A missa por
ocasião do Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação foi celebrada nos
jardins pontifícios de Castel Gandolfo, mais precisamente no Jardim de Nossa
Senhora do Borgo Laudato si’. Foi utilizado o formulário da “Missa pelo Cuidado
da Criação", fruto do caminho compartilhado entre os Dicastérios para o
Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, para o Culto Divino e a Disciplina
dos Sacramentos, para a Doutrina da Fé e para a Promoção da Unidade dos
Cristãos.
Em meio à
natureza dos jardins pontifícios de Castel Gandolfo, Leão XIV presidiu na tarde
desta terça-feira (1º/09) à Santa Missa por ocasião do Dia Mundial de
Oração pelo Cuidado da Criação, que chega à sua 11ª edição.
O dia 1º de
setembro marca também, todos os anos, o início do Tempo da Criação -, caminho
ecumênico de oração e comprometimento com o cuidado da Casa Comum, que se
encerra em 4 de outubro, festa de São Francisco de Assis, de quem celebramos os
800 anos de falecimento. Trata-se de um período em que a Igreja, juntamente com
as outras comunidades cristãs, é convidada a renovar seu compromisso com a
Criação, deixando-se guiar pela oração, pela conversão e por gestos concretos
de cuidado.
Colocar em
"modo silencioso" as obras humanas para ouvir a voz da criação
Em sua homilia,
o Pontífice comentou as leituras escolhidas especialmente para este Dia, em que
nos são dirigidos dois convites à contemplação das obras do Senhor. O Livro da
Sabedoria exorta a contemplar a beleza e o poder da criação para que possamos apreciar
o seu Artífice (cf. Sb 13, 1-9). O Salmo 18 incentiva a erguer o
olhar para contemplar os céus que proclamam a glória de Deus e o firmamento que
anuncia a obra de suas mãos. "Toda a criação fala-nos da grandeza do
Criador", recorda o Santo Padre, desde que o olhar e o coração estejam
abertos a tão grande mistério. Também o texto evangélico de Mateus
(cf. Mt 6, 24-34) convida à contemplação da criação, sublinhando o
amor especial do Senhor pelo ser humano.
Inspirado nesses
textos sagrados, a exortação do Papa é para reservar alguns minutos de pausa na
agitação das atividades quotidianas para saborear a grande harmonia da qual
fazemos parte.
“Coloquemos em
“modo silencioso” todos os ruídos das obras humanas para ouvir a voz melodiosa
da criação, na qual Deus, Autor de todas as coisas, nos fala.”
Papa se dirige ao Borgo Laudato si'
Ainda não é
tarde demais!
Para o Santo
Padre, este exercício contemplativo constitui um primeiro passo para uma
autêntica conversão ecológica, onde os efeitos do nosso encontro com Jesus
Cristo se tornam evidentes na nossa relação com o mundo que nos rodeia.
"Da
contemplação da criação e do encontro com o Criador nasce a consciência do
nosso lugar especial no maravilhoso plano de Deus e da nossa responsabilidade
pessoal e coletiva no cuidado da harmonia original. Assim, da tomada de
consciência das nossas falhas e erros, nasce um esforço renovado para restaurar
as relações entre as criaturas segundo a vontade do seu Autor", afirmou
Leão XIV.
Citando sua
Mensagem para este Dia, o Papa retomou o apelo profético a “transformar as
espadas em relhas de arados” (Is 2, 4), a transformar o mal em vida.
“Ainda não é
tarde demais, e o Tempo da Criação convida-nos a uma profunda conversão: o que
tem sido utilizado para a destruição pode ser redirecionado para a vida, para o
cuidado dos pobres, para a alimentação dos famintos e para a salvaguarda da
criação.”
