Com a celebração
da Ressurreição do Senhor, na Vigília do Sábado Santo, entramos
no Tempo Pascal, formado por sete semanas até a Solenidade de
Pentecostes. Este tempo é marcado pela alegria da vida nova que
recebemos de Cristo. É o tempo litúrgico mais forte do ano, pois é a
passagem da morte para a Vida.
Durante o Tempo
Pascal, em todas as celebrações litúrgicas, o Círio Pascal permanece
aceso, pois ele representa o Cristo Ressuscitado que ilumina nossa
vida, dissipa as trevas da morte e faz resplandecer em todos nós a luz de
Deus. O Círio é essa grande coluna luminosa, que nos
guia para a libertação plena da vida.
Dentro desse
período, temos a Oitava de Páscoa. Como a Festa da Páscoa é o coração da
nossa fé, reservam-se oito dias para celebrar solenemente a Ressurreição de
Cristo. A Oitava Pascal é, portanto, o conjunto dos primeiros oito dias do
Tempo Pascal, iniciados no domingo após a Vigília da Ressurreição. No Tempo
Pascal, os domingos tem uma mesma unidade solene, não se diz “2º Domingo depois
da Páscoa”, mas se diz: Segundo Domingo da Páscoa. Por isso, na
Oitava Pascal, a Igreja, comunidade do Ressuscitado, proclama solenemente:
“Este é o dia
que o Senhor fez para nós, alegremo-nos e nele exultemos” (Sl 118, 24). O
dia que o Senhor fez para nós é o dia que a vida venceu. “Na verdade Ele
não poderia estar no sepulcro, pois não pode mais haver morte onde o viver se
tornou missão”.
A Oitava
Pascal traz para o centro da celebração litúrgica da Igreja o
mistério da Ressurreição de Jesus Cristo. A Páscoa de Jesus continua na
ação da Igreja e, por isso, na Oitava Pascal celebramos que todo
dia se tornou domingo, razão pela qual na Oitava Pascal se entoa o Hino de
Louvor em todas as missas, uma vez que, em outras épocas, geralmente é cantado
apenas na missa dominical, com exceção do tempo da Quaresma e Advento, onde não
se canta.
Por isso, durante
oito dias, celebramos a Solenidade da Ressurreição de Jesus como se fosse um
único dia – “o dia que o Senhor fez para nós!”
No passado,
a Oitava Pascal era um tempo especial de contato com a fé para
os que tinham sido batizados na Vigília Pascal.
No batismo,
eles recebiam a veste branca, e esta era tirada no final da Oitava Pascal. Era momento para aqueles que renasceram pelo Batismo poderem experimentara vida nova em Cristo.
Por isso,
a Oitava Pascal convida-nos a fazer da nossa vida uma contínua
Páscoa, um tempo de renovar a confiança no Senhor, colocando em suas mãos a
nossa vida e o nosso destino. É um tempo para que, ressuscitados com
Cristo, aprendamos a buscar as coisas que são do alto (Col 3,1).
Na homilia da
missa deste domingo pascal, o Papa recordou que "a Páscoa do Senhor nos dá
esperança", não obstante "o poder da morte" nos ameace
"constantemente, por dentro e por fora". "Dentro de nós, quando
as preocupações ou os ressentimentos sufocam a alegria de viver", fora de
nós, a morte está "presente nas injustiças, nos egoísmos de parte, na
opressão dos pobres, na escassa atenção para com os mais frágeis", na
"guerra que mata e destrói".
O Papa Leão XIV
presidiu a missa deste Domingo de Páscoa (05/04) e da Ressurreição do Senhor,
na Praça São Pedro. Estiveram presentes 50 mil pessoas na praça e 10 mil fora
dela em seus arredores.
Hoje, toda a
criação resplandece com uma nova luz; da terra se eleva um cântico de louvor; o
nosso coração exulta de alegria: Cristo ressuscitou da morte e, com Ele, também
nós ressuscitamos para uma vida nova!
