segunda-feira, 9 de março de 2026

Iniciam-se nesta terça-feira os encontros da família paroquial,



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A moradia na Campanha da Fraternidade 2026

e os padres da Igreja 

Dom Vital Corbellini - Bispo de Marabá (PA)

A moradia digna é o ponto fundamental, o objetivo central a ser alcançado pela Campanha da Fraternidade sendo esta uma alusão para ser promovida a partir da Boa Nova do Reino de Deus e também no espírito de conversão quaresmal, ser um direito e prioridade para todas as pessoas. No entanto como a moradia se tornou uma mercadoria especial, cara, é preciso rezar e trabalhar para que se formulem políticas públicas dos governos para que ajudem a todas as pessoas com a moradia, voltadas, sobretudo para as classes sociais mais necessitadas. A Igreja no Brasil estimula a reflexão sobre a moradia para que as pessoas vivam na paz e no amor através de suas casas, locais de convivência humana e espiritual. “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14): É o lema que norteia a CF 2026. Nós veremos a seguir a visão dos padres da Igreja, os primeiros escritores cristãos em relação à moradia.  

A criação unânime

A CF 2026 ressalta muito a casa como local de profundas relações para todas as pessoas. São João Crisóstomo, Bispo de Constantinopla nos séculos IV e V afirmou a criação de Deus em relação ao ser humano feita de uma forma unânime, em conjunto. O Senhor quis que tudo permanecesse na múltipla concórdia e boa ordem entre o homem e a mulher. Ao criar Deus o homem e depois a mulher disse que Ele iria dar-lhe uma ajudante (cfr. Gn 2,18), afirmando com isso que ela estava ao lado do homem para ajudá-lo e ele ser ajudado por ela, unindo desta forma ele e ela num profundo amor. As duas pessoas fazem parte da criação unânime de Deus Criador de todas as coisas. 

As relações se alargam com a constituição da família 

A CF 2026 concebe um ponto fundamental que a vida humana prossegue com a família tendo presente que Jesus veio morar entre nós (Jo 1,14). Ele nasceu dentro de uma família, com os pais adotivos, José e Maria. O Bispo de Constantinopla ainda ressaltou que as relações na família vão se alargando com a graça de Deus, o fato de que a pessoa ser da mesma substância faz o amor entre o homem e a mulher conduzir a criação de filhos e de filhas. Eles derivam de um e de outro. Disso nascem os múltiplos contatos de afeto na qual a família humana é convidada a amar o pai, o avô, e também a mãe, a avó, os netos e as netas como irmãos e irmãs. O Senhor também quis que as pessoas não se unissem com os próprios parentes, mas com pessoas estranhas, fora do contexto familiar (cfr. Lv 18,8.10) de modo que as relações familiares pudessem se alargar sempre mais e todos crescessem nos valores humanos e espirituais.  

A criação da amizade

A moradia possibilita a vida fraterna, a amizade entre os seus membros, conforme a CF 2026. Nesta linha está também a visão de São João Crisóstomo que tinha presentes muitos elementos provenientes do Senhor concedidos ao ser humano para que fossem cultivados na família, numa moradia. Ele dispôs que nós tivéssemos necessidade de uns aos outros, tornando a unidade, valor fundamental na convivência humana e com Deus. A amizade é dada também quando uma pessoa familiar passa pelo sofrimento, pela cruz onde todos se unem para aliviar o sofrimento da pessoa. No caso nosso quando a pessoa necessita de uma casa digna é preciso a unidade de todos os membros da família para ajudar a quem mais necessita.  

Os cristãos unidos com outras pessoas

A CF 2026 alude à convivência fraterna para a moradia, sobretudo para com as pessoas que a tem na sua precariedade. A Carta a Diogneto, escrito do século II ilustrou que os cristãos viviam nas casas, moradias como quaisquer outras pessoas. Não se distinguiam dos outros seres humanos, nem por terra, nem por língua ou costumes. Eles não moravam em cidades próprias, nem falavam língua estranha, nem tinham nenhum modo especial de viver. Eles viviam em cidades gregas e bárbaras, conforme a sorte de cada um, e adaptando-se aos costumes do lugar, quanto à roupa, ao alimento testemunhavam um modo de vida social muito importante, parodoxal no seguimento a Jesus Cristo e à sua Igreja.   

