segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Finados:

quando a saudade se encontra com a esperança 

Dom Leomar Brustolin - Arcebispo de Santa Maria (RS)

O Dia de Finados nos coloca diante de uma experiência que nenhuma geração conseguiu evitar: a despedida daqueles que amamos. Um dia, alguém que fazia parte de nossa vida deixa de estar fisicamente conosco. Permanecem a fotografia, os objetos, as histórias, talvez uma cadeira vazia. E permanece sobretudo a saudade. Por isso, Finados não é simplesmente um dia dedicado aos mortos. É um dia em que os vivos são convidados a redescobrir o significado do amor, a acolher a dor da ausência e a renovar a esperança que nasce da fé. 

A Igreja não nos pede que escondamos a tristeza. Jesus chorou diante do túmulo de Lázaro. Suas lágrimas revelam algo profundamente cristão: a fé na ressurreição não torna o coração insensível. Choramos justamente porque amamos. As lágrimas podem dizer aquilo que as palavras já não conseguem expressar. O próprio Filho de Deus conheceu a dor da separação e santificou, com suas lágrimas, o sofrimento humano. A fé não elimina o sofrimento provocado pela separação; oferece-lhe um horizonte. 

Há, entretanto, uma diferença decisiva entre recordar e simplesmente olhar para trás. Para o cristão, visitar um cemitério não significa procurar quem amamos entre os mortos. O corpo ali depositado merece todo respeito, porque participou de uma história, amou, trabalhou, sofreu, abraçou e foi templo do Espírito Santo. Mas a pessoa não está reduzida à sepultura. A esperança cristã proclama que a morte não destrói a identidade de quem partiu e que Deus chama a pessoa inteira à plenitude da ressurreição.  

É por isso que Finados é também dia de oração. Levamos flores, acendemos velas, cuidamos dos túmulos, recordamos nomes. Tudo isso possui beleza quando expressa amor. O gesto especificamente cristão, contudo, vai além: rezamos pelos falecidos. Não tentamos estabelecer com eles uma comunicação misteriosa nem buscamos sinais de sua presença. Nós os confiamos a Deus, suplicando que, em sua infinita misericórdia, os acolha na plenitude da vida eterna. A comunhão permanece, mas acontece em Cristo. Entre nós e aqueles que partiram não existe um vazio: existe o Deus dos vivos.  

A Eucaristia, por isso, ocupa um lugar singular neste dia. Santa Mônica, aproximando-se da morte, não pediu aos filhos grandes homenagens. Pediu algo muito mais simples e profundo: que se lembrassem dela junto ao altar do Senhor. Celebrar pelos falecidos significa colocá-los dentro da Páscoa de Cristo. Ali não oferecemos apenas nossa saudade; proclamamos que aquele que morreu e ressuscitou abriu uma passagem onde parecia existir somente um muro. 

Finados contém ainda uma pergunta dirigida aos vivos. Caminhar entre túmulos é encontrar silenciosamente muitas histórias concluídas. Pessoas que fizeram projetos, acumularam bens, tiveram preocupações, vitórias, conflitos e sonhos. Um dia, tudo aquilo ficou para trás. O cemitério relativiza muitas urgências que consideramos absolutas. Recorda-nos que a vida é preciosa justamente porque é limitada. Lembrar que morreremos pode nos ensinar a viver melhor, cultivar o essencial e reconhecer que cada dia é uma oportunidade de amar e servir. 

A fé cristã acrescenta algo ainda maior: nossa existência não caminha para o desaparecimento. São Paulo escreveu a uma comunidade que chorava seus mortos para que seus membros não permanecessem tristes “como os outros que não têm esperança” (1Ts 4,13). Ele não disse que os cristãos não ficam tristes. Disse que existe uma tristeza diferente: uma tristeza visitada pela esperança. A esperança cristã não é um consolo imaginário diante do inevitável, mas a confiança fundada na ressurreição de Jesus Cristo. Nele, a morte deixou de ser um destino sem retorno e tornou-se passagem para a vida que não conhece ocaso. 

No dia 02 de novembro, passado, presente e eternidade se aproximam. Agradecemos pelas vidas que fizeram parte da nossa; rezamos por aqueles que partiram; reconciliamo-nos com nossa própria finitude e renovamos a esperança no encontro definitivo com Deus. Ao deixar o cemitério, portanto, deveríamos sair um pouco diferentes de quando entramos. Mais conscientes de que o tempo é breve, mais dispostos a perdoar, menos preocupados com coisas pequenas, mais atentos às pessoas que ainda podemos abraçar.  