Com estas
palavras Leão XIV iniciou a sua homilia e afirmou que "este anúncio pascal
abraça o mistério da nossa vida e o destino da história, alcançando-nos nas
profundezas dos abismos da morte, onde nos sentimos ameaçados e, por vezes,
oprimidos. Ele nos abre à esperança que não falha, à luz que não se põe, àquela
plenitude de alegria que nada pode apagar: a morte foi vencida para sempre, a
morte já não tem poder sobre nós"!
Esta é uma
mensagem nem sempre fácil de aceitar, uma promessa que nos custa acolher,
porque o poder da morte ameaça-nos constantemente, por dentro e por fora.
"Dentro de
nós, quando o fardo dos nossos pecados nos impede de voar; quando as desilusões
ou a solidão que experimentamos esgotam as nossas esperanças; quando as
preocupações ou os ressentimentos sufocam a alegria de viver; quando estamos
tristes ou cansados, quando nos sentimos traídos ou rejeitados, quando temos de
lidar com a nossa fraqueza, com o sofrimento, com o desgaste do dia a dia,
parecendo que fomos parar a um túnel do qual não vemos a saída", frisou o
Papa.
Mas também fora
de nós, a morte está sempre à espreita. Vemo-la presente nas injustiças, nos
egoísmos de parte, na opressão dos pobres, na escassa atenção para com os mais
frágeis. Vemo-la na violência, nas feridas do mundo, no grito de dor que se
eleva de todas as partes devido aos abusos que oprimem os mais vulneráveis,
devido à idolatria do lucro que saqueia os recursos da terra, devido à
violência da guerra que mata e destrói.
De acordo com
Leão XIV, "nesta circunstância, a Páscoa do Senhor nos convida a erguer o
olhar e a alargar o coração. Ela continua alimentando, no nosso espírito e no
percurso da história, a semente da vitória prometida".
Ela põe-nos em
movimento, tal como Maria Madalena e os Apóstolos, para nos fazer descobrir que
o sepulcro de Jesus está vazio e que, por isso, em cada morte que
experimentamos, há também espaço para uma nova vida que renasce. O Senhor está
vivo e permanece conosco.
"Através de
frestas de ressurreição que surgem na escuridão", o Senhor "entrega o
nosso coração à esperança que nos sustenta: o poder da morte não é o destino
último da nossa vida. De uma vez para sempre, estamos orientados para a
plenitude, porque, em Cristo ressuscitado, também nós somos
ressuscitados".
A seguir, Leão
XIV recordou as palavras do Papa Francisco num trecho da Exortação apostólica,
Evangelii gaudium. O Pontífice argentino escreve que a ressurreição de Cristo
«não é algo do passado; contém uma força de vida que penetrou o mundo. Onde
parecia que tudo morreu, voltam a aparecer por todo o lado os rebentos da
ressurreição. É uma força sem igual. É verdade que muitas vezes parece que Deus
não existe: vemos injustiças, maldades, indiferenças e crueldades que não
cedem. Mas também é certo que, no meio da obscuridade, sempre começa a
desabrochar algo de novo que, mais cedo ou mais tarde, produz fruto».
"A Páscoa
do Senhor nos dá esta esperança, lembrando-nos que, em Cristo ressuscitado, uma
nova criação é possível todos os dias", disse ainda o Papa, recordando que
"uma vida nova, mais forte do que a morte, está agora brotando para a humanidade".
"A Páscoa é a nova criação realizada pelo Senhor Ressuscitado, é um novo
começo, é a vida finalmente tornada eterna pela vitória de Deus sobre o antigo
adversário".
É deste canto de
esperança que hoje precisamos. E somos nós, ressuscitados com Cristo, que
devemos levá-lo pelas estradas do mundo. Corramos, pois, como Maria Madalena,
anunciemo-lo a todos, levemos com a nossa vida a alegria da ressurreição, para
que, onde quer que ainda paira o espectro da morte, possa brilhar a luz da
vida.
"Que
Cristo, nossa Páscoa, nos abençoe e conceda a sua paz ao mundo inteiro",
concluiu o Papa Leão.
façamos ouvir o grito de paz que brota do coração.
