Férias: quando o tempo livre ensina a viver
Há períodos do
ano que chegam como um suspiro. Depois de meses marcados pela urgência, pelos
prazos e pelas responsabilidades que se acumulam, as férias surgem como aquele
espaço imprevisto de respiro onde, enfim, é possível desacelerar. Mais do que
descanso, as férias são um tempo simbólico, um convite silencioso a reaprender
o ritmo da vida.
Na perspectiva
cristã, o tempo nunca é neutro. Ele é sempre lugar de encontro – encontro
consigo, com os outros e com Deus. Por isso, as férias não são uma pausa vazia,
mas uma possibilidade preciosa: a oportunidade de habitar o tempo de outro
modo, sem as pressões que normalmente o comprimem. Quando o relógio perde sua
tirania cotidiana, descobrimos que viver pode ser mais do que apenas cumprir
agendas: pode ser saborear, ouvir, olhar, ser.
A missão não se
sustenta sem descanso
Aprender a viver
é uma arte que exige pausa. O próprio evangelho mostra Jesus conduzindo seus
discípulos para um lugar à parte, longe do barulho das cidades, para que
pudessem repousar o corpo e aquietar a alma. Ele sabia que a missão não se
sustenta sem o descanso; que a vida se desumaniza quando não encontra espaços
de silêncio; que o coração precisa respirar para continuar amando.
As férias
carregam, portanto, uma dimensão espiritual. São um tempo que lembra ao ser
humano sua própria fragilidade: ninguém consegue viver em permanente tensão. A
pausa é necessária não apenas para recuperar forças, mas para reorientar
sentidos, reorganizar prioridades e reencontrar aquilo que, no meio da
correria, vai se escondendo — a alegria das pequenas coisas, a força dos
vínculos, o valor do simples.
Mas as férias
também podem transformar-se em ilusão se forem vividas apenas como fuga ou
consumo. O descanso verdadeiro não se mede por quilômetros percorridos ou
fotografias acumuladas, mas por aquilo que ele produz por dentro: serenidade,
leveza, abertura, reconciliação. Tempo livre, sim — mas livre para o essencial.
Livres para rir, conversar, contemplar. Livres para deixar que a vida,
tantas vezes sufocada, volte a respirar em nós.
Os ensinamentos
das férias
É por isso que
as férias se tornam ocasião privilegiada para aprender a viver. Porque, ao
retirar o peso das ocupações, elas nos devolvem a chance de prestar atenção ao
que importa. Permitem reencontrar quem somos sem os rótulos do trabalho, sem as
exigências da produtividade, sem a ansiedade das rotinas. Permitem descobrir o
outro — familiares, amigos, desconhecidos — com olhar renovado. E permitem,
sobretudo, encontrar Deus no inesperado: na paisagem, no silêncio, na refeição
partilhada, no descanso merecido.
Na tradição
bíblica, Deus é apresentado como Senhor do tempo. Ele é Aquele que
conduz ciclos, abre caminhos e sustenta a vida em seus altos e baixos. As
férias, nesse horizonte, não são um luxo ocasional, mas um direito e uma
tarefa: a tarefa de permitir que Deus nos ensine, outra vez, a arte de viver
bem. Porque só quem descansa pode servir; só quem se recolhe pode se doar; só
quem se encontra pode, de fato, encontrar os outros.
Ao final, talvez
seja esse o grande ensinamento das férias: lembrar que o ser humano não é
apenas força, movimento, rendimento — mas também fragilidade, contemplação e
descanso. Lembrar que viver não é apenas fazer, mas sentir. Não é apenas
correr, mas permanecer. Não é apenas avançar, mas saborear o tempo que se
recebe.
E
quando, no encerramento das férias, cada pessoa retornará ao seu
cotidiano, levará consigo algo desse aprendizado. Talvez um pouco mais de
paciência. Talvez mais silêncio e menos urgência. Talvez um olhar mais atento
para o outro. Talvez a consciência de que o tempo — todo ele — é dom.
Dom Leomar Brustolin - Arcebispo de Santa Maria (RS)
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