A construção da casa

A CF 2026 alude às pessoas para fazerem obras que enalteçam o corpo de Cristo. Muitas pessoas perdem tudo por causa das enchentes ou por viverem em locais de risco para as suas vidas e de seus familiares. Santo Agostinho, bispo de Hipona dos séculos IV e V afirmou a unidade entre os seus membros que podem se ajudar mesmo estando de formas longíquas umas com as  outras, mas todas junto à Cabeça que é o Cristo Jesus. Se de fato habitássemos numa única casa, tornar-nos-emos de estar juntos quanto mais formamos a unidade pelo único corpo do Senhor. A verdade em Pessoa que é Jesus Cristo na Igreja, corpo de Cristo diz ao mesmo modo que a Igreja é casa de Deus (cfr. 1Tm 3,15). 

Casa eterna

O bispo de Hipona também disse que as pessoas vão se encaminhando para a casa da festa eterna, ressoando agora como uma harmonia agradável e doce aos ouvidos do coração. No entanto ele tem presente neste mundo a casa de passagem, como tenda aqui de baixo, que é o tempo de preparação em vista da eterna moradia, alimentada pela alegria, pelo bem, pelo amor realizados junto aos irmãos e irmãs que mais necessitam de moradias, para ter uma vida digna.  

A moradia na Campanha da Fraternidade 2026 alude a importância de que todas as pessoas tenham um local para viver, para rezar, para crescer nas relações com Deus com o próximo e consigo mesmo. As nossas comunidades fazem alguma coisa em vista do bem de nossos irmãos e irmãs. Os santos padres colocaram a importância em comunhão com a Palavra de Deus que a moradia é o local importante de vida e de amor ainda neste mundo e um dia na eternidade. 

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domingo, 8 de março de 2026

Papa Leão XIV no Angelus deste domingo:

Jesus é a resposta de Deus à nossa sede

Jesus “é a resposta de Deus à nossa sede”. Foi o que disse o Papa Leão XIV durante o Angelus na Praça São Pedro neste 3º Domingo da Quaresma. “Não é tempo de confrontos entre um templo e outro, entre o “nós” e os “outros”.

Jesus “é a resposta de Deus à nossa sede”. “Ainda hoje, quantas pessoas, em todo o mundo, procuram esta fonte espiritual”, disse o Santo Padre, que durante o Angelus falou sobre o episódio do Evangelho do diálogo entre Jesus e a mulher samaritana, acrescentando: “Às vezes – escrevia a jovem Etty Hillesum no seu diário – consigo alcançá-la, mas frequentemente ela está coberta por pedras e areia: Deus está, então, sepultado. É preciso, por isso, voltar a desenterrá-lo".

“Caríssimos, não há energia melhor empregada do que aquela que dedicamos a libertar o coração. Por isso, a Quaresma é um dom: estamos entrando na terceira semana e podemos, portanto, intensificar o caminho!”

No Evangelho também está escrito – recordou o Papa - que “chegaram os seus discípulos e ficaram admirados de Ele [Jesus] estar a falar com uma mulher". Sentem tanta dificuldade em aceitar a própria missão que o Mestre precisa desafiá-los: “Não dizeis vós: ‘Mais quatro meses e vem a ceifa’? Pois Eu digo-vos: Levantai os olhos e vede os campos que estão dourados para a ceifa”. O Senhor diz também à sua Igreja: “Levanta os olhos e reconhece as surpresas de Deus!”.

Jesus está atento, disse o Papa. Segundo os costumes, Ele deveria simplesmente ignorar aquela mulher samaritana; mas, em vez disso, Jesus fala com ela, escuta-a, dá-lhe atenção, sem segundas intenções e sem desprezo.

