Estamos
avançando nas campanhas eleitorais para os parlamentos e
governos estaduais e federal. As pessoas que têm consciência cidadã e política,
mesmo num nível muito básico, têm o direito de esperar que este
seja um tempo de debate sobre perspectivas e projetos para um
país soberano e solidário e propostas que melhorem a vida do povo,
reduzam as desigualdades ou imponham limites à sanha rapinadora dos mais
fortes.
Em vez disso,
estamos sendo bombardeados por levas de acusações recíprocas entre os sujeitos
que estão inscritos nas disputas, e enganados por empresas de
comunicação que dirigem a nossa atenção sobre aspectos periféricos e jogam no
esquecimento as questões que realmente importam. Mais grave ainda é o recurso à
linguagem religiosa para ungir com o óleo da santidade alguns personagens e
rotular outros como ímpios incuráveis.
Neste contexto,
um bispo católico, muito ativo nas redes digitais, vem
afirmando que estamos sendo governados por ímpios.
Ímpios são pessoas sem fé, que não acreditam em
Deus, que não levam em conta ou se opõem às suas leis,
ou fazem o mal sem remorsos. No horizonte religioso, os ímpios são
pecadores típicos, pessoas que merecem nosso desprezo e precisamos
combater e eliminar. De gente ímpia não pode vir nada de bom.
Por outro
lado, segmentos políticos e religiosos apresentam candidatos e
ministros do seu campo ideológico como ungidos de
Deus. Ungida é a pessoa escolhida ou eleita, purificada e consagrada
pelo Espírito para ser seu agente e representante
no governo ou no tribunal. Na perspectiva religiosa, não
reconhecer ou contrariar uma pessoa ungida e escolhida por Deus
significa opor-se a Ele e à sua vontade, ou seja, tornar-se ímpio…
O recurso à
linguagem religiosa para cabrestear o voto dos cidadãos, impor ou
blindar candidatos e juízes, ou para disfarçar ideologias que, na prática,
se opõem a Deus e ao seu povo, é pernicioso e
condenável. É manipulação da ideia de Deus, esvaziamento da
fé uma limitação à liberdade de escolha, uma
ação que acaba destruindo a credibilidade da religião e
abrindo as portas à intolerância, ao fanatismo e ao autoritarismo.
E, quando uma
liderança religiosa usa sua autoridade para distribuir acusações sem se
dar ao tempo de analisar a realidade e sem levar em conta a
complexidade da política e dos tribunais, se arvora em juiz contra o qual não
cabe recurso. A profecia é legítima e necessária, mas não pode prescindir do
discernimento lúcido e responsável. Somente os pobres e as
vítimas têm o poder de nos julgar em nome de Deus (Mateus
25,31-46).
Dom Itacir Brassiani - Bispo de Santa Cruz do Sul (RS)
Por ocasião do 71º aniversário do Papa, a Conferência Episcopal Italiana (CEI) convida a acolhermos as suas palavras sobre a ligação entre o perdão e a paz, tendo em conta os conflitos que afetam várias partes do mundo. A Diocese de Roma invoca sobre o seu Bispo "força e sabedoria" para que possa liderar a construção da "civilização do amor". Meloni: as suas palavras são um "poderoso estímulo".
A “coragem do essencial” como caminho para seguir as prioridades da Igreja, que, em um tempo marcado por guerras e divisões, é chamada a reconhecer em seu guia um farol de “força e sabedoria” para construir uma nova “civilização do amor”. São os votos de felicitações, acompanhados do desejo de uma paz constantemente invocada, dirigidos hoje, 14 de setembro, ao Papa Leão XIV por ocasião de seu 71º aniversário.
CEI: acolher as palavras sobre perdão e paz
Por ocasião da data, a Conferência Episcopal Italiana (CEI) enviou uma mensagem em nome das Igrejas de todo o país, renovando sua gratidão pelos encontros realizados com o Papa nestes meses. Foram ocasiões nas quais o Pontífice “indicou no Evangelho a prioridade da vida da Igreja, fonte da fé entendida como encontro com Cristo morto e ressuscitado”.
Uma fé que, recorda o texto, se fortalece na promoção de comunidades voltadas para o anúncio, de paróquias capazes de acolher e evangelizar e de organismos de participação que atuem efetivamente.
