Na encíclica “Magnifica humanitas”, o pedido do Papa Leão: fazer a tecnologia avançar sem que o coração regrida.
Na era da inteligência artificial, com a dignidade humana correndo o risco de ser ofuscada pelas enormes concentrações de poder tecnológico fora de qualquer controle e por novas formas de desumanização, o Papa Leão nos exorta ao “dever urgente” de permanecermos profundamente humanos. Na época das polarizações e da violência, que vê expandir-se uma “cultura do poder” com a guerra reabilitada como instrumento de política internacional, o Sucessor de Pedro nos pede para fazer a tecnologia avançar “sem que o coração regrida”. Ele nos convida a aceitar o limite e a fragilidade da humanidade sem considerá-los, como faz a ideologia tecnocrática, um erro a ser corrigido. Ele nos exorta a olhar para o mundo não pela ótica dos grandes, mas de baixo para cima, com os olhos de quem sofre, a partir dos últimos. Com os olhos de um Deus que tomou sobre si nossa fraqueza, transformando-a em um lugar de salvação, porque “mesmo quando as máquinas se destacam pela eficiência, o centro da história continua sendo um rosto humano que pede para ser olhado”.
“Magnifica humanitas”, a primeira encíclica de Leão XIV, não é, antes de tudo, um texto analítico sobre inteligência artificial, nem entra em detalhes sobre processos em constante evolução. Trata-se, antes, de uma “summa” que aplica os princípios da Doutrina Social à nossa época — a era da IA —, consolidando e atualizando os pontos fundamentais do magistério. É um texto que também põe fim ao equívoco daqueles que, confiando na liberdade absoluta dos mercados e das novas tecnologias, tendem a descartar como ensinamento discutível o magistério papal sobre o pedido de um governo humano compartilhado da IA, sobre a ecologia integral, sobre as estruturas econômicas que se tornam “estruturas de pecado”, sobre o não à guerra.
O Papa, que assumiu o nome do autor da “Rerum novarum”, na era da revolução digital, pede a cada um de nós que assuma um papel ativo, pois a construção da “civilização do amor” se realiza graças a “uma soma de pequenas e tenazes fidelidades”, capazes de conter a desumanização. Uma tarefa, portanto, que diz respeito a todos nós, e de perto.
Leão nos recorda que “as injustiças não nascem apenas de escolhas erradas dos indivíduos, mas também de estruturas, mecanismos, ordenamentos econômicos e culturais que geram desigualdade” e que “não é humano um desenvolvimento que aumenta o consumo de alguns, transferindo custos e danos para outros, ou que relega regiões inteiras a papéis subordinados”, como infelizmente está acontecendo hoje também no âmbito das novas tecnologias e dos recursos que elas exigem. Na encíclica, lê-se que é “doutrina certa” da Igreja a função social da propriedade privada e, hoje, entre os bens universalmente destinados a todos, “devemos incluir também as novas formas de propriedade: patentes, algoritmos, plataformas digitais, infraestruturas tecnológicas, dados”, para evitar que surjam ou se consolidem novas formas de exclusão e privação de liberdade. A técnica, de fato, não é um simples instrumento, e quando se torna critério, “acaba por determinar o que importa e o que pode ser descartado”, reduzindo “as pessoas a engrenagens de um sistema a ser tornado cada vez mais eficiente”.
Hoje, o controle das plataformas, das infraestruturas, dos dados e da capacidade computacional “não é prerrogativa dos Estados, mas de grandes atores econômicos e tecnológicos”, que estabelecem as condições de acesso, as regras de visibilidade e as próprias possibilidades de participação. Quando tal poder se concentra em poucas mãos, “tende a tornar-se opaco e a escapar ao controle público”, trazendo consigo o risco de um desenvolvimento distorcido “que gera novas dependências, exclusões, manipulações e desigualdades”.
O Papa, reiterando a superação da teoria da “guerra justa”, pede que o uso da inteligência artificial no campo de batalha seja submetido às mais rigorosas restrições éticas, pois “não existe algoritmo que possa tornar a guerra moralmente aceitável”. Além disso, a inteligência artificial tornou-se um elemento determinante para orientar a opinião pública por meio da manipulação de imagens e conteúdos, tornando cada vez mais difícil distinguir o verdadeiro do falso. Muitas são, ainda, as incógnitas que dizem respeito ao mercado de trabalho. A encíclica lembra, a esse respeito, que não é mais possível confiar apenas na “mão invisível” do mercado: cabe à política a tarefa de orientar as dinâmicas econômico-tecnológicas para o bem comum, promovendo trabalho digno, inclusão social e uma distribuição equitativa dos benefícios da inovação.
Manter-se humano, controlar os processos, evitar – também neste campo – monopólios que acabam por aumentar o poder de poucos em detrimento da vida de muitos: o caminho indicado pelo Pontífice não ergue barreiras nem rejeita a priori o uso da IA. Pelo contrário, ele destaca os muitos aspectos positivos e as inúmeras aplicações úteis, mas, ao mesmo tempo, explica que não basta fazer uma reflexão ética sobre o propósito bom ou mau para o qual ela é utilizada. É indispensável, de fato, intervir antes e questionar também como um sistema é projetado e qual a visão de pessoa e de sociedade que está inscrita nos dados e nos modelos que o orientam. Para isso, são necessários marcos jurídicos adequados, vigilância independente, educação dos usuários e, acima de tudo, mais uma vez, “uma política que não abdique de sua tarefa”. Caso contrário, a mudança será governada apenas por lógicas tecnocráticas e será apresentada como “necessária e inevitável”, acabando assim por impor regras “ditadas” por quem possui os dados, as infraestruturas e as capacidades de computação.