“Quantas pessoas procuram na Igreja esta mesma delicadeza, esta disponibilidade! E como é belo quando perdemos a noção do tempo para dar atenção àqueles que encontramos, tal como são. Jesus chegava a esquecer-se de comer, de tal modo o alimentava a vontade de Deus chegar a todos em profundidade”.

Assim, a samaritana torna-se a primeira de muitas evangelizadoras, continuou o Papa. Por causa do seu testemunho, a partir da sua aldeia de desprezados e rejeitados, muitos vão ao encontro de Jesus e também neles brota a fé como água pura.

Daí a advertência: “Irmãs e irmãos, peçamos hoje a Maria, Mãe da Igreja, para podermos servir, com Jesus e como Jesus, a humanidade sedenta de verdade e justiça. Não é tempo de confrontos entre um templo e outro, entre o “nós” e os “outros”: os adoradores que Deus procura são homens e mulheres de paz, que O adoram em Espírito e verdade”.

Silvonei José – Vatican News

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Assista:

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Reflexão para este domingo:

 A religião de Jesus

José Antonio Pagola

Cansado da caminhada, Jesus se senta junto ao poço de Jacó, nas proximidades da cidade de Sicar. Logo chega uma mulher samaritana para saciar sua sede. Espontaneamente Jesus começa a falar com ela do que traz em seu coração.

No decorrer da conversa, a mulher lhe fala dos conflitos que enfrentam judeus e samaritanos. Os judeus peregrinam a Jerusalém para adorar a Deus. Os samaritanos sobem o monte Garizim, cujo cume se divisa do poço de Jacó. Onde se deve adorar a Deus? Qual é a verdadeira religião? O que pensa o profeta da Galileia?

Jesus começa esclarecendo que o verdadeiro culto a Deus não depende de um determinado lugar, por muito venerável que possa ser. O Pai do céu não está atado a nenhum lugar e não é propriedade de nenhuma religião. Não pertence a nenhum povo concreto.

Não devemos esquecer que para encontrar-nos com Deus não é necessário ir a Roma ou peregrinar a Jerusalém. Não é preciso entrar numa capela ou visitar uma catedral. Do cárcere mais secreto, da sala de terapia intensiva de um hospital, de qualquer cozinha ou lugar de trabalho podemos elevar nosso coração a Deus.

Jesus não fala à samaritana de “adorar a Deus”. Sua linguagem é nova. Até por três vezes lhe fala de “adorar o Pai”. Por isso não é necessário subir a uma montanha para aproximar-nos um pouco de um Deus longínquo, alheio aos nossos problemas, indiferente aos nossos sofrimentos. O verdadeiro culto começa por reconhecer a Deus como Pai querido que nos acompanha de perto ao longo de nossa vida.

Jesus lhe diz algo mais. O Pai está buscando “verdadeiros adoradores”. Não está esperando de seus filhos grandes cerimônias, celebrações solenes, incensos e procissões. Corações simples que o adorem “em espírito e em verdade” é o que Ele deseja.

“Adorar o Pai em espírito” é seguir os passos de Jesus e deixar-nos conduzir como Ele, pelo Espírito do Pai, que o envia sempre para os últimos. Aprender a ser compassivos como o é o Pai. Jesus o diz de maneira clara: “Deus é Espírito, e aqueles que o adoram, devem fazê-lo em espírito”. Deus é amor, perdão, ternura, sopro vivificador … e os que o adoram devem assemelhar-se a Ele.

“Adorar o Pai em verdade” é viver na verdade. Voltar constantemente à verdade do Evangelho, sermos fiéis à verdade de Jesus sem fechar-nos em nossas próprias mentiras. Depois de vinte séculos de cristianismo, será que aprendemos a dar culto verdadeiro a Deus? Somos os verdadeiros adoradores que o Pai está buscando?

