quarta-feira, 4 de outubro de 2023

"Laudate Deum",

o grito do Papa por uma resposta à crise climática

Publicada a exortação apostólica de Francisco que especifica e completa a encíclica de 2015: não estamos reagindo o suficiente, estamos perto do ponto de ruptura. Crítica aos negacionistas: indubitável a origem humana do aquecimento global. O compromisso de cuidar da casa comum nasce da fé cristã.

Laudate Deum é o título desta carta. Porque um ser humano que pretenda tomar o lugar de Deus torna-se o pior perigo para si mesmo". Com essas palavras, conclui-se a exortação apostólica do Papa Francisco, publicada em 4 de outubro. Um texto em continuidade com a encíclica Laudato si' de 2015. Em 6 capítulos e 73 parágrafos, olhando para a COP28 em Dubai daqui a dois meses, o Sucessor de Pedro pretende fazer um apelo à corresponsabilidade diante da emergência das mudanças climáticas, porque o mundo "está desmoronando e talvez se aproximando de um ponto de ruptura". É um dos "maiores desafios que a sociedade e a comunidade global enfrentam", "os efeitos das alterações climáticas recaem sobre as pessoas mais vulneráveis" (3).

Os sinais da mudança climática cada vez mais evidentes

No primeiro capítulo, o Papa explica que, por mais que tentemos negá-los, "os sinais da mudança climática estão aí, cada vez mais evidentes". Ele cita "fenômenos extremos, períodos frequentes de calor anormal, seca e outros gemidos da terra". Afirma: "é possível verificar que certas mudanças climáticas, induzidas pelo homem, aumentam significativamente a probabilidade de fenômenos extremos mais frequentes e mais intensos". E para aqueles que minimizam, responde: "aquilo que agora estamos a assistir é uma aceleração insólita do aquecimento". "Provavelmente, dentro de poucos anos, muitas populações terão de deslocar as suas casas por causa destes fenômenos" (6).

A culpa não é dos pobres

Para aqueles que culpam os pobres por terem muitos filhos e talvez tentem resolver o problema "mutilando as mulheres nos países menos desenvolvidos", Francisco lembra "que uma reduzida percentagem mais rica do planeta polui mais do que o 50% mais pobre". A África, que "alberga mais da metade das pessoas mais pobres do mundo, é responsável apenas por uma mínima parte das emissões no passado" (9). Em seguida, o Papa desafia aqueles que afirmam que o menor uso de combustíveis fósseis levará "à diminuição dos postos de trabalho". Na realidade, "milhões de pessoas perdem o emprego” devido às diversas consequências da mudança climática. Enquanto a transição para as energias renováveis, "bem administrada", é capaz de "gerar inúmeros postos de trabalho em diferentes setores. Por isso é necessário que os políticos e os empresários se ocupem disso imediatamente" (10).

Indubitável origem humana

"A origem humana - 'antrópica' - da mudança climática já não se pode pôr em dúvida", diz Francisco. "A concentração na atmosfera dos gases com efeito estufa... nos últimos cinquenta anos, o aumento sofreu uma forte aceleração" (11). Ao mesmo tempo, a temperatura "aumentou a uma velocidade inédita, sem precedentes nos últimos dois mil anos" (12). Isso resultou na acidificação dos mares e no derretimento dos glaciares. A coincidência entre esses eventos e o crescimento das emissões de gases de efeito estufa "não pode ser escondida. A esmagadora maioria dos estudiosos do clima defende esta correlação, sendo mínima a percentagem daqueles que tentam negar esta evidência". Infelizmente, a crise climática não é propriamente uma questão que “interesse às grandes potências econômicas, preocupadas em obter o maior lucro ao menor custo e no mais curto espaço de tempo possíveis" (13).

Em tempo para evitar danos mais dramáticos

" Vejo-me obrigado – continua Francisco - a fazer estas especificações, que podem parecer óbvias, por causa de certas opiniões ridicularizadoras e pouco racionais que encontro mesmo dentro da Igreja Católica. Mas não podemos continuar a duvidar que a razão da insólita velocidade de mudanças tão perigosas esteja neste facto inegável: os enormes progressos conexos com a desenfreada intervenção humana sobre a natureza" (14). Infelizmente, algumas manifestações dessa crise climática já são irreversíveis por pelo menos centenas de anos. É "urgente uma visão mais alargada... tudo o que se nos pede é uma certa responsabilidade pela herança que deixaremos atrás de nós depois da nossa passagem por este mundo" (18).

O paradigma tecnocrático: a ideia de um ser humano sem limites

No segundo capítulo, Francisco fala do paradigma tecnocrático que "consiste, substancialmente, em pensar como se a realidade, o bem e a verdade desabrochassem espontaneamente do próprio poder da tecnologia e da economia" (20) com base na ideia de um ser humano sem limites. "Nunca a humanidade teve tanto poder sobre si mesma, e nada garante que o utilizará bem, sobretudo se se considera a maneira como o está a fazer...É tremendamente arriscado que resida numa pequena parte da humanidade" (23). O Papa reitera que "o mundo que nos rodeia não é um objeto de exploração, utilização desenfreada, ambição sem limites" (25). Ele também lembra que estamos incluídos na natureza, e "isso exclui a ideia de que o ser humano seja um estranho, um fator externo capaz apenas de danificar o ambiente" (26).

Decadência ética do poder: marketing e informações falsas

"Realizamos progressos tecnológicos impressionantes e surpreendentes, sem nos darmos conta, ao mesmo tempo, que nos tornamos altamente perigosos, capazes de pôr em perigo a vida de muitos seres e a nossa própria sobrevivência" (28). "A decadência ética do poder real é disfarçada pelo marketing e pela informação falsa, mecanismos úteis nas mãos de quem tem maiores recursos para influenciar a opinião pública através deles" (29). "Podemos notar como às vezes os próprios pobres, confundidos e encantados perante as promessas de tantos falsos profetas, caem no engano dum mundo que não é construído para eles" (31). Há "um domínio daqueles que nasceram com melhores condições de progresso" (32).