É necessário, portanto, “desarmar” a IA, ou seja, “romper essa equivalência entre poder técnico e direito de governar”. Não para renunciar à tecnologia, mas para impedir que ela domine o ser humano: ela deve ser tornada discutível, contestável e, portanto, habitável. Justamente para não abdicarmos de nossa humanidade, tão frágil e tão “magnífica”.
Por um tempo
parei de explicar os verbos “vinde, descei e soprai “nos dias de Pentecostes.
Alguns me xingavam de blasfemo, outros se escandalizavam, e outros me
denunciavam ao bispo.
Padre Zezinho
E eu estava
apenas explicando, como padre catequista que sou, o que estes verbos
significavam. É claro que isto está na liturgia e na Bíblia. É claro que está
na teologia. Mas, infelizmente quem usa esses verbos raramente explica o que é
o que a pneumatologia. É um estudo vasto sobre a ação de Deus no mundo e em nós!
Um amigo bispo
da CNBB me encorajou a continuar explicando. Espírito Santo não precisa vir nem
descer, não precisa soprar com a boca. Eram sinais naquele tempo e os
evangelhos, falavam de vir com línguas de fogo, soprar um vento impetuoso,
descer sobre quem orava. Os evangelhos falaram, de muitos outros sinais.
Inclusive no batismo de Jesus os presentes viram uma pomba descer naquele evento!
Para quem não
estudou o suficiente, fica mais fácil falar em sinais, cantar isso, pregar isso
e sem nenhuma explicação. Para que complicar ainda mais? … Basta isso para o povo!
É o que muitos pregadores já disseram!
Mas há católicos
que querem saber mais e querem crescer na fé. Para eles existe a teologia, a
liturgia, a psicologia, e mais de 30 matérias sobre o estudo do catecismo. Quem
quer se aprofundar no conhecimento da fé católica vai querer mais explicações.
Deus não precisa
descer: ele sempre está no meio de nós. Hoje o Espírito Santo tem outras
maneiras de nos inspirar; não precisa mais soprar sobre nós como no tempo dos
apóstolos.
Ele agora age do
jeito dele. E hoje também Deus não precisa jogar línguas de fogo sobre nós: ele
nos inspira como indivíduos, ou como comunidade com centenas de graças e dons atuais!
Jesus disse que faria isso, ao enviar-nos o Espirito dele e do Pai. Ele faria
muito mais depois da sua ascensão!
O Espírito Santo
sempre agiu através dos tempos e de muitas maneiras, não só soprando, não só
incendiando os corações. Ele é Espirito criador tem muitas maneiras de nos
inspirar hoje, século XXI.
Por isso, quem
apenas se lembra que o Espírito Santo vem e desce no dia de Pentecostes e sopra
no dia de Pentecostes, quem só canta isto, pedindo por esta graça, é porque não
entendeu o suficiente o que é a graça de Deus em nós. Ele vive atuando todos os
dias, iluminando. Ele não desce do céu só nesse dia: ele sempre esteve e está
no meio de nós. Foi promessa de Jesus.
É claro que
devemos continuar a usar verbos que expressem a nossa fé. O que não podemos é
parar nesses três verbos.
Até porque a
liturgia de Pentecostes mostra os muitos sinais da ação do Espírito Santo na
igreja e em nós. O Espírito Santo nunca parou. E não precisa subir. Ele está em
cada lar em cada coração e em cada comunidade. Jesus disse que não deixaria
órfãos.
Por favor não
paremos nesses três verbos. Os dons do Espírito Santo são muitíssimos.
Busquemos os outros sinais. Preguemos sobre os outros sinais.
Então
entenderemos o versículo 17 a 19, capítulo 3 da carta aos Efésios. Deus faz
muito mais sinais do que possamos imaginar.
A missa de
Pentecostes é uma catequese profunda sobre as outras muitas ações do Espírito
Santo sobre cada fiel, cada comunidade, e cada alma. Pedir pra ele descer peça
para ele atuar porque ele já está em você. É só pedir. Jesus já dizia isso.
Ao invés de
combater, duvidar, xingar o pregador que deseja ensinar mais catecismo, e ao
invés de chamá-lo de herege, que tal aprofundar as inúmeras graças que você já
recebeu o ano inteiro?
Há muitíssimo
mais para aprender nesse dia. Este domingo é um dia de aprofundamento na fé.
Não fiquemos só nos verbos VINDE, DESCEI, SOPRAI. Por favor, cresçamos na
catequese, cresçamos na fé católica.
O Espírito Santo
tem muito mais a nos ensinar num dia como este. Aceitemos estudar um pouquinho
mais sobre PNEUMATOLOGIA.
A palavra não
tem nada a ver com pneu de carro. Tem tudo a ver com PNEUMA: ação do Espírito
Santo sobre cada fiel, cada comunidade e toda a nossa igreja; e também sobre o
mundo e sobre as outras igrejas.
E saiba mais: O
Espírito Santo não atua apenas na Igreja Católica. Ele atua em qualquer pessoa
de boa vontade, que está procurando um sentido para sua vida e vive procurando
Deus. Rezamos isso em todas as missas! Paz aos homens de boa vontade!…
Isto significa
que Jesus promete e cumpre. Isto se chama catequese continuada. Você está
pronto para isso?
Leão XIV explica
o sentido e a gênese de sua primeira encíclica sobre a “custódia da pessoa
humana na era da Inteligência Artificial”, instrumento que influencia a vida,
molda decisões e muda a forma de combater a guerra. O Pontífice pede que se
liberte a IA “das lógicas que a transformam em instrumento de domínio, exclusão
ou morte” e pede o “desarmamento” das tecnologias para que se coloquem a
serviço do “bem comum”, exortando a construir juntos o “futuro para a família
humana”.