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JOSÉ ANTONIO PAGOLA cursou Teologia e Ciências Bíblicas na Pontifícia Universidade Gregoriana, no Pontifício Instituto Bíblico de Roma e na Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. É autor de diversas obras de teologia, pastoral e cristologia. Atualmente é diretor do Instituto de Teologia e Pastoral de São Sebastião. Este comentário é do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, da Editora Vozes.

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                                          Fonte: franciscanos.org.br   Banner: Frei Fábio M. Vasconcelos

sábado, 7 de março de 2026

Papa em mensagem:

a oração muda a história,
uma era livre de guerras não é inatingível

Em sua mensagem aos participantes do Encontro Internacional pela Paz e Reconciliação na Loyola University Chicago, Leão XIV exorta a uma colaboração global e interdisciplinar que combata a “globalização da indiferença”. Essa concórdia, escreve o Pontífice, “não é como a que o mundo nos oferece, que infelizmente muitas vezes é imposta com violência e engano”.

Papa Leão XIV - Exercícios espirituais (@Vatican Media)

Em um mundo atravessado por conflitos que abalam todos os cantos do planeta em que vivemos, toda a humanidade é chamada a se despertar do torpor da “impotência”, daquela resignação que leva a acreditar que uma era livre de guerras é “inatingível”. Um apelo para recompor a comunidade internacional, sem subestimar a contribuição que cada disciplina pode dar, assim como cada fé, porque “quando pessoas de diferentes tradições religiosas se reúnem em oração, ela tem o poder de mudar o curso da história”. Esta é a exortação que o Papa Leão XIV confia aos participantes do Encontro Internacional pela Paz e Reconciliação na Loyola University Chicago, que se realiza neste sábado, 7 de março, na universidade da cidade natal do Pontífice.

No sulco da iniciativa “Building Bridges”

A iniciativa, lembra o Papa, insere-se no âmbito do projeto Building Bridges Initiative, introduzido pelo Papa Francisco em 2022 e levado adiante pela universidade norte-americana através de uma série de eventos nos quais os próprios estudantes são os protagonistas.

Em uma época cada vez mais marcada pelas feridas da guerra e da violência, seus esforços são mais necessários do que nunca.

Rejeitar a concórdia oferecida com “violência e engano”

Leão XIV enumera, então, vários princípios a serem lembrados na promoção da paz. Em primeiro lugar, sua natureza de “dom” divino, e não simplesmente a ausência de conflito: uma reconciliação bem diferente daquela “infelizmente muitas vezes” oferecida pelo mundo, imposta através da “violência e do engano”. Sem medo, confiantes em Sua presença, o Pontífice exorta a sermos “colaboradores de Cristo para a paz”.

O Senhor caminha conosco enquanto trabalhamos para promover a harmonia em nossas famílias, em nossas comunidades locais, em nossos respectivos países e no mundo inteiro.

O compromisso da comunidade internacional

Em segundo lugar, o Papa deseja o envolvimento e o compromisso de toda a comunidade internacional pela concórdia global, que transcenda “fronteiras, tradições de fé e culturas”. Isso não pode prescindir de uma “colaboração interdisciplinar sistemática” que reúna “instituições, organizações, cientistas e líderes de vários campos”.

O caminho permanente da reconciliação

Em terceiro lugar, Leão XIV lembra que a “verdadeira harmonia” é um “caminho permanente de reconciliação”, como já afirmado por ocasião do Encontro Internacional de Oração pela Paz organizado pela Comunidade de Sant'Egidio em outubro passado. Um caminho que envolve a nós mesmos, o próximo e toda a Criação.

Nesse espírito, somos chamados a promover uma cultura de reconciliação capaz de superar a globalização da impotência, que nos leva a acreditar que uma era livre de conflitos é inatingível.

A força da oração

Por fim, o Pontífice reafirma a poderosa força reconciliadora da oração comum.

Quando pessoas de diferentes tradições religiosas se reúnem em oração, ela tem o poder de mudar o curso da história.

