proteger a vida e promover a paz, que não é equilíbrio de forças
Leão XIV, no
primeiro discurso no Palácio do Eliseu em Paris, recordou uma França iluminada
pelo patrimônio cultural e religioso, mas também exortou as consciências sobre
o respeito à dignidade humana, aos direitos e às liberdades das pessoas,
independentemente das origens. Insistiu no tema da proteção à vida, diante dos
desvios atuais da sociedade, e exortou o país a continuar sendo "artífice
incansável da paz", especialmente "no interior da nossa querida
Europa" para que o mundo tenha vida.
O Papa Leão XIV
pronunciou o primeiro discurso da viagem apostólica à França na manhã desta
sexta-feira (25/09), primeiro dos quatro dias no país, que além de Paris, ainda
terá etapas em Lourdes e Metz. No Palácio do Eliseu, sede da Presidência da
República, o Pontífice encontrou autoridades políticas e religiosas,
representantes da sociedade civil, da cultura e do corpo diplomático. Leão se
pronunciou logo após o presidente do país, Emmanuel Macron, na Salle des fêtes.
Leia a íntegra do discurso do Papa Leão XIV
| O Papa Leão XIV durante discurso na "Salla des fêtes", no Palácio do Eliseu |
A França e os
brilhos da Cidade-Luz
Logo no início
do discurso, o Papa agradeceu o convite feito pelo presidente Macron para
visitar o país, feito em audiência no Vaticano, quando foi recebido em 10 de
abril deste ano. Junto às saudações oficiais, também recordou o povo francês,
formado por uma "diversidade de origens" que ajuda a "enriquecer
a convivência e a vida democrática" em um país que é "patrimônio
cultural e religioso". Um povo que também faz parte das origens familiares
do Papa, bem recordadas por Leão, ao citar as raízes nas regiões francesas da
Normandia e de Béarn.
Ao se direcionar
à sua quinta viagem apostólica, o Papa salientou que parte da própria capital
da França, Paris, "frequentemente designada como a
Cidade-Luz" de um país que "brilha como um farol cultural,
artístico e espiritual, não só na Europa, mas em todo o mundo". O país
"contribuiu para formar a inteligência dos povos, muito além das suas
fronteiras", para "o bem da humanidade, desde que estejam orientadas
para a busca do belo, do bem e do verdadeiro, para que o mundo tenha
vida". O savoir-faire, disse o Papa, o "saber fazer", é
sinônimo de excelência em muitas áreas, como aconteceu com a grande obra de
restauro da Catedral de Notre-Dame de Paris. A recente reabertura "não é
apenas o coroamento de uma proeza técnica", mas testemunho "de
unidade alcançada por meio do esforço comum", que serve de inspiração,
disse o Papa, para agentes da vida política, social e religiosa do país.
O respeito à
dignidade humana, aos direitos e liberdades
A França é
também uma terra com ricas raízes cristãs, continuou o Papa em discurso, do
humanismo, dos pensadores do Renascimento e do Iluminismo que, a partir do
país, proporcionaram ao mundo várias conquistas como "o reconhecimento dos
direitos humanos inscritos na natureza da própria pessoa, em particular a
liberdade religiosa. Esta atenção permanente à dignidade inerente a toda a
pessoa humana encontra eco no vosso lema nacional: liberdade, igualdade e
fraternidade". Em Paris, por exemplo, foi proclamada a Declaração
Universal dos Direitos do Homem para "criar uma consciência geral da
dignidade inalienável da pessoa humana".
A questão do
respeito da dignidade humana e dos direitos e liberdades fundamentais
"deve acompanhar a evolução da sociedade e o progresso técnico". O
Papa justificou assim a razão pela qual tratou da Inteligênia Artificial na sua
primeira Carta Encíclica, a Magnifica humanitas, já que o progresso, sem
responsabilidade e "quando não orientado para o bem é capaz de causar
danos":
"Para não perdermos a nossa humanidade no meio do 'paraíso das máquinas', que invade e condiciona o nosso quotidiano, é urgente formar os espíritos para um discernimento ético, capaz de distinguir o que é moralmente bom. Esta exigência é fundamental para reconhecer o verdadeiro bem que faz o homem crescer de acordo com a sua vocação primordial, no respeito incondicional pela sua liberdade interior e pela sua dignidade sagrada."