Política internacional fraca

No capítulo seguinte da exortação, o Papa aborda o tema da fraqueza da política internacional, insistindo na necessidade de favorecer "acordos multilaterais entre Estados" (34). Ele pede "organizações mundiais mais eficazes, dotadas de autoridade para assegurar o bem comum mundial". Essas organizações que "devem dotadas duma real autoridade que possa «assegurar» a realização de alguns objetivos irrenunciáveis" (35). Francisco lamenta "que as crises globais sejam desperdiçadas, assim como sucedeu na crise financeira de 2007-2008 e com a pandemia, que trouxeram "maior individualismo, menor integração, maior liberdade para os que são verdadeiramente poderosos e sempre encontram maneira de escapar ilesos" (36). O desafio atual é recriar um novo multilateralismo "à luz da nova situação global" (37), reconhecendo que tantas agregações e organizações da sociedade civil ajudam a compensar as fraquezas da Comunidade internacional.

Inúteis as instituições que preservam os mais fortes

Francisco propõe " um multilateralismo «a partir de baixo» e não meramente decidido pelas elites do poder" (38). Ele lembra que é necessário um "quadro diferente para uma cooperação eficaz" (42). Portanto, precisamos de "uma espécie de maior «democratização» na esfera global... Deixará de ser útil apoiar instituições que preservem os direitos dos mais fortes, sem cuidar dos direitos de todos". (43)

O que se espera da COP de Dubai?

No capítulo seguinte, analisando a COP28, Francisco escreve: "Não podemos renunciar ao sonho de que a COP28 leve a uma decidida aceleração da transição energética, com compromissos eficazes que possam ser monitorizados de forma permanente. Esta Conferência pode ser um ponto de viragem" (54). Infelizmente, "a necessária transição para energias limpas..., não avança de forma suficientemente rápida" (55).

Chega de ridicularizar a questão ambiental

Francisco pede o fim da "atitude irresponsável" daqueles que ridicularizam a questão ambiental por interesses econômicos: em vez disso, trata-se de "dum problema humano e social em sentido amplo e a diversos níveis. Por isso requer-se o envolvimento de todos". Com relação aos protestos de grupos radicalizados, o Papa afirma que "eles preenchem um vazio da sociedade", pois caberia "a cada família pensar que está em jogo o futuro dos seus filhos" (58) e exercer uma pressão saudável. O Pontífice espera que da COP28 surjam "formas vinculantes de transição energética" que sejam eficientes e "facilmente monitoráveis" (59). " Oxalá que, a intervir na COP28, sejam estrategas capazes de pensar mais no bem comum e no futuro dos seus filhos, do que nos interesses contingentes de algum país ou empresa. Possam assim mostrar a nobreza da política, e não a sua vergonha" (60).

Um compromisso que brota da fé cristã

Por fim, o Papa recorda as razões desse compromisso que brota da fé cristã, incentivando "os irmãos e irmãs de outras religiões a fazerem o mesmo" (61). "A cosmovisão judaico-cristã defende o valor peculiar e central do ser humano no meio do maravilhoso concerto de todos os seres... formamos uma espécie de família universal, uma comunhão sublime que nos impele a um respeito sagrado, amoroso e humilde" (67). " Isto não é um produto da nossa vontade... pois Deus uniu-nos tão estreitamente ao mundo que nos rodeia" (68). O que é importante, escreve Francisco, é lembrar que "não há mudanças duradouras sem mudanças culturais... e não há mudanças culturais sem mudança nas pessoas" (70). "Os esforços das famílias para poluir menos, reduzir os esbanjamentos, consumir de forma sensata estão a criar uma nova cultura" (71). O pontífice conclui lembrando "que as emissões pro capite nos Estados Unidos são cerca do dobro das dum habitante da China e cerca de sete vezes superiores à média dos países mais pobres". E afirma "que uma mudança generalizada do estilo de vida irresponsável ligado ao modelo ocidental teria um impacto significativo a longo prazo. Assim, juntamente com as indispensáveis decisões políticas, estaríamos no caminho do cuidado mútuo" (72).

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terça-feira, 3 de outubro de 2023

Reflita com o padre Zezinho:

A severidade  virou estilo de pregação

Pe. Zezinho, scj |||||||||||||||||||||||

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Aprendi com o otimismo de João XXIII, na faculdade de Teologia, anos 63-67. Eu estudava nos EEUU.

Logo nos inícios do Vaticano II, 11-10- 1962, ao anunciar o Concílio , disse o Papa João XXIII.

“Temos o dever de discordar desses profetas da miséria , que só anunciam infortúnios, como se estivéssemos no fim do mundo

Marquei com grifos a longa frase:

“A Igreja, no passado ,sempre se opôs aos erros e os condenou com grande severidade. Agora, porém, a esposa de Cristo prefere recorrer ao remédio da misericórdia a usar as armas do castigo. Em face das necessidades atuais, julga mais conveniente elucidar melhor sua doutrina do que condenar os que dela se afastam!”

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Para mim, com 21 anos, ficou claro que eu seria um catequista sereno e otimista e aberto ao diálogo. Até porque na minha família havia membros de outras igrejas. E meu cunhado era um metodista temente a Deus e cheio de respeito pelos católicos. Oravam pela minha vocação de futuro padre católico!

Eu tentaria viver a fraternidade com menos severidade. Isto não significava ceder na doutrina mas, sim, amenizar o clima entre as igrejas. Eu vivia isto na minha família. A gente nunca brigou por causa de Igreja. Tivemos bons padres e bons pastores , e todos eles muito fraternos e bem educados.

Hoje vejo, na internet, recrudescerem os debates entre católicos, evangélicos e pentecostais a se agredir verbalmente, a deturpar os fatos históricos, e a caluniar-se mutuamente. Era tudo o que o Concílio não queria e é o contrário daquilo Jesus sonhava: QUE SEJAM UM.

Vejo o tom de severidade e os gritos de alguns pregadores de mídia. Gritam como se estivessem possessos. Não entenderam ou não querem entender os evangelhos, o Concílio e o Catecismo  CIC)?

É como dizia São João XXIII no início dos trabalhos, “está faltado o remédio da misericórdia”.

São Joao Paulo II escreveu em 30.11.1980 uma encíclica inteira, a DIVES IN MISERICÓRDIA, sobre o Deus rico em misericórdia.

