domingo, 1 de março de 2026

Reflexão para o seu domingo:

O risco de instalar-se

José Antonio Pagola

Cedo ou tarde, todos corremos o risco de instalar-nos na vida, buscando o refúgio cômodo que nos permita viver tranquilos, sem sobressaltos nem preocupações excessivas, renunciando a qualquer outra aspiração.

Conseguido já um certo êxito profissional, encaminhada a família e assegurado, de alguma maneira, o futuro, é fácil deixar-se levar por um conformismo cômodo que nos permita prosseguir caminhando na vida da maneira mais confortável.

É o momento de buscar uma atmosfera agradável e acolhedora. Viver relaxado num ambiente feliz. Fazer do lar um refúgio entranhável, um rincão para ler e ouvir boa música. Saborear boas férias, assegurar agradáveis fins de semana …

Mas, com frequência, é então que a pessoa descobre, com mais clareza do que nunca, que a felicidade não coincide com o bem-estar. Falta nessa vida algo que nos deixa vazios e insatisfeitos. Algo que não se pode comprar com dinheiro nem assegurar com uma vida confortável. Falta simplesmente a alegria própria de quem sabe vibrar com os problemas e necessidades dos outros, sentir-se solidário com os necessitados e viver, de alguma maneira, mais perto dos maltratados pela sociedade.

Mas existe também um modo de “instalar-se” que pode ser falsamente reforçado com “tons cristãos”. É a eterna tentação de Pedro que sempre nos espreita: “levantar tendas no alto da montanha”. Quer dizer, buscar na religião nosso bem-estar interior, eludindo nossa responsabilidade individual e coletiva na conquista de uma convivência mais humana.

E, não obstante, a mensagem de Jesus é clara. Uma experiência religiosa não é verdadeiramente cristã se ela nos isola dos irmãos, nos instala comodamente na vida e nos afasta do serviço aos mais necessitados. Se escutamos a Jesus, vamos sentir-nos convidados a sair do nosso conformismo, romper com um modo de vida egoísta, no qual estamos talvez confortavelmente instalados, e começar a viver mais atentos à interpelação que nos chega dos mais desamparados de nossa sociedade.

_______________________________________________________________________________

JOSÉ ANTONIO PAGOLA cursou Teologia e Ciências Bíblicas na Pontifícia Universidade Gregoriana, no Pontifício Instituto Bíblico de Roma e na Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. É autor de diversas obras de teologia, pastoral e cristologia. Atualmente é diretor do Instituto de Teologia e Pastoral de São Sebastião. Este comentário é do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, da Editora Vozes.

____________________________________________________
                                          Fonte: franciscanos.org.br   Banner: Frei Fábio M. Vasconcelos

Nenhum comentário:

Postar um comentário