Leão XIV
encerrou sua homilia recordando seu predecessor, Papa Francisco, que por sua
vez se inspirou no Pobrezinho de Assis para para escrever a sua Carta
Encíclica Laudato si’. "Com São Francisco, queremos renovar o nosso
compromisso de viver e promover aquela fraternidade universal que está
inseparavelmente ligada ao dever de cuidar da criação." E recitou um
trecho do Cântico de louvor de São Francisco:
"Louvado
sejas, meu Senhor, com todas as tuas criaturas, especialmente o meu senhor
irmão Sol, […]Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã Lua e pelas estrelas,
[…]Louvado sejas, meu Senhor, pelo irmão vento […].Louvado sejas, meu Senhor,
pela irmã água […].Louvado sejas, meu Senhor, pelo irmão fogo […].Louvado sejas,
meu Senhor, pela nossa irmã, a mãe Terra,que nos sustenta e governa."
Setembro
é dedicado à Palavra de Deus, a Bíblia Sagrada, que deve ocupar lugar especial
em nossa vida, pois, de acordo com São Jerônimo, “ignorar as Escrituras é
ignorar o próprio Cristo”! Ou seja, para se ter o conhecimento sobre Deus e
para amar de verdade a Deus, temos como uma das fontes mais importantes os Escritos
Sagrados, por meio dos quais Ele se revela a nós e nos dá a mensagem de seu
amor e de sua salvação.
A
Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, já há anos, propõe que,
especialmente neste mês, tomemos conhecimento de um livro da Sagrada Escritura.
Neste ano, o livro escolhido é o de Daniel, o quarto e último livro dos
chamados profetas maiores da Bíblia. O livro surgiu em uma época de grandes
perseguições e sofrimento do povo. Seu objetivo era animar as pessoas e
fortalecer sua fé e fidelidade a Deus, aqueles que arriscavam a própria vida
para trilhar os caminhos da salvação.
O
livro não foi escrito por uma pessoa chamada Daniel e sim por um autor
desconhecido, provavelmente um grupo piedoso dos “homens esclarecidos” é o
redator da união de diversas histórias e momentos. O nome do livro vem de um
recurso bíblico que consiste em atribuir a autoria a personagem importante do
passado. Daniel fora um homem justo e sábio (cf. Ezequiel 14,14.20; 28,3), que,
mesmo diante das ameaças de violência e morte, se tornou modelo de fidelidade e
confiança em Deus.
O
livro não narra apenas a história de uma pessoa, mas demonstra a fé de
comunidades que permaneceram fiéis aos seus ideais no enfrentamento das
perseguições e da morte no período em que governava um terrível perseguidor dos
judeus, o rei Antíoco IV Epifanes (175-164 a.C.).
O
autor utiliza a linguagem apocalíptica. O vocábulo apocalipse significa
“revelação”. Por meio de sonhos, visões e símbolos, o livro demonstra uma
verdade fundamental: “Deus continua se revelando como o Senhor da história, e
os poderes que oprimem seu povo não são eternos, estão destinados a
desaparecer”[1].
É
nesse cenário de perseguições e martírios que o livro de Daniel anuncia a fé na
ressurreição dos mortos. Essa esperança é uma resposta ao grande questionamento
daqueles que eram perseguidos: vale a pena permanecer fiel até a morte? Daniel
proclama que Deus fará justiça e que a vida dos justos não será perdida. A
ressurreição torna-se sinal de que a fidelidade a Deus é mais forte que a
morte, e de que o martírio não é derrota, mas vitória, caminho para a vida
plena[2].
Daniel
é modelo de oração e perseverança em meio às crises da vida. “No exílio
babilônico, Daniel e seus amigos tornaram-se paradigma de coragem e fidelidade,
sustentados por uma disciplina espiritual concreta e pública. A vida de Daniel
nos ensina que a oração diária sustenta o coração em tempos de paz e de crise.
Ela forma em nós confiança, discernimento e coragem para permanecermos fiéis
quando tudo ao redor vacila. A oração pessoal e comunitária torna-se refúgio,
força e caminho de transformação interior. Quem ora de verdade descobre que
Deus vê o oculto, restaura a esperança e mantém firme o seu povo”[3].