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domingo, 1 de novembro de 2026

Paróquia São José - Paraisópolis - MG:

Horários de missa e outros eventos
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Dia 2 de novembro - Finados

7h -  Missa no Cemitério Jardim 

9h - Missa na matriz

16h - Missa no Cemitério do centro

19h - Missa na matriz

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Dia 3 - Terça-feira

15h - Missa pelas vocações e pelos enfermos na matriz

19h - Missa na comunidade do Ribeirão Vermelho

19h - Terço das mulheres na matriz

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Dia 4 - Quarta-feira

18h45 - Missa em louvor a São José na matriz

19h30 - Palestra com psicólogos na matriz

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Dia 5 - Quinta-feira

7h - Missa na matriz

19h - Terço dos homens na matriz

19h - Missa na comunidade da Bomba

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Dia 6 - 1ª Sexta-feira

6h - Oração das Mil misericórdias na matriz

15h - Missa na matriz

19h - Missa na igreja da Soledade

19h - Missa na comunidade do Goiabal

19h - Missa na comunidade da Serra da Usina

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Dia 7 - Sábado

19h - Missa na matriz

19h - Missa na comunidade São Francisco

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Dia 8 - Domingo

7h e 9h -  Missa na matriz

9h - Missa da festa na comunidade São Geraldo

11h - Missa na igreja de Santa Edwiges

18h - Missa na igreja de Santo Antônio

18h - Missa na matriz

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Papa no dia de Todos os Santos:

vocação nos interpela por escolhas de amor

A festa deste domingo (01/11) vem com um convite "cheio de esperança" de Leão XIV para se percorrer o caminho da santidade, sem cansar "de construir a paz, tanto nas situações mais importantes como nas da vida quotidiana". Afinal, "a santidade não é um privilégio para poucos, mas é uma vocação universal que interpela cada um de nós ali onde vivemos". Inspirados pela "multidão bem-aventurada" dos santos, espalhar o bem pelo mundo, com "gestos e escolhas de amor" e não "cálculos da ganância".

O Papa Leão XIV neste domingo (01/11), de Solenidade de Todos os Santos, cinco dias antes de partir para a viagem apostólica à América Latina, convida a "saborear a alegria daquela família incontável de homens e mulheres que, seguindo o Senhor Jesus, fizeram da sua vida uma oferta a Deus e ao próximo". Uma "multidão enorme que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas" e que, nos diferentes percursos de santificação, desejaram um "amor infinito", recorda o Pontífice:

"Celebramos hoje todos os santos: aqueles já reconhecidos pela Igreja e também muitos que não o foram, mas que Deus conhece. Como nos recorda o Evangelho de hoje (Mt 5, 1-12), trata-se de pobres de espírito, mas ricos no amor de Deus. Têm rostos marcados pelas lágrimas, mas consolados na oração. São mansos perante a violência e recompensados pelo Pai. Famintos de justiça e saciados no íntimo da consciência. Dispostos ao perdão e abraçados pela misericórdia. Desarmados no coração, mas guardados por Deus. Construtores da paz, chamados por Ele pelo nome. Perseguidos e ofendidos, mas fortes na fé e na caridade."

A "multidão bem-aventurada" dos santos que escolhe o amor

As Bem-aventuranças do Sermão da Montanha são o caminho e a mensagem de Jesus, que São Mateus apresenta como um ensinamento do mestre. São "o bem que todos os santos espalharam à sua volta pelo mundo", de uma multidão impossível de contar porque, "na realidade, a santidade não se reduz a nenhum cálculo": os santos são "o sinal mais belo e forte do Reino de Deus". Com a graça de Deus, continua Leão XIV, essa "multidão bem-aventurada" das "mais diversas origens, culturas e situações de vida" gerou "gestos e escolhas de amor, que ultrapassam os cálculos da ganância e a prepotência do mal que, por vezes, parece prevalecer". 

