A graça e a responsabilidade da comunhão
estão no centro da segunda meditação da Quaresma da manhã desta sexta-feira, 13
de março, na Sala Paulo VI, na presença do Papa. O pregador da Casa Pontifícia
detém-se na intuição de São Francisco ao ver as relações interpessoais como uma
oportunidade para aprender a lógica do Evangelho: “Não estamos sozinhos e não
somos tudo – afirma ele – e quando não conseguimos fazer as pazes com essa
realidade, a presença do outro pode tornar-se insuportável”
Da arte aos modelos econômicos, diversos
campos tentaram imaginar uma harmonia universal entre os homens, deparando-se
com uma realidade que, nos dias de hoje, é marcada por divisões e conflitos que
a fazem parecer “um ideal a ser alcançado”. A fraternidade, por outro lado, é
um dom, mas também uma responsabilidade “séria e urgente”, pois recorre à
diversidade para derreter os corações e permite que cada um faça as pazes com
aquela parte de si que gostaria de fazê-lo acreditar que é único e
autossuficiente. Estas são algumas das reflexões oferecidas na manhã desta
sexta-feira, 13 de março, pelo pregador da Casa Pontifícia, padre frei Roberto
Pasolini, na Sala Paulo VI, no Vaticano, na presença do Papa Leão XIV.
A fraternidade, lugar da conversão
autêntica
O frade capuchinho desenvolve sua segunda
meditação da Quaresma, com o tema “Se alguém está em Cristo, é uma nova
criatura. A conversão ao Evangelho segundo São Francisco”, detendo-se na
fraternidade, definida como “a graça e a responsabilidade da comunhão
fraterna”.
A fraternidade não é um acessório da vida espiritual, nem apenas um contexto favorável no qual crescer mais facilmente na graça. É o lugar onde a conversão realmente se realiza: o banco de provas mais sério e, ao mesmo tempo, o sinal mais eloquente do que o Evangelho pode operar em nossa vida.
O exemplo das primeiras comunidades
franciscanas
Pasolini remete à vida das primeiras
comunidades franciscanas, que o Pobrezinho de Assis desejava sem relações de
poder ou superioridade, à semelhança das primeiras comunidades cristãs. Não um
lugar “onde se refugiar para viver em paz”, mas um espaço onde somos conduzidos
“às profundezas do próprio coração”, com suas sombras e suas inquietudes.
Os irmãos são um dom do Senhor. Mas, justamente por isso, não têm simplesmente a função de nos ajudar ou apoiar ao longo do caminho: são-nos confiados para que nossa vida possa mudar.
“Aquele que vem do mesmo ventre”
Refletindo sobre o significado etimológico
da palavra irmão, adelphós, literalmente “aquele que vem do mesmo ventre”, o
pregador da Casa Pontifícia observa como os irmãos não confirmam simplesmente
“o que somos”, mas nos chamam a uma transformação.
Em sua diversidade, em seus limites e, às vezes, até mesmo em suas fadigas, eles se tornam o espaço concreto em que Deus trabalha nossa humanidade, dissolvendo nossas rigidez e nos ensinando a viver com um coração mais verdadeiro e mais capaz de amar.
Abel e Caim, um “problema de olhar”
Uma das histórias que melhor descreve essas
resistências é a “relacionamento sofrido” entre Abel e Caim. Uma ruptura que
nasce de “um problema de olhar”, segundo o frade capuchinho. O primeiro irmão,
na história do Gênesis, oferece os primogênitos de seu rebanho – oferta que
Deus “olha com favor” –, enquanto o segundo apresenta simplesmente alguns
frutos da terra.
Não é tanto a qualidade da oferta que faz a diferença, mas o fato de que o que se oferece represente verdadeiramente a própria vida. Por isso Deus não aceita a oferta de Caim: não para condená-lo, mas para provocá-lo. Aceitar aquele gesto significaria deixá-lo na convicção de que realmente não tem nada de bom a oferecer. Deus, ao contrário, parece querer ajudá-lo a acreditar que também a sua vida pode se tornar uma oferta.
“Quem é Caim dentro de nós”
A partir desse episódio, Pasolini nos
convida a nos questionar, perguntando-nos “quem é Caim dentro de nós”: ou seja,
quanto espaço ocupa o ressentimento, que se transforma em distância e depois em
violência, no coração de cada um. Aquele rancor que nasce da constatação de que
“não estamos sozinhos” e “não somos tudo”.
Quando não conseguimos fazer as pazes com essa realidade, a presença do outro pode se tornar insuportável.
A lógica da misericórdia para com quem erra
Para São Francisco, no entanto, a
fraternidade não era um problema a ser enfrentado, mas uma oportunidade para
aprender a lógica misericordiosa do Evangelho para com o próximo que erra. Uma
dinâmica que se encontra também na breve, mas intensa, Carta a Filêmon de São
Paulo.
Nas ocasiões em que as relações se deterioram e a comunhão é ferida, o Evangelho não sugere, em primeiro lugar, defender os próprios direitos, mas buscar o bem maior e sempre possível: aquele que permite reconhecer no outro não mais um adversário ou um devedor, mas um irmão amado pelo Senhor.
Acolher em meio a feridas, decepções e
aversões
Essa realidade pode parecer distante da
vida concreta, mas torna-se tangível quando as relações se baseiam em “um
vínculo de liberdade”. Não na simpatia ou na afinidade, mas no “fato de que
Deus nos escolheu e nos chamou para viver juntos na Igreja como irmãos e
irmãs”.
A Páscoa começou a agir em nós no momento em que descobrimos que podemos acolher os outros mesmo quando nos ferem, quando nos decepcionam, quando se comportam como adversários. Não porque nos tornamos mais fortes ou mais virtuosos, mas porque algo em nós já morreu e algo novo começou a viver.
Não perder de vista o horizonte
A intuição do Pobrezinho de Assis, explica
ainda o pregador da Casa Pontifícia, é ver a conversão que brota “precisamente
daquilo que os outros nos fazem, mesmo quando nos ferem ou nos colocam à
prova”.
Isso amplia muito nosso olhar. Na vida cotidiana, as fadigas da fraternidade podem ser pesadas. As distâncias entre nós, as palavras que ferem, os mal-entendidos que permanecem em aberto podem se tornar dolorosos. Precisamente por isso, nunca devemos perder o horizonte. Quando perdemos a perspectiva da vida eterna, certas fadigas se tornam totalmente inaceitáveis.
Receber a fraternidade como dom e
responsabilidade
A fé, conclui Pasolini, não separa, mas nos
lembra que “ninguém pode ser excluído do nosso coração”. Liberados, por meio da
ressurreição de Jesus, não do cansaço das relações, mas da suspeita de que tal
esforço seja inútil.
Por isso, nestes dias da Quaresma, enquanto a história do mundo continua a ser atravessada por divisões, guerras e conflitos, nós, cristãos, não podemos nos limitar a falar de fraternidade como um ideal a ser alcançado. Somos chamados a recebê-la como um dom e, ao mesmo tempo, a assumi-la como uma responsabilidade muito séria e urgente.
Edoardo Giribaldi – Vatican News
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