Em 11 de abril, uma vigília de oração
Após celebrar a
Missa da Ressurreição na Praça São Pedro, o Papa Leão XIV dirigiu à Cidade de
Roma e ao Mundo a sua Mensagem de Páscoa. Disse a "quem tem armas nas
mãos, que as deponha"! " A quem tem o poder de desencadear guerras,
que opte pela paz"! Convidou todos a unirem-se a ele na vigília de oração
pela paz que será realizada, na Basílica de São Pedro, no próximo sábado, 11 de
abril.
Em sua mensagem
Urbi et Orbi, à Cidade de Roma e ao Mundo, proferida da sacada central da
Basílica de São Pedro, neste domingo pascal (05/04), o Papa Leão XIV recordou
que "a Páscoa é uma vitória: da vida sobre a morte, da luz sobre as
trevas, do amor sobre o ódio".
"Uma
vitória a um preço muito alto", disse ele, pois "Cristo, o Filho do
Deus vivo, teve de morrer, e morrer numa cruz, depois de ter sofrido uma
condenação injusta, de ter sido ridicularizado e torturado, e de ter derramado
todo o seu sangue. Como verdadeiro Cordeiro imolado, tomou sobre si o pecado do
mundo e assim nos libertou a todos do domínio do mal, e conosco também a
criação".
"Mas como é
que Jesus venceu? Com que força derrotou de uma vez para sempre o antigo
adversário, o príncipe deste mundo? Com que poder ressuscitou dos mortos, não
regressando à vida anterior, mas entrando na vida eterna e abrindo assim, na
sua própria carne, a passagem deste mundo para o Pai"? Perguntou o Papa.
"Esta
força, este poder é o próprio Deus, Amor que cria e gera, Amor fiel até o fim,
Amor que perdoa e resgata. Cristo, o nosso «Rei vitorioso», travou e venceu a
sua batalha através do abandono confiante à vontade do Pai, ao seu desígnio de
salvação", disse Leão XIV, lembrando que assim, Jesus "percorreu até
o fim o caminho do diálogo, não com palavras, mas com obras: para nos encontrar
a nós, que estávamos perdidos, fez-se carne; para nos libertar a nós, que
éramos escravos, fez-se escravo; para nos dar vida a nós, mortais, deixou-se
matar na cruz".
"A força
com que Cristo ressuscitou é completamente não violenta. É semelhante à de um
grão de trigo que, ao decompor-se na terra, cresce, abre passagem pelas leivas,
germina e transforma-se numa espiga dourada. É ainda mais semelhante à do
coração humano que, ferido por uma ofensa, rejeita o instinto de vingança e,
cheio de piedade, reza por quem o ofendeu", disse ainda Leão XIV,
acrescentando:
Irmãos e irmãs,
esta é a verdadeira força que traz a paz à humanidade, porque gera relações
respeitosas a todos os níveis: entre as pessoas, as famílias, os grupos
sociais, as nações. Não visa o interesse particular, mas o bem comum; não
pretende impor os próprios planos, mas contribuir para os conceber e
concretizar em conjunto com os outros.
"Sim, a
ressurreição de Cristo é o princípio da nova humanidade, é a entrada na
verdadeira terra prometida, onde reinam a justiça, a liberdade e a paz, onde
todos se reconhecem irmãos e irmãs, filhos do mesmo Pai que é Amor, Vida e
Luz", sublinhou.
Segundo o Papa,
com a sua ressurreição, "o Senhor coloca-nos ainda mais intensamente
perante o drama da nossa liberdade. Diante do sepulcro vazio, podemos
encher-nos de esperança e admiração, como os discípulos, ou de medo, como os
guardas e os fariseus, obrigados a recorrer à mentira e ao subterfúgio para não
reconhecerem que aquele que fora condenado tinha realmente ressuscitado"!
À luz da Páscoa,
deixemo-nos surpreender por Cristo! Deixemos transformar o nosso coração pelo
seu imenso amor por nós! Quem tem armas nas mãos, que as deponha! Quem tem o
poder de desencadear guerras, que opte pela paz! Não uma paz conseguida com a
força, mas com o diálogo! Não com a vontade de dominar o outro, mas de o
encontrar!
