No final de tudo, uma festa de casamento
Um dos inimigos
mais insidiosos e difusos da fé, mais temível que o ateísmo e a oposição aberta
é a indiferença. (Luciano Manicardi)
| Almoço do Papa com pessoas pobres |
Neste período do
tempo litúrgico, eis-nos ouvindo parábolas recolhidas pelo evangelista Mateus.
Algumas são claras e meridianas. Outras requerem amplo e profundo conhecimento
da história do Povo de Israel para serem corretamente compreendidas. A historieta
da vez fala da festa de casamento do filho do rei. O rei quer ver a sala cheia.
Trata-se da convocação para um banquete final.
O que está por
detrás da imagem do banquete? Reunião de pessoas que se estimam e fazem juntas
uma refeição diferente, festiva. Para descrever e dar ideia do final, Jesus
fala de uma imensa mesa de refeição: júbilo pelo encontro, uns perto dos
outros, a alegria do vinho, o convívio carinhoso. Um final feliz.
De início, uma
nota negativa. Deus, o belo, o generoso, o amor quer reunir homens e mulheres
em torno de si. Ele os convoca por meio de seus enviados. Os empregados voltam
dizendo que as pessoas não aceitaram o convite. Que se repita o convite, afinal
contas os animais cevados já foram abatidos. A comida está pronta. Que venham à
festa do amor daquele que a todos ama e sonha com o banquete. Nada de
respostas: um foi para o campo, outro para seus negócios. Pior ainda: houve os
que mataram os enviados do rei. Mortos são os profetas…os mensageiros do Amor.
O Senhor tem
seus caminhos para chegar ao coração das pessoas. Há momentos em que o apelo
acontece quando o coração do homem experimenta um vazio. Outras vezes no meio
de uma alegria incontida. Outras vezes ainda numa viagem feita ao silêncio ou
depois de sair de uma terrível tempestade. Ele tem seus caminhos. Chama-nos
também pelos profetas de hoje e pelos sinais dos tempos.
Tudo indica que
a porta está aberta para a festa do amor quando há uma sede que não se consegue
dessedentar. Os autores de espiritualidade costumam lembrar que as respostas ao
convite à intimidade e o labor evangelizador acontece quando o homem tem o coração
contrito. Seres sequiosos de ventura, mas conscientes de suas incoerências.
Estes balbuciam baixinho: “Olha Senhor para a fragilidade de teu amigo”. Nesses
seres sinceros a Palavra produz seus frutos. É o começo da festa.
O desgosto do
rei foi tão grande em ver a sala vazia que mandou que seus mensageiros
convidassem todos os que encontrassem. Forçassem a entrar na sala. Talvez
aqueles que nunca frequentaram religiões e templos, os que não tinham muito
valor aos olhos de ninguém. Gente solta no espaço.
Sempre
entusiasmante e ao mesmo tempo desafiador é o trabalho evangelizar, de chamar
homens e mulheres para a sala do banquete. Se o Senhor não fizer seu trabalho
em muitos corações nada acontece. Chamamos a atenção para alguns obstáculos. Há
os que não quiseram, simplesmente porque não quiseram. Não basta que as pessoas
sejam convidadas, mas é preciso corresponder por sua vontade ao serviço do
chamamento. Há a negligência e a superficialidade, de quem não estima, não dá
valor ao dom oferecido ou proposto. A pessoa fecha-se em seus afazeres e a vida
passa. A parábola fala de pessoas que chegaram a matar os que lhe trouxeram o
convite em mãos.
“Um dos inimigos
mais insidiosos e difusos na fé, mais temível mesmo que o ateísmo e a oposição
aberta, é a indiferença”. Não dar peso algum ao convite, preferir a rotina
cotidiana, seus negócios, seus interesses. O grave é que esta indiferença deixa
o que crê numa crise aguda porque denota que para ele a vida de fé é
irrelevante e insignificante. Seriam, em parte, os mornos de que fala o
Apocalipse.
Pode ser que
muitos de nós tenhamos sido chamados e aceito o convite, mas circulemos nos
espaços da sala do banquete sem a veste nupcial, quer dizer, não basta apenas
ser chamado. O convite é gratuito, mas é preciso correspondência ao dom ao
longo da vida. Deixar que a graça atue.
Fidelidade,
reconhecimento, vontade de sempre começar tudo de novo.
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Oração
Quando meu pecado me desanimar,ajuda-me a crer que tu não deixas nuncade semear no barro de minha mediocridade.Quando o sofrimento me deixar sem forças,ajuda-me a crer que tu estás semeando em mimuma secreta fecundidade.Quando a morte próxima me causar medo,ajuda-me a crer que o grão que morre é sementede uma espiga dourada.Quando a desgraça dos oprimidos me entristecerajuda-me a crer que nosso amor solidárioé semente de justiça e liberdade.Quando eu vir teus servidores infiéis à nossa missão,ajuda-me a crer Tu semeiasno coração de nossas contradições. (Inspirado em Michel Hubaut)
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FREI ALMIR GUIMARÃES, OFM, ingressou na Ordem Franciscana em 1958. Estudou catequese e pastoral no Institut Catholique de Paris, a partir de 1966, período em que fez licenciatura em Teologia. Em 1974, voltou a Paris para se doutorar em Teologia. Tem diversas obras sobre espiritualidade, sobretudo na área da Pastoral familiar. É o editor da Revista “Grande Sinal”.
_______________________________________________________________________________ Fonte: franciscanos.org.br Imagem: vaticannews.va
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