São indicações preciosas que orientam o caminho da Igreja na Itália, inspirando cada pessoa a acolher também as palavras pronunciadas pelo Papa no Angelus de ontem, 13 de setembro, “sobre a relação entre perdão e paz e sobre as divisões e os conflitos que surgem quando o primeiro falta”. Um ensinamento que, escreve ainda a presidência da CEI, é particularmente atual diante das guerras que atingem diversas regiões do mundo.
“Nossas Igrejas”, conclui a mensagem, “continuarão próximas das populações atingidas pelo sofrimento por meio de gestos concretos de solidariedade”.
Diocese de Roma: sustentar o anseio de comunhão
Ao seu bispo chega também a mensagem de felicitações da Diocese de Roma, que invoca sobre ele “força e sabedoria” para enfrentar os numerosos desafios deste tempo e sustentar “o anseio de paz das pessoas de boa vontade que, sob sua orientação, desejam construir a civilização do amor”.
Meloni: não ceder ao cansaço e à resignação
A primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, por sua vez, retomou as palavras do Papa aos jovens reunidos no Meeting de Rimini, no último dia 22 de agosto: “Não haja apenas quem sopra sobre o fogo do cansaço e do desespero; haja também quem reacenda sonhos e visões”.
Meloni define essas afirmações como um “poderoso estímulo” diante da complexidade dos desafios atuais, que correm o risco de alimentar “cansaço e resignação”. Ao contrário, escreve a primeira-ministra, cada pessoa é chamada a “tornar-se guardiã e intérprete de uma esperança ativa, capaz de reacender os sonhos e transformar as visões em ações concretas”.
Em prantos e
olhos vermelhos de tanto chorar ela veio conversar com meu colega padre que
trabalha com casais de segunda união. O colega padre voltava da missa na
paróquia. Nesse ínterim atendi os dois: ele, viúvo, ela separada há cinco anos.
O ex-marido já está com outra e com dois filhos da outra!
Ela ouvira um
pregador super rígido que, literalmente, falou na mídia que não existe segunda
união.
Literalmente
disse que o viúvo está em pecado e que ela não pode coabitar com ninguém, mesmo
que o ex esteja com outra. Literalmente sentenciou que os quatro estão em
pecado.
O viúvo porque
estava vivendo com ela; ela porque estava vivendo com o viúvo a nova mulher do
ex-marido e o ex-marido porque está no segundo “casamento”.
Enfim, ouvira do
rígido pregador que ela devia viver solteira até o fim da vida, porque não
existe nem segundo casamento, nem segunda união!
Expliquei o que
a Igreja pensa e o que o bispo permite na sua diocese e qual o papel dos padres
e leigos que estudaram o Direito Canônico. É rígido, mas não insolúvel. Há
muitos casos com solução.
A pessoa
abandonada deve procurar ajuda não apenas na confissão, mas também na cúria
diocesana. Lá se cuida das dores, conflitos, injustiças e lá se explica o que
pastoral do matrimônio.
Não vale apenas
a pregação de um padre radical. A igreja também é radical porque vai às raízes
dos problemas. Uma coisa é o púlpito, outra o confessionário, outra a sala de
consulta onde um padre advogado, ou um leigo advogado ajuda a distinguir as
uniões de dada fiel. Os párocos sabem o endereço exato. É lá que se resolvem as
primeiras e segundas uniões.
Hoje em dia há
pregadores tão rígidos que acabam mandando para o inferno quem estava de novo
no céu.
Dona
D.A.R, que tinha marcas no queixo e no ombro direito da queda que levou
escada abaixo, vítima de um ex-marido brucutu. Hoje ela separou-se e agora vive
um céu com o novo companheiro, viúvo, pai de duas adolescentes que a amam como
mãe. Merece o inferno?
A Igreja
Católica tem solução para esses tipos de conflito. E a solução não é do padre
brucutu nem do padre bonzinho demais. Está nesses três livros e na sala dos
conselheiros da diocese.
A festa em honra da Santa Cruz foi
celebrada pela primeira vez em 335, por ocasião da dedicação de duas basílicas
constantinianas de Jerusalém, a do Martyrium ou Ad Crucem no Gólgota, e a do
Anástasis, isto é, da Ressurreição. A dedicação se realizou a 13 de dezembro.
Com o termo exaltação, a festa passou também para o Ocidente, e a partir do
século VII comemora-se a recuperação da preciosa relíquia pelo imperador
Heráclio em 628. Da Cruz, roubada 14 anos antes pelo rei persa Cosroe Parviz,
durante a conquista da cidade Santa, perderam-se definitivamente todas as
pistas em 1187, quando foi tirada do bispo de Belém que a havia levado na
batalha de Hattin.
