O convite ao
banquete da vida
Dom Antonio Carlos Rossi Keller - Bispo de Frederico Westphalen (RS)
A liturgia do
18.º Domingo do Tempo Comum, no Ano A, coloca-nos diante de um dos temas mais
centrais da fé cristã: o convite gratuito de Deus para o banquete da vida
plena. As leituras formam um conjunto harmonioso que nos fala de fome e de
fartura, de sede e de água viva, de solidão e de comunhão, de ameaças e de um
amor que nada pode vencer.
A primeira
leitura, tirada do final do “Livro da Consolação” de Isaías (caps. 40-55),
ressoa como um grito de esperança dirigido aos exilados da Babilônia. “Todos
vós que tendes sede, vinde à nascente das águas… Vinde e comprai, sem dinheiro
e sem despesa, vinho e leite.” Deus não se dirige apenas aos que têm recursos;
dirige-se especialmente aos que não têm nada. O convite é gratuito. O profeta
interroga o povo: “Porque gastais o vosso dinheiro naquilo que não alimenta e o
vosso trabalho naquilo que não sacia?” A pergunta permanece atual. Quantas
vezes gastamos tempo, energia e vida atrás de coisas que não matam a nossa sede
mais profunda? Isaías anuncia uma aliança eterna, fundada nas “graças
prometidas a David”. Trata-se de um novo êxodo: sair da terra da escravidão (a
Babilônia, mas também as nossas escravidões interiores) e dirigir-se à
Jerusalém nova, onde Deus prepara a mesa da vida abundante.
O Salmo
responsorial (Sl 144/145) responde a este convite com confiança serena: “Abris,
Senhor, as vossas mãos e saciais a nossa fome.” O Senhor é clemente e
compassivo; todos têm os olhos postos n’Ele e, a seu tempo, recebem o alimento.
A imagem das mãos abertas de Deus é profundamente consoladora. Não se trata de
um Deus distante ou exigente, mas de um Pai que se inclina para saciar
generosamente toda a criação.
A segunda
leitura, de Romanos 8, eleva o olhar para a dimensão mais radical desta
certeza. Paulo pergunta com força retórica: “Quem poderá separar-nos do amor de
Cristo?” Enumera depois as realidades mais temíveis — tribulação, angústia,
perseguição, fome, nudez, perigo, espada — e conclui que, em tudo isto, “somos
vencedores, graças Àquele que nos amou”. Nem a morte nem a vida, nem anjos nem
potestades, nem o presente nem o futuro poderão separar-nos do amor de Deus
manifestado em Cristo Jesus. Esta página é um hino à segurança absoluta do
cristão. O amor de Deus não é um sentimento passageiro; é a força mais real e
definitiva da história. Por isso o crente pode enfrentar as dificuldades sem
medo de ser abandonado.
O Evangelho traz
este mistério para o concreto da vida de Jesus. Depois de saber da morte de
João Batista, Jesus retira-se para um lugar deserto. Mas as multidões
seguem-no. Ao desembarcar, “viu uma grande multidão e, cheio de compaixão,
curou os seus doentes”. Quando chega a tarde, os discípulos sugerem que se
despeça a gente para irem comprar comida. Jesus responde: “Dai-lhes vós de
comer.” Eles apresentam o pouco que têm: cinco pães e dois peixes. Jesus
toma-os, ergue os olhos ao céu, pronuncia a bênção, parte e dá aos discípulos,
que os distribuem. Todos comem e ficam saciados; sobram doze cestos.
Este milagre é, ao mesmo tempo, sinal e antecipação. Jesus revela-se como o novo Moisés que alimenta o povo no deserto, mas sobretudo como Aquele que oferece o verdadeiro pão que desce do céu. A multiplicação dos pães prefigura a Eucaristia: o gesto de tomar, benzer, partir e dar é o mesmo que Jesus fará na Última Ceia. Na Eucaristia, o pouco que somos e temos, quando colocado nas mãos de Cristo, torna-se abundância para a multidão. O milagre acontece não apesar da pobreza dos discípulos, mas precisamente a partir dela. A lógica do Reino é a partilha, não a acumulação.
A liturgia deste
domingo desafia-nos em vários níveis. Em primeiro lugar, convida-nos a
reconhecer a nossa fome mais profunda — a fome de sentido, de amor, de
eternidade — e a não a confundir com as fomes secundárias que o mundo tenta
saciar com miragens. Em segundo lugar, lembra-nos que Deus oferece o banquete
de graça, mas pede a nossa disponibilidade: é preciso “vir”, “escutar”,
“desinstalar-se”. Em terceiro lugar, mostra que a resposta a esta oferta passa
pela partilha. O “dai-lhes vós de comer” continua a ressoar na Igreja. A
Eucaristia que celebramos não pode ficar confinada ao templo; deve tornar-se
vida partilhada, pão partido pelos pobres, gesto de compaixão concreta.
Finalmente, a
liturgia assegura-nos que nada — absolutamente nada — pode separar-nos deste
amor que se faz pão e se faz presença. Mesmo quando a noite parece longa e os
recursos escassos, as mãos de Deus continuam abertas e o amor de Cristo
permanece vitorioso. Nesta certeza, somos convidados a sentar-nos à mesa, a
deixar-nos saciar e a tornar-nos, por nossa vez, pão para os outros.
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