Estes atuais pregadores irados e boanérgicos não devem ter lido o Concílio , nem estes Papas. Se leram, não fizeram caso. O tom deles é irado, isto: da parte de gente que fala para milhões de ouvidos. Não é estranho vê-los anunciar irados e até com dedos em riste, um Jesus manso e humilde de coração?

Seria o caso de se rever esse tipo de discurso! Mas duvido que aceitem mudar. Depois de tantos pregando a severidade da fé e não a serenidade da fé, para eles virou marca registrada! Não leram e muitos jamais lerão João XXIII. Até porque alguns aprenderam a ignorar e até boicotar estes 60 anos de mudança na nossa Igreja!… Escrevo, repito e assino em baixo! Pz

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                                                                                        Fonte: facebook.com/padrezezinhoscj

Vale a pena aprender com esta preciosa catequese:

O Papa responde às Dubia de cinco cardeais

Os cardeais Brandmüller, Burke, Sandoval Íñiguez, Sarah e Zen Ze-kiun apresentaram cinco perguntas ao Papa solicitando esclarecimentos sobre algumas questões relacionadas à interpretação da Revelação Divina, à bênção de uniões entre pessoas do mesmo sexo, à sinodalidade como dimensão constitutiva da Igreja, à ordenação sacerdotal de mulheres e ao arrependimento como condição necessária para a absolvição sacramental.

O Papa Francisco respondeu a cinco Dubia enviadas a ele em julho passado pelos cardeais Walter Brandmüller e Raymond Leo Burke, com o apoio de três outros cardeais, Juan Sandoval Íñiguez, Robert Sarah e Joseph Zen Ze-kiun. As perguntas dos purpurados, em italiano, e as respostas do Papa, em espanhol, foram publicadas esta segunda-feira, 2 de outubro, no site do Dicastério para a Doutrina da Fé. A seguir está o texto com uma nossa tradução das respostas do Papa:

1) Dubium sobre a afirmação de que a Revelação Divina deve ser reinterpretada de acordo com as mudanças culturais e antropológicas em voga.

Após as afirmações de alguns bispos, que não foram corrigidas nem retratadas, surge a questão de saber se a Revelação Divina na Igreja deve ser reinterpretada de acordo com as mudanças culturais de nosso tempo e de acordo com a nova visão antropológica que essas mudanças promovem; ou se a Revelação Divina é vinculante para sempre, imutável e, portanto, não pode ser contradita, de acordo com o que foi ditado pelo Concílio Vaticano II, de que a Deus que revela é devida "a obediência da fé" (Dei Verbum 5); de que o que é revelado para a salvação de todos deve permanecer "para sempre intacto" e vivo, e ser "transmitido a todas as gerações" (7) e de que o progresso da compreensão não implica nenhuma mudança na verdade das coisas e das palavras, porque a fé foi "transmitida de uma vez por todas" (8), e o Magistério não é superior à palavra de Deus, mas ensina apenas o que foi transmitido (10).

Respostas do Papa Francisco

Caros irmãos,

embora nem sempre pareça prudente responder diretamente às perguntas que me são dirigidas, e seria impossível responder a todas elas, neste caso considerei oportuno fazê-lo, dada a proximidade do Sínodo.

Resposta do Papa Francisco à primeira pergunta

a) A resposta depende do significado que atribuem à palavra "reinterpretar". Se for entendida como "interpretar melhor", a expressão é válida. Nesse sentido, o Concílio Vaticano II afirmou que é necessário que, através do trabalho dos exegetas - e eu acrescentaria, dos teólogos - "o juízo da Igreja amadureça" (Concílio Ecumênico Vaticano II, Constituição Dogmática Dei Verbum, 12).

b) Portanto, se é verdade que a Revelação divina é imutável e sempre vinculante, a Igreja deve ser humilde e reconhecer que nunca esgota sua insondável riqueza e precisa crescer em sua compreensão.

c) Consequentemente, também cresce em sua compreensão do que ela mesma afirmou em seu Magistério.

d) As mudanças culturais e os novos desafios da história não alteram a Revelação, mas podem nos estimular a expressar melhor certos aspectos de sua riqueza transbordante que oferece sempre mais.

e) É inevitável que isso possa levar a uma melhor expressão de algumas afirmações passadas do Magistério, e isso de fato aconteceu ao longo da história.

f) Por outro lado, é verdade que o Magistério não é superior à Palavra de Deus, mas também é verdade que tanto os textos da Escritura quanto os testemunhos da Tradição precisam de uma interpretação que permita distinguir sua substância perene dos condicionamentos culturais. Isso é evidente, por exemplo, em textos bíblicos (como Êxodo 21, 20-21) e em algumas intervenções magisteriais que toleravam a escravidão (cf. Nicolau V, Bula Dum Diversas, 1452). Esse não é um argumento secundário, dada sua íntima conexão com a verdade perene da dignidade inalienável da pessoa humana. Esses textos precisam de uma interpretação. O mesmo se aplica a algumas considerações do Novo Testamento sobre as mulheres (1 Coríntios 11, 3-10; 1 Timóteo 2, 11-14) e a outros textos da Escritura e testemunhos da Tradição que não podem ser repetidos hoje assim como.

g) É importante enfatizar que o que não pode mudar é o que foi revelado "para a salvação de todos" (Concílio Ecumênico Vaticano II, Constituição Dogmática Dei Verbum, 7). Portanto, a Igreja deve discernir constantemente o que é essencial para a salvação e o que é secundário ou menos diretamente relacionado a esse objetivo. Interessa-me recordar o que São Tomás de Aquino afirmou: "quanto mais se vai aos particulares, mais aumenta a indeterminação" (Summa Theologiae 1-1 1, q. 94, art. 4).

h) Por fim, uma única formulação de uma verdade nunca pode ser compreendida adequadamente se for apresentada isoladamente, isolada do contexto rico e harmonioso de toda a Revelação. A "hierarquia das verdades" também implica colocar cada verdade em conexão adequada com verdades mais centrais e com o ensino da Igreja como um todo. Isso pode levar a diferentes maneiras de expor a mesma doutrina, mesmo que "para aqueles que sonham com uma doutrina monolítica defendida por todos sem nuances, isso pode parecer uma dispersão imperfeita. Mas a realidade é que tal variedade ajuda a manifestar e desenvolver melhor os diferentes aspectos da inesgotável riqueza do Evangelho (Evangelii gaudium, 40). Toda corrente teológica tem seus riscos, mas também suas oportunidades.