Edoardo Giribaldi – Vatican News

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Reflita com frei Almir Guimarães:

A história de uma mulher da Samaria

Como a corça suspira pelas águas correntes, assim a minha alma suspira por ti, ó Deus. Minha alma tem sede do Deus vivo: quando virei a contemplar o rosto de Deus? (Salmo 42, 2-3)

O desejo humano diferencia-se do desejo dos animais que se confunde com as necessidades, pois o destes visa unicamente no quadro da luta pela sobrevivência, à assimilação instintiva do objeto. O desejo do ser humano é uma sede diversa: é o desejo de ser amado, olhado, cuidado, desejado e reconhecido. Ser humano é sentir que a existência depende desse reconhecimento, mais do que de outra coisa qualquer, e por isso está pronto a ariscar tudo, até a própria vida. Enquanto desejamos objetos quaisquer que eles sejam, enquanto nos deixamos mover no encalço das coisas, carreiras, títulos, honorificências, o nosso desejar não é ainda um desejar verdadeiro. O puro desejo principia quando se formula, sem mais, como nua abertura ao outro. (José Tolentino Mendonça - Elogio da sede, Paulinas, p. 48)

Quaresma, tempo que nos leva ao esplendor da noite pascal, tempo de revisão de vida, tempo em que desejamos aquilo que a sede provoca em nós. Tempo de renovar nosso mergulho batismal na morte e ressurreição do Senhor. O encontro de Jesus com a mulher de Samaria faz parte do patrimônio da quaresma. Os que se preparavam para o batismo no clássico período do catecumenato (sec. IV e V) se afeiçoaram a esse poço e a essa mulher tão cheia de perguntas e de questionamentos. Como desfecho do encontro ela exclama: “Vinde ver um homem que me disse tudo o que fiz. Será que ele não é o Cristo?”

Assim a mulher poderia fazer o relato de seu inesperado e alvissareiro encontro:

“Quando eu cheguei ao poço aquele homem já estava se aproximando. Lembro-me que era um dia muito quente. Veio a Sicar e parecia exausto. Sentou-se à beira do poço. Era um judeu. Quando cheguei era bem por volta do meio-dia. Fui lá para encher o cântaro de água e nem podia imaginar o que ia acontecer.

Não é que aquele estrangeiro resolveu me dirigir a palavra! Pedia que lhe desse a beber. Fui categórica: “Onde se viu tu, judeu, pedir água a uma mulher samaritana!!” Ele não reagiu. Continuou a conversa.

Ele começou a me dizer que se eu soubesse quem ele era, eu que pediria a beber, que ele tinha uma água viva, e que quem dela bebesse não precisaria ir ao poço tantas vezes. Começou a dizer que eu deveria pedir o dom de Deus. Imaginem nem balde ele tinha. Como poderia me dar de beber? Ele queria ser maior do que nosso pai Jacó. Confesso que fiquei curiosa e quase revoltada.

Não esqueço nenhuma das palavras que ele disse. Elas martelavam em minha cabeça. Fiquei impressionada com aquela história de água viva que ele tinha a oferecer proveniente de Deus. Estas palavras calaram fundo dentro de mim: “Todo aquele que bebe desta água terá sede de novo. Mas quem beber da água que eu lhe der, esse nunca mais terá sede. E a água que eu lhe der se tornará nele uma fonte de água para a vida eterna”. Essas palavras ficaram gravadas em mim. Eu poderia ter uma misteriosa fonte dentro de mim. Lembro-me que lhe disse então: “Senhor, dá-me desta água, para que eu não tenha mais sede e nem tenha que vir aqui para tirá-la”. Penso que naquele momento eu não dizia coisa com coisa. Água, sede… sei lá…

Depois fui me dando conta que ele me conhecia por dentro… estranhamente. Pediu que eu fosse chamar meu marido e já estivera ciente que já tivera cinco e o homem com quem eu vivia não era meu marido… Curioso. Pareceu um profeta, um leitor do profundo das pessoas.

A conversa continuou. Num determinado momento houve uma declaração extraordinária. Eu lhe disse, então: “Sei que o Messias deve chegar, que se chama Cristo e que vai ensinar todas as coisas”. Então, pasmem, ele me disse: “O Messias sou eu que estou falando contigo”.