Leão XIV disse
que nos habituamos "à violência, resignamo-nos a ela e tornamo-nos
indiferentes. Indiferentes à morte de milhares de pessoas. Indiferentes às
repercussões de ódio e divisão que os conflitos semeiam. Indiferentes às
consequências econômicas e sociais que produzem e que todos sentimos".
"Há uma
“globalização da indiferença” cada vez mais acentuada", frisou o Papa
Leão, retomando uma expressão querida ao Papa Francisco, que um ano atrás, da
Praça São Pedro, dirigiu ao mundo as suas últimas palavras, recordando-nos:
«Quanto desejo de morte vemos todos os dias em tantos conflitos que ocorrem em
diferentes partes do mundo!»
"A cruz de
Cristo recorda-nos sempre o sofrimento e a dor que envolvem a morte, e o
tormento que ela acarreta. Todos temos medo da morte e, por medo, voltamo-nos
para o outro lado, preferimos não olhar. Não podemos continuar indiferentes!
Não podemos resignar-nos ao mal! Santo Agostinho ensina: «Se tens medo da
morte, ama a ressurreição!». Amemos também nós a ressurreição, que nos recorda
que o mal não é a última palavra, porque foi derrotado pelo Ressuscitado",
disse ainda Leão XIV, lembrando que Jesus "atravessou a morte para nos dar
vida e paz": «Deixo-vos a paz; dou-vos a minha paz. A paz que eu dou não é
como a dá o mundo».
A paz que Jesus
nos entrega não é aquela que se limita a silenciar as armas, mas aquela que
toca e transforma o coração de cada um de nós! Convertamo-nos à paz de Cristo!
Façamos ouvir o grito de paz que brota do coração! Por isso, convido todos a
unirem-se a mim na vigília de oração pela paz que celebraremos aqui, na
Basílica de São Pedro, no próximo sábado, 11 de abril.
Saudações em dez
idiomas
"Neste dia
de festa, abandonemos toda a vontade de contendas, domínio e poder, e
imploremos ao Senhor que conceda a sua paz ao mundo atormentado pelas
guerras e marcado pelo ódio e pela indiferença, que nos fazem sentir impotentes
perante o mal", disse o Pontífice, confiando ao Senhor "todos os
corações que sofrem e esperam a verdadeira paz que só Ele pode dar".
O cardeal
protodiácono Dominique Mamberti anunciou a concessão de indulgência plenária a
todos os fiéis presentes e aos que receberem a sua bênção. Por fim, Leão XIV,
como fez no Natal, pronunciou as saudações pascais em dez idiomas: italiano,
francês, inglês, alemão, espanhol, português, polonês, árabe, chinês e latim.
Em português,
disse:
Feliz Páscoa!
Levai a todos a alegria do Senhor Ressuscitado e presente entre nós.
“Vós o matastes, mas Deus o ressuscitou”. Isto é o que pregam com fé os discípulos de Jesus pelas ruas de Jerusalém, poucos dias depois de sua execução. Para eles, a ressurreição é a resposta de Deus à ação injusta e criminal daqueles que quiseram calar para sempre sua voz e destruir pela raiz seu projeto de um mundo mais justo.
Não devemos esquecer nunca que no cerne de nossa fé há um Crucificado a quem Deus deu razão. No próprio centro da Igreja há uma vítima à qual Deus fez justiça. Uma vida “crucificada”, mas vivida com o espírito de Jesus, não terminará em fracasso, mas em ressurreição.
Isto muda totalmente o sentido de nossos esforços, penas, trabalhos e sofrimentos por um mundo mais humano e uma vida mais feliz para todos. Viver pensando nos que sofrem, estar perto dos mais desvalidos, dar uma mão aos indefesos … seguir os passos de Jesus, não é algo absurdo. É caminhar para o Mistério de um Deus que ressuscitará para sempre nossas vidas.
Os pequenos abusos que possamos padecer, as injustiças, rejeições ou incompreensões que possamos sofrer são feridas que um dia cicatrizarão para sempre. Temos de aprender a olhar com mais fé as cicatrizes do Ressuscitado. Assim serão um dia nossas feridas de hoje: cicatrizes curadas por Deus para sempre.
