quarta-feira, 15 de novembro de 2017

CNBB prepara atualização das

diretrizes para formação de presbíteros

A Igreja no Brasil contará em breve com novas Diretrizes para Formação de Presbíteros. Um grupo formado por bispos e peritos esteve reunido na sede da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), nos dias 13 e 14 de novembro, para conclusão do texto que será enviado aos bispos de todo o Brasil, afim de receber contribuições. O próximo documento acolherá indicações do texto divulgado pela Congregação para o Clero sobre formação de seminaristas, além do magistério do papa Francisco.
Documento 93 da CNBB e texto sobre formação presbiteral, divulgado em 2016 pela Congregação para o Clero
O arcebispo de Porto Alegre (RS) e presidente da Comissão Episcopal Pastoral para os Ministérios Ordenados e a Vida Consagrada da CNBB, dom Jaime Spengler, é um dos responsáveis pela elaboração do texto: “Estamos tentando levar em consideração primeiro a Ratio Fundamentalis. Além disso, nos foi pedido que levasse em consideração o magistério do papa Francisco”, explica.
Dom Jaime Spengler
A Ratio Fundamentalis Instituitionis Sacerdotalis é um documento elaborado pela Congregação para o Clero do Vaticano que dá pistas para a formação de seminaristas e do clero da Igreja. Publicado no dia 8 de dezembro de 2016, atualiza as orientações de 1985 e explicita às Igrejas locais como realizar a formação dos futuros presbíteros e a necessidade de formação permanente. O texto destaca que o futuro padre deve ser acompanhado na totalidade das quatro dimensões que interagem simultaneamente no processo formativo e na vida dos ministros ordenados: humana, espiritual, intelectual e pastoral.
As atuais Diretrizes para a Formação Presbiteral foram aprovadas na 48ª Assembleia Geral da CNBB, em 2010, e já visavam enriquecer a formação espiritual, humana, intelectual e pastoral dos futuros sacerdotes “com novos impulsos vitais, consoantes com a índole peculiar de nosso tempo”.
“Sempre está presente esse desejo de construir indicações para que os presbíteros possam ser essa presença no mundo de hoje, capaz de promover a obra da evangelização em vista de uma Igreja em saída, indo ao encontro das tantas periferias existenciais que marcam a nossa realidade. Para isso, precisamos de homens vigorosos no Espírito”. – dom Jaime Spengler
Quatro características
Dom Jaime Spengler ainda cita, a partir da Ratio Fundamentalis, quatro características que precisam de destaque: “a formação deve ser única, integral, comunitária e missionária”.
Pe. Vitor Galdino Feller e D. Jaime elaboram trechos do novo documento.
Na mesma sala, também estava o padre Deusmar da Silva
“Quando falamos de uma formação única devemos recordar uma realidade muito presente em muitos de nossos seminários, ou seja, as formações paralelas, que, sem dúvida não ajudam esses homens no caminho de preparação em vista do ministério ordenado”, pontua o arcebispo. Sobre ser uma formação integral, indica que o processo formativo deve levar em consideração todos os aspectos que constituem a estrutura humana.
A característica comunitária diz respeito à realidade de os presbíteros fazem parte de um corpo maior, a comunidade dos presbíteros, também chamada de presbitério, da diocese a qual o seminarista será incardinado. “Isso é muito importante também: na medida em que você é integrado a um presbitério, não podemos esquecer que começa a fazer parte de uma família presbiteral e é corresponsável pela vida dessa família presbiteral. Nenhum padre é uma ilha no contexto de um presbitério. Ele faz parte de um corpo maior e é corresponsável por este corpo”, chama atenção.
No sentido de ser missionária, a formação deve suscitar nos futuros padres a disponibilidade, a abertura para as necessidades da Igreja onde for solicitado. “Em outras palavras, pronto para o que der e vier, com generosidade e alegria. Talvez pudéssemos até resumir estas características dizendo de homens verdadeiramente apaixonados pelo Evangelho do crucificado ressuscitado, homens entusiasmados pela proposta do Reino e por isso capazes de se lançar generosamente no trabalho apostólico”, afirma.
Coração do Bom Pastor
Perguntado se há uma indicação ou perfil esperado dos futuros padres do Brasil, o bispo auxiliar de São Paulo (SP) dom José Roberto Fortes Palau afirmou que a CNBB procura acolher as indicações da Igreja no âmbito mundial na formação brasileira.
Comissão realiza trabalhos em grupos.
Da esquerda para a direita, D. José Roberto Palau,
D. Pedro Brito Guimarães, Pe. José Carlos e D. Esmeraldo B. de Farias
Dom José também explicou que os futuros padres devem ter um “coração semelhante ao coração de Cristo, o Coração do Bom Pastor, que sejam homens misericordiosos, que tenham espírito de serviço, se dedicam com todo seu ser a serviço da evangelização, tenham amor pelo povo, forme comunidades maduras e adultas na fé, que colabore com a graça de Deus para o advento do reino”.
Outra característica é que os padres sejam movidos unicamente pela caridade pastoral, que para dom Roberto é o fio condutor de toda a espiritualidade presbiteral. “O seminário tem essa missão de configurando o coração do jovem seminarista para que tenha o coração semelhante ao de Cristo Bom Pastor”.
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Dom Leonardo Steiner:
“República não é algo pronto,
exige a participação e cuidado dos cidadãos em cada época”

