Aquele que veio nos dar vida
“Lázaro, vem para fora!”
O homem de hoje, como o de todas as épocas, traz cravada em seu coração a pergunta mais inquietante e mais difícil de responder: o que vai ser de todos e de cada um de nós? É inútil tentar enganar-nos. O que podemos fazer diante da morte? Rebelar-nos? Ficar deprimido? (Pagola)
À beira do fim, há sempre tanta coisa que começa. (José Tolentino Mendonça)
♦ Estamos para terminar o tempo da Quaresma. Desde a segunda metade de fevereiro, vivenciamos um retiro espiritual que nos permite avaliar nossa caminhada como seres humanos, como peregrinos de uma vida em plenitude e como discípulos de Jesus. Será que a expressão “discípulos de Jesus” no diz alguma coisa? Ou discípulos missionários? Semana após semana fomos e estamos nos preparando para renovar nossas promessas batismais na noite da vigília pascal, tradicional noite dos batismos, da iluminação de homens e mulheres que quiseram e querem nascer para Deus. A samaritana e sua sede, o cego que passa a enxergar, a vida na ressurreição de Lázaro que hoje ouvimos. Tudo pode fazer nascer e alimentar em nós o homem.
♦ Jesus costumava passar momentos de felicidade em casa de Marta, Maria e Lázaro. Aquela casa era para ele um oásis de paz. Quando não perambulava em suas andanças, gostava de se recolher ali. Assim, Éloi Leclerc examina o quadro do encontro de Jesus com a morte de seu “amigo”: “Jesus se sentiu profundamente abalado com a morte repentina de Lázaro e a dor experimentada por suas duas irmãs. A notícia despedaçou-lhe o coração. E deixou transparecer o sentimento. Quando se encontrou com as irmãs do amigo morto, a sua comoção foi tal que não pode conter as lágrimas. Daí o comentário de alguns: “Vejam como era amigo dele”. A humanidade de Jesus não era uma humanidade de fachada.
♦ Morte, realidade incontornável. Morte de corpos doentes, cansados e gastos. Coração sem força, pulmões sem ar, falência múltipla dos órgãos, palidez. Lá se foi o sangue. Lá se foram as cores. Fim de sonhos e de projetos. Realidade que nos amedronta. Nossos tempos evitam de falar no tema. Somos incapazes de derrotá-la. Somos pó e ao pó voltamos. Mas somos pó com o sopro do Espírito.
♦ Morte do corpo, morte do homem velho, morte de ilusões, morte de amizades, morte de afetos de que andávamos precisando, morte do jovem que éramos, grão que morre para dar vida. Estamos sempre nesse processo misterioso de morte e vida. Não sabemos administrar a morte. Certo que esse desejo de vida que borbulha em nós não pode ser ilusório. Ficamos extasiados com a vida: a vida da criança de bochechas rosadas, a vida recuperada pelo amigo, a vida das quaresmeiras. Quantos tipos de vida. E há essa saudade de viver com a Vida com vê maiúsculo. Somos fadados a viver.
♦ “Jesus fixou seus olhos em Marta, aquele olhar que não se limita a pousar na superfície dos seres, mas penetra até o fundo. Via bem como ela se sentia dilacerada e recusava violentamente a separação, e o seu desejo de uma vida isenta de morte e das consequentes rupturas. E, para além do desespero de Marta, via a humanidade inteira, o imenso mar humano a soerguer-se, na sua ânsia de vida, como um vagalhão enorme que no entanto se esboroava contra o muro intransponível da morte”.
♦ Jesus opera um sinal. Em estilo dramático João descreve a cena. Manda que tirem a pedra. Os circunstantes advertem que o morto já cheira mal Jesus ergue os olhos para o Pai. Com voz forte, grita: “Lázaro, vem para fora!” O morto tem as mãos e os pés atados e o rosto envolto num sudário. O morto sai. Trata-se de um sinal que Jesus coloca para anunciar a vitória da vida sobre a morte que está para acontecer em sua ressurreição, sua morte pascal. Jesus havia chorado diante do sepulcro. Não estaria ele pensando em sua próxima e violenta morte? E derramando lágrimas por antecipação?
♦ Soam retumbantemente aos nossos ouvidos as palavras que Jesus dirigiu a Marta: “Eu sou a ressurreição e vida. Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá e todo aquele que vive e crê em mim não morrerá. Crês isto, Marta?” Na sepultura fria ou no ato da cremação vidas desaparecem. Os cristãos andam dizendo a todos através dos tempos que a vida não é tirada, mas transformada. Os seres que agora sepultamos sepultamos vivem de outro modo no universo de Deus. Com sua individualidade continuam a viver na comunhão dos santos. “Crês isto, Marta?”
♦ Esses corpos criados à imagem e semelhança de Deus, corpos marcados pelo batismo renovado ao longo de toda a vida, apontam para a Vida. “A vida deles é incomparavelmente mais intensa do que a nossa. Sua alegria não tem fim. Sua capacidade de amar não conhece limites nem fronteiras. Não vivem separados de nós, mais muito dentro de nosso ser como nunca. Sua presença transfigurada e seu carinho nos acompanham sempre” (Pagola).
♦ Recentemente, Hans Küng, o teólogo mais crítico do século XX, próximo já de seu final, disse que, para ele, “morrer é descansar no mistério da misericórdia de Deus.
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Oração
Tu estás perto, Senhor.
Estás sempre nos oferecendo teu amor.
Perdão por nossa falta de fé.
Respeitas nossa liberdade, caminhas conosco,
sustentas nossa vida e não nos damos conta.
Perdão pela nossa mediocridade.
Tu nos ajudas a conhecer-nos,
nos falas como a filhos,
nos animas a viver, e não te escutamos.
Perdão por nossa falta de acolhida.
Tu nos amas com ternura,
queres o melhor para nós,
e não te agradecemos.
Perdão por nossa ingratidão.
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FREI ALMIR GUIMARÃES, OFM, ingressou na Ordem Franciscana em 1958. Estudou catequese e pastoral no Institut Catholique de Paris, a partir de 1966, período em que fez licenciatura em Teologia. Em 1974, voltou a Paris para se doutorar em Teologia. Tem diversas obras sobre espiritualidade, sobretudo na área da Pastoral familiar. É o editor da Revista “Grande Sinal”.
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