"Não tenhais medo..."
♦ Nós, discípulos do Senhor, temos consciência de que, através de nossa vida, do tempo que vamos vivendo, continuamos a presença do Senhor lá onde nos é dado viver, somos portadores de sua Boa Nova e damos voz à sua voz. Somos embaixadores do Evangelho. Somos porta-vozes do Ressuscitado. O Senhor nos toca de forma que não podemos ficar inertes, mas criar condições para que ele seja reconhecido, buscado e amado… Ressoa sempre aos nossos ouvidos o “Ide, eu vos envio”. O sonho do mundo novo que é o Reino depende da coragem de cada um. Tornar o Evangelho conhecido e apreciado pode significar não aceitação de nossa pessoa, perda de simpatia, repúdio e até mesmo perseguição. Os profetas nem sempre angariaram simpatia. Em tal contexto, então, se manifestar o medo.
♦ “A fé é uma luta ativa contra o medo: foi assim para o profeta Jeremias e para os discípulos de Jesus. A fé exige coragem. Jesus exorta os discípulos a não temerem quem possa persegui-los, quem se oponha ao seu testemunho e à sua pregação. Jesus pede-lhes que realizem um êxodo do medo” (Luciano Manicardi).
♦ Não é aqui o espaço de dissertar todas as nuances e matizes do medo e da coragem. Na vida há pequenos medos ou receios: medo de um cachorro, medo de altura, receio de ingerir um determinado alimento.. Há medos escondidos: que um casamento esteja no fim, que podemos fracassar com determinadas escolhas, medo de não ser um bom educador dos filhos. Há o medo-pavor de uma guerra, de assaltos a mão armada, pavor de um vírus que veio da China.
♦ “Coragem nas coisas do cotidiano, aparentemente banal mas que pede resistência. Cada manhã levantar-se, lavar-se, começar tudo de novo. Suportar o cansaço, os transportes públicos desgastantes, suportar os outros, a si mesmo, e a monotonia dos relacionamentos. Há a coragem de ser a si mesmo: de não ter medo de suas riquezas nem de suas limitações. A coragem de não mentir, de não mentir-se a si mesmo. Coragem de dizer sua verdade mesmo que possa não ser reconhecida nem aceita. Coragem de correr o risco de se enganar… (Régine du Charlat)
♦ “Vicente Madoz publicou um excelente trabalho com o título “Os medos do homem moderno”, no qual, com a clarividência e simplicidade de um verdadeiro perito, vai analisando tanto os medos irracionais do homem atual, quanto seus medos concretos da doença, da velhice, da morte, do fracasso da solidão. A inquietude e desgosto de não poucas pessoas têm a ver, sem dúvida, com as profundas e rápidas mudanças que estão acontecendo na sociedade. Também têm a ver com o individualismo, a insolidariedade ou o pragmatismo exagerado. Mas é fácil detectar, além disso, uma angústia existencial, às vezes solapada ou disfarçada, que está muito ligada às grandes incógnitas da vida, e que surge em não poucos diante da doença, da velhice, do fracasso, do desamor e da morte” (Pagola, Mateus, p.219).
♦ Os textos bíblicos da liturgia de hoje apontam para o medo na proclamação da fé e na vivência de nosso ser cristão. Temos medo de tirar as últimas consequências do Evangelho. Ficamos a meio do caminho. Não conseguimos, por medo de dizer o que pensamos, ser transparentes. Camuflamos. Temos receio de gastar nosso tempo com os projetos de Jesus e do mundo novo. Trata-se de correr um risco. Talvez o mais grave seja esse medo de morrer a nós mesmos. Não compreendemos que o grão de trigo precisa morrer para poder dar fruto. Não se trata de provocar o inimigo com vara curta. Há momentos cruciais em nossa história que pedem coragem.
♦ No plano individual para o discípulo se trata da coragem de ser o que é: um peregrino apaixonado pelo mundo, irmão de todos, reconciliador e promotor da paz, límpido nos relacionamentos, generoso nas posturas, sem estrelismos e vedetismos, profundamente ouvinte do Deus amor, ser continuação de Cristo. De outro lado a Igreja, a comunidade eclesial onde nos encontramos com o com o Ressuscitado haverá de perder medo de tirar as últimas consequências da fé. Uma Igreja despojada, sem poderio externo, uma Igreja sem outro interesse senão o bem do homem, mesmo que perca benesses do mundo. Uma Igreja capaz de correr o risco do novo.
♦ “Mandando os discípulos “proclamarem sobre os terraços” o que lhes tinha dito, ensinado e confiado na obscuridade (Mt 10,27), Jesus pede aos cristãos e às Igrejas a coragem da palavra, a parresia, a franqueza, a audácia do anúncio evangélico. O que se opõe à parresia é o medo que reduz a liberdade do cristão e o leva a mover-se e agir de acordo com as lógicas de conveniência, lógicas “políticas” a dizer e não dizer consoante as circunstâncias, a usar as palavras de modo camaleônico” (Manicardi). Não é possível que nos envergonhemos das palavras de Jesus.
• Aqueles que vivem identificados com o Ressuscitado, que convivem com ele, que jogaram as cartas nele sabem que na hora exata a força do testemunho não há de faltar. As palavras do Evangelho querem manter viva nos discípulos sua proximidade, seu cuidado e seu amor por eles. Nas tribulações vencerão o medo com o amor.
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Texto para reflexão
Medo. Sentimos medo diante de um perigo real.O simples viver não está isento de riscos.O medo pode ser sadio: adverte-nos que pode haver perigo à vista.Triste quando somos presa de medrosa insegurança,ou habitados por um medo difuso.O medo anula nossa energia interior, sufoca a criatividade torna-nos seres rígidos.Sem vida interior, sem uma amizade com aquele que venceu medo, seremos criaturas sem coragem.Jesus afirma: “Coragem, eu venci o mundo”.