Nesse momento chegaram os que andavam com ele… e nem tive tempo de continuar a conversa. Não conseguia assimilar aquilo que ele me dissera. Deixei o cântaro lá. A água poço ficara em segundo plano. Agora sentia dentro de mim uma estranha sede. Comecei a pensar que ele tinha no poço de seu coração uma fonte borbulhante de vida. Estava começando a me ligar ao fascínio desse homem sentado à beira do poço. Fui correndo para a cidade dizendo que havia encontrado um homem que havia lido as páginas do livro da minha vida. Comecei a pensar seriamente que ele era mesmo o Messias. Uma sede louca e diferente ardia em minha garganta”.

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Concluindo:

 Esta admirável página do diário de uma mulher samaritana deve ser completa ainda com observações do quarto evangelista: “Muitos samaritanos daquela cidade abraçaram a fé em Jesus, por causa da mulher que testemunhava: Ele me disse tudo o que fiz. Por isso os samaritanos vieram ao encontro de Jesus e pediram que permanecesse com eles. Jesus permaneceu aí dois dias. E muitos outros creram por causa de sua palavra. E disseram à mulher: “Já não cremos por causa de tuas palavras, pois nós mesmo ouvimos e sabemos que este é verdadeiramente o salvador do mundo” (Jo 4, 39-42).

 Há homens e mulheres desejosos de plenitude e dos quais hoje o Cristo ressuscitado se aproxima questionando seus projetos de vida e insinuando-se em suas existências pela Palavra, pelos acontecimentos da vida, pelos apelos ao silêncio, pelos sinais dos tempos. Quem sabe, muitos de nossos contemporâneos, mesmo depois de certa caminhada de fé, podem também, como a mulher da Samaria, dizer: “Será que ele não é o Cristo?”

 “Hoje, torna-se cada vez mais claro que as sociedades capitalistas, organizadas à roda do consumo, explorando avidamente as compulsões de satisfação de necessidades induzidas pela publicidade, estão, na prática, removendo a sede e o desejo tipicamente humanos. O discurso capitalista promete liberta o desejo das inibições da lei e da moral em nome de uma satisfação ilimitada. Mas quando o gozo, a paixão, a alegria se esgotam no consumismo desenfreado, seja de objetos, seja das próprias pessoas, chegamos à extinção da sede, à agonia do desejo. A vida perde horizonte. Os tetos tornam-se cada vez mais baixos. Há nas nossas culturas, e nas nossas Igreja de igual modo, um déficit de desejo. Quando se adverte que estamos assistindo no presente à emergência, cada vez em escala maior, de sujeitos sem desejo, isto deve conduzir-nos a uma autocrítica eclesial. Nós, os batizados, formamos uma comunidade de desiderantes? Os cristãos têm sonhos?” (José Tolentino Mendonça - Elogio da sede, op.cit., p. 48-49)

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Oração

Tu não podes suportar, Senhor,
que um só dos teus se perca.
Tu nos procuras quando nos afastamos de ti.
Tu vais em busca dos que nós abandonamos.
E vais procurar aqueles dos quais ninguém sente falta.
Sempre te perdes entre os perdidos para encontra-los.
Nós nos entregamos a esta certeza,
a esta promessa que rompe nossos esquemas,
nos entregamos a teu amor cheio de ternura e imaginação
porque sentimos tua misericórdia e fidelidade em nossa vida. (F. Ulíbarri)

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FREI ALMIR GUIMARÃES, OFM, ingressou na Ordem Franciscana em 1958. Estudou catequese e pastoral no Institut Catholique de Paris, a partir de 1966, período em que fez licenciatura em Teologia. Em 1974, voltou a Paris para se doutorar em Teologia. Tem diversas obras sobre espiritualidade, sobretudo na área da Pastoral familiar. É o editor da Revista “Grande Sinal”.

