sábado, 10 de outubro de 2026

Reflexão do frei Almir Guimarães para o seu sábado:

No final de tudo, uma festa de casamento

Um dos inimigos mais insidiosos e difusos da fé, mais temível que o ateísmo e a oposição aberta é a indiferença. (Luciano Manicardi)

Almoço do Papa com pessoas pobres

Neste período do tempo litúrgico, eis-nos ouvindo parábolas recolhidas pelo evangelista Mateus. Algumas são claras e meridianas. Outras requerem amplo e profundo conhecimento da história do Povo de Israel para serem corretamente compreendidas. A historieta da vez fala da festa de casamento do filho do rei. O rei quer ver a sala cheia. Trata-se da convocação para um banquete final.

O que está por detrás da imagem do banquete? Reunião de pessoas que se estimam e fazem juntas uma refeição diferente, festiva. Para descrever e dar ideia do final, Jesus fala de uma imensa mesa de refeição: júbilo pelo encontro, uns perto dos outros, a alegria do vinho, o convívio carinhoso. Um final feliz.

De início, uma nota negativa. Deus, o belo, o generoso, o amor quer reunir homens e mulheres em torno de si. Ele os convoca por meio de seus enviados. Os empregados voltam dizendo que as pessoas não aceitaram o convite. Que se repita o convite, afinal contas os animais cevados já foram abatidos. A comida está pronta. Que venham à festa do amor daquele que a todos ama e sonha com o banquete. Nada de respostas: um foi para o campo, outro para seus negócios. Pior ainda: houve os que mataram os enviados do rei. Mortos são os profetas…os mensageiros do Amor.

O Senhor tem seus caminhos para chegar ao coração das pessoas. Há momentos em que o apelo acontece quando o coração do homem experimenta um vazio. Outras vezes no meio de uma alegria incontida. Outras vezes ainda numa viagem feita ao silêncio ou depois de sair de uma terrível tempestade. Ele tem seus caminhos. Chama-nos também pelos profetas de hoje e pelos sinais dos tempos.

Tudo indica que a porta está aberta para a festa do amor quando há uma sede que não se consegue dessedentar. Os autores de espiritualidade costumam lembrar que as respostas ao convite à intimidade e o labor evangelizador acontece quando o homem tem o coração contrito. Seres sequiosos de ventura, mas conscientes de suas incoerências. Estes balbuciam baixinho: “Olha Senhor para a fragilidade de teu amigo”. Nesses seres sinceros a Palavra produz seus frutos. É o começo da festa.

O desgosto do rei foi tão grande em ver a sala vazia que mandou que seus mensageiros convidassem todos os que encontrassem. Forçassem a entrar na sala. Talvez aqueles que nunca frequentaram religiões e templos, os que não tinham muito valor aos olhos de ninguém. Gente solta no espaço.

Sempre entusiasmante e ao mesmo tempo desafiador é o trabalho evangelizar, de chamar homens e mulheres para a sala do banquete. Se o Senhor não fizer seu trabalho em muitos corações nada acontece. Chamamos a atenção para alguns obstáculos. Há os que não quiseram, simplesmente porque não quiseram. Não basta que as pessoas sejam convidadas, mas é preciso corresponder por sua vontade ao serviço do chamamento. Há a negligência e a superficialidade, de quem não estima, não dá valor ao dom oferecido ou proposto. A pessoa fecha-se em seus afazeres e a vida passa. A parábola fala de pessoas que chegaram a matar os que lhe trouxeram o convite em mãos.

“Um dos inimigos mais insidiosos e difusos na fé, mais temível mesmo que o ateísmo e a oposição aberta, é a indiferença”. Não dar peso algum ao convite, preferir a rotina cotidiana, seus negócios, seus interesses. O grave é que esta indiferença deixa o que crê numa crise aguda porque denota que para ele a vida de fé é irrelevante e insignificante. Seriam, em parte, os mornos de que fala o Apocalipse.

Pode ser que muitos de nós tenhamos sido chamados e aceito o convite, mas circulemos nos espaços da sala do banquete sem a veste nupcial, quer dizer, não basta apenas ser chamado. O convite é gratuito, mas é preciso correspondência ao dom ao longo da vida. Deixar que a graça atue.

Fidelidade, reconhecimento, vontade de sempre começar tudo de novo.

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Oração

Quando meu pecado me desanimar,
ajuda-me a crer que tu não deixas nunca
de semear no barro de minha mediocridade.
Quando o sofrimento me deixar sem forças,
ajuda-me a crer que tu estás semeando em mim
uma secreta fecundidade.
Quando a morte próxima me causar medo,
ajuda-me a crer que o grão que morre é semente
de uma espiga dourada.
Quando a desgraça dos oprimidos me entristecer
ajuda-me a crer que nosso amor solidário
é semente de justiça e liberdade.
Quando eu vir teus servidores infiéis à nossa missão,
ajuda-me a crer Tu semeias
no coração de nossas contradições. (Inspirado em Michel Hubaut)

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FREI ALMIR GUIMARÃES, OFM, ingressou na Ordem Franciscana em 1958. Estudou catequese e pastoral no Institut Catholique de Paris, a partir de 1966, período em que fez licenciatura em Teologia. Em 1974, voltou a Paris para se doutorar em Teologia. Tem diversas obras sobre espiritualidade, sobretudo na área da Pastoral familiar. É o editor da Revista “Grande Sinal”.

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