Continente cheio de contradições e esperanças
A longa viagem pela América Latina do Sucessor de Pedro, que foi missionário no Peru
Andrea Tornielli
O Papa Leão
retorna a casa. Ele retorna ao Continente onde, por mais de vinte anos, prestou
serviço, primeiro como missionário e depois como bispo. O Peru, última e mais
longa etapa da peregrinação apostólica que terá início nas próximas horas e que
o levará primeiro ao Uruguai e à Argentina, não é o país natal de Robert
Francis Prevost, o primeiro Pontífice nascido nos Estados Unidos. Mas pode ser
considerado uma segunda pátria, uma pátria do coração, como demonstraram as
primeiras palavras proferidas por Leão XIV poucos minutos após a eleição,
quando, ao aparecer na sacada central da Basílica de São Pedro, saudou a
multidão e os fiéis conectados do mundo inteiro, primeiro em italiano – como
convém ao Bispo de Roma – e depois em espanhol, para dirigir uma saudação
especial “à minha querida diocese de Chiclayo, no Peru, onde um povo fiel
acompanhou seu bispo, compartilhou sua fé e deu muito, muito mesmo, para
continuar sendo a Igreja fiel de Jesus Cristo”. Nesse sentido, a etapa peruana
representa um retorno a casa, para relembrar um vínculo que nunca se rompeu
entre um bispo missionário “com cheiro das ovelhas” e seu povo. Que o Papa
desse tanta importância a essa viagem ficou evidente também nos dias de sua
recente internação no Policlínico Gemelli. Será, portanto, uma imersão na
memória, um retorno a casa revigorante, apesar do cansaço de uma viagem de doze
dias com treze voos de avião e dois de helicóptero.
No entanto,
seria redutivo explicar ou interpretar a viagem apenas com base nessas
categorias: não se trata, de fato, de uma peregrinação “patriótica”. Em
primeiro lugar, porque o Papa Leão visitará outros dois países, caracterizados
por problemas e situações tanto comuns quanto diferentes entre si. E também
porque a interpretação do retorno a casa não deve correr o risco de colocar em
segundo plano as mensagens que o Pontífice vem trazer a essas terras:
sobretudo, confirmar na fé o povo cristão que ali habita, relançando uma missão
evangelizadora baseada na proximidade, na ternura, na partilha, no apoio aos
mais pobres e no compromisso de construir juntos uma sociedade mais justa. Com
aquele estilo que ele tinha quando era bispo, como aconteceu durante a Covid,
quando, como administrador apostólico de Callao, organizou uma rede de
solidariedade e distribuição de alimentos, água e remédios para todos os
moradores e trabalhadores informais que, devido às restrições, estavam
confinados em casa sem dinheiro nem comida. As pessoas ainda se lembram dessas
ajudas como uma “resposta de Deus” às suas súplicas.
No Uruguai, Leão
se deparará com um dos países “mais europeus” da América Latina, caracterizado
por uma longa história de estabilidade e democracia, mas também por um laicismo
nem sempre aberto ao papel positivo e público das religiões, onde, há um ano, foi
aprovada uma lei sobre a eutanásia. Na Argentina, terra natal de Francisco, o
qual não voltou mais ao país após a eleição de 2013, o Papa encontrará uma
sociedade fortemente polarizada e importantes desafios sociais. Características
de um continente onde persiste a pobreza e uma grande distância entre poucos
ricos e muitos pobres. Leão XIV falará de justiça segundo a Doutrina Social da
Igreja, não para se opor a este ou aquele governo - o Sucessor de Pedro não age
como político -, mas para convidar à unidade contra a polarização e à
construção de uma sociedade mais justa e inclusiva. Uma sociedade que leve em
conta as necessidades dos menos favorecidos ou daqueles que vivem nas
periferias extremas, como os povos amazônicos que se sentem abandonados, mas receberão
a visita do Pontífice na etapa de Pucallpa.
A essência da
mensagem que Leão vem trazer à América Latina é bem resumida pelos três lemas
escolhidos para as três etapas: “Anuncio-vos uma grande alegria” para o
Uruguai; “Todos são bem-vindos. Ide e anunciai” na Argentina; “Abramos o
coração” no Peru. Um apelo à fé e à missão evangelizadora, para promover a
unidade e o encontro. Nos próximos dias, será central valorizar os tesouros
ocultos desses países: os muitos santos e beatos que inculturaram a mensagem de
Cristo nos diversos contextos e a devoção popular, que desempenha um papel
fundamental na experiência de fé dos povos latino-americanos.
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