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sexta-feira, 6 de março de 2026

Padre Roberto Pasolini na primeira meditação da Quaresma:

a paz nasce
da coragem de fazer-se pequeno, renunciando à violência

“A conversão. Seguir o Senhor Jesus no caminho da humildade” é o tema da primeira meditação da Quaresma esta manhã, 6 de março, na Sala Paulo VI, na presença do Papa. O pregador da Casa Pontifícia destaca a necessidade, neste tempo forte da Igreja, de “verificar a vitalidade do nosso Batismo”. “O pecado, a conversão e a graça – afirma ele – estão entrelaçados na vida concreta”, mas é na pequenez que o cristão se abre à graça e se torna um homem novo.

O estrondo das guerras que inflamam o mundo chega também à Sala Paulo VI, onde esta manhã, 6 de março, o pregador da Casa Pontifícia, padre Roberto Pasolini, ofereceu na presença do Papa a primeira de suas meditações sobre o tema: “A conversão. Seguir o Senhor Jesus no caminho da humildade”. As reflexões, que serão realizadas todas as sextas-feiras até 27 de março, antes do início da Semana Santa, têm como tema central “Se alguém está em Cristo, é uma nova criatura (2Cor 5,17). A conversão ao Evangelho segundo São Francisco”.

“Em dias que voltam a ser marcados pela dor e pela violência”, afirma o frade capuchinho, “falar de pequenez pode parecer um discurso abstrato, quase um luxo espiritual. Na realidade, é uma responsabilidade concreta, ligada ao destino do mundo”.

A paz não nasce apenas de acordos políticos nem de estratégias diplomáticas ou militares, mas de homens e mulheres que encontram a coragem de se tornarem pequenos: capazes de dar um passo atrás, de renunciar à violência em todas as suas formas, de não ceder à tentação da vingança e da prepotência, de escolher o diálogo mesmo quando as circunstâncias parecem negar essa possibilidade.


O despertar da imagem de Deus

“Um trabalho exigente e diário”, sublinha Pasolini, que diz respeito a todos aqueles que se reconhecem filhos de Deus e que sabem que “esta conversão do coração” lhes diz respeito.  Ao introduzir sua reflexão, ligada à vida de São Francisco, padre Pasolini o define como “um homem atravessado pelo fogo do Evangelho, capaz de reacender em cada um a nostalgia de uma vida nova no Espírito”. Mas o que se entende por “conversão”? A pergunta é um “ponto de partida”, porque existe o risco de “construir sobre fundamentos frágeis”. “A conversão evangélica – afirma o pregador – é antes de tudo uma iniciativa de Deus, à qual o homem é chamado a participar com toda a sua liberdade”, acontece “no ponto mais íntimo da nossa natureza, onde a imagem de Deus impressa em nós espera ser despertada”. É quando algo, que permaneceu em silêncio por muito tempo, volta a vibrar no homem.

A resposta à graça

Francisco fala de “fazer penitência” quando entra no caminho da conversão, mas alude a uma “mudança de sensibilidade”, a olhar para os outros com misericórdia e à luz do Evangelho, varrendo “a amargura de uma vida cheia de muitas coisas, mas ainda vazia do seu valor essencial”. Fazer penitência como início de uma luta para defender o “sabor novo das coisas”, alimentar com fidelidade a semente que Deus colocou no coração de cada um.

A conversão não é mais a tentativa de endireitar a vida com as próprias forças, mas a resposta a uma graça que redefiniu os parâmetros de nossa maneira de perceber, julgar e desejar.

Reconhecer o pecado

A conversão está ligada à “profundidade do sulco que o pecado cavou em nós”, explica o capuchinho, mas pecado é uma palavra que hoje parece ter desaparecido. “Na consciência comum – e às vezes também na vida da Igreja – tudo é explicado como fragilidade, ferida, limite, condicionamento. Quando ainda se fala de pecado, muitas vezes ele é reduzido a um pequeno erro ou a uma fraqueza”. Se nos limitarmos a isso, desaparece também “a grandeza da liberdade humana e de sua responsabilidade”.