2) Dubium sobre a afirmação de que a prática difusa de abençoar uniões do mesmo sexo está de acordo com a Revelação e o Magistério (CCC 2357).

De acordo com a Revelação Divina, atestada na Sagrada Escritura, que a Igreja, "por mandato divino e com a assistência do Espírito Santo, piedosamente escuta, santamente conserva e fielmente expõe" (Dei Verbum IO): "No princípio" Deus criou o homem à sua imagem, macho e fêmea os criou e os abençoou, para que fossem fecundos (cf. Gn 1, 27-28), pelo que o Apóstolo Paulo ensina que negar a diferença sexual é a consequência de negar o Criador (Rm 1, 24-32). Pergunta-se: pode a Igreja derrogar esse "princípio", considerando-o, em contraste com o que ensina a Veritatis splendor 103, como um mero ideal, e aceitando como "bem possível" situações objetivamente pecaminosas, como as uniões entre pessoas do mesmo sexo, sem deixar de respeitar a doutrina revelada?

Resposta do Papa Francisco à segunda pergunta

a) A Igreja tem uma concepção muito clara do matrimônio: uma união exclusiva, estável e indissolúvel entre um homem e uma mulher, naturalmente aberta a gerar filhos.

Somente essa união pode ser chamada de "matrimônio". Outras formas de união o realizam apenas "de maneira parcial e analógica" (Amoris laetitia 292), portanto não podem ser chamadas estritamente de "matrimônio".

b) Não se trata apenas de uma questão de nomes, mas a realidade que chamamos de matrimônio tem uma constituição essencial única que requer um nome exclusivo, não aplicável a outras realidades. É, sem dúvida, muito mais do que um mero "ideal".

c) Por essa razão, a Igreja evita qualquer tipo de rito ou sacramental que possa contradizer essa convicção e levar a entender que se reconheça como matrimônio algo que não o é.

d) Todavia, em nosso relacionamento com as pessoas, não devemos perder a caridade pastoral, que deve permear todas as nossas decisões e atitudes. A defesa da verdade objetiva não é a única expressão dessa caridade, que também é composta de gentileza, paciência, compreensão, ternura e encorajamento. Portanto, não podemos ser juízes que apenas negam, rejeitam, excluem.

e) Portanto, a prudência pastoral deve discernir adequadamente se existem formas de bênção, solicitadas por uma ou mais pessoas, que não transmitam um conceito errôneo de matrimônio. Pois, quando se pede uma bênção, está se expressando um pedido de ajuda a Deus, uma súplica para poder viver melhor, uma confiança em um Pai que pode nos ajudar a viver melhor.

f) Por outro lado, embora existam situações que, de um ponto de vista objetivo, não são moralmente aceitáveis, a mesma caridade pastoral exige que não tratemos simplesmente como "pecadores" outras pessoas cuja culpa ou responsabilidade pode ser atenuada por vários fatores que influenciam a imputabilidade subjetiva (cf. São João Paulo II, Reconciliatio et Paenitentia, 17).

g) As decisões que podem fazer parte da prudência pastoral em determinadas circunstâncias não precisam necessariamente se tornar uma norma. Ou seja, não é conveniente que uma Diocese, uma Conferência Episcopal ou qualquer outra estrutura eclesial habilite constante e oficialmente procedimentos ou ritos para todo tipo de questão, pois tudo "que faz parte de um discernimento prático diante de uma situação particular não pode ser elevado ao nível de norma", porque isso "daria lugar a uma casuística insuportável" (Amoris laetitia 304). O Direito Canônico não deve e não pode abranger tudo, nem as Conferências Episcopais, com seus vários documentos e protocolos, devem pretender isso, uma vez que a vida da Igreja flui por muitos canais além dos normativos.

3) Dubium acerca da afirmação de que a sinodalidade é "dimensão constitutiva da Igreja" (Cost.Ap. Episcopalis Communio 6), de modo que a Igreja seria por sua natureza sinodal.

Já que o Sínodo dos bispos não representa o colégio episcopal, mas é um mero órgão consultivo do Papa, enquanto os bispos, como testemunhas da fé, não podem delegar sua confissão da verdade, se questiona se a sinodalidade pode ser critério regulamentar supremo do governo permanente da Igreja sem alterar o seu regime constitutivo desejado pelo seu Fundador, para o qual a suprema e plena autoridade da Igreja é exercitada seja pelo Papa, em virtude do seu cargo, seja pelo colégio dos bispos juntamente com a sua cabeça, o Romano Pontífice (Lumen gentium 22).

Resposta do Papa Francisco à terceira

a) Não obstante reconheçam que a autoridade suprema e plena da Igreja seja exercitada seja pelo Papa em virtude do seu cargo, seja pelo colégio dos bispos com a sua cabeça o Romano Pontífice (Cfr. Concílio Ecumênico Vaticano II, Constituição dogmática Lumen gentium, 22), com essas mesmas perguntas os senhores manifestam a própria necessidade de participar, de expressar livremente o seu parecer e de colaborar, pedindo assim uma forma de "sinodalidade" no exercício do meu ministério.

b) A Igreja é um "mistério de comunhão missionária", mas esta comunhão não é somente afetiva ou etérea, mas implica necessariamente uma participação real: não só a hierarquia, mas todo o Povo de Deus em modos diversos e em diferentes níveis pode fazer ouvir a própria voz e sentir-se parte do caminho da Igreja. Neste sentido, podemos dizer que a sinodalidade, como estilo e dinamismo, é uma dimensão essencial da vida da Igreja. Sobre este ponto, disse coisas muitos belas são João Paulo II na Novo millennio ineunte.

c) Outra coisa é sacralizar ou impor uma determinada metodologia sinodal que agrada um grupo, transformá-la em norma e percurso obrigatório para todos, porque isto levaria somente a “congelar” o caminho sinodal, ignorando as diversas características das várias Igrejas particulares e a variegada riqueza da Igreja universal.

4) Dubium acerca do apoio de pastores e teólogos à teoria de que “a teologia da Igreja mudou” e que, portanto, a ordenação sacerdotal pode ser conferida às mulheres.