A celebração atual tem um significado bem
maior do que o lendário encontro pela piedosa mãe do imperador Constantino,
Helena. A glorificação de Cristo passa através do suplício da Cruz e a antítese
sofrimento-glorificação se torna fundamental na história da Redenção. Cristo,
encarnado na sua realidade concreta humano-divina, se submete voluntariamente à
humilde condição de escravo (a cruz era o tormento reservado para os escravos)
e o suplício infame transformou-se em glória perene. Assim a cruz torna-se o símbolo
e o compêndio da religião cristã.
A própria evangelização, efetuada pelos
apóstolos é a simples apresentação de Cristo Crucificado. O cristão, aceitando
esta verdade, é crucificado com Cristo, isto é, deve carregar diariamente a sua
cruz, suportando injúrias e sofrimentos, como Cristo. Este, oprimido pelo peso
do patíbulo (“patíbulo” é o braço transversal da cruz, que o condenado levava
nas costas até o lugar do suplício onde era encaixado estavelmente com a parte
vertical), foi constrangido a expor-se aos insultos do povo no caminho que levava
ao Gólgota. Os sofrimentos que reproduzem no corpo místico da Igreja o estado
de morte de Cristo são contributo à redenção dos homens, e garantem a
participação na glória do Ressuscitado.
Esta é a razão que fez os mártires cristãos
suportarem tão grandes sofrimentos: “A minha paixão está crucificada — escreve
santo Inácio de Antioquia antes de sofrer o martírio — não existe mais em mim o
fogo da carne. Agora começo a ser discípulo … Prefiro morrer em Cristo Jesus a
reinar de uma extremidade à outra da terra. Procuro-o, ele que morreu por nós;
quero-o, ele que ressuscitou por nós… Concedei-me que eu seja imitador da
paixão do meu Deus”.
Extraído do livro: Um santo para cada dia, de Mario Sgarbossa e Luigi Giovannini.
Leão XIV alertou
para as consequências da falta de perdão: conflitos, acusações, rancores e
vinganças que destroem as relações, dividem as famílias e podem desencadear
guerras. “Só o perdão liberta e traz de volta a luz”, afirmou o Pontífice.
O céu ensolarado
acolheu os peregrinos e fiéis reunidos na Praça São Pedro para a oração mariana
do Angelus com o Papa Leão XIV, neste domingo, 13 de setembro. Na reta final do
verão europeu, as temperaturas começaram a diminuir lentamente em Roma, embora
ainda permaneçam em torno dos 30 graus.
Da janela do
Palácio Apostólico, o Pontífice comentou o Evangelho proposto pela liturgia
deste XXIV Domingo do Tempo Comum (cf. Mt 18,21-35), no qual Pedro pergunta a
Jesus quantas vezes deve perdoar um irmão que o ofende. Para Leão XIV, o trecho
apresenta um valor fundamental da vida cristã, ensinado e testemunhado por
Cristo até a cruz, quando rezou ao Pai por seus perseguidores.
O Papa explicou
que a pergunta de Pedro revela um coração generoso, pois o número sete, na
Bíblia, simboliza a plenitude. Jesus, porém, convida os discípulos a ir ainda
mais longe: “A resposta de Jesus, porém, vai além: ‘Não te digo até sete vezes
— afirma Ele —, mas até setenta vezes sete’ (v. 22), ou seja, além de qualquer
limite, sem medida.”
Para esclarecer
esse ensinamento, Cristo conta a parábola do servo que recebeu de seu senhor o
perdão de uma dívida tão grande que era praticamente impossível de pagar, mas
não demonstrou a mesma misericórdia para com um companheiro. Por isso, acabou
repreendido e severamente castigado.
Tudo é dom de
Deus
Leão XIV
recordou que tudo o que existe é dom gratuito do amor de Deus e que ninguém
pode considerar perfeita a própria resposta a tanta bondade. Essa consciência,
acrescentou, deve orientar também as relações humanas:
“Por isso, a
gratuidade – que é a fonte da nossa própria vida – é também a melhor regra para
a nossa convivência. Experimentamo-lo todos os dias. O perdão é indispensável
e, se faltar, não se pode viver em paz: mais cedo ou mais tarde, no coração e
entre as pessoas, surgem conflitos, acusações, rancores e vinganças que
destroem as relações, dividem as famílias e desencadeiam guerras.”