Assim como “o
Leão de outrora”, o Papa Leão XIII, também o “Leão” de hoje, o Papa Leão XIV,
volta seu olhar para as “res novae”, para aquelas “coisas novas” que desafiam o
tempo, a história e a humanidade. E se naquela época era a revolução
industrial, com as muitas e complexas mudanças no mundo do trabalho e as novas
formas de pobreza impostas, hoje é a Inteligência Artificial, com seu potencial
e seus perigos, que está sob os olhos e no coração do Pontífice, que lança uma
invocação universal: "Desarmar a IA".
A Inteligência
Artificial hoje precisa ser "desarmada", libertada das lógicas que a
transformam em instrumento de dominação, exclusão ou morte.
Discernir o
futuro da humanidade
O Papa Leão XIV
fala por metáforas, mas também por referências históricas, em seu discurso
proferido na Sala do Sínodo, na apresentação da Magnifica humanitas, a primeira
encíclica de seu pontificado, publicada na manhã desta segunda-feira, 25 de
maio. Nunca antes um Papa esteve na Sala para apresentar ao público um seu
documento magisterial. É também a primeira vez que, além de cardeais e
professores, se sentam ao lado do Pontífice especialistas em alta tecnologia.
Um sinal da importância e da atenção ao tema abordado na encíclica, um símbolo
e sintoma da "gravidade do momento" que estamos vivendo e que causa
preocupação na Igreja, chamada a "decifrar coisas novas à luz do Evangelho
e da dignidade do ser humano". Uma angústia que Leão XIV enfrenta com
confiança:
A confiança de
que, juntos, podemos discernir as grandes questões do nosso tempo e, portanto,
o futuro da humanidade.
Nos passos de
Leão XIV
Cento e trinta e
cinco anos atrás, o Papa Pecci observou a situação difícil dos trabalhadores e
das famílias desenraizadas e empobrecidas pela rápida transformação industrial
e “compreendeu que a Igreja não podia permanecer à margem”. Num momento de “mudança
de época” que “ameaçava a dignidade humana”, ele escreveu a encíclica Rerum
Novarum. No mesmo espírito, o Papa Prevost — que assinou simbolicamente a
Magnifica humanitas em 15 de maio, dia da publicação da Rerum Novarum — diz que
se sente “chamado a olhar para outra grande transformação com os olhos da fé,
com a clareza da razão, com a abertura ao mistério e com os gritos dos pobres e
da terra que ressoam em” seu “coração”.
Este é o sentido
das aproximadamente 200 páginas, resultado de uma reflexão de dez anos no seio
da Santa Sé sobre as novas tecnologias e a Inteligência Artificial, que hoje
impactam "muitas áreas de nossas vidas", influenciam decisões e estão
"mudando radicalmente a forma como a guerra é travada".
Fruto da escuta
Há tantas
contribuições, reflexões e sugestões nesta encíclica que — como o próprio Papa
explica — tem uma única raiz: "A escuta". A escuta de cientistas e
engenheiros que "trabalham com sincero entusiasmo em tecnologias capazes
de aliviar sofrimentos imensos"; a escuta de "líderes políticos e
funcionários públicos que perseveraram na busca por regras justas"; a
escuta de "pais e professores profundamente preocupados com o futuro das
novas gerações".
Também chegaram
até mim outros relatos, bastante perturbadores, sobre sistemas de armas cada
vez mais autônomos, praticamente fora do controle humano. Estou recebendo
relatos muito preocupantes sobre algoritmos que podem negar acesso a saúde,
trabalho e segurança com base em dados contaminados por preconceito e
injustiça.
Junto com essas
vozes, ressoou também forte “o silêncio de quem não tem voz quando as decisões
são tomadas”, explica o Papa Leão XIV, “decisões que correm o risco de gerar
novas formas de exclusão e sofrimento”.
Desarmar…
De tudo isso,
desenvolveu-se uma convicção que o próprio Pontífice chama de
"perturbadora" e que norteia a encíclica: "A Inteligência
Artificial deve ser desarmada". "A palavra é forte, eu sei",
admite Leão XIV, "mas foi escolhida deliberadamente porque este momento
precisa de palavras capazes de chamar a atenção, despertar consciências e
indicar o caminho a seguir para a humanidade."
… e construir
A Igreja está
comprometida há muito tempo com o desarmamento nuclear, como um "serviço à
paz e à dignidade da família humana". Da mesma forma, "a Inteligência
Artificial requer hoje que seja desarmada", porque "como a energia
nuclear, deve estar a serviço de todos e do bem comum". E "as
decisões sobre a tecnologia nunca devem ser separadas da consciência e da
responsabilidade".
A paz, e não
apenas a ausência de guerra, é a justiça em ação. Mas quando a tecnologia
enfraquece nosso senso crítico, a própria paz fica em risco. Desarmar, porém,
não basta. Precisamos construir.
a IA deve servir à
humanidade, não ao poder de poucos
No 135º
aniversário da “Rerum novarum”, o Pontífice reflete, em sua primeira encíclica,
“Magnifica humanitas”, sobre a Doutrina Social da Igreja na era da inteligência
artificial. O apelo para preservar “uma magnífica humanidade habitada por
Deus”, promovendo a verdade, a dignidade do trabalho, a justiça social e a paz.
Na era digital, é preciso desarmar a IA e superar a teoria da “guerra justa”,
relançando o diálogo e o multilateralismo.