Esta fé nos sustenta por dentro e nos faz mais fortes para continuar correndo riscos. Pouco a pouco vamos aprendendo a não queixar-nos tanto, a não viver sempre nos lamentando do mal que há no mundo e na Igreja, a não sentir-nos sempre vítimas dos outros. Por que não podemos viver como Jesus dizendo: “Ninguém me tira a vida, sou eu que a dou”?
Seguir o Crucificado até compartilhar com Ele a ressurreição é, em última análise, aprender a “dar a vida”, o tempo, nossas forças e, talvez, nossa saúde por amor. Não nos faltarão feridas, cansaço e trabalho árduo. Mas uma esperança nos sustenta: um dia “Deus enxugará as lágrimas de nossos olhos, então não haverá mais morte nem pranto, nem gritos, nem fadigas, porque todo este velho mundo terá passado”.
JOSÉ ANTONIO PAGOLAcursou Teologia e Ciências Bíblicas na Pontifícia Universidade Gregoriana, no Pontifício Instituto Bíblico de Roma e na Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. É autor de diversas obras de teologia, pastoral e cristologia. Atualmente é diretor do Instituto de Teologia e Pastoral de São Sebastião. Este comentário é do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, da Editora Vozes.
A partir das
reflexões de Bento XVI, exploramos como o evento pascal inaugura uma nova
dimensão do ser e exige de nós um olhar profundo para reconhecer o divino.
A Páscoa é o
evento central da fé cristã, mas frequentemente corre o risco de ser mal
compreendida em uma visão simplória, como por exemplo, uma simples reanimação
de um cadáver. Bento XVI, na obra “Jesus de Nazaré: Da entrada em
Jerusalém até a Ressurreição”, convida-nos a olhar para este mistério não como
um evento do passado, mas como uma “mutação decisiva” na história da
humanidade. Baseados nesse livro, aprofundemo-nos nesse mistério.
O escândalo do
testemunho feminino
Um dos pontos
mais intrigantes das “novidades” da ressurreição é a escolha de Maria Madalena
como a primeira testemunha. Na tradição jurídica judaica da época, o testemunho
das mulheres não era aceito em tribunais; era considerado irrelevante e pouco
confiável.
Se a
ressurreição fosse uma invenção dos discípulos para convencer o mundo, eles
jamais teriam escolhido uma mulher como porta-voz inicial. No entanto, há uma
coerência profunda aqui: as mulheres, que permaneceram ao pé da cruz com João
enquanto os outros apóstolos fugiam, foram as mesmas que receberam o privilégio
do encontro. A fidelidade no sofrimento abriu as portas para a primazia no
reconhecimento da Glória. Como os evangelhos narram fatos reais, eles não
deixaram de colocar o que era estranho à sociedade da
época.
A natureza do
corpo ressuscitado
As narrativas
evangélicas apresentam uma tensão fascinante entre a corporeidade e a
transcendência.
A corporeidade
real: Jesus não é um fantasma. Ele caminha com os discípulos de Emaús,
convida Tomé a tocar Suas chagas e come peixe diante dos Apóstolos. Isso afirma
que a matéria é boa e que a nossa identidade corporal é redimida, não
descartada. Um exemplo dessa continuidade é que o Ressuscitado carrega as
marcas da crucificação.
A nova
existência: Ao mesmo tempo, Jesus atravessa portas fechadas e não é
imediatamente reconhecido. Ele não está mais sujeito às leis da física
biológica (espaço e tempo) da mesma forma que nós.
Bento XVI
enfatiza que Jesus entrou em um “novo gênero de existência”. Ele é o mesmo, mas
de uma forma totalmente diversa. Ele agora tem um corpo glorioso, primícias do
que teremos também. Esse é um “novo”, difícil de explicar, mas certo em sua
composição nas Escrituras.
As teofanias:
reconhecer “a partir de dentro”
Para compreender
como os discípulos viam o Ressuscitado, podemos olhar para algumas Teofanias
(manifestações de Deus) no Antigo Testamento.
Abraão em
Mambré: Vê três homens, mas dirige-se a eles como “Meu Senhor”. Há um
saber interior que vai além do olhar físico (Gn 18, 1-33).
