Multidões que inspiram compaixão...
Frei Almir Guimarães
“Vendo Jesus as multidões, compadeceu-se delas, porque estavam cansadas e abatidas, como ovelhas que não têm pastor”.
♦ Jesus compadece-se com a multidão que tem diante de seus olhos, sem rumo, sem ninguém, sem amanhã, sem possibilidades de superar suas deficiências e carências. A cena antecede a escolha dos apóstolos. A cena de ontem, em termos de número de pessoas, era insignificante diante de tudo aquilo que assistimos em nossa aldeia global. A pandemia do coronavírus fez com as vísceras da humanidade fossem expostas. Multidões precisando sobreviver, milhares morrendo e sendo enterrados às pressas, firmas falindo, um horizonte sem claridade, pavor, o mundo com máscaras. Muitas autoridades tiveram o olhar de Jesus e foram tomando as decisões acertadas. Muitos, no dia, experimentaram compaixão… esse sofrer com…
♦ Os sem pastor são esses e muitos outros. São pessoas que perderam o gosto de viver, que não são capazes de vislumbrar a dignidade dos outros, esses que usam pessoas a seu bel-prazer. Sem pastor são os que perderam o endereço do coração e vivem na epiderme da vida, pessoas que comem, bebem, vivem com celular entre os dedos, casas de famílias que são palco de toda sorte de desrespeito. Sem pastor são os jogados à beira da estrada, a meninas bonitinhas que andam entregando seu corpo aos executivos, são os cristãos que se nutrem apenas de ritos e convenções, são os movimentos de Igreja que perderam a garra, são todos esses não vivem até o fundo a viagem da vida. Sem pastores são os que adotaram seguir o indiferentismo e alheamento dos irmãos e irmãs de destino.
♦ Compaixão tem a ver com proximidade, atenção ao que o outro vive. A pessoa compassiva sofre, padece com… aproxima-se, se possível leva o que sofre a um alívio. “O olhar de Jesus sobre a multidão é olhar de compaixão. Jesus vê o povo e de certo apercebe-se de sua pobreza, talvez mesmo da mediocridade e da miséria, vê o povo como ovelhas incapazes de se orientarem por si, vê pessoas desprovidas, mas o seu olhar não se transforma em desprezo, não origina manipulações ou aproveitamento.” (Manicardi, Comentário à Liturgia, Ano A, p. 113).
♦ Jesus dá a entender que se fazem necessário operários. Seu projeto precisa ir adiante depois de seu desaparecimento. O trabalho é ingente. Jesus chama um grupo que ele designará de enviados, de apóstolos. Dá-lhes o poder sobre o mal e de se fazerem presentes no meio da multidão sem pastores. Estavam sendo colocadas as pedras da função de uma comunidade de pessoas que deveria continuar a ter o olhar de compaixão de Jesus. Nascia a Igreja, albergue de todos os que suplicam compaixão. Os pastores assumem jubilosamente a implantação de um mundo segundo o coração de Deus.
♦ “A missão em que são enviados os doze consiste em fazer recuar o mal, em praticar o bem como o seu Senhor Jesus, em pregar o Reino narrado por Jesus na sua pessoa. Isto situa-se entre dom e responsabilidade: ‘Haveis recebido de graça, dai de graça” (Mt 10,8). A missão é evocada em sua inteireza, não como um fazer, mas como um receber e um dar. Pedir ou receber dinheiro é incompatível com a gratuidade do anúncio messiânico: seria contradizer o dom gratuito recebido” (Manicardi, supra mencionado, p. 114).
♦ Pastores, pessoas dispostas a alimentar, nutrir, cuidar. Pensamos nos bispos e nos sacerdotes. Pensamos em agentes de bondade que desenvolvem cuidados “pastorais” em prol dos mais desnutridos, dos idosos, presidiários, jovens, dos casados (pastoral sem oba-oba). Pastor, esplendorosa a vida de tantos sacerdotes: acolhida e carinhoso atendimento, tempo para escutar, tentar ao menos tentar, ir ao encalço dos grupos mais próximos do desespero. Padre, pai, colega de outros pastores que não se deixa “burocratizar”, mas seres leves e cheios do zelo do Senhor e capazes de olhar com compaixão. Compaixão tem a ver com bondade sem floreios. Seres que estão em intimidade com o supremo pastor.
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O olhar de Jesus
O olhar de Jesus estava sempre cheio de carinho, respeito e amor (…) Sofria ao ver tanta gente perdida e sem orientação. Doía-lhe o abandono em que se encontravam tantas pessoas sós, cansadas e maltratadas pela vida. Aquelas pessoas eram muito mais vítimas do que culpadas. Não precisavam ouvir mais ordens, mas conhecer uma vida mais sadia. Por isso Jesus começou um movimento novo e inconfundível. Chamou seus discípulos e deu-lhes “autoridade” não para condenar, mas “para curar toda enfermidade e sofrimento.
Na Igreja, só vamos mudar quando começarmos a olhar as pessoas como Jesus as olhava. Quando chegarmos a ver as pessoas mais como vítimas do que como culpadas, quando nos fixamos mais em seu sofrimento do que em seu pecado, quando olhar todos com menos medo e mais piedade (Pagola, Mateus, p. 115-116)

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