uso da religião para justificar a guerra e a violência, assim como qualquer forma de fundamentalismo e fanatismo, deve ser rejeitado com veemência, enquanto os caminhos a seguir são os do encontro fraterno, do diálogo e da colaboração.”

Por fim, o Papa disse estar profundamente grato ao patriarca Bartolomeu, que, com grande sabedoria e visão, decidiu comemorar conjuntamente o 1.700º aniversário do Concílio de Niceia precisamente no local onde foi celebrado; e agradeceu calorosamente aos Chefes das Igrejas e aos Representantes das Comunhões Cristãs mundiais que aceitaram o convite para participar neste evento. “Que Deus Pai, todo-poderoso e misericordioso, ouça a fervorosa oração que hoje lhe dirigimos e conceda que este importante aniversário traga frutos abundantes de reconciliação, unidade e paz”, concluiu.

Raimundo de Lima – Vatican News

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                                              Fonte: vaticannews.va   Fotos e vídeos: (@Vatican Media