Após as afirmações de alguns prelados, que não foram nem corrigidas nem retratadas, segundo os quais com o Vaticano II teria mudado a teologia da Igreja e o significado da Missa, se questiona se ainda é válido o ditado do Concílio Vaticano II, de que "o sacerdócio comum dos fiéis e o sacerdócio ministerial diferem essencialmente e não apenas em grau" (Lumen Gentium IO) e que os presbíteros, em virtude do "sacro poder da ordem para oferecer o sacrifício e perdoar os pecados" (Presbyterorum Ordinis 2), agem em nome e na pessoa de Cristo mediador, por meio do qual tornou-se perfeito o sacrifício espiritual dos fiéis. Questiona-se também se ainda é válido o ensinamento da carta apostólica de são João Paulo II Ordinatio Sacerdotalis, que ensina como verdade a ser considerada definitiva a impossibilidade de conferir a ordenação sacerdotal às mulheres, de modo que este ensinamento não está mais sujeito a mudanças nem à livre discussão dos pastores ou dos teólogos.

Resposta do Papa Francisco à quarta pergunta

a) "O sacerdócio comum dos fiéis e o sacerdócio ministerial diferem essencialmente" (Concílio Ecumênico Vaticano II, Constituição dogmática Lumen gentium, 10). Não é oportuno apoiar uma diferença de grau que implique considerar o sacerdócio comum dos fiéis como algo de "segunda categoria" ou de menor valor ("um grau inferior"). Ambas as formas de sacerdócio se iluminam e se amparam reciprocamente.

b) Quando são João Paulo II ensinou que é preciso afirmar "de modo definitivo" a impossibilidade de conferir a ordenação sacerdotal às mulheres de modo algum estava denigrando as mulheres e conferindo um poder supremo aos homens. São João Paulo II afirmou também outras coisas. Por exemplo, que quando falamos do poder sacerdotal “estamos no âmbito da função, não da dignidade e da santidade”. (são João Paulo II, Christifideles laici, 51). São palavras que não colhemos suficientemente. Afirmou ainda claramente que não obstante só o sacerdote presida à Eucaristia, as tarefas "não dão justificação à superioridade de uns sobre os outros" (são João Paulo II, Christifideles laici, nota 190; Cfr. Congregação para a Doutrina da Fé, Declaração Inter Insigniores, VI). Afirmou também que se a função sacerdotal é "hierárquica", não deve ser compreendida como uma forma de domínio, mas “é totalmente ordenada à santidade dos membros de Cristo” (são João Paulo II, Mulieris dignitatem, 27). Se isto não for compreendido e não forem tiradas as consequências práticas dessas distinções, será difícil aceitar que o sacerdócio seja reservado só aos homens e não poderemos reconhecer os direitos das mulheres ou a necessidade de que elas participem, de vários modos, na condução da Igreja.

c) De outro lado, para ser rigorosos, reconheçamos que ainda não foi desenvolvida exaustivamente uma doutrina clara e com autoridade sobre a natureza exata de uma "declaração definitiva". Não é uma definição dogmática, e mesmo assim deve ser aceita por todos. Ninguém pode contradizê-la publicamente e todavia pode ser objeto de estudo, como no caso da validade das ordenações na Comunhão anglicana.

5) Dubium acerca da afirmação de que “o perdão é um direito humano” e a insistência do Santo Padre sobre o dever de absolver todos e sempre, para o qual o arrependimento não seria condição necessária para a absolvição sacramental.

Questiona-se se ainda está em vigor o ensinamento do Concílio de Trento, segundo o qual, para a validade da confissão sacramental, é necessária a contrição do penitente, que consiste em detestar o pecado cometido com o propósito de não pecar mais (Parágrafo XIV, Capítulo IV: DH 1676), de modo que o sacerdote deve adiar a absolvição quando estiver claro que esta condição não foi realizada.

Resposta do Papa Francisco à quinta pergunta

a) O arrependimento é necessário para a validade da absolvição sacramental  e implica a intenção de não pecar. Mas aqui não há matemática e devo recordar mais uma vez que o confessionário não é uma alfândega. Não somos os donos, mas humildes administradores dos Sacramentos que nutrem os fiéis, porque estes dons do Senhor, mais do que relíquias a conservar, são auxílio do Espírito Santo para a vida das pessoas.

b) Existem muitas maneiras de expressar arrependimento. Muitas vezes, nas pessoas que estão com a autoestima muito ferida, declararem-se culpadas é uma tortura cruel, mas só o ato de se aproximar da confissão é uma expressão simbólica de arrependimento e de busca da ajuda divina.

c) Quero também recordar que “às vezes nos custa muito dar espaço na pastoral ao amor incondicional de Deus" (Amoris laetitia 311), mas se deve aprender. Seguindo são João Paulo II, defendo que não devemos pedir aos fiéis propósitos de correção demasiados detalhados e firmes, que no final acabam por ser abstratos ou até mesmo narcisistas, mas inclusive a previsibilidade de uma nova queda "não prejudica a autenticidade do propósito" (são João Paulo II, Carta ao Card. William W. Baum e aos participantes do curso anual da Penitenciaria Apostólica, 22 de março de 1996, 5).

d) Por fim, deve ser claro que todas as condições que normalmente se colocam na confissão geralmente não são aplicáveis quando a pessoa se encontra numa situação de agonia ou com as suas capacidades mentais e psíquicas muito limitadas.

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segunda-feira, 2 de outubro de 2023

Papa Francisco nesta segunda-feira:

o mundo é poluído pelas aparências,
vivemos uma cultura da maquiagem

Isso é belo, isso é importante: o caminho do escondimento é o caminho de Deus. Vocês não são irmãs para fazer publicidade: quanto mais escondidas, mais divinas. Continuem a cultivá-lo, pois é uma profecia poderosa para nosso tempo, poluído pelo aparecer e pelas aparências: disse o Papa às Pequenas Irmãs de Jesus, por ocasião de seu XII Capítulo Geral.

O Santo Padre recebeu em audiência na manhã desta segunda-feira, 2 de outubro, na Sala do Consistório, no Vaticano, as Pequenas Irmãs de Jesus, por ocasião de seu Capítulo Geral.

No discurso que dirigiu às religiosas, o Papa lembrou que elas estão celebrando seu 12º Capítulo Geral que, além de ser eletivo, é uma ocasião importante para refletir juntos e amadurecer escolhas significativas.