Daniel
é também exemplo de pessoa que age, que atua em defesa da justiça e defende
quem sofre. É o que ocorreu com uma importante personagem do livro, Susana, que
foi difamada e a quem foi atribuído um grande pecado. Daniel sai em sua defesa
e, exigindo um julgamento justo, faz com seja reconhecida a sua inocência.
Por
outro lado, o contexto de violência e perseguição da época também se fez
presente na história da humanidade e hoje se revela com suas garras que oprimem
nações e pessoas. Tem, portanto, a temática de Daniel atualidade e importância.
Conhecer,
estudar e rezar com o livro de Daniel no mês da Bíblia é uma interessante forma
de, à luz de seus ensinamentos, iluminar as crises pessoais e coletivas do
mundo atual para firmar nossa fé n’Aquele que jamais nos decepciona e quer a
realização e a salvação de todos os homens e mulheres que aspiram à vida plena
em Deus.
Luiz
Gonzaga da Rosa -Autor do livro Discípulos e missionários na paróquia (Paulus)
e membro da Comissão de Formação Permanente da arquidiocese de Pouso Alegre
Muita coisa da
atualidade sensibiliza o coração das pessoas e, às vezes, somente pelas
aparências. Compactuamos com situações de verdadeira sedução, que conseguem
mudar nossos objetivos e nos levam para escolhas sem objetividade. São
aparências que acabam influenciando em nossas atitudes. O profeta Jeremias se
diz seduzido pelo Senhor, a quem entrega sua vida, para servi-lo (cf. Jr 20,7).
Ser seduzido por
Deus implica, inevitavelmente, investir na dignidade da vida, mesmo que isto
custe a nós ter que assumir conflitos e passar por momentos de dores, porque
ela é um dom divino e de um inestimável valor. A atual mentalidade secularizada
da cultura dificulta muito o seguimento da vontade de Deus e causa ação pessoal
sem consistência e com vazio de objetividade.
O itinerário da
vida humana não passa pelo prestígio que a pessoa tem diante dos outros, mas
pela forma como são colocados em prática os gestos de amor de uns para com os
demais. Esse amor se transforma em dom de si mesmo e em uma entrega pessoal
para exaltar o valor próprio da vida na comunidade. Isto depende muito de um
maduro discernimento e também atitude de responsabilidade.
É importante a
gente não ser iludido pelas aparências, pois uma decisão imatura pode causar
desilusão, desânimo e sofrimento. As aparências seduzem os olhares, as mentes e
as escolhas. Também têm capacidade para enganar e conduzir as pessoas ao
ridículo. Se Deus é sedutor, os frutos dessa ação é a comunhão com Ele, com os
outros e com o mundo, fortalecendo a existência de cada pessoa.
Deixar-se ser
seduzido por Deus é fazer a oferta da própria vida a Ele. Essa atitude faz com
que haja um inconformismo com muita coisa da atualidade, principalmente com
práticas e estruturas que privilegiam o espírito egoísta e injusto. Muitos
corações e mentes estão fechados para uma cultura que seja libertadora. É
preciso Caminhar, mas renunciando o espírito de orgulho e vaidade.
Seguir os
caminhos de Jesus Cristo não é tão fácil, mas não significa impossibilidade,
pois o ser humano consegue fazer escolhas determinadas e objetivas. Mesmo
diante da verdadeira condição de vulnerabilidade, a vida é espaço de conquista
de situações melhores. É uma questão de fidelidade aos ensinamentos de Deus e
coragem na prática do bem. A luz do fim do túnel é chegar a eternidade.
Dom Paulo Mendes Peixoto - Arcebispo de Uberaba (MG)
A grandeza de
Pedro manifesta-se justamente na sua capacidade de deixar-se transformar por
aquilo que Jesus lhe ensina. Depois de compreender que o Messias não veio para
conquistar pelo poder, mas para entregar a própria vida, o apóstolo permanecerá
fiel a Cristo até o fim, inclusive no martírio. A sua trajetória mostra que a
fé não significa ter todas as respostas imediatamente, mas confiar o suficiente
para continuar caminhando quando ainda não compreendemos tudo. Como Pedro,
somos convidados.
