A importância da espiritualidade que una fé e vida
A espiritualidade é dom de Deus e é também
responsabilidade humana. É uma vida de comunhão com Deus tendo em vista o
serviço e o amor às pessoas, sobretudo as mais necessitadas. A
espiritualidade contribui para a unidade de fé, da vida e
também alude-nos à vivência dos sacramentos da iniciação à vida
cristã na família, na comunidade e na sociedade.
O exemplo de uma verdadeira espiritualidade
dá-se em Jesus, pois Ele nos revela o
Pai, concede-nos o amor do Espírito Santo. Como nos falam os
evangelhos, retirava-se Ele freqüentemente na montanha para
rezar, para louvar a Deus (cfr. Mc 6,
46; Lc 5,15-16). Ele testemunhou a
importância da oração para com todos nós seguirmos uma vida
de espiritualidade, com a oração cotidiana tendo como foco
o engajamento familiar, comunitário e social. Nós somos chamados a ter uma
espiritualidade para pensar, para rezar, refletir bem as coisas, as
atividades, e agirmos bem em função do engrandecimento do Reino de
Deus. Veremos a seguir como estes pontos foram desenvolvidos em
Jesus, o Verbo de Deus Encarnado e nos santos padres, os primeiros
escritores cristãos.
A forma da oração de Jesus
Desde criança, adolescente, Jesus praticava
habitualmente a oração pessoal e comunitária junto ao seu povo, o de
Israel. Ele subiu ao templo com Maria e José para celebrar as festas
prescritas (cfr. Lc 2,41-42). Ele freqüentava as
sinagogas em dia de sábado com os seus discípulos, onde
normalmente havia a reunião do povo de Deus concluindo-se com a
oração (cfr. Lc 4, 15-17). Ainda que Ele relativizou o
templo, porque Jesus era o Templo verdadeiro, mas quando entrou no
mesmo, em Jerusalém, desejou que aquele lugar fosse segundo a
Escritura, uma casa de oração de modo que Ele mandou embora os vendedores
de animais e de aves (cfr. Jo 2,14-17). Ele ensinou a melhor das
orações, que é o Pai-Nosso na qual nós somos chamados a recitá-la todos os
dias de nossas vidas (cfr. Mt 6,9-13). De fato o
Senhor Jesus era ciente da importância da oração para agir conforme a vontade
de Deus (cfr. Lc 18,1-8).
A oração na vida dos santos padres
Seguindo Jesus e a Igreja, foram os santos padres
pessoas de oração e de ação. Eles buscavam o testemunho de vida ligado ao
Evangelho do Senhor. A Didaqué, documento referente à Doutrina dos
Apóstolos, século I afirmou a necessidade de rezar como o Senhor ordenou no
Evangelho, o Pai-Nosso, recomendando aos fiéis de rezá-lo três vezes ao
dia. O documento tinha presente também a oração sobre o cálice com vinho e
o pão partido pela eucaristia. Tudo deveria estar em comunhão com o Senhor
e a comunidade eclesial.A Igreja foi criando uma
espiritualidade em unidade com o Senhor e com as pessoas
que freqüentavam a comunidade eclesial.
A oração e o bem comum
A Carta de Barnabé, escrito no final do século I e
início do século II ilustrou a importância da oração ligada ao bem comum,
ao amor para com Deus, ao próximo e a si mesmo. O autor afirmou
que não leva ao nada as pessoas consideraram-se inteligentes e sábias
diante de si mesmas e das outras, se não tiver uma vida de oração. A
pessoa torna-se espiritual, um templo perfeito para Deus quando ela se aplica
ao temor de Deus, buscando o cumprimento dos mandamentos da Lei de Deus,
para que a pessoa não viva na tristeza, mas sim na alegria e no
amor.
A oração e a penitência
O Pastor de Hermas, escrito no século II
disse à sua comunidade que a oração deve levar à uma conversão de
vida, feita muitas vezes por penitências. Os mandamentos da Lei do Senhor são
úteis para os que fazem penitência. As pessoas que assumirem a graça
da penitência são convidadas a rejeitar os males como o egoísmo, a
vaidade, a injustiça, para não cair na aniquilação, na condenação. Ele
convidava os fiéis a revestir-se de toda a virtude de justiça, de
amor para observar os preceitos do Senhor. Se de fato as pessoas caminharem
conforme os mandamentos da Lei divina terão a vida em
Deus.
A espiritualidade na vida eclesial
Santo Inácio de Antioquia, bispo e mártir,
século I e início do século II afirmou que a espiritualidade se desenvolve
na vida eclesial, na assembléia, lugar privilegiado da oração, feita
na eucaristia, na obediência e na unidade com o bispo. Ele colocava a
precisão para todos os fieis caminharem com o pensamento de
Deus. O fato é que Jesus Cristo é o pensamento do Pai, a sua
imagem (cfr. Jo 14,9) da mesma forma os bispos que foram estabelecidos
até os confins da terra, estão no pensamento de Jesus Cristo.
O revestimento de Cristo
Santo Inácio também reforçava
a idéia que a vida espiritual é dada com muita oração
consistindo no revestimento de Jesus Cristo, na sua vida de Encarnação,
pela sua humanidade com todas as pessoas, e também na sua paixão,
morte para participar da sua ressurreição. O bispo desejava ser cristão
de fato, não somente nas palavras, como seguidor de Jesus Cristo e de sua
comunidade. Prestes ao martírio, Ele também dizia ser o
trigo de Deus para ser moído pelos dentes das feras, para que se
apresentasse como trigo puro de Cristo.
A espiritualidade em Jesus Cristo: “Beber do
cálice”
A oração de São Policarpo de Esmirna, bispo e
mártir, século II antes de seu martírio colocou a espiritualidade de Jesus
Cristo que foi aquela do “Beber do cálice”(cfr. Mt 20,22) que
Jesus indagou os filhos de Zebedeu. O autor do martírio de São
Policarpo realçou a unidade do Bispo que seria mártir em
unidade com o Senhor Jesus. Ele erguendo os olhos ao céu louvava a
Deus Uno e Trino por viver aquele momento na sua presença. Ele bendizia a Deus
Pai por tê-lo julgado digno daquele dia e daquela hora, por tomar parte entre
os mártires, e de beber do cálice do Cristo, em vista da ressurreição da vida
eterna da alma e do corpo, na incorruptibilidade do Espírito
Santo.
A espiritualidade une a fé, na presença do Senhor e
a vida em vista de atuar bem conforme a Vontade de Deus. Ela nos
encoraja para a vida comunitária e social porque a fé manifestada com Deus
possibilita a fraternidade, o amor a Deus, ao próximo como a si
mesmo. Jesus Cristo é o exemplo de uma espiritualidade encarnada, vivida
até dar a sua própria vida por cada um de nós e pela humanidade. Os padres
da Igreja como, cada um de nós busquemos este caminho de paz e de
amor.
Dom Vital Corbellini - Bispo de Marabá (PA)
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