“A magnífica
humanidade criada por Deus encontra-se hoje diante de uma escolha decisiva:
erguer uma nova torre de Babel ou construir a cidade onde Deus e a humanidade
habitam juntos”. O incipit da primeira encíclica de Leão XIV
– Magnifica humanitas, “sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da
inteligência artificial” – resume suas razões fundamentais e seu objetivo.
Publicada hoje, segunda-feira, 25 de maio, foi assinada pelo Pontífice no
último dia 15 de maio, no 135º aniversário da promulgação da Rerum
novarum de Leão XIII. E de seu predecessor, o Papa Prevost recolheu a
herança, escrevendo uma encíclica social que aborda um dos principais desafios
da época contemporânea: a inteligência artificial. Dividida em cinco
capítulos, Magnifica humanitas parte de um pressuposto: a tecnologia
não é uma “força antagônica em relação à pessoa” (4), nem “um mal em si mesma”
(9). No entanto, ela “não é neutra, pois assume o rosto daqueles que a
concebem, a financiam, a regulam e a utilizam”. Daí, o apelo do Pontífice para
“construir o bem” e “permanecer humanos”, seguindo a lógica da
corresponsabilidade corajosa e da comunhão.
A Doutrina
Social da Igreja
O primeiro
capítulo – Um pensamento dinâmico fiel ao Evangelho – repercorre a
Doutrina Social da Igreja (DSI) no magistério recente e no Concílio Vaticano
II, destacando “o seu caráter dinâmico” (17). Longe de ser “um manual de
princípios e normas a serem aplicados”, a DSI é antes uma “teologia da comunhão
na história” (27) que orienta a leitura dos acontecimentos à luz do Evangelho.
No segundo capítulo, Leão XIV enumera os Fundamentos e princípios da
Doutrina Social da Igreja: entre os primeiros, inclui a dignidade da pessoa,
criada à imagem e semelhança de Deus; a inviolabilidade dos direitos humanos,
entre os quais o direito à vida “desde a concepção até ao seu fim natural”; o
reconhecimento dos direitos das minorias, com especial atenção às mulheres, para
que sejam verdadeiramente ouvidas e valorizadas (57).
Quanto aos
princípios da DSC, Leão XIV aponta cinco: o primeiro é o bem comum, “forma
social da dignidade reconhecida a cada um” (59). Em um ponto, o Papa é
particularmente firme: “A promoção do bem comum nunca pode ser separada do
respeito ao direito dos povos de existir, de preservar sua identidade e de
contribuir com sua originalidade para a família das nações”. Consequentemente,
“qualquer tentativa ou projeto de eliminar ou subjugar uma nação é gravemente
imoral e, portanto, inaceitável” (64).
A tecnologia não
deve estar nas mãos de poucos
O segundo
princípio diz respeito à destinação universal dos bens: aí e em outros pontos
da encíclica, Leão XIV insiste na necessidade de que as tecnologias não se
concentrem nas mãos de poucos, alimentando a disparidade entre os incluídos e
os excluídos da revolução digital (67). Daí decorrem o terceiro e o quarto
princípios, a saber, a subsidiariedade (68) – que exige a superação do
paternalismo e do assistencialismo em favor da corresponsabilidade – e a
solidariedade (73), “princípio e virtude” que se opõe à indiferença.
A justiça social
O quinto
princípio da DSC é a justiça social: na era digital, ela deve garantir a todos
um acesso equitativo às oportunidades, proteger os mais vulneráveis, combater o
ódio e a desinformação e submeter o uso das tecnologias ao controle público.
Leão XIV aponta os migrantes como um “teste decisivo” nesse campo: a maneira
como a sociedade os trata demonstra “se a ideia de justiça é guiada pelo medo
ou pela fraternidade”. Daí, o apelo tanto para salvaguardar “o direito à
esperança” daqueles que são forçados a partir, garantindo-lhes vias seguras e
legais, acolhimento digno e integração; quanto para promover “o direito de
permanecer” de cada um em sua terra, em paz e segurança, enfrentando “as causas
profundas” das migrações (81). O Pontífice entende que os cinco princípios
acima mencionados se dirigem também à Igreja, chamada a “um exame de
consciência”, a ouvir as “vítimas de abusos espirituais, econômicos,
institucionais, sexuais, de poder e de consciência”, pois isso “é parte
integrante de um caminho de justiça, que compreende o reconhecimento do dano, a
reparação justa e a prevenção” (89).
Leão XIV e o Arcebispo Paolo Rudelli, substituto da Secretaria de Estado
Um código ético
para a IA
O terceiro
capítulo – Técnica e domínio. A grandeza da pessoa humana diante das
promessas da IA – ressalta que é preciso abordar a IA com cautela,
mantendo clareza sobre as responsabilidades em todas as suas etapas
(accountability) e apostando em políticas e marcos jurídicos adequados,
vigilância independente e educação dos usuários. Acima de tudo, é necessário um
código ético submetido a critérios de justiça social compartilhada, pois “não
serve uma IA mais moral se essa moral for decidida por poucos” (107). Sem
deixar de lado o impacto ambiental das novas tecnologias, que exigem grandes
quantidades de energia e água, afetando a Criação (101).
Desarmar a IA
É preciso
“desarmar a IA” – prossegue Leão XIV – para subtraí-la à lógica da competição
militar, econômica e cognitiva; para romper a equivalência entre poder técnico
e direito de governar; para subtraí-la aos monopólios e impedir que domine o
humano. Amplo espaço é dedicado à crítica do transumanismo e
do pós-humanismo, que interpretam o progresso como a superação dos limites
do humano. Em vez disso, o limite não é um defeito a ser eliminado, mas uma
dimensão constitutiva da pessoa, pois é na fragilidade e na finitude que
amadurecem a relação e a abertura a Deus e ao outro. Fazer a tecnologia crescer
eliminando os limites do humano significa, portanto, fazer o coração regredir.
