a caridade quaresmal
Dom Leomar
Antônio Brustolin- Arcebispo de Santa Maria (RS)
A Campanha da
Fraternidade, vivida anualmente pela Igreja no Brasil durante a Quaresma,
nasceu como um caminho pastoral que une oração, reflexão e compromisso concreto
com a vida do povo. Inspirada pelo Evangelho e pela tradição da Igreja, ela
expressa o desejo de viver a conversão cristã também em sua dimensão social e
comunitária.
Comunhão,
conversão e partilha
Desde suas
origens, a Campanha da Fraternidade assumiu três dimensões inseparáveis:
comunhão, conversão e partilha. Comunhão, porque convida toda a Igreja a
caminhar unida na busca de uma sociedade mais fraterna. Conversão, porque chama
os cristãos a se deixarem transformar pelo Evangelho, revisando
critérios, atitudes e estilos de vida. E partilha, porque a fé em Cristo não
pode permanecer apenas no plano das palavras, mas precisa traduzir-se em gestos
concretos de solidariedade.
Nesse contexto,
a Coleta Nacional da Solidariedade, realizada nas celebrações do
Domingo de Ramos, torna-se um dos sinais mais visíveis desse compromisso. Ela
não é apenas uma arrecadação financeira, mas um gesto eclesial que expressa a
responsabilidade comum de cuidar da vida e da dignidade humana. Trata-se de uma
partilha que nasce da consciência cristã e da adesão ao chamado do
Evangelho.
A Campanha da
Fraternidade surgiu, inicialmente, também como uma coleta destinada a sustentar
a ação sociocaritativa da Igreja no Brasil. Ao longo de mais de seis
décadas, essa prática permaneceu fiel à sua inspiração original. A Coleta da
Solidariedade continua sendo um gesto concreto que une comunidades, paróquias e
dioceses em todo o país.
Um gesto
concreto que transforma realidades
Do valor
arrecadado, 60% permanecem na própria (arqui)diocese, constituindo o
Fundo Diocesano de Solidariedade, destinado ao apoio de projetos sociais que
respondem às necessidades locais. Os outros 40% são destinados ao Fundo
Nacional de Solidariedade, administrado pela CNBB, que apoia iniciativas
em diversas regiões do Brasil. Dessa forma, a partilha realizada nas
comunidades transforma-se em ações concretas de promoção
humana, de cuidado com os mais vulneráveis e de defesa da
vida.
Mais do que uma
coleta, trata-se de um verdadeiro processo de formação da consciência cristã. A
Campanha da Fraternidade procura despertar o espírito comunitário, educar para
a fraternidade e renovar o compromisso dos fiéis com a construção de uma sociedade
justa e solidária.
O Concílio
Vaticano II recorda que a penitência quaresmal não deve ser apenas interior e
individual, mas também externa e social (Sacrosanctum Concilium, 110). A
Coleta da Fraternidade expressa justamente essa dimensão da conversão cristã:
reconhecer que nossa fé em Cristo nos impele a cuidar dos irmãos e irmãs,
especialmente dos mais pobres.
Assim, ao
participar desse gesto no Domingo de Ramos, os cristãos unem sua oferta ao
mistério pascal de Cristo. A partilha torna-se sinal concreto de que a Páscoa
já começa a transformar o mundo por meio da caridade, da justiça e da
solidariedade.

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