Na origem delas, a experiência de São Charles de Foucauld

Francisco ressaltou que na origem delas há a experiência carismática de São Charles de Foucauld, retomada, cerca de vinte anos após sua morte, por Magdeleine Hutin e Anne Cadoret: uma forte experiência de busca de Deus, de testemunho do Evangelho e de amor pela vida escondida.

Essas me parecem ser três diretrizes úteis sobre as quais refletir brevemente, também à luz da narração evangélica que vocês escolheram como guia para o caminho capitular: o encontro de Jesus com a mulher samaritana, destacou o Pontífice, desenvolvendo a partir daí a sua reflexão.

A busca de Deus

A primeira diretriz: é a busca de Deus. É a mais importante. O Mestre aguarda vocês no poço de sua Palavra, água viva que sacia a sede de nossos desejos. É belo cultivar a escuta d’Ele, permanecendo a seus pés em adoração, como fez o Irmão Charles, que não conhecia nada mais doce do que as horas passadas diante do Tabernáculo, dizendo que "quanto mais se bebe dessa doçura, mais se tem sede dela".

Como à Samaritana, continuou Francisco, Jesus lhes oferece o seu amor, e cabe a vocês aceitar o desafio, deixando de lado as pesadas ânforas da autorreferencialidade e do habitual, das soluções previsíveis e até mesmo de um certo pessimismo que o inimigo de Deus e do homem sempre tenta insinuar, especialmente naqueles que fizeram da própria vida um dom.

Testemunho do Evangelho

Chegamos assim à segunda diretriz, que as caracteriza desde o início: o testemunho do Evangelho - a primeira foi a busca de Deus, a segunda linha foi o testemunho do Evangelho -, o fazer dom dele aos outros com palavras, com obras de caridade e com a presença fraterna, orante e adoradora de suas pequenas comunidades internacionais.

São Charles de Foucauld disse: "Todo o nosso ser deve gritar o Evangelho do alto dos telhados, gritar o Evangelho. Toda a nossa pessoa deve transpirar Jesus... toda a nossa vida deve gritar que pertencemos a Jesus, deve apresentar a imagem da vida evangélica", ressaltou o Pontífice.

O amor pela vida escondida

Chegamos, assim, à terceira diretriz: o amor pela vida escondida. É o caminho da Encarnação, o caminho de Nazaré, o caminho indicado por Deus ao despojar-se e se fazer pequeno para compartilhar a vida dos pequeninos. "Eu quero - dizia o pai - passar desconhecido sobre a terra como um viajante na noite, pobremente, laboriosamente, humildemente, docemente... imitando Jesus em tudo em sua vida em Nazaré e, quando chegar a hora, em sua Via-Sacra e em sua morte".

O caminho do escondimento é o caminho de Deus. Isso é belo, isso é importante: o caminho do escondimento é o caminho de Deus. Vocês não são irmãs para fazer publicidade: quanto mais escondidas, mais divinas. Continuem a cultivá-lo, pois é uma profecia poderosa para nossa época, poluída pelo aparecer e pelas aparências, exortou o Santo Padre.

Amor a Cristo e aos pobres

Parece que, por causa do aparecer e das aparências, vivemos uma cultura de maquiagem: todos usam maquiagem, é normal que as mulheres o façam, mas todos, todos usam maquiagem, para parecerem melhores do que são, e isso não é do Senhor, observou o Papa.

Francisco concluiu seu discurso às Pequenas Irmãs de Jesus lembrando que é verdade que há tempos difíceis e problemas sérios a enfrentar, como a escassez de vocações, o fechamento de algumas casas, o aumento da idade média das religiosas, mas é igualmente verdade que, fiéis à inspiração do Irmão Charles, elas são instrumentos preciosos para que Deus semeie no mundo pequenas pérolas de ternura e de ternura evangélica, que é a especialidade delas. E o Senhor continuará a fazê-lo, na medida em que vocês se mantiverem simples e generosas, no amor a Cristo e aos pobres. Isso dará frutos no devido tempo, não duvidem disso, exortou por fim o Pontífice.

Raimundo de Lima – Vatican News

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Reflita com dom Carmo:

Outubro: mês de Nossa Senhora Aparecida e das Missões

Quem ama a Jesus Cristo, mostra-O pela evangelização que realiza.

1 – O Concílio Vaticano II afirma, claramente, que todo cristão deve ser missionário. Evangelizador. Isso não significa que deva ir, para terras distantes, mas que deve fazer do seu lar, da comunidade, do ambiente de trabalho, um local de testemunho cristão. Não precisa, tornar-se um fanático, mas um convicto: viver seu batismo onde estiver. O testemunho é o lado externo da fé e da caridade. Santa Terezinha, nunca saiu da França, mas é padroeira das missões: viveu sua vocação com fé, alegria e perseverança.

2 – Infelizmente, os cristãos não assumem, como deveriam, sua fé e batismo. Os pais querem que seus filhos sejam batizados, mas não os educam pelo testemunho. Isto é lastimável. Contratestemunho. Os genitores são os primeiros educadores, de seus filhos. A família deve tornar-se o primeiro santuário cristão. A Bíblia devia vir a ser o livro de cabeceira dos batizados e a Eucaristia o nutrimento das comunidades. Não basta o Brasil ser grande em extensão, se não o for no testemunho.

3 – Cristãos, há algo errado na vivência de nossa fé. Parece existir medo ou até vergonha em ser cristão, para alguns. Jesus afirmou: “quem se envergonhar de Mim, diante dos homens, Eu me envergonharei dele, diante de meu Pai” (Cf. Lc 9, 26). Famílias se desfazem. A participação na celebração eucarística diminui. Cresce a violência nas escolas. Cá ou lá, notam-se manifestações de ódio. Jovens ou até adultos perdem o sentido da vida. Drogas campeiam e a preparação para o futuro é descuidada. Há rumores, para a legalização do aborto. Em certos lugares, o crucifixo não é bem-visto. Suicídios aumentam. Não há como negar: é preciso voltar a Cristo, ao Evangelho, à vivência do bem, do respeito e da justiça. Reivindicar direitos é bom e correto, mas assumir deveres é necessário e urgente.