Magnífica e, ainda assim, ferida, a humanidade “não deve ser substituída nem superada”.
A tecnologia pode aliviar seus sofrimentos e abrir-lhe novas possibilidades,
mas não deve negá-la naquilo que lhe é próprio: “a capacidade de relação e de
amor” (126). Diante da IA, a verdadeira alternativa não está entre o entusiasmo
e o medo, mas entre duas formas de construir o progresso: a serviço da pessoa e
dos povos ou das lógicas do poder (129).
Uma ecologia da
comunicação
No quarto
capítulo – Preservar o humano na transformação. Verdade, trabalho,
liberdade –, a encíclica defende uma “ecologia da comunicação” baseada na
verdade. O Papa pede transparência nos critérios de seleção de conteúdos,
proteção dos dados pessoais, um jornalismo sério fundamentado na argumentação e
na verificação, uma nova consciência no uso “correto e crítico” da IA e a
integração dos conhecimentos. Uma comunicação transparente e leal é exigida
também da Igreja, sobretudo nos casos de injustiças e abusos. É fundamental
também o apelo a uma aliança educativa renovada, para que nos jovens não se
apague “o desejo de fazer perguntas” por causa de máquinas perfeitas que fazem
parecer inútil o pensamento humano (140). Leão XIV pede ainda que se aposte na
escola como lugar onde se aprende a “buscar e amar a verdade” (147).
A dignidade do
trabalho
Na “quarta
revolução industrial” representada pela transição digital, o Pontífice ressalta
então a importância de proteger a dignidade do trabalho, projetando sistemas
centrados na pessoa e não apenas no desempenho. A tecnologia pode certamente
aliviar o homem de tarefas pesadas ou repetitivas, mas não deve levar ao
desemprego em nome da redução de custos e do aumento do lucro. Nesse sentido,
espera-se também uma renovação das organizações sindicais.
Paz e
desenvolvimento
O Pontífice
destaca, em seguida, a necessidade de superar o PIB como parâmetro do grau de
desenvolvimento de um país, apostando, em vez disso, na dignidade do trabalho,
na prosperidade compartilhada, na redução das desigualdades e na preservação do
meio ambiente. A finança pela finança é, de fato, diferente da finança para o
desenvolvimento (159-160). E, seguindo os passos de São Paulo VI, destaca-se a
interdependência entre paz e desenvolvimento, almejando uma cooperação
internacional capaz de definir estratégias comuns, sobretudo em favor dos
países e dos grupos mais vulneráveis, pois a prosperidade contribui para a paz
“somente se for difundida, inclusiva e sustentável” (163). É forte, ainda, a
referência à família, fundada na união estável entre um homem e uma mulher: ela
é “bem social primário”, “célula fundamental e insubstituível de toda
organização comunitária” (165), que deve ser apoiada também por meio de
políticas do trabalho em favor da estabilidade e de ritmos humanos, para assim
proteger a capacidade social de “construir o futuro”.
A “arquitetura
da visibilidade”
Por fim, a
questão da liberdade humana: numa época em que as plataformas digitais são
projetadas para capturar o tempo dos usuários e explorar suas fragilidades, é
preciso fortalecer a liberdade interior de cada um, enfrentando também o risco
do controle social decorrente da coleta massiva de dados e do uso de sistemas
algorítmicos. Perfilar, prever e orientar comportamentos, de fato, é “um novo
poder” (171) que corre o risco de discriminar os mais fracos. O Papa deplora,
em particular, a “arquitetura da visibilidade” que amplifica apenas o que é
visível, moldando as opiniões.
Novas formas de
escravidão e novo colonialismo
A IA também gera
novas formas de escravidão, como a dos “corpos marcados, mutilados, consumidos”
(173) daqueles que trabalham na extração das “terras raras” necessárias à
tecnologia. Portanto, a luta contra as novas formas de escravidão é outro
“teste decisivo para o discernimento ético” da transformação digital. Leão XIV
ressalta que “a Igreja renova sua firme condenação contra toda forma de
escravidão, tráfico e mercantilização de pessoas”. Ao mesmo tempo, o Papa pede
“sinceramente perdão” pelo atraso com que a Igreja, no passado, condenou “o
flagelo da escravidão” (174-176). A encíclica também faz referência às “novas
terras raras do poder”, ou seja, as informações vitais – por exemplo, sobre
saúde e demografia – utilizadas para orientar estratégias econômicas: trata-se
de uma face inédita do colonialismo que transforma vidas pessoais em
informações exploráveis, tornando o ambiente digital um “espaço de predação”
(178-179).
Superar a teoria
da “guerra justa”
No quinto
capítulo — A cultura do poder e a civilização do amor —, Leão XIV
volta seu olhar para a guerra: “A revolução digital está modificando a
gramática dos conflitos” e, sem uma abordagem ética, as decisões sobre a vida e
a morte das pessoas serão cada vez mais impessoais, com o recurso à força
considerado uma “opção imediata e viável” (182-183). Na base de tudo está uma
“cultura do poder” que normaliza a guerra e a reabilita como “instrumento de
política internacional”, favorecendo o rearmamento. Sobre a opinião pública
pesam hoje também as narrativas midiáticas polarizadoras, bem como “uma
preocupante perda de memória histórica” que priva de uma visão de longo prazo
(191). Consequentemente, hoje a paz não é mais entendida como uma tarefa a ser
assumida, mas como um intervalo entre os conflitos. Por isso, Leão XIV reitera
que – sem prejuízo do direito à legítima defesa no sentido mais estrito – é
preciso superar a teoria da “guerra justa”, promovendo, em vez disso, o
diálogo, a diplomacia e o perdão (192).