Diálogo urgente
na França para proteger a diversidade
Uma sociedade
livre, continuou o Papa, "não impõe a uniformidade, mas protege a
diversidade de consciências". Esse diálogo "é ainda mais urgente no
contexto da França de hoje, onde pessoas de diferentes origens culturais e
religiosas são chamadas a viver juntas e a dar o seu contributo para a
construção da sociedade". Pela atenção à riqueza do tecido social e à
solidariedade, a própria Igreja no país "nunca deixou de agir em prol dos
mais desfavorecidos, tornando-se o rosto vivo da ternura e da compaixão de
Deus. São testemunhos de "uma autêntica escola de humanidade sobre a
grandeza do cuidado e um apelo comovente para o valor único e insubstituível de
cada ser humano":
"São também um convite a uma fraternidade renovada, pois exige que aprendamos a acolher a vida incondicionalmente, a amparar a fragilidade com ternura, a acompanhar com respeito e confiança mútua cada etapa da existência e a defender com coragem e compaixão aqueles que não têm voz ou que não se sentem suficientemente apoiados. É por isso que reafirmo «com veemência que a salvaguarda do direito à vida constitui o fundamento imprescindível de todos os outros direitos humanos»"
A proteção à
vida é responsabilidade de todos
O Papa insistiu
sobre a proteção à vida no discurso às autoridades, alertando sobre "a
tentação de esperar da ciência solução e conforto para todos os nossos
sofrimentos". As soluções imediatas são um risco enorme para se desviar do
bem, afirmou Leão XIV, ao acrescentar:
“Por vezes, constato com preocupação os desvios atuais das sociedades, que correm o risco de deturpar a ciência e a tecnologia, transformando-as em empreendimentos lucrativos que favorecem as manipulações genéticas, a maternidade de substituição, o tráfico de órgãos ou a oferta de uma morte programada. Não esqueçamos que o respeito mútuo e a proteção da vida de uma só pessoa são uma responsabilidade de todos e de cada um, que começa com uma conversão da inteligência e do coração e que exige um compromisso real e desinteressado para com os nossos irmãos e irmãs.”
A laicidade não
é ameaça
O discurso do
Pontífice, então, também seguiu para a importância de se respeitar também a
laicidade, que "não exclui a dimensão religiosa, mas, pelo contrário, sabe
valorizá-la como um recurso educativo". Leão XIV citou o exemplo das
escolas católicas presentes na França, que ajudam a dialogar e a respeitar
dentro da sociedade:
"Uma correta laicidade não consiste, portanto, em excluir a religião do espaço público ou do ensino, mas em trabalhar em prol do diálogo entre o Estado e as instituições religiosas, para que unam forças ao serviço do bem comum, para que o mundo tenha vida."
| O presidente da França, Emmanuel Macron, no encontro no Palácio do Eliseu |
Uma paz
desarmada e desarmante também pela França
O Papa, ao citar
o lema da viagem ao país, "Para que o mundo tenha vida", insistiu
sobre o respeito ao próximo e a serví-lo com dignidade, "independentemente
da sua origem", constitui um contributo valioso para o diálogo entre
os povos, para a defesa dos direitos das pessoas, bem como ao serviço da
paz. E mesmo à distância, já que Leão citou diferentes colaborações a partir da
França e da sua Igreja que prestam apoio às populações mais vulneráveis do
Oriente Médio. Ao falar daquela região de conflitos, o Pontífice lembrou dos
"atormentados pelo flagelo da guerra":
"Não podemos permanecer indiferentes perante tais sofrimentos, que ferem a dignidade humana e clamam justiça a Deus. A gravidade destas situações deve interpelar-nos, convidando cada um, onde quer que se encontre, a uma verdadeira conversão do coração e a uma mudança de atitude. É reconhecendo humildemente a necessidade que temos uns dos outros que juntos poderemos empenhar-nos ainda mais na construção da civilização do amor no meio do mundo, que se tornou tão complexo e interdependente."
| A saudação entre Leão XIV e Emmanuel Macron na "Salle des fêtes" |
Ao citar o
pensamento do seu predecessor João XXIII, Leão XIV exortou novamente
que "se pare com essa corrida ao poderio militar", que
"sejam banidas as armas atômicas; e, finalmente, que se chegue a um acordo
para a gradual diminuição dos armamentos, na base de garantias mútuas e
eficazes". A posse de armas nucleares, observou o Pontífice, não é
garantia de segurança: "na verdade, a paz não é um equilíbrio de forças,
mas constrói-se dia a dia com o diálogo e a justiça". Não é para se
resignar à perspectiva de uma guerra, considerando-a “inevitável”, disse o
Papa, mas a promover incansavelmente o diálogo e a diplomacia:
“Perante os rumores de guerra e as crises multifacetadas que abalam o nosso mundo, a França tem a vocação de continuar a ser uma artífice incansável da paz e do multilateralismo, especialmente no interior da nossa querida Europa. Possa a França, fiel aos seus valores, abrir caminho para uma paz desarmada e desarmante, e oferecer, com responsabilidade, o seu contributo insubstituível em prol da paz; que a sua liberdade cresça incessantemente no cuidado pelo bem comum; que a sua fraternidade abrace toda a humanidade; e que a igualdade a que aspiram se baseie sempre nos alicerces da justiça e da caridade, sem suprimir as diferenças entre as pessoas, mas fazendo-as frutificar harmoniosamente em benefício de toda a sociedade.”
| No Palácio do Eliseu, Leão XIV pronunciou o primeiro discurso da viagem de 4 dias à França |
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Assista:
Andressa Collet - Vatican News
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