"Efetivamente,
também para nós nem sempre é fácil compreender e aceitar os caminhos de Deus,
especialmente quando estão muito distantes dos nossos". A reação de Pedro
diante da revelação de Jesus de sua Páscoa imininente, inspirou a reflexão de
Leão XIV antes de rezar o Angelus diante da multidão aglomerada na
Praça da Liberdade, diante do Palácio Apostólico, em Castel Gandolfo.
O Evangelho
proposto pela liturgia neste XXII Domingo do Tempo Comum - começou explicando o
Papa aos presentes - apresenta Jesus anunciando a seus discípulos que
"deverá ir a Jerusalém, sofrer, ser morto e, ao terceiro dia,
ressuscitar". Uma revelação, que " está muito distante da imagem de
um Messias triunfante e poderoso que os discípulos esperavam"
Pedro, que pouco
antes havia proclamado sua fé em Jesus como «o Messias, o Filho de Deus vivo»,
reage com espanto e repreende o Mestre: «Deus te livre, Senhor! Isso nunca te
há de acontecer!». Sua atitude nasce de um amor sincero, mas também revela a
dificuldade de aceitar um caminho de salvação diferente daquele que imaginava.
A reação de
Pedro - recorda o Papa - toca uma realidade profundamente humana e presente
também na experiência de fé de cada pessoa:
Efetivamente,
também para nós nem sempre é fácil compreender e aceitar os caminhos de Deus,
especialmente quando estão muito distantes dos nossos. Nessa altura, surge a
tentação de pensar, contra toda a lógica da fé, que é o Senhor quem está
errado, ou pior ainda, que não nos ouve ou que não se interessa por nós.
E perante esta
incerteza - explica o Santo Padre - Pedro, apesar da sua impulsividade,
ensina-nos duas coisas importantes: primeiramente, é necessário manter sempre
aberto o diálogo com o Senhor e apresentar-Lhe com confiança aquilo que
trazemos no coração, inclusive nossas dúvidas, incompreensões e angústias:
A segunda,
porém, é nunca julgar a ação de Deus, mas sim ouvir, com humildade, na oração,
o que Ele nos está a revelar por meio da sua ação, mesmo quando isso não
corresponde às nossas expectativas.
Jesus
repreende Pedro — «Afasta-te, Satanás!» — e deixa claro que o pensamento do
discípulo ainda está preso à lógica humana. Para seguir Cristo, é preciso
aceitar uma lógica diferente: negar a si mesmo, tomar a própria cruz e
segui-lo. O caminho da salvação não passa pelo poder, pela imposição ou pela
vitória segundo os critérios do mundo, mas pelo amor que se entrega, pelo
sofrimento assumido com esperança e pela fidelidade à vontade do Pai. E a
grandeza do Primeiro dos Apóstolos manifesta-se também na sua capacidade de
deixar-se transformar por aquilo que Jesus lhe ensina:
Peçamos ao
Senhor, então, que também nós, na nossa vida de fé e na nossa oração, tenhamos
a mesma sinceridade de Pedro, ao dizer-Lhe humildemente o que realmente
sentimos, mesmo quando o coração está confuso, e, ao mesmo tempo, que saibamos
cultivar a sua mesma docilidade, ao aceitar o que Ele nos pede para além das
nossas expectativas.
Que Maria nos
ajude - foi o pedido de Leão XIV ao concluir - ela que foi obediente aos
desígnios de Deus até junto à Cruz do seu Filho Jesus.
É difícil não sentir desconcerto e mal-estar ao ouvir mais uma vez as palavras de Jesus: “Se alguém quiser vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me”. Entendemos muito bem a reação de Pedro que, ao ouvir Jesus falar de rejeição e sofrimento, “o toma à parte e se põe a censurá-lo”. Diz o teólogo mártir, Dietrich Bonhoeffer, que esta reação de Pedro “prova que, desde o princípio, a Igreja se escandalizou do Cristo sofredor. Ela não quer que seu Senhor lhe imponha a lei do sofrimento”.