Nenhum algoritmo
torna a guerra moralmente aceitável
O Papa Prevost
não deixa de deplorar o crescimento da indústria bélica, a corrida aos
armamentos nucleares e o surgimento de novos atores armados – entre os quais os
jihadistas – que visam perpetuar os conflitos como fonte de poder e de renda. É
clara, ainda, a advertência contra o uso de armas ligadas à IA, pois “não
existe algoritmo que possa tornar a guerra moralmente aceitável”. São
necessárias restrições éticas rigorosas, compartilhadas internacionalmente,
baseadas na responsabilidade pessoal e na proteção dos civis, pois “toda
tecnologia que facilita atacar sem ver o rosto do outro abaixa o limiar moral
do conflito” (199).
A crise do
multilateralismo
A cultura do
poder decorre também da crise do multilateralismo e do surgimento de um
“multipolarismo desordenado e conflituoso” (201). A força do direito é
substituída pelo direito do mais forte; as lógicas do poder prevalecem sobre a
construção da paz e as instituições criadas para zelar pelo destino comum dos
povos estão agora enfraquecidas. A esse respeito, o Papa deseja para a ONU
“reformas profundas” que superem a atual crise de valores em favor do bem comum
(226).
A civilização do
amor
O cristão é
chamado a responder à cultura do poder construindo “a civilização do amor” e
escolhendo entre alimentar a lógica da força ou zelar pela paz. O Papa aponta
cinco “caminhos de responsabilidade”: desarmar as palavras dizendo a verdade;
construir a paz na justiça; assumir o olhar das vítimas tomando posição, pois
há conflitos em que “não é justo permanecer neutro”; cultivar “um saudável
realismo” que busque caminhos de paz viáveis com os fatos, não apenas com
palavras. Por fim, relançar o diálogo, passando de uma cultura do poder para
uma cultura da negociação. É decisivo também “o diálogo entre as religiões”,
portador de uma mensagem de paz: “Quem usa o nome de Deus para legitimar o
terrorismo, a violência ou a guerra trai o seu rosto” é a advertência de Leão
XIV (223).
A magnífica
humanidade
Ao concluir a
carta, o Pontífice convida os fiéis a viver as novas tecnologias à luz do
Evangelho, seguindo “um itinerário de vida cristã sóbrio e exigente”. Para que,
mesmo na era da IA, todos possam testemunhar “a beleza de uma magnífica
humanidade habitada por Deus”.
A memória da Bem-aventurada Virgem Maria, Mãe da Igreja, recorda-nos que a maternidade divina de Maria se estende, por desejo de Jesus, à maternidade humana, ou seja, à própria Igreja, mediante um ato de consagração. Em 2018, o Papa Francisco introduziu a celebração desta memória na segunda-feira, após a solenidade de Pentecostes, dia em que a Igreja nasceu. Este título dado a Maria não é novo. Em 1980, São João Paulo II convidou os fiéis a venerar Maria como Mãe da Igreja. Antes dele, em 21 de novembro de 1964, São Paulo VI, na conclusão da terceira sessão do Concílio Vaticano II, declarou que a Virgem é “Mãe da Igreja”. Mais tarde, em 1975, a Santa Sé propôs a celebração de uma Missa votiva em honra da Mãe da Igreja, mas, não entrou no calendário litúrgico. Além dessas datas, não podemos esquecer quanto o título de Maria, Mãe da Igreja, esteve presente na sensibilidade de Santo Agostinho e São Leão Magno; de Bento XV e Leão XIII, até nossos dias, quando, em 11 de fevereiro de 2018, por ocasião do 160º aniversário da primeira aparição da Virgem em Lourdes, o Papa Francisco tornou obrigatória a memória da Virgem Maria, Mãe da Igreja.
“Estavam de pé, junto à cruz de Jesus, sua Mãe, a irmã de sua mãe, Maria, mulher de Cléofas, e Maria Madalena. Quando Jesus viu sua Mãe e, perto dela, o discípulo que amava, disse à sua mãe: “Mulher, eis aí teu filho”. Depois, disse ao discípulo: “Eis aí tua Mãe”. Desde então, o discípulo a acolheu em sua casa” (Jo 19,25-27).
Aos pés da Cruz
Maria “estava” aos pés da Cruz de Jesus. “Estava” é um verbo que indica presença, continuidade, modo de participar. Ao contrário dos discípulos, Maria acompanhou seu Filho Jesus ao longo da Via Sacra. Maria enfrentou aquele momento com grande dignidade, sem nunca fugir dos acontecimentos da vida. Ela estava ali. Por isso, ”Jesus confiou o discípulo amado à sua Mãe" e vice-versa.
Novo "eis-me aqui" de Maria
Maria é convidada por seu Filho a dizer um novo "Eis-me aqui", um novo "sim" mais consciente e maduro. Por meio do seu estar "aos pés da Cruz", amadureceu sua experiência de fé e maternidade, que a tornou capaz de ir mais além. No fundo, desde o início, o coração de Maria foi repleto de interrogativos: "Qual o sentido daquela saudação" (Lc 1,29). Até diante de Simeão, surgiram questões: “Eis que este Menino está destinado a ser causa de queda e de soerguimento para muitos homens em Israel e a ser um sinal que provocará contradições, a fim de serem revelados os pensamentos de muitos corações. E uma espada transpassará a tua alma” (Lc 2, 34-35). Maria e José “estavam admirados das coisas que diziam dele” (Lc 2, 33). A expressão "Eis-me aqui” de Maria não foi dita uma vez por todas, mas cresceu e amadureceu com os acontecimentos da vida, inclusive os da "Cruz", sob a qual ela “estava”. Daí, com esta fidelidade reforçada, Maria recebeu uma nova missão, uma espécie de “suplemento” de maternidade, a ponto de se tornar “Mãe da Igreja”. Mãe, porque nos regenera na graça, desde que aprendamos a crescer na “estatura de Cristo” (cf. Ef 4, 7-13).