4 – Jesus nos pediu que fossemos “sal da terra e luz do mundo” (Mt 5, 13). Ele foi fiel, até o fim: não nos traiu. Assumiu a cruz (nossa!), carregou-a e nela morreu, por nós. Não basta admirá-Lo, mas é necessário imitá-Lo. Repito: falta evangelização nas igrejas. Cita-se Evangelho “a rodo”, mas o testemunho se evapora. Cristãos, há em certos lugares, que são até ridicularizados. Outubro nos lembra Nossa Senhora Aparecida. Ela, depois de Jesus, é nosso maior exemplo. Lembra-nos, ainda, a dimensão missionária, portanto, nossa vocação. Não é correto pedir as bençãos de Deus, negando nosso testemunho: nosso exemplo de vida. Possa, portanto, o mês de outubro, nos fazer pensar, e meditar. Rever nossa caminhada. Nossa Senhora Aparecida, rogai por nós!

Dom Carmo João Rhoden, SCJ - Bispo Emérito de Taubaté- SP

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                                                                                                                          Fonte: cnbb.org.br

domingo, 1 de outubro de 2023

Papa no Angelus deste domingo:

existe uma grande diferença entre entre o pecado e a corrupção

“Para o pecador há sempre esperança de redenção; para o corrupto, porém, é muito mais difícil”, destacou o Papa Francisco durante o Angelus deste XXVI Domingo do Tempo Comum.

Neste domingo, 1º de outubro, o Papa Francisco rezou a oração mariana do Angelus, com milhares de fiéis e peregrinos reunidos na Praça São Pedro.

O Pontífice refletiu a passagem do evangelho que fala de dois filhos, aos quais o pai pede que vão trabalhar na vinha. Um deles responde imediatamente "sim", mas depois não vai. O outro, recusa no momento, mas depois reconsidera e vai.

“O que dizer sobre esses dois comportamentos?”, questionou o Papa, “imediatamente vem à mente que ir trabalhar na vinha exige sacrifício e que sacrificar custa, não acontece espontaneamente, apesar da beleza de reconhecer-se filhos e herdeiros”.

Segundo Francisco, o dilema contado não é tanto a resistência em ir trabalhar na vinha, mas a sinceridade, ou a falta dela, diante do pai e diante de si mesmo: “na verdade, nenhum dos dois filhos se comporta de maneira impecável, um deles mente, enquanto o outro erra, mas permanece sincero”.

O comportamento corrupto

Ao deter-se sobre o filho que diz sim, mas depois não vai, o Papa destacou que ele “não quer fazer a vontade do pai, mas também não quer discutir ou falar sobre isso”. E por este motivo ele se esconde atrás de um "sim", atrás de um consentimento falso, que encobre sua preguiça somente para salvar salva sua pele. E deste modo, consegue sobreviver sem conflitos, mas engana e decepciona o pai, desrespeitando-o de uma forma pior do que teria feito com um "não" direto.

“O problema com um homem que se comporta dessa maneira é que ele não é apenas um pecador, mas um corrupto, porque mente suavemente para cobrir e disfarçar sua desobediência, sem aceitar qualquer diálogo ou confronto honesto.”

Para o pecador há sempre esperança

“O outro filho”, continuou Francisco, “aquele que diz não, mas depois vai, é sincero. Não é perfeito, mas é sincero”, e ao manifestar sua relutância corajosa, “ele assume a responsabilidade por seu comportamento e age abertamente”.

O Santo Padre sublinhou, que através da sua atitude honesta como filho, aquele homem “acaba se questionando, chegando à conclusão de que estava errado e refazendo seus passos”.

“Ele é, poderíamos dizer, um pecador, mas não um corrupto. E para o pecador há sempre esperança de redenção; para o corrupto, porém, é muito mais difícil. Na verdade, o seu falso “sim”, suas aparências elegantes, mas hipócritas, e suas ficções que se tornaram hábitos são como uma espessa "parede de borracha", atrás da qual ele se protege dos apelos da consciência.”

"Esses hipócritas fazem muilto mal", enfatizou o Papa, pedindo aos fiéis para não se esquecerem deste ensinamento: "pecadores sim, corruptos não".

Sinceridade diante de Deus

Francisco conclui sua alocução antes da oração mariana com algumas perguntas, convidando os fiéis, à luz destes ensinamentos, a olharem para si mesmos e questionarem:

“Diante do esforço de viver uma vida honesta e generosa, de me comprometer de acordo com a vontade do Pai, estou disposto a dizer "sim" todos os dias, mesmo que isso custe? E quando falho, sou sincero ao confrontar Deus sobre minhas dificuldades, minhas quedas, minhas fragilidades? E quando eu digo "não", eu volto atrás? Devemos conversar com o Senhor sobre isso. Quando cometo um erro, estou disposto a me arrepender e refazer meus passos? Ou faço vista grossa e vivo usando uma máscara, preocupando-me apenas em parecer bom e decente? No final das contas, sou um pecador, como todo mundo, ou há algo corrupto em mim? Não se esqueça: pecadores sim, corruptos não.”

“Maria, espelho de santidade, ajude-nos a ser cristãos sinceros”, finalizou o Papa.

Thulio Fonseca - Vatican News

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Assista:

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Os apelos do Papa
e o anúncio de uma nova exortação apostólica

Aos 20 mil fiéis e peregrinos na Praça São Pedro, o Papa apresentou seus apelos após a oração do Angelus. Francisco recordou os desabrigados que fugiram da região do Cáucaso para a Armênia e afirmou que eles estão no centro de seus pensamentos. O Santo Padre pediu pelas vítimas do acidente de Stepanakert, pela paz na Ucrânia, pelas missões e pelo próximo Sínodo, e também anunciou a publicação de uma exortação apostólica sobre a mensagem de Santa Teresinha do Menino Jesus.

A tragédia humanitária em curso em Nagorno-Karabakh, onde mais de 100.000 habitantes foram forçados a fugir para a Armênia por causa da guerra, está no centro dos pensamentos do Papa Francisco, que após a oração do Angelus renovou seu apelo por um diálogo entre o Azerbaijão e a Armênia: "estou acompanhando nestes dias a dramática situação dos deslocados em Nagorno-Karabakn", disse o pontífice, "e esperando que as conversações entre as partes, com o apoio da comunidade internacional, favoreçam um acordo duradouro que ponha fim à crise humanitária".