Se não existe mais a possibilidade de um mal verdadeiro, não podemos acreditar nem mesmo na possibilidade de um bem verdadeiro. Se o pecado desaparece, também a santidade se torna um destino abstrato e incompreensível.

No pecado, o homem reconhece que “sua liberdade é real e que com ela pode construir e destruir: a si mesmo, aos outros, ao mundo”. É necessária, portanto, “uma cura profunda”, por isso a conversão é “um itinerário exigente” para recuperar a relação com Deus, uma repetição nos gestos da escolha de viver no amor e na liberdade, mesmo com esforço, que não é em si “estéril”, mas expressão da “fidelidade de quem já vislumbrou o sentido e o valor do que vive”.

O retorno à humildade

São Francisco é reconhecido como o santo da pobreza, mas nele é indissolúvel o vínculo com a humildade. Ambas são caminhos que brotam do mistério da encarnação; são os próprios traços de Deus que o homem é convidado a viver para se assemelhar a Ele. “A humildade – destaca Pasolini – é um caminho que todo batizado é chamado a percorrer se quiser acolher plenamente a graça da vida em Cristo”. É “uma maneira de habitar o mundo e as relações”, para redimensionar “a imagem inflada que temos de nós mesmos”, devolvendo a verdade. “É um dom do Espírito antes mesmo de ser um exercício ascético”.

A humildade não empobrece o homem: ela o devolve a si mesmo. Não o diminui: ela o devolve à sua verdadeira grandeza. Por isso está tão intimamente ligada à conversão. O pecado original nasce precisamente da recusa da humildade: da não aceitação de nós mesmos como seres humanos, finitos e dependentes de Deus. A conversão, então, só pode ser entendida também como um retorno à humildade.

O rosto do homem novo

A grandeza do homem, explica o pregador, passa pela sua pequenez. O santo de Assis, ao abraçar os mais pequenos, ao inclinar-se para eles, compreende que esse é “o lugar privilegiado” escolhido pelo Senhor. “Neles se manifesta aquele ‘poder’ de que fala o Evangelho, o de se tornarem filhos de Deus”. Um filho que não tem vergonha de pedir ao Pai e que experimenta “uma força particular: a capacidade de suscitar o bem nos outros”. “Os pequenos, com sua fragilidade, despertam – continua Pasolini – a misericórdia, que é talvez a energia mais preciosa do mundo”. Uma abertura radical, portanto, que implica a hospitalidade do outro, “tornar-se pequeno é uma dimensão essencial do ser cristão”.

Quando escolhemos nos tornar – e não permanecer – pequenos porque reconhecemos a pequenez de Deus e nos sentimos acolhidos e amados por Ele, então essa escolha não é uma forma de regressão ou renúncia: é o rosto do homem novo, que o Batismo nos devolve.

Uma conversão contínua

O último passo a dar é reconhecer que a conversão nunca termina. Continuamos pecadores, pedimos para ser santificados pelo Espírito. “Converter-se significa recomeçar continuamente esse movimento do coração, através do qual nossa pobreza se abre à graça de Deus”, fazê-lo mesmo com a reticência de diminuir nossa imagem, realizando um trabalho interior incessante que nos coloca “a serviço, de maneira livre e concreta”. O frade recorda São Paulo quando compreende que “a fraqueza não é uma fase a superar, mas a própria forma de sua vida em Cristo”, “a forma da vida batismal”.

Muitas vezes, porém, pensamos que a pequenez evangélica só é possível quando tudo vai bem. Na realidade, acontece o contrário: é precisamente nos conflitos e nas dificuldades que ela se torna mais necessária. Quando o instinto nos leva a nos defender ou a nos impor, é aí que vemos se realmente aprendemos o Evangelho da cruz. A luz, de fato, mostra sua força não quando tudo está claro, mas quando reina a escuridão.

A meditação termina com uma oração de São Francisco e a invocação para “seguir os passos de seu Filho amado, nosso Senhor Jesus Cristo”.

Benedetta Capelli - Vatican News

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