Habitar é existir: a casa como modo de ser no mundo
A Campanha da Fraternidade 2026, com o tema
“Fraternidade e Moradia” e o lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14),
convida-nos a refletir sobre o significado profundo do habitar humano. A
moradia não é apenas uma questão social urgente; ela toca a própria estrutura
da existência.
O filósofo alemão Martin
Heidegger (1889-1976), no ensaio Construir, Habitar, Pensar (1951),
afirma que “habitar é o modo como os mortais são sobre a terra”. Para
ele, o ser humano não simplesmente ocupa um espaço físico; ele habita. E isso
não é uma atividade entre outras, mas o modo fundamental de existir: cuidar,
preservar e permanecer.
Heidegger distingue “construir” e “habitar”
e recorda que a palavra alemã bauen (construir) está
etimologicamente ligada ao verbo “ser” (bin, bist), significando
originalmente também “habitar”. Costumamos pensar que primeiro construímos e
depois habitamos; o filósofo, porém, inverte essa lógica: construímos porque já
habitamos, construímos porque somos. O habitar é originário, e o
construir só tem sentido como expressão desse modo de ser que guarda e protege.
Assim, construir não é apenas erguer paredes, mas criar condições para uma
presença enraizada na terra.
Na perspectiva heideggeriana, habitar é
permanecer de modo atento na “quadratura” — terra, céu, mortais e divinos —
vivendo em relação respeitosa com o mundo, reconhecendo limites, vínculos e
transcendência. A casa, nesse horizonte, não é mero abrigo funcional, mas o
espaço onde essa relação se concretiza. Ela manifesta nossa maneira de estar no
mundo: é lugar de memória, de vínculos e de cuidado. Habitar significa, nas
palavras do filósofo, “cuidar” (sorgen), proteger o que nos foi confiado.
Essa compreensão desloca o debate da
moradia do plano meramente funcional para o existencial. Quando alguém perde a
casa ou vive em condições precárias, não perde apenas um teto: sofre uma ferida
existencial. A insegurança da moradia atinge o núcleo da pessoa, comprometendo
sua possibilidade de estar no mundo com estabilidade e dignidade. Não se trata apenas
de carência material, mas de vulnerabilidade ontológica. Sem um espaço que
proteja e acolha, enfraquece-se a capacidade de confiar, sonhar e projetar o
futuro.
A negação da moradia digna não é apenas um
problema técnico ou estatístico. O Texto-Base da Campanha da Fraternidade 2026
recorda que tal situação revela graves insuficiências humanas e sociais. À luz
dessa reflexão, trata-se de uma ruptura no enraizamento do existir. Sem um
lugar estável, a vida se fragmenta. A ameaça constante de despejo, a
condição de rua ou as construções improvisadas impedem a experiência de
pertencimento e a construção de sentido.
A encarnação revela que Deus assume o
habitar humano. O Verbo entra na experiência concreta do morar, partilha o
cotidiano de uma casa e cresce em um lugar determinado. O mistério cristão
confere à moradia dignidade ainda mais profunda: ela se torna espaço de
encontro entre o humano e o divino.
Promover moradia digna, portanto, é
garantir condições para que a pessoa exerça plenamente seu modo próprio de
existir. Defender a moradia é defender a dignidade do ser humano. Não se trata
apenas de assegurar paredes e teto, mas de possibilitar cuidado, estabilidade,
vínculos e sentido. Habitar é existir com raízes. Onde falta casa, falta
chão para que o ser humano floresça.
Dom João Santos Cardoso - Arcebispo de Natal (RN)

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