Este escândalo pode tornar-se hoje insuportável para nós que vivemos no que Leszek Kolakowsky chama “a cultura de analgésicos”, essa sociedade obsediada por eliminar o sofrimento e mal-estar por meio de todo tipo de drogas, narcóticos e evasões.
Se quisermos esclarecer qual deve ser a atitude cristã, temos que compreender bem em que consiste a cruz para o cristão, pois pode acontecer que nós a ponhamos onde Jesus nunca a pôs.
Facilmente chamamos “cruz” tudo aquilo que nos faz sofrer, inclusive esse sofrimento que aparece em nossa vida, gerado por nosso próprio pecado, ou por nossa maneira equivocada de viver. Mas não devemos confundir a cruz com qualquer desgraça, contrariedade ou mal-estar que acontece na vida.
A cruz é outra coisa. Jesus chama seus discípulos para segui-lo fielmente e colocar-se a serviço de um mundo mais humano: o Reino de Deus. Isto é o principal. A cruz é apenas o sofrimento que nos virá como consequência desse seguimento; o destino doloroso que teremos de compartilhar com Cristo, se seguirmos realmente seus passos. Por isso não devemos confundir o “carregar a cruz” com posturas masoquistas, uma falsa mortificação, ou o que P. Evdokimov chama “ascetismo barato” e individualista.
Por outro lado, devemos entender corretamente o “renunciar a si mesmo”, condição que Jesus pede para carregar a cruz e segui-lo. “Renunciar a si mesmo” não significa mortificar-se de qualquer maneira, castigar-se a si mesmo e, menos ainda, anular-se ou auto destruir-se. “Negar-se a si mesmo” é não viver dependente de si próprio, esquecer-se do próprio “ego”, para construir a vida sobre Jesus Cristo. Libertar-nos de nós mesmos para aderir radicalmente a Ele. Em outras palavras, “carregar a cruz” significa seguir a Jesus dispostos a assumir a insegurança, a conflitividade, a rejeição ou a perseguição que o próprio Crucificado teve que padecer.
Mas nós crentes não vivemos a cruz como derrotados, mas como portadores de uma esperança final. Todo aquele que perde sua vida por Jesus Cristo a encontrará. O Deus que ressuscitou Jesus nos ressuscitará também para uma vida plena.
JOSÉ ANTONIO PAGOLAcursou Teologia e Ciências Bíblicas na Pontifícia Universidade Gregoriana, no Pontifício Instituto Bíblico de Roma e na Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. É autor de diversas obras de teologia, pastoral e cristologia. Atualmente é diretor do Instituto de Teologia e Pastoral de São Sebastião. Este comentário é do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, da Editora Vozes.
Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga. Pois quem quiser salvar a vida vai perdê-la; e quem perder a sua vida por causa de mim, vai encontrá-la (Mateus 16, 25)
Seguir Cristo significa por a própria vida dele por amor. Aquilo que por amor se perde, na realidade não é perdido, é dado. E o que é dado por amor, é reencontrado na relação. (Luciano Manicardi)
Normalmente no final de cada ano costuma-se fazer o balanço de uma loja, de um empreendimento, da vida de uma família ou de nossa vida pessoal. Costuma-se falar em perdas e ganhos. Os que já fizemos uma boa parte da caminhada gostamos de conhecer e reconhecer o que não deu certo, o que deu certo e o que poderia dar mais certo. Trata-se de uma atitude de prudência para desperdiçar o dom do tempo da vida. O evangelho de hoje fala curiosamente de perdas que são ganhos e ganhos que podem ser perdas.