Antes de rezar a oração mariana do Angelus com os fiéis presentes na Praça São Pedro, o Papa pede a intercessão de Nossa Senhora, "bem-aventurada por ter acreditado na palavra do Senhor", que "acompanhe os nossos passos no caminho da santidade, para que não nos cansemos de construir a paz, tanto nas situações mais importantes como nas da vida quotidiana". Afinal, conclui o Pontífice:

“A santidade não é um privilégio para poucos, mas é uma vocação universal que interpela cada um de nós ali onde vivemos. Esta é a mensagem cheia de esperança da festa de hoje: Deus vê o bem que nós não vemos, conhece histórias que nós não conhecemos, alcança corações aos quais não temos acesso.”

Andressa Collet - Vatican News

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Assista:

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                                                    Fonte: vaticanews.va     Foto e vídeo: (@Vatican Media

Convite a ser considerado por todos nós:

Santificar o cotidiano

Dom Márcio Antonio Vidal de Negreiros, OSA - Bispo auxiliar de São Paulo

Em um tempo marcado pela pressa, pelo individualismo e pela superficialidade das relações humanas, a santidade cristã manifesta-se como testemunho de uma humanidade reconciliada. O Papa Francisco, na exortação apostólica Gaudete et Exsultate, recorda que a santidade não pertence apenas aos altares ou às grandes figuras da história, mas também aos “santos ao pé da porta”: homens e mulheres simples que vivem o Evangelho na fidelidade diária, no cuidado com os outros e na perseverança silenciosa do amor.

No contexto atual, a santidade revela-se menos pelo extraordinário e mais pela capacidade de ser e de permanecer humano, misericordioso e fiel em meio às fragilidades e contradições do mundo contemporâneo.

Santificar o cotidiano talvez seja uma das intuições mais belas e transformadoras da espiritualidade cristã. A fé católica, iluminada pelo mistério da Encarnação, recorda que Deus não se manifesta apenas em acontecimentos extraordinários, mas também na simplicidade dos dias comuns. O Concílio Vaticano II afirma que Cristo “trabalhou com mãos humanas, pensou com inteligência humana, agiu com vontade humana” (Gaudium et Spes, 22).

Isso significa que o cotidiano não é um espaço neutro ou sem valor espiritual, mas o lugar concreto em que Deus se deixa encontrar e o ser humano é chamado a responder, com amor e fidelidade, à sua presença.

A partir dessa certeza, a Igreja proclama a vocação universal à santidade. A constituição dogmática Lumen gentium, especialmente em seu capítulo V, ensina que todos os fiéis, independentemente de sua condição ou estado de vida, são chamados à perfeição da caridade. Essa santidade não se expressa apenas em gestos heroicos, mas também na fidelidade às pequenas tarefas, na paciência diante das contrariedades, na honestidade do trabalho e na caridade silenciosa. O ordinário torna-se caminho de transformação interior quando vivido em comunhão com Cristo.

Santo Agostinho, mestre da interioridade cristã, ilumina essa perspectiva com a afirmação:

“Ama e faze o que quiseres.”

Santo Agostinho — Comentário à Primeira Carta de São João, Tratado VII, 8.

Longe de qualquer permissividade, essa frase aponta para o essencial da vida cristã: quando o amor de Deus orienta o coração, até os gestos mais simples tornam-se expressão concreta de santidade. Para Agostinho, é justamente no cotidiano que o amor se prova, amadurece e se purifica.

Após celebrarmos o Tempo Pascal, culminado na Solenidade de Pentecostes, a liturgia da Igreja nos conduz novamente ao Tempo Comum, período que aprofunda a espiritualidade do cotidiano iluminado pelo Evangelho. Mais do que um intervalo entre grandes solenidades, este tempo nos convida a contemplar a vida pública de Jesus, marcada por gestos profundamente humanos: caminhar com o povo, ensinar, escutar, curar, acolher e partilhar a mesa.

O Tempo Comum educa o coração para reconhecer que a graça de Deus age de modo contínuo, discreto e fecundo na rotina de cada dia. A santidade não nasce apenas de experiências extraordinárias, mas da fidelidade humilde e perseverante que permite ao Evangelho transformar a vida ordinária em caminho de comunhão com Deus.

Nesse horizonte, o trabalho humano adquire profundo significado espiritual. Quando realizado com justiça, responsabilidade, competência e espírito de serviço, torna-se expressão concreta da presença de Deus no mundo e verdadeira oração encarnada. Também a vida familiar, comunitária e social constitui espaço privilegiado de santificação, no qual o amor se traduz em cuidado, diálogo, perdão e entrega cotidiana.