Nesta quarta-feira, 15 de novembro, celebra-se os 128 anos de proclamação da República. O secretário-geral da CNBB, dom Leonardo Steiner, concedeu entrevista à equipe de assessoria de imprensa sobre o significado da data.
A República Brasileira foi proclamada como resultado de um levante político-militar que deu ao Brasil a forma republicana federativa presidencialista do governo no Brasil, derrubando a monarquia constitucional parlamentarista do Império do Brasil e, por causa disso, colocou um final no comando político do imperador D. Pedro II.
Confira entrevista:
Assessoria de Imprensa: Celebra-se o dia da Proclamação da República em meio a uma grave crise geral no Brasil. Na opinião do senhor, em que pé está a prática republicana no Brasil?
Dom Leonardo: Nossa compreensão sobre a República é tirada do mundo dos gregos antigos e tem significado muito simples e acessível a qualquer pessoa que queira fazer uma séria reflexão sobre a vida pública no Brasil: é republicano tudo o que favorece o bem comum e não a interesses de grupos ou de pessoas. A palavra republica diz: res-publica, a coisa pública, o que é da responsabilidade de todos, o que está a serviço de todos. Percebemos que valores do público, do comum como a ética, foram deixados de lado. Os antigos diziam que governar é a maior de todas as artes. Maior porque está no cuidado de todos e de tudo e não de grupos ou do mercado. Nesse sentido temos uma responsabilidade com a res-publica. Percebemos como a crise é do descuidado para com a República.
Dom Leonardo Steiner
Nesse sentido podemos lembrar o Beato Paulo VI, que na Encíclica Populorum Progressio, publicada há cinquenta anos, recordava o propósito inspirador de formas de governo: “Trata-se de construir um mundo em que todos os homens, sem exceção de raça, religião ou nacionalidade, possam viver uma vida plenamente humana, livre de servidões que lhe vêm dos homens e de uma natureza mal domada; um mundo em que a liberdade não seja uma palavra vã”. A prática republicana, se quisermos nos expressar assim, necessita dessas características fundamentais para permanentemente dinamizar e maturar a República. República não é algo pronto, exige a participação e cuidado dos cidadãos em cada época. Teríamos, então a República como como expressão viva das pessoas livres que são ouvidas, representadas e respeitadas, isto é, democraticamente ativas.
Assessoria de Imprensa: Em comentários de domínio público entre personagens da política que passaram por situações suspeitas existe a presença da expressão de que a conversa entre eles foi “republicana”. Para o senhor, o que é um diálogo republicano?
Dom Leonardo: É republicano um diálogo que respeite, com rigor, os princípios da honestidade, da ética pública e da fidelidade aos interesses da sociedade. Um diálogo profundamente marcado pela integridade pessoal e pela disposição em buscar soluções para os problemas postos na lida correta da política. Não é republicana nenhuma conversa que trate de vantagens pessoais ou para grupos familiares ou partidários em relação ao trato do dinheiro do contribuinte, ou seja, o que costumam chamar de recurso público. Quando o diálogo republicano dá lugar aos acordos para garantir interesses que não sejam aqueles defendidos pelo conjunto da população, estabelece-se a corrupção seja ela econômica ou moral. Quando pessoas ou grupos se permitem o direito de intervir em instâncias do poder público para retirar delas qualquer tipo de vantagem está aberto o caminho da corrupção ativa e passiva e ganha protagonismo corruptores e os corrompidos.