Vida cristã ancorada no mistério da Cruz
A festa de Maria, Mãe da Igreja, “ajudará a recordarmos que a vida cristã, para crescer, deve estar ancorada no mistério da Cruz, na oferta de Cristo, na Virgem dolorosa, Mãe do Redentor e dos redimidos», explica o Decreto. Como Maria soube "ficar" aos pés da Cruz, sem evitar ou fugir do esforço de compreender e sofrer, assim, como Mãe, soube "estar" ao lado de cada um daqueles que o Filho tornou seus filhos. Isso nos leva a invocá-la como "Mãe da Igreja":
Oração do Papa Francisco:
Ajudai, ó Mãe, a nossa fé. Abri o nosso ouvido à Palavra, para reconhecermos a voz de Deus e a sua chamada. Despertai em nós o desejo de seguir os seus passos, saindo da nossa terra e acolhendo a sua promessa. Ajudai-nos a deixar-nos tocar pelo seu amor, para podermos tocá-Lo com a fé. Ajudai-nos a confiar-nos plenamente a Ele, a crer no seu amor, sobretudo nos momentos de tribulação e cruz, quando a nossa fé é chamada a amadurecer. Semeai, na nossa fé, a alegria do Ressuscitado. Recordai-nos que quem crê nunca está sozinho. Ensinai-nos a ver com os olhos de Jesus, para que Ele seja luz no nosso caminho. E que esta luz da fé cresça sempre em nós até chegar aquele dia sem ocaso que é o próprio Cristo, vosso Filho, nosso Senhor. (Papa Francisco, “Lumen Fidei”)
Com a solenidade
de Pentecostes, chega ao fim o Tempo Pascal. Ao celebrar a missa na Basílica
Vaticana, Leão XIV afirmou que a humanidade é redimida não por uma riqueza
incalculável, mas por um dom inesgotável.
“Rezemos hoje
para que o Espírito do Ressuscitado nos salve do mal da guerra, que é vencida
não por uma superpotência, mas pela Onipotência do amor.”
Com esta
invocação, o Papa concluiu a homilia pronunciada na celebração eucarística por
ocasião da Solenidade de Pentecostes, presidida na Basílica de São Pedro com a
participação de cinco mil fiéis.
O Pontífice se
deteve no Evangelho do dia, que narra a aparição de Jesus ressuscitado aos
discípulos, mostrando-lhes «as mãos e o peito». O Senhor revela o seu corpo
glorioso, isto é, as suas chagas, as feridas da crucificação. Estes sinais da
Paixão, explicou Leão XIV, são mais eloquentes do que qualquer discurso, pois
Aquele que estava morto agora vive para sempre.
Ao verem o
Senhor, também os discípulos voltam à vida. No mesmo cenáculo onde instituiu a
nova e eterna aliança, Jesus efunde o Espírito: o lugar da ceia e da traição
transforma-se e, de sepulcro dos Apóstolos, torna-se para toda a Igreja seio de
ressurreição. Por isso, acrescentou o Papa, o Pentecostes é festa pascal e
festa do corpo de Cristo, que nós somos por graça.
O momento do ofertório (@Vatican Media)
Pentecostes é a
festa da Nova Aliança
Do Espírito do
Ressuscitado, Leão XIV sublinhou três aspectos: paz, missão e verdade.
Na sua Páscoa,
Cristo estabelece a paz entre Deus e a humanidade, e o Espírito Santo infunde-a
nos corações e difunde-a pelo mundo. Esta paz, observou o Santo Padre, provém
do perdão e nos leva ao perdão. Jesus nos confia assim uma obra divina,
porque só Deus pode perdoar os pecados, e tal autoridade é concedida em sinal
de uma reconciliação universal. Deste modo, o Pentecostes realiza-se como festa
da Nova Aliança: a aliança entre Deus e todos os povos da terra.
“Por isso, com o
nosso coração podemos invocar: «Veni Sancte Spiritus», porque Ele já nos foi
dado. Podemos desejá-Lo, porque já nos foi prometido. Podemos acolhê-Lo, porque
Ele próprio é o doce hóspede da alma.”
A missão foi o
segundo aspecto salientado pelo Papa. «Assim como o Pai me enviou», diz o
Senhor, «também Eu vos envio a vós» (Jo 20, 21). Somos deste modo
envolvidos na missão de Jesus. Agora que os Apóstolos receberam o Sopro do
Ressuscitado dentro de si, este anúncio sai da sua boca, tem a voz de Pedro e
dos que estão com ele.
"Somos
verdadeiramente participantes do Evangelho: toda a Igreja é dele protagonista,
não apenas guardiã", disse o Papa. Com a força do Espírito, o anúncio
enche-se de alegria e esperança. Se por um lado há mudanças que não
renovam o mundo, mas o envelhecem entre erros e violências; por outro, o
Espírito Santo ilumina as mentes e suscita nos corações novas forças de
vida. É assim que transfigura a história, abrindo-a à salvação.
O Espírito nos
protege das facções e hipocrisias
Esta missão leva
ao terceiro aspecto, pois o anúncio consiste em proclamar a verdade de Deus e
do homem. O Espírito, afirmou Leão XIV, promove sempre a unidade na verdade,
porque suscita em nós compreensão, concórdia e coerência de vida.