Santificar o cotidiano significa, portanto, permitir que o fermento do Evangelho transforme não apenas o coração humano, mas também as relações sociais, a cultura e as estruturas da sociedade. Assim, a vida inteira — pessoal e comunitária — torna-se espaço em que a graça pode florescer e o mundo é lentamente renovado a partir de dentro.

“Sede santos, porque vosso Pai celeste é santo.”

Cf. Mateus 5,48.

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Dom Márcio Antonio Vidal de Negreiros, OSA - Bispo auxiliar de São Paulo

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                                                                                                              Fonte: cnbbsul1.org.br

Reflexão para este domingo:

É bom crer

José Antonio Pagola

Muitas vezes se pensa que a fé é algo que tem a ver com a salvação eterna do ser humano, mas não com a felicidade concreta de cada dia, que é o que precisamente agora nos interessa. Além disso, há os que suspeitam que sem Deus e sem religião seríamos mais felizes. Por isso é conveniente lembrar algumas convicções cristãs que caíram no esquecimento ou ficaram encobertas por uma apresentação errada ou insuficiente da fé. Eis a seguir algumas delas.

Deus nos criou só por amor, não para seu próprio proveito ou pensando em seu interesse, mas buscando a nossa felicidade. A única coisa que interessa a Deus é o nosso bem.

Deus quer a nossa felicidade não só a partir da morte, na assim chamada “vida eterna’, mas agora mesmo, nesta vida. Por isso está presente em nossa existência potenciando nosso bem, nunca nosso dano.

Deus respeita as leis da natureza e a liberdade do ser humano. Não força a liberdade humana nem a criação. Mas está junto de nós apoiando nossa luta por uma vida mais humana e atraindo nossa liberdade para o bem. Por isso, em cada momento contamos com a graça de Deus para sermos o mais felizes possível.

A moral não consiste em cumprir leis impostas arbitrariamente por Deus. Se Ele quer que demos ouvidos às exigências morais que levamos dentro do coração, é porque seu cumprimento é bom para nós. Deus não proíbe o que é bom para o ser humano nem obriga ao que pode ser prejudicial. Ele só quer o nosso bem.

Converter-se a Deus não significa decidir-se por uma vida mais infeliz e fastidiosa, mas orientar a própria liberdade para uma existência mais humana, mais sadia e, em última análise, mais feliz, ainda que isso exija sacrifícios e renúncia. Ser feliz sempre tem suas exigências.

Ser cristão é aprender a “viver bem” seguindo o caminho aberto por Jesus. As bem-aventuranças são o núcleo mais significativo e “escandaloso” desse caminho. Caminha-se para a felicidade com coração simples e transparente, com fome e sede de justiça, trabalhando pela paz com entranhas de misericórdia, suportando o peso do caminho com mansidão. Este caminho traçado nas bem-aventuranças leva a conhecer já nesta terra a felicidade vivida e experimentada pelo próprio Jesus.

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JOSÉ ANTONIO PAGOLA cursou Teologia e Ciências Bíblicas na Pontifícia Universidade Gregoriana, no Pontifício Instituto Bíblico de Roma e na Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. É autor de diversas obras de teologia, pastoral e cristologia. Atualmente é diretor do Instituto de Teologia e Pastoral de São Sebastião. Este comentário é do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, da Editora Vozes.

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                                          Fonte: franciscanos.org.br   Banner: Frei Fábio M. Vasconcelos

 

sábado, 31 de outubro de 2026

Catequese com o cardeal dom Odilo Pedro Scherer:

Enquanto vivemos a feliz esperança

O mês de novembro é marcado por duas comemorações litúrgicas cheias de significado: a solenidade de Todos os Santos e a comemoração de Todos os Fiéis Defuntos. Essas celebrações católicas revelam muito sobre a antropologia cristã: à luz da fé da Igreja, como entendemos o ser humano, sua existência e sua ação neste mundo e seu futuro?