Josué e o Chefe
do Exército: A figura parece um homem comum até que sua identidade divina
é revelada pela sua autoridade. Josué vê um homem com uma espada desembainhada
na mão. “És tu um dos nossos, ou dos nossos inimigos?”. “Não, mas sou chefe do
exército do Senhor” (Js 5, 13-15).
Gedeão e Sansão: Para
Gedeão (Jz 6, 11-24) e Sansão (Jz 13), o anjo do Senhor lhes aparece com
aspecto de homem, mas é reconhecido como tal quando se esquiva.
Estas foram
manifestações que reconheceram o caráter divino de quem ali se apresentava. Mas
também havia medo, pois na teologia do Antigo Testamento, acreditava-se que
ninguém poderia ver a face de Deus e sobreviver. Com Cristo, foi possível ir
mais adiante. Ao olhar para Ele, fazia-se mister ver o Deus e homem, em uma
única pessoa. Com Ele era possível ver o próprio Deus frente à frente! Contudo,
para isso, a visão externa não bastava. O Ressuscitado exige um reconhecimento
a partir de dentro. Só quem tem familiaridade com Ele, quem “sabe quem Ele
realmente é”, conseguia vê-Lo. Vejamos o Novo Testamento: assim como os
discípulos de Emaús só O reconheceram no “partir do pão”, nós também somos
chamados a um encontro que transcende os sentidos físicos.
Proximidade e
mistério
A Ressurreição
nos deixa duas grandes certezas. Primeiro, a proximidade: Deus não é um
motor imóvel distante, mas Alguém que quer ser nosso hóspede, que caminha
conosco e partilha da nossa mesa. Deus quer se fazer próximo de mim e de você.
Segundo, a necessidade de conversão do olhar: para ver o Ressuscitado, é
preciso que o nosso coração esteja iluminado por Ele, para conseguir reconhecer
quem Ele é em sua totalidade.
A Ressurreição
não é o final de uma história, mas a abertura de um novo horizonte para o que
significa ser humano: uma vida que, embora toque a terra, já não pertence mais
à morte. Cristo ressuscitou, e com Ele, somos chamados a esse novo também.
Ó maravilha de amor pelos homens! Em seus pés e mãos inocentes, Cristo recebeu os cravos e suportou a dor; e eu, sem dor nem esforço, mas apenas pela comunhão em suas dores, recebo gratuitamente a salvação. (Das Catequeses de Jerusalém)
Celebrar é tornar atual, conhecida, divulgada alguma coisa, um evento que nos encheu de vida, de alegria, de esperança e de vigor: a chegada de um amigo, a volta de um filho querido depois de gestos de loucura e desvario, a lembrança de um amor que nos foi manifestado no passado. Celebrar a ressurreição de Jesus é fazer de sorte que a vida nova do Mestre seja para nós, hoje, luz para a caminhada, profunda alegria para nossa vida e claridade para o mundo. Importante o “hoje”. Somos chamados a viver a vida nova de Jesus. Páscoa, festa da vida. Convite a que vivamos intensamente, e não de maneira queixosa. Na medida em que os anos passam, mesmo sem nenhuma autorização de nossa parte, sentimos, cristãos que somos, que nossa vida se renova. É proibido envelhecer. Nossa nudez foi coberta com a veste de Cristo. Somos renascidos, “renatos”.
Vida nova, vida no Senhor. Que bom, na manhã de Páscoa, ouvir Paulo a nos dizer: “Vós morrestes, e a vossa vida está escondida, com Cristo em Deus”. Vida, corpo, sonhos, esperas, anelos, casamento, paternidade, maternidade, coração, contradições, rejeições…tudo está escondido em Cristo Jesus. A glória da vida sem fim já habita em cada um de nós. Nada de pensamentos de morte. A vida venceu a morte.
Não nos foi dado de ver o Senhor ressuscitado. Os apóstolos, os discípulos de Emaús, Maria Madalena disseram que o viram. Tomé, por sua vez, lamentou não tê-lo visto quando ele se tinha manifestado a seus companheiros. Precisava tocar com seus dedos suas feridas.