Assessoria de Imprensa: Papa Francisco falou sobre corrupção a parlamentares italianos que se mobilizam contra a máfia afirmando que ela tem uma natureza contagiosa e parasitária, porque não se nutre do que de bom produz, mas do que subtrai e rouba. O que o senhor pensa ser possível aplicar dessa palavra do Papa na situação vivida atualmente na república brasileira?
Dom Leonardo: Papa Francisco falava de uma circunstância bem precisa dentro do universo da república italiana e não se pode, pura e simplesmente, aplicar a situações diferentes, mas é claro que suas palavras têm um alcance maior por se tratar de um fenômeno que, infelizmente, se encontra em muitos países do mundo.
Quando ele fala da natureza contagiosa da corrupção, por exemplo, pode-se notar que é um fato que se verifica na realidade brasileira. Na verdade, o sistema político brasileiro está contaminado pela corrupção. E isso transcende o tempo republicano para alcança os primórdios da nossa sociedade. Uma pena é que essa contaminação atravessou os séculos e insiste em ir dominando governos, legislaturas e tantas outras instâncias de poder retirando do povo brasileiro seus recursos mais essenciais. A corrupção no Brasil, como diz o Papa, também tem seu caráter parasitário porque se alimenta do que os corruptos roubam do povo. Desse modo, a corrupção humilha o povo brasileiro que precisa de habitação, alimentação, saúde, segurança e educação.
A corrupção solapa tudo o que de possível poderia ser realizado com os recursos que saem do bolso do povo, especialmente do povo mais pobre. Já passou da hora de deixarmo-nos atrair pela ética e debater as raízes da corrupção para ser enfrentada no nosso país. A CNBB tem insistido em seus pronunciamentos oficiais em três caminhos para cuidar da res-publica e, por isso, enfrentar a corrupção generalizada: o resgate da ética para garantir lisura no modo de lidar com os valores religiosos e morais, como também com os recursos que são do povo e devem ser aplicados em serviços para a população; uma reforma política abrangente que envolva as eleições, o dinâmica democrática da Legislativo, Executivo e Judiciário; a participação da sociedade inteira nos debates e nas decisões sobre os principais temas nacionais.
Nesse momento de crise, no entanto, percebemos um movimento quase silencioso de diversos grupos na sociedade que busca debater e refletir o momento da nossa República. São pessoas que percebem a natureza “contagiosa e parasitária” da corrupção nos diversos âmbitos da sociedade e assumem a responsabilidade como cidadãos de buscar caminhos para a Republica. Se debate e reflete a ética, a democracia, a economia, a educação, a segurança, a saúde. Acontece diálogo! São pessoas que fazem da crise uma possibilidade de maturação da República, guiadas pela esperança. Desejo que esse movimento cresça, se fortaleça e como afluentes caminhem para um grande rio que é a vida à República do Brasil. Que esse movimento atinja nossas universidades e as pequenas comunidades do nosso interior.
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                                                                      Fonte: cnbb.ner.br      Fotos: Luiz Lopes Júnior

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