O auxílio da ONU 

De acordo com a Cruz Vermelha, são necessários cerca de 22 milhões de dólares para ajudar as pessoas em fuga, e uma missão da ONU acaba de chegar à região para avaliar as necessidades humanitárias da população, segundo um porta-voz da presidência do Azerbaijão. Essa é a primeira vez em 30 anos que a mais alta instituição internacional consegue ter acesso à região.

Uma oração pela paz na atormentada Ucrânia

Francisco também assegurou suas orações pelas vítimas da explosão do depósito de combustível, que na segunda-feira matou 170 pessoas perto de Stepanakert, a principal cidade da República de Artsakh. O Papa também reforçou seu pedido pela paz "na martirizada Ucrânia e em todas as terras feridas pela guerra".

Outubro, mês do Rosário e das missões

Hoje, no início do mês, o Papa lembrou que outubro é o mês do Rosário e das missões. "Peço a todos que experimentem a beleza de rezar o Rosário, contemplando com Maria os mistérios de Cristo e invocando sua intercessão pelas necessidades da Igreja e do mundo". Francisco também pediu que rezemos pela evangelização dos povos e pelo Sínodo dos Bispos, "que neste mês realizará sua primeira Assembleia sobre o tema da sinodalidade da Igreja".

Em 15 de outubro, a exortação apostólica sobre Santa Teresinha

Depois de destacar a beatificação, que aconteceu ontem (30 de setembro), em Piacenza, do Padre Giuseppe Beotti, morto por ódio à fé em 1944, "pastor segundo o coração de Cristo" e que "não hesitou em oferecer a vida para proteger o rebanho que lhe foi confiado", o Santo Padre recordou Santa Teresa do Menino Jesus, Santa Teresinha, que é celebrada neste 1º de outubro.

O Papa disse que ela é "a santa da confiança". E anunciou que uma Exortação Apostólica sobre a mensagem de Santa Teresinha, será publicada no próximo dia 15 de outubro. "Oremos a Santa Teresinha para que nos ajude a ter confiança e a trabalhar para as missões", concluiu. 

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O Papa e as crianças de todo o mundo juntos
no dia 06 de novembro

No final do Angelus, Francisco anunciou uma iniciativa "Aprendamos com as crianças", que será realizada na Sala Paulo VI, e promovida pelo Dicastério para a Cultura e a Educação. Uma oportunidade, explica Francisco, de "voltar a ter sentimentos puros como crianças".

Cinco crianças, representando os cinco continentes, acompanharam o Papa Francisco durante a oração do Angelus deste domingo (01). Diante dos muitos fiéis que as observavam, o Papa anunciou uma iniciativa que será realizada na tarde de 6 de novembro, na Sala Paulo VI, com o tema: "Aprendamos com as crianças", um evento organizado pelo Dicastério para a Cultura e a Educação.

"Um encontro para manifestar o sonho de todos nós: voltar a ter sentimentos puros como as crianças. Porque aquele que é puro como uma criança pertence ao Reino de Deus. As crianças nos ensinam a clareza dos relacionamentos, o acolhimento espontâneo de estranhos e o respeito por toda a Criação. Queridas crianças e todos vocês, estou esperando para aprender com vocês também", disse Francisco. 

As crianças que acompanharam o Pontífice são: Pamela, de 7 anos, que veio da Síria; Grigoryi, também de 7 anos, que veio da Ucrânia, o país devastado pela guerra, que está no coração do Papa. Alessio, de 10 anos, proveniente de Benin; Alejandro, de 7 anos, da Guatemala e, por fim, Tomas, de 9 anos, da Austrália.

Eles representam mais de 6.000 meninos e meninas de várias partes do mundo. A iniciativa também será promovida pela comunidade de Sant'Egidio, pela Cooperativa Auxilium e pela Federação Giuoco Calcio.

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Reflexão que nos questiona:

O risco de instalar-nos na religião

José Antonio Pagola

Não são poucos os cristãos que acabam por instalar-se comodamente em sua fé, sem que sua vida se veja afetada. Poderíamos dizer que sua fé é um acréscimo, não algo nuclear que anima seu viver diário.

Quantas vezes a vida dos cristãos fica como que cortada em duas. Agem, organizam-se e vivem como todos os outros ao longo dos dias, e no domingo dedicam um certo tempo para prestar culto a um Deus que está ausente de suas vidas no resto da semana.

Cristãos que se desdobram e mudam de personalidade, segundo se ajoelhem para rezar a Deus ou se entreguem a suas ocupações diárias. Deus não penetra em sua vida familiar, em seu trabalho, em suas relações sociais, em seus projetos ou interesses. Desta forma, a fé se converte num costume, num reflexo, num “relaxamento semanal”, como diria Jean Onimus, e, em qualquer caso, numa prudente medida de segurança para esse futuro que talvez exista depois da morte.

Todos nós devemos perguntar-nos com sinceridade o que significa realmente Deus em nosso viver cotidiano. O que se opõe à verdadeira fé não é muitas vezes a incredulidade, mas a falta de coerência.

O que importa o credo que nossos lábios pronunciam, se falta depois em nossa vida um mínimo esforço de seguimento sincero de Jesus? O que importa – diz-nos Jesus em sua parábola – que um filho diga a seu pai que vai trabalhar na vinha, se depois na realidade não o faz? As palavras, por mais belas que sejam, não deixam de ser palavras.

Não reduzimos muitas vezes nossa fé a palavras, ideias ou sentimentos? Não esquecemos quase sempre que a fé verdadeira deve dar um significado novo e uma orientação diferente a todo o comportamento da pessoa? Nós cristãos não deveríamos ignorar que, na realidade, não cremos o que dizemos com os lábios, mas o que expressamos com nossa vida inteira.

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JOSÉ ANTONIO PAGOLA cursou Teologia e Ciências Bíblicas na Pontifícia Universidade Gregoriana, no Pontifício Instituto Bíblico de Roma e na Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. É autor de diversas obras de teologia, pastoral e cristologia. Atualmente é diretor do Instituto de Teologia e Pastoral de São Sebastião. Este comentário é do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, da Editora Vozes.
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