Os apóstolos se tornaram testemunhas da ressurreição. Visão? Visão especial para testemunhar que, por sua pregação e jeito de viver, haveriam de nos dizer que a vida não é banal, que ela não existe para terminar de qualquer jeito. Ele vive, o Senhor vive e nos arrasta num movimento de vida. Temos a graça de crer em sua presença. Os que tiveram a graça de vê-lo ressuscitado nô-lo garantem. Não podemos dizer outra coisa: somos profundamente felizes por crer na vida do corpo que veio de Maria, do condenado do Gólgota e que as graças da morte do Senhor redundaram em vida para nós que, apesar de toda fragilidade, renascemos nele. Vida, sempre a vida do Ressuscitado.
Viera da parte do Pai. Tinha querido que os seus desígnios se inscrevessem nos projetos dos homens e das mulheres. Fez com que compreendêssemos que somente morrendo a nós mesmos renasceríamos na sua vida. Ele havia proposto um novo estilo de viver: os últimos seriam os primeiros, os que lavam os pés dos outros seriam príncipes, irmãos cuidam de irmãos e vivem como irmãos. Quis um mundo de transparência, de reza no quarto, de gestos colocados sem alarido. Pessoas simples. Nos que assim agem ele continua vivendo.
Ele andou por toda a terra fazendo o bem, curando os que eram presa do mal. Conheceu a perseguição, a condenação, o sofrimento, a morte. Foi literalmente o grão que morre e que morrendo dá a vida. Quando seu peito estava para estourar inclinou a cabeça e nos deu o seu Espírito.
Nada da reanimação de um cadáver. É ele, mas reconhecido nos gestos de amor sem limites e no despertar da fé nos corações adormecidos. Certeza nossa é que ele vive, transfiguradamente. Madalena, os discípulos de Emaús, os apóstolos viram o Senhor. Com seus olhos do rosto? Ou com a luminosidade do olhar da fé que enxerga além da barba, das pernas e do rosto? Sim, ele está presente. Presente de modo particular na comunidade dos fiéis que aprenderam a conjugar o verbo amar em todos os modos e tempos, nos sacramentos-sinais onde ele se imiscui, no pão branco e no vinho generoso e nos rostos contorcidos do mais humilde homens da face da terra.
Na segunda leitura desta liturgia, Paulo pede que busquemos as coisas do alto. A vida espiritual consiste precisamente em buscar as coisas do alto. Um pensamento para terminar: “A vida espiritual do batizado se delineia como dinâmica da espera do Senhor e como vida interior, não exibida nem gritada, mas envolta em discrição e pudor como pedem toda as realidades preciosas”.
Alegre-se hoje a Igreja herdeira: Cristo, seu Esposo, depois da Paixão, ressuscitou! Ela, que chorou por sua paixão, alegre-se por sua ressurreição!
Alegre-se, Igreja-Esposa! A ressurreição do Esposo te levantou do chão, onde jazias prostrada, e eras pisoteada. Os pés da cortesã não mais dançam por causa da morte de João Batista, mas os da Igreja calcam a morte. A fé não é mais negada, e todos os joelhos se dobram; cessaram os sacrifícios, e os salmos brotam como flores. Não é mais a fumaça dos sacrifícios que se eleva, mas o incenso das orações: Minha oração suba a vós como o incenso (Sl 140,2). As imolações de animais não têm mais valor, depois que foi imolado o Cordeiro que tira o pecado do mundo.
Ó maravilha! A mansão dos mortos devorou o Cristo Senhor e não o digeriu. O leão engoliu o Cordeiro não pôde conserva-lo em seu estômago. A morte sorveu a vida, mas tomada de náuseas, os que anteriormente devorara. O gigante não conseguiu levar Cristo que morria; morto, ele tornou-se terrível para o gigante; lutou com alguém que estava vivo e esse caiu vencido pelo morto.
