o gesto concreto da solidariedade
Dom Anuar
Battisti - Arcebispo Emérito de Maringá (PR)
A liturgia
quaresmal aproxima os nossos passos da celebração do Domingo de Ramos, momento
em que toda a Igreja no Brasil realiza o gesto concreto e profético da Coleta
Nacional da Solidariedade, uma profética iniciativa da CNBB – Conferência
Nacional dos Bispos do Brasil. Esta ação conjunta coroa o nosso tempo de
penitência, jejum e oração, exigindo que a nossa vivência espiritual transborde
obrigatoriamente em obras visíveis de amor ao próximo e de transformação
social. No ano de dois mil e vinte e seis, a Campanha da Fraternidade coloca de
forma contundente diante dos nossos olhos o tema da moradia, iluminado pela
certeza bíblica de que o Verbo divino assumiu a nossa carne e “veio morar
entre nós”. O ato de partilhar os nossos bens financeiros nesta coleta
representa o reconhecimento profundo de que a habitação digna constitui o
princípio gerador da dignidade humana e o alicerce fundamental para o exercício
da cidadania plena. Quando depositamos a nossa oferta no altar durante as
celebrações, financiamos a esperança concreta e garantimos que o Fundo Nacional
de Solidariedade e os fundos diocesanos apoiem projetos reais que mudam a vida
das famílias mais vulneráveis do nosso país. A caridade cristã autêntica
repudia o egoísmo, rejeita a indiferença e abraça a responsabilidade
inegociável de cuidar daqueles que o sistema econômico exclui, silencia e
marginaliza diariamente.
As Sagradas
Escrituras revelam um Deus que não permanece distante do sofrimento humano, mas
que planta a sua tenda no meio do seu povo e assume as nossas dores. Jesus
Cristo conheceu a precariedade absoluta desde o seu primeiro suspiro, nascendo
em um abrigo improvisado e vivendo a angústia desesperadora do exílio no Egito
para fugir da fúria violenta dos poderosos. Durante o seu ministério público, o
Senhor afirmou com clareza que o Filho do Homem não possuía um lugar onde
reclinar a cabeça, assumindo de forma radical a dor de todos os desabrigados e
peregrinos da história. Hoje, os dados oficiais que embasam a nossa Campanha da
Fraternidade denunciam uma realidade brutal e inaceitável: milhões de irmãos
brasileiros sobrevivem sem o mínimo acesso ao saneamento básico, esmagados pelo
valor abusivo dos aluguéis que devoram o suor do seu trabalho, ou amontoados em
áreas de alto risco, sujeitos a desabamentos e inundações. A ausência de um lar
seguro destrói a saúde física e mental das populações, impede o desenvolvimento
adequado das nossas crianças e desestrutura completamente a convivência
pacífica familiar. O cristão que medita sobre a paixão de Cristo precisa
enxergar a continuação direta desse calvário no rosto do irmão que dorme ao
relento nas calçadas ou que teme perder o seu único e frágil abrigo na próxima
tempestade.
A missão da
Igreja, contudo, estende-se infinitamente além do recolhimento de fundos
durante a missa, por mais essenciais que esses recursos se mostrem para as
ações emergenciais e de curto prazo. O Evangelho exige que atuemos como
defensores implacáveis da justiça social junto ao poder público e a todas as
esferas governamentais. A Igreja assume o grave dever de cobrar dos governantes
a implementação de políticas habitacionais sérias, o combate rigoroso à
especulação imobiliária que encarece o solo urbano e a garantia legal da
regularização fundiária para as comunidades periféricas de baixa renda.
Nós sentamos às mesas de debate, participamos ativamente dos
conselhos de desenvolvimento urbano e levantamos a nossa voz institucional em
favor daqueles que não possuem qualquer representação política ou força
econômica. A moradia edifica a base material da cidadania, pois, sem um
endereço reconhecido pelo Estado, a pessoa encontra imensas e cruéis barreiras
para matricular os seus filhos na escola pública, para acessar o sistema de
saúde ou para conseguir uma colocação no mercado de trabalho formal. A fé
cristã impulsiona os leigos, os padres e os bispos a lutarem ativamente por
cidades mais humanas e inclusivas, onde o direito à propriedade cumpra
rigorosamente a sua função social e onde a ganância jamais se sobreponha ao
valor inestimável e sagrado da vida humana.
Exorto cada
família cristã, cada jovem, cada idoso e cada liderança viva das nossas
comunidades a participar desta Coleta da Solidariedade com extrema generosidade
e plena consciência cívica. O dinheiro que oferecemos com alegria financia a
compra de materiais de construção para os mutirões paroquiais, sustenta o
trabalho incansável das pastorais sociais que acolhem e alimentam a população
em situação de rua, e viabiliza a imprescindível assessoria técnica e jurídica
para as associações de moradores que lutam bravamente por seus direitos
habitacionais. A transparência absoluta na gestão e na prestação de contas
desses recursos atesta a seriedade do compromisso da Igreja com a transformação
real da sociedade brasileira. Não deixemos que a indiferença ou o pessimismo
endureçam os nossos corações nesta reta final e decisiva da Quaresma. Abramos
as nossas mãos sem medo para partilhar o pão, os nossos recursos e a nossa
influência, construindo pontes sólidas de solidariedade que superam o abismo
histórico da desigualdade em nosso país. Que o Espírito Santo inflame as nossas
paróquias com o fogo da caridade operosa, para que, ao celebrarmos a vitória
luminosa de Cristo sobre a morte na manhã de Páscoa, possamos também celebrar a
vitória da justiça sobre a miséria. Caminhemos sempre unidos e perseverantes,
transformando a nossa profissão de fé em moradia, dignidade e paz duradoura
para todos os filhos de Deus.

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