sábado, 21 de março de 2026

Reflita com frei Almir Guimarães:

Aquele que veio nos dar vida

“Lázaro,  vem para fora!”

O  homem de hoje,  como o de todas as épocas,  traz cravada em seu coração a pergunta mais inquietante e  mais difícil de responder:  o que vai ser de todos e de cada um de nós?  É inútil tentar enganar-nos. O que podemos fazer diante da morte? Rebelar-nos?  Ficar deprimido? (Pagola)

À beira do fim,  há sempre  tanta coisa que começa. (José Tolentino Mendonça)

 Estamos para terminar o tempo da Quaresma. Desde a segunda metade de fevereiro, vivenciamos um retiro espiritual que nos permite avaliar nossa caminhada  como seres humanos, como peregrinos de uma vida em plenitude e como discípulos  de Jesus. Será que a expressão “discípulos de Jesus” no diz alguma coisa?  Ou  discípulos missionários? Semana após semana  fomos e estamos nos preparando  para renovar nossas promessas batismais na  noite da vigília pascal, tradicional noite dos batismos,  da iluminação de  homens e mulheres que  quiseram e querem  nascer para Deus. A samaritana e sua sede, o cego que passa a enxergar,  a vida na ressurreição de Lázaro que hoje ouvimos.  Tudo pode  fazer nascer e alimentar  em nós o homem.

 Jesus costumava passar momentos de felicidade em casa  de  Marta, Maria e Lázaro.  Aquela casa era para ele um oásis de paz. Quando não perambulava em suas andanças, gostava de se recolher ali.  Assim,  Éloi Leclerc examina o quadro do encontro de Jesus  com a morte de seu  “amigo”:  “Jesus se sentiu  profundamente abalado com a morte repentina de Lázaro e  a dor experimentada por suas duas irmãs.  A  notícia despedaçou-lhe o coração.  E deixou  transparecer o sentimento.  Quando se encontrou  com as irmãs do amigo  morto, a sua comoção foi tal  que não pode conter as lágrimas.  Daí o comentário de alguns: “Vejam como era amigo dele”.  A  humanidade de Jesus não era uma  humanidade de fachada.

 Morte, realidade incontornável. Morte de corpos doentes, cansados e gastos. Coração sem força,  pulmões sem ar,  falência múltipla dos órgãos,  palidez.   Lá se foi o sangue.  Lá se foram as cores.  Fim de sonhos e de projetos. Realidade que nos amedronta.  Nossos tempos evitam de falar no tema.  Somos incapazes de derrotá-la.  Somos pó e ao pó  voltamos.  Mas somos pó com o sopro do Espírito.

 Morte do corpo, morte do homem velho, morte de ilusões,  morte de amizades,  morte de afetos de que andávamos precisando,  morte do  jovem que éramos,  grão que morre para dar vida.  Estamos sempre nesse processo misterioso de morte e vida.  Não sabemos  administrar a morte.  Certo  que esse desejo de vida que borbulha em nós  não pode ser ilusório.  Ficamos extasiados com a vida:  a vida da criança de bochechas rosadas,  a vida  recuperada pelo amigo,  a vida das quaresmeiras.  Quantos tipos de vida.  E há essa saudade de viver  com a Vida com vê maiúsculo.  Somos fadados a viver.

 “Jesus fixou seus olhos em Marta, aquele olhar que não se limita a pousar na superfície dos seres, mas penetra até o fundo.  Via bem como ela se sentia dilacerada e recusava violentamente a separação, e o seu desejo de uma vida isenta de morte e das consequentes rupturas.  E, para além  do desespero de Marta, via a humanidade inteira, o imenso mar  humano a soerguer-se, na sua ânsia de vida, como um vagalhão enorme  que no entanto se esboroava contra o muro intransponível da morte”.

 Jesus opera um sinal. Em estilo dramático  João descreve a cena.  Manda que tirem a pedra.  Os circunstantes advertem que o  morto já cheira mal  Jesus ergue os olhos para o Pai.  Com voz forte,  grita: “Lázaro, vem para fora!” O morto tem as mãos e os  pés atados e o rosto envolto num sudário. O morto sai.   Trata-se de um sinal que  Jesus coloca  para anunciar a vitória da  vida sobre a morte que está para acontecer  em sua ressurreição,  sua morte pascal.  Jesus havia chorado  diante do sepulcro. Não estaria ele pensando em sua próxima e violenta morte?  E derramando lágrimas por antecipação?

 Soam retumbantemente aos  nossos ouvidos  as palavras   que  Jesus dirigiu a Marta:  “Eu sou a ressurreição e vida.  Quem crê em mim,  mesmo que morra, viverá e todo aquele que vive e crê em mim não morrerá.  Crês isto,  Marta?”  Na sepultura fria ou no ato da cremação vidas desaparecem.  Os cristãos andam dizendo a todos através dos tempos que a vida não é tirada,  mas transformada. Os seres que agora sepultamos sepultamos vivem de outro modo no universo de Deus.  Com sua individualidade   continuam a viver na comunhão dos santos.  “Crês isto, Marta?”

  Esses corpos  criados à imagem e semelhança de  Deus,  corpos marcados pelo batismo  renovado ao longo de toda a vida,  apontam para a  Vida. “A vida deles é incomparavelmente mais         intensa do que a nossa. Sua alegria não tem fim. Sua capacidade de amar não conhece limites nem fronteiras.  Não vivem separados de nós, mais muito dentro de nosso ser como nunca.  Sua presença transfigurada e seu carinho nos acompanham sempre”  (Pagola).

 Recentemente, Hans Küng, o teólogo mais crítico do século XX, próximo  já de seu final, disse que, para ele, “morrer é descansar  no mistério da  misericórdia de Deus.

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Oração

Tu estás perto,   Senhor.

Estás sempre nos oferecendo  teu amor.

Perdão por nossa falta de fé. 

Respeitas nossa liberdade, caminhas conosco,

sustentas nossa vida e não nos damos conta.

Perdão pela nossa mediocridade.

Tu nos ajudas a conhecer-nos,

nos falas como a filhos,

nos animas a viver, e não te escutamos.

Perdão por nossa falta de acolhida.

Tu nos amas com ternura,

queres o melhor para nós,

e não  te agradecemos.

Perdão por nossa ingratidão.

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FREI ALMIR GUIMARÃES, OFM, ingressou na Ordem Franciscana em 1958. Estudou catequese e pastoral no Institut Catholique de Paris, a partir de 1966, período em que fez licenciatura em Teologia. Em 1974, voltou a Paris para se doutorar em Teologia. Tem diversas obras sobre espiritualidade, sobretudo na área da Pastoral familiar. É o editor da Revista “Grande Sinal”.

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