Um só grão foi semeado e o mundo inteiro alimentado. Imolado como homem, voltou à vida como Deus, dando a vida ao universo. Como ostra foi esmagado e como pérola adornou a Igreja. Como ovelha foi sacrificado, e como um pastor com o cajado, expulsou com a cruz a tropa dos demônios. Como uma lâmpada no candelabro, extinguiu-se na cruz e, como sol, levantou-se do túmulo. Presenciou-se um duplo prodígio: enquanto Cristo estava sendo crucificado, o dia era encoberto pelas trevas; e enquanto ressurgia, a noite brilhava como o dia.
Por que o dia escureceu? Por que acerca desse dia está escrito: Das trevas fez o seu esconderijo (Sl 17,2). E por que a noite brilhou como o dia? Porque o profeta disse: “Mesmo as trevas para vós não serão escuras, a própria noite resplandecerá como o dia” (Sl 138, 12).
Ó noite mais clara que o dia! Ó noite mais fúlgida que o sol! Ó noite mais alva que a neve! Ó noite mais brilhante que os archotes! Ó noite mais deleitável que o paraíso.
Ó noite livre das trevas! Ó noite que repeles o sono! Ó noite que ensinas a vigiar com os anjos! Ó noite terrível para os demônios! Ó noite desejo do ano!
Ó noite que apresentas a Igreja a seu Esposo! Ó noite que geras os recém-nascidos pelo batismo! Ó noite na qual o diabo adormecido foi desarmado! Ó noite na qual o herdeiro introduz a herdeira na herança! (Lecionário Monástico III., p. 21-22)
Dá-nos, Senhor, a coragem dos recomeços. Mesmo nos dias quebrados, faz-nos descobrir limiares límpidos. Não nos deixes acomodar ao saber daquilo que foi: dá-nos largueza de coração para abraçar aquilo que é. Afasta-nos do repetido, do juízo mecânico que banaliza a história, pois a desventura de qualquer surpresa e esperança. Torna-nos atônitos como os seres que florescem. Torna-nos livres, insubmissos. Torna-nos inacabados, como quem deseja e de desejo vive… Torna-nos confiantes como os que se atrevem a olhar tudo, e a si mesmos, uma primeira vez.
FREI ALMIR GUIMARÃES, OFM, ingressou na Ordem Franciscana em 1958. Estudou catequese e pastoral no Institut Catholique de Paris, a partir de 1966, período em que fez licenciatura em Teologia. Em 1974, voltou a Paris para se doutorar em Teologia. Tem diversas obras sobre espiritualidade, sobretudo na área da Pastoral familiar. É o editor da Revista “Grande Sinal”.
1 - Não estive
lá. Vim 2 mil anos depois. Nunca vi aquela cruz na qual Jesus morreu!
2 - Hoje eu
apenas venero aqueles dois madeiros, um vertical e o outro horizontal.
3 - Venero-os,
mas não os adoro
4 - Também não
estive ao pé daquela cruz. Vim 2 mil anos depois. Também nunca vi Jesus que eu
creio que ressuscitou e está vivo numa outra dimensão do viver.
5 - Mas a Jesus
eu adoro por crer que ele era e é o Filho.
6 - Hoje, às 16
horas, inclinei-me em veneração por uma cruz que lembra aquela cruz na qual
Jesus morreu. Dizem que há um pedaço da cruz original em alguma igreja do
mundo. Mas nunca estive lá...
7 - Porém eu me
inclinei reverente. Porque cruzes lembram Jesus.
8 - Mais tarde
subi ao altar da nossa capela e lá adorei, adorei Jesus que creio que está
oculto naquela hóstia.
9 - Há quem
duvide ou não distinga. Não comunguei aquela cruz de agora, mas comunguei o
Cristo que está vivo no sacrário e atua em qualquer coração que o ame e tenha
intenção de viver como ele viveu!
10 - Isto: nesta
sexta-feira santa, no corredor da capela, eu venerei uma cruz, mas minutos
depois eu adorei Jesus e entrei em comunhão com ele!
11 - Foi mais um
ato de crente católico nesta Semana Santa de 2026.
Espero que v.
também tenha ido fazer o mesmo: Lembrar as dores dele e as dores do mundo atual
que está cada dia mais violento!
Oremos por todos
os crucificados no nosso tempo! E continuemos nossa semana santa! Pz