“O Paráclito nos
defende de tudo o que impede esta compreensão: das facções, das hipocrisias,
das modas que obscurecem a luz do Evangelho. A verdade que Deus nos dá
permanece assim como palavra libertadora para todos os povos, mensagem que
transforma por dentro cada cultura.”
O Espírito do
Ressuscitado é derramado constantemente e não apenas uma vez, como atestam os
inúmeros dons e carismas. O Papa então concluiu:
"Caríssimos,
com coração ardente, rezemos hoje para que o Espírito do Ressuscitado nos salve
do mal da guerra, que é vencida não por uma superpotência, mas pela Onipotência
do amor. Rezemos para que Ele liberte a humanidade da miséria, que é redimida
não por uma riqueza incalculável, mas por um dom inesgotável. Rezemos para que
nos cure da ferida do pecado, pela redenção anunciada a todos os povos em nome
de Jesus. Esta é a graça que infunde coragem aos Apóstolos: por intercessão de
Maria, Mãe da Igreja, a infunda também em nós, hoje e sempre."
a
Igreja seja capaz de dialogar com os tempos que mudam
Na Solenidade de
Pentecostes, recordou Leão XIV no Regina Caeli, somos chamados a contemplar o
dom do Espírito Santo, derramado em abundância sobre a Igreja nascente e, hoje,
novamente dado aos seus membros, como luz e força que os acompanha em todas as situações
da vida.
Após celebrar a
missa na Basílica Vaticana por ocasião da Solenidade de Pentecostes, Leão XIV
rezou com os fiéis reunidos na Praça São Pedro a oração do Regina Caeli. Em sua
alocução, de modo especial, o Pontífice se deteve em uma imagem oferecida pela
liturgia de hoje, de que o Espírito abre as portas. O Santo Padre então
questionou: quais seriam essas portas?
"A primeira
porta é a do próprio Deus, no sentido em que nos abre o acesso ao mistério de
Deus, revelado em Jesus Cristo", respondeu. Com o dom do seu Espírito,
Deus nos concede a verdadeira fé e nos faz compreender o sentido das
Escrituras. E não só, pois nos ajuda a fazer uma experiência pessoal de Deus e
a encontrá-Lo em Jesus e não apenas na observância de uma lei.
O Espírito abre
as portas da Igreja
A segunda porta
é a do Cenáculo, ou seja, da Igreja:
“Sem o fogo do
Espírito, a Igreja permanece prisioneira do medo, assustada diante dos desafios
do mundo, fechada em si mesma e, por isso, incapaz de dialogar com os tempos
que mudam. O Espírito abre as portas da Igreja para que esta seja acolhedora e
hospitaleira em relação a todos, mesmo aqueles que fecharam as portas a Deus,
aos outros, à esperança e à alegria de viver.”
Por fim, o
Espírito Santo abre as portas dos nossos corações, ajudando-nos a vencer as
resistências, os egoísmos, as desconfianças e os preconceitos, e tornando-nos
capazes de viver como filhos de Deus e irmãos uns com os outros. "Onde
está o Espírito do Senhor, nasce a fraternidade entre as pessoas, os grupos, os
povos da Terra, e todos falam a única língua do amor, que une e harmoniza as
diversidades", afirmou o Papa, que então concluiu:
"Irmãos e
irmãs, também nos nossos dias, especialmente neste dia de Pentecostes, devemos
invocar o Espírito Santo, para que Ele abra as portas que permanecem fechadas.
Precisamos de redescobrir Deus como Pai que nos ama, de edificar uma Igreja
onde todos se sintam em casa e de fazer crescer um mundo fraterno, onde reine a
paz entre todos os povos."
Em suas
saudações após a oração do Regina Caeli, o Papa pediu orações pela Igreja na
China, confiando a Nossa Senhora Auxiliadora a comunidade de fiéis chineses
para que "sejam semente de esperança e paz". Leão XIV recordou as
pessoas que no Oriente Médio "sofrem por causa da guerra".
Após a missa
celebrada na Basílica de São Pedro, neste domingo 24 de maio, Solenidade de
Pentecostes, o Papa Leão XIV conduziu a oração mariana do Regina Caeli da
janela da Residência Apostólica Vaticana.
Os fiéis e
peregrinos que participaram deste encontro dominical com o Pontífice eram cerca
de trinta mil, na Praça São Pedro.
Leão XIV
recordou que neste domingo, celebra-se "o Dia de Oração pela Igreja na
China, memória litúrgica da Bem-Aventurada Virgem Maria Auxíliadora dos
Cristãos, venerada com grande devoção no Santuário de Sheshan, em Xangai".
“Unamos a nossa
oração à dos católicos chineses, como sinal de nosso carinho por eles e de sua
comunhão com a Igreja universal e com o Sucessor de Pedro. Que a intercessão da
Rainha do Céu obtenha para a comunidade de fiéis na China a graça da unidade e conceda
a todos a força de testemunhar o Evangelho em suas fadigas cotidianas, para que
sejam sementes de esperança e paz. Em particular, invoco a paz eterna para as
vítimas do acidente ocorrido dias atrás numa mina no norte da China.”
O Papa confiou a
Senhora Auxiliadora "as comunidades cristãs da Terra Santa, do Líbano e de
todo o Oriente Médio, que sofrem por causa da guerra".
A seguir, saudou
os fiéis de Roma e os peregrinos de vários países, em particular "o grupo
de pessoas com deficiência da Polônia" e "os peregrinos que vieram de
bicicleta de Kelmis, na Bélgica".
O Pontífice
concluiu, desejando a todos um feliz Domingo de Pentecostes.