A caridade que
esquece e cura
“Só o perdão
liberta e traz de volta a luz, mesmo ali onde a pobreza material e moral do
homem, por um momento, tornou o horizonte sombrio e o caminho incerto”,
sublinhou o Santo Padre, comparando o perdão a um vento favorável, capaz de
afastar até as nuvens mais densas e permitir que o sol volte a brilhar. Como
exemplo, citou a experiência de São Pedro, que negou e abandonou Jesus durante
a Paixão, mas, ao reencontrá-lo ressuscitado às margens do lago, ouviu apenas
uma pergunta: “Simão, tu me amas?”, acompanhada do convite: “Segue-me!”. Era
como se tudo recomeçasse, observou o Papa, quase como no dia do primeiro
encontro. A confirmação da missão do primeiro dos Apóstolos foi, assim, marcada
por uma caridade “que esquece e cura”.
Por fim, Leão
XIV pediu a intercessão da Virgem Maria, Mãe da Misericórdia, para que ajude os
cristãos a perdoar sempre, mesmo quando é difícil dar o primeiro passo, e a
difundir “a luz serena e curativa do amor que vence o ódio e desarma todo o
rancor”.
Saudação aos
peregrinos do Brasil
Após a oração
mariana, o Papa saudou com afeto os romanos e peregrinos presentes, dando
especial destaque aos grupos provenientes do Brasil. Leão XIV acolheu os fiéis
de São Paulo e a “Família de Belluno” com a Escola Fainors de Erechim, no Rio
Grande do Sul.
O Pontífice
dirigiu ainda uma saudação aos membros da Associação Religiosa Jesús Nazareno
Cautivo residentes em Roma, ao grupo do Oratório Salesiano de Chieri, aos fiéis
de Dolianova, na Sardenha, aos peregrinos que chegaram de Assis pela Via de São
Francisco e aos motociclistas reunidos em defesa da paz e da vida. “A todos
vocês, desejo um bom domingo”, concluiu.
Chama-se “Parábola do Servo Cruel” porque trata de um homem que, tendo sido perdoado pelo rei de uma dívida impossível de pagar, é incapaz de perdoar, por sua vez, a um companheiro que lhe deve uma pequena quantia. O relato parece simples e claro, mas os autores continuam discutindo sobre o sentido original, pois tal como o apresenta Mateus, encaixa-se muito bem no convite de Jesus de “perdoar até setenta vezes sete”.
A parábola que havia começado de maneira tão promissora, com o perdão do rei, acaba tragicamente. Tudo termina mal. O perdão do rei não consegue provocar um comportamento mais compassivo entre seus subordinados. O servo perdoado não sabe compadecer-se de seu companheiro. Os outros servos não se perdoam e pedem ao rei que faça justiça. O rei, indignado, retira seu perdão e entrega o servo aos verdugos.
Por um momento parecia que podia ter começado uma era nova de compreensão e mútuo perdão. Não foi assim. No final, a compaixão fica anulada por todos. Nem o servo nem seus companheiros, nem sequer o rei escutam o convite ao perdão. Houve um gesto inicial de perdão do rei que também não sabe perdoar “setenta vezes sete”.
O que Jesus está sugerindo? Às vezes pensamos ingenuamente que o mundo seria mais humano se tudo fosse regido pela ordem, pela estrita justiça e pelo castigo aos que praticam o mal. Mas não construiríamos assim um mundo tenebroso? O que seria uma sociedade onde fosse suprimido radicalmente o perdão? O que seria de nós se Deus não soubesse perdoar?
A negação do perdão nos parece às vezes a reação mais normal e até a mais digna diante da ofensa, da humilhação ou da injustiça. Mas não é isso que humanizará o mundo. Um casal sem mútua compreensão se destrói; uma família sem perdão é um inferno; uma sociedade sem compaixão é desumana.
A parábola de Jesus é uma espécie de “armadilha”. A todos nós parece que o servo perdoado pelo rei “devia” perdoar a seu companheiro. É o mínimo que dele se podia exigir. Mas então, o perdão não é o mínimo que se pode esperar de quem vive do perdão e da misericórdia de Deus? Nós falamos do perdão como um gesto admirável e heroico. Para Jesus era o mais normal.
JOSÉ ANTONIO PAGOLAcursou Teologia e Ciências Bíblicas na Pontifícia Universidade Gregoriana, no Pontifício Instituto Bíblico de Roma e na Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. É autor de diversas obras de teologia, pastoral e cristologia. Atualmente é diretor do Instituto de Teologia e Pastoral de São Sebastião. Este comentário é do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, da Editora Vozes.