Antes da audição do evangelho pouquíssimos versículos de Jeremias ocupam nossa atenção. Sente-se ele perseguido em sua missão de profeta. “A palavra tornou-se para mim fonte de vergonha e de chacota o dia inteiro. Disse comigo: Não quero mais lembrar-me disso, nem falar em nome dele”. Sente-se no limite de suas capacidade embora tenha sido seduzido pelo Senhor e fale de um fogo ardente a penetrar seu corpo todo. Mesmo assim ele não “quer falar em nome dele”.
O profeta não é alguém que diverte. Sua missão não é adivinhar o futuro, mas compreender o presente. Lançar uma luz que vem da Verdade e da Claridade para orientar os passos de seus ouvintes rumo a Deus. Ele capta a proximidade da luz do sol antes que chegue. Jean Sulivan diz que “o profeta é o diário de Deus”. Sofre, perde e morre. Ganha pela sua coerência e fidelidade a quem o seduziu. De forma alguma poderá ser infiel. O profeta fala de um claridade invisível. Novamente Sulivan: “Quem quiser falar do sol invisível, apresente-se todo ensolarado no meio das trevas. Filhos da luz, parai de provar e dizer: Deus…Deus… Apresentai-vos como aurora”.
Vivemos. Aprendemos a viver. Lutamos. Surge no horizonte de nossa vida a pessoa de Jesus a nos pedir seguimento efetivo, um colocar nossos passos nos seus passos, pede que olhemos o mundo com o seu modo de olhar, insinua que aqui e ali e quase sempre será preciso perder para ganhar. Será preciso não levar a sério a ofensa que foi feita e perdoar. Nem sempre todos os nossos desejos, por mais legítimos, podem ser satisfeitos ao nosso bel prazer. Há limitações naturais, incidentes desastrosos efeitos nossos ou causados por outros. Há desastres físicos, pessoais, familiares. Há esse vírus que mata. Há grãos de trigo para darem frutos aqui ou ali, agora ou depois. Mistério de morte e vida. Esperamos. Os que fomos seduzidos por Cristo daremos os testemunho custe o que custe. É a tal questão das perdas e ganhos.
Ressoam dentro de nós as palavras de Paulo aos Romanos: “Não vos conformeis com o mundo, mas transformai-vos, renovai vossa maneira de pensar e de julgar, para que possais distinguir o que é da vontade de Deus, isto é, o que é bom, o que lhe agrada, o que perfeito”. Trata-se da coragem de ser do Senhor no dia a dia: na lisura de todos os comportamentos, na defesa dos mais frágeis, na oposição a tudo o que minora o ser humano. Pouco importa se agradamos ou não.
Jesus anuncia sua morte. Causa escândalo. Pedro não aceita. O Mestre não tem a mentalidade de “vitimismo”. Assume livremente sua morte. Sua dolorida morte, mas acolhida sob o olhar do Pai que parecia silencioso e longínquo. “Em tuas mãos entrego o meu espirito”.
“O Senhor não esperou os teólogos para se explicar em poucas palavras. Todo o esforço de Deus desde a criação tem sido, por todos os meios, fazer o homem compreender que o amava. Esgotados todos os argumentos, apresenta a maior prova “Não há maior prova de amor que dar a vida por aqueles que amamos”. Eis tudo. Depois disso não há mais nada a dizer. Quem quiser que compreenda. Aí está o livro aberto sobre a cruz (…). Em vez de dizer que a Paixão foi a salvação para a humanidade, seria mais exato ver nela apelo: “Adão, onde estás?” É o grito que escapa de todas a chagas do crucificado e impede o autêntico cristão de dormir tranquilo” (Sulivan).
FREI ALMIR GUIMARÃES, OFM, ingressou na Ordem Franciscana em 1958. Estudou catequese e pastoral no Institut Catholique de Paris, a partir de 1966, período em que fez licenciatura em Teologia. Em 1974, voltou a Paris para se doutorar em Teologia. Tem diversas obras sobre espiritualidade, sobretudo na área da Pastoral familiar. É o editor da Revista “Grande Sinal”.