No Símbolo Apostólico da profissão de fé da Igreja, há algumas afirmações breves que podem ser recordadas nessas ocasiões: “Creio (…) na comunhão dos santos, na remissão dos pecados, na ressurreição da carne e na vida eterna”. Além delas, podemos recordar o que afirmamos em nossa fé a respeito de Jesus Cristo: Filho único de Deus, que se fez homem e nasceu da Virgem Maria, padeceu a cruz, morreu, ressuscitou ao terceiro dia, subiu aos céus, de onde há de vir a julgar os vivos e os mortos. O que na fé afirmamos sobre Jesus Cristo tem a ver com o ser humano. A constituição pastoral Gaudium et Spes, do Concílio Vaticano II, ensina que o ser humano só é compreensível à luz de Cristo, único que revela o homem ao homem, qual é sua origem e o sentido de sua vida e de seu futuro.

Na solenidade de Todos os Santos, contemplamos “a multidão de gente de todas as nações, tribos, povos e línguas, de pé, vestindo vestes brancas e com palmas na mão, diante do trono do Cordeiro imolado”, cantando em uníssono um grande hino de louvor e ação de graças a Deus Pai e a Cristo Salvador (cf. Ap 7,9-10). E sentimos o desejo de estar com essa multidão feliz um dia. Essa cena é a expressão ideal do céu, da salvação realizada na plenitude, do novo céu e da nova terra, em que “não haverá mais morte, nem luto, nem choro, nem dor, porque as primeiras coisas terão passado”, porque Deus fará novas todas as coisas (cf. Ap 21,4-5). A festa solene de Todos os Santos nos convida a caminhar perseverantes, na esperança de alcançarmos a salvação em plenitude com todos aqueles que já alcançaram esse objetivo supremo da existência. Ao mesmo tempo, nos convida a sermos praticantes fiéis dos ensinamentos de Jesus Cristo e a cumprirmos generosamente a missão que Deus nos confiou neste mundo.

A comemoração de Todos os Fiéis Defuntos nos confronta com o nosso limite, a brevidade dos nossos dias neste mundo e o mistério da morte corporal. A Igreja recomenda que visitemos, nessa Comemoração, os túmulos dos falecidos, como um válido exercício de nossa fé. Assim, recordamos na oração “todos os irmãos que já partiram desta vida e dormem o sono da paz” (Oração Eucarística). A nossa oração e intercessão por eles, sobretudo oferecendo missa em favor deles, é uma grande caridade para com os que nos precederam na morte. Ao mesmo tempo, nossa visita aos túmulos dos falecidos serve como um choque de realidade para nós mesmos, pois nos recorda de que também nossa vida passa. Nossos dias e horas são preciosos e não sabemos quantos ainda nos serão concedidos. Cada dia é dom e graça de Deus, a ser acolhido com ação de graças e vivido intensamente na prática do bem e na busca de Deus.

Diante do mistério da morte, que levanta muitas interrogações e leva a angústias, qual é a resposta da nossa fé? Antes de tudo, cremos no Deus vivo, Senhor da vida, que não nos chamou para o aniquilamento, mas para a vida plena. Com o justo Jó, arruinado em sua saúde e resistindo à tentação do desespero e de não crer mais em Deus, dizemos também nós: “Eu sei que o meu Redentor vive e que, depois de tudo, ele se levantará sobre o pó (da morte). E nesta minha carne, eu verei a Deus” (cf. Jó 19,25-26). A vida eterna não será criação humana, mas graça de Deus criador e salvador. Se queremos viver para sempre na eternidade feliz, precisamos acolher o Deus da vida e confiar-nos a Ele nesta vida.

A tomada de consciência da finitude e precariedade de nossa vida nos faz pensar na importância de viver bem cada instante da preciosa e frágil vida neste mundo. Viver bem significa permanecer firmes na fé e confiantes em Deus, não se deixando corromper pelas muitas tentações, amando a Deus e ao próximo como Jesus nos ensinou, fazendo o bem a todos, cumprindo os deveres diários, vivendo em paz com todos. O pensamento da morte, portanto, em vez de nos deixar angustiados e prostrados, pode ser motivador para assumir a vida com responsabilidade renovada.

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                                                                                         Fonte: osaopaulo.org.br

Reflexão do frei Almir Guimarães para este sábado:

O delicado tema da santidade

♦ Mais um vez estamos comemorando a Solenidade de Todos os Santos. Duas leituras sempre voltam na liturgia desse dia: a festa na glória segundo o Apocalipse e as bem-aventuranças do evangelista Mateus. Bem-aventurados, felizes estes e aqueles. Pode-se ligar o tema da santidade de vida com a felicidade das bem-aventuranças. Ficamos sempre “intrigados” com essa felicidade na perseguição e nas lágrimas decantada por Jesus no monte das bem-aventuranças. Aparentemente uma felicidade pelo avesso.

♦ Santo, santidade: conceitos que precisam ser bem entendidos. Santo é o Altíssimo. Tudo nele é transparência e verdade. Dele tudo emana. Os serafins de Isaías diziam, com voos reverentes: santo, santo, santo. Diante dele tiramos as sandálias dos pés como Moisés no Horeb, ou cobrimos o rosto como Elias à porta da gruta. E, no entanto, somos nós chamados a ser santos. Soa sempre aos nossos ouvidos o “Sede santos, como vosso Pai é santo”. Que desafio!

♦ Há os santos canonizados e representados em imagens que veneramos e não adoramos. Há também e sobretudo a multidão de santos anônimos que nunca serão elevados à dignidade dos altares, mas estão no face-a-face com o Altíssimo. Não nos tornamos seres santos à força de jejuns e macerações, nem de repetições de fórmulas de oração. Quem nos santifica é o Senhor. Somos barro, massa nas mãos do oleiro. Na medida em que nos desvencilhamos de nós mesmos, em que abrimos espaço em nossa vida para que o Senhor atue é possível que ele opere maravilhas em nós pessoalmente e como membros de sua Igreja. O santo é obra de arte de Deus.

♦ Santo é aquele que consegue ouvir de maneira absoluta os desígnios do Altíssimo. É, antes de tudo, um atento ouvinte do Senhor e que passa a fazer dele o ar que respira e o objeto dos mais íntimos de seu coração. Amando o Amor e retribuindo amor com amor. Insistimos: na audição mais íntima do Amado, na convivência com o Evangelho vivo que tem o nome de Jesus. Ouvir e pôr amorosamente em prática o que nos é pedido. É ele que nos dá a força de amá-lo. Santo é aquele que precisa estar no eremitério, sabendo este pode estar no espaço onde moram os leprosos, como aconteceu com Francisco de Assis. O santo vive uma tensão entre o levantar os caídos e se fazer presente na entreaberta clausura de seu interior.

♦ Santo é aquele que opta pelo bem querer a todos. Os de perto e os de longe. São os que dizem de verdade: “A vosso serviço”. Deixando de privilegiar seus projetos e dedicando-se à urgente tarefa de levantar os caídos e socorrer aqueles que são irmãos: um filho especial, os caídos e excluídos, um pai doente, dando voz e vez aos que não têm nem voz, nem vez. Gasta e desgasta-se em fazer pão dos famintos e cobertor para os que tremem com inverno da solidão. Os santos são pessoas boas. Parecidos a anjos caídos do céu.

♦ Se a santidade é operada por Deus ela se torna possível na medida em que lhe desobstruímos o caminho. Por isso, felizes, bem-aventurados:

♦ Bem-aventurados os pobres. Não se trata de amar a miséria, de dar tudo e de viver ao-deus-dará. Trata-se de viver com digna sobriedade, sabem viver com pouco, não colocando o coração nos tesouros que a traça costuma corroer. Pessoas simples e sem aparatos e prosopopeia. Pobres com a abundância das coisas necessárias. Os pobres em espírito sempre se espelham na pobreza de Jesus desde o nascimento até à morte no madeiro do abandono. Francisco de Assis chamava essa pobreza de Dama  Pobreza. As outras bem-aventuranças de Mateus dependem da pobreza de coração.

♥ Felizes os aflitos e sofridos de toda sorte que não se puseram a arrancar os cabelos, mas deram tempo ao tempo, sem revolta, mas sem entregar os pontos. Os aflitos que serão pessoas que esbravejam, que colocam seus argumentos com meridiana clareza, mas pedem justiça. Não são violentos, mas também não são apáticos e inertes. Essa gente possuirá a terra.

♥ Felizes os famintos e sedentos de justiça, que não perderam o desejo de serem mais justos e de clamarem por justiça Famintos da verdade, da vida. Nunca satisfeitos com etapas vencidas. Indo sempre adiante. Felizes os sedentos de Deus.
Infelizes os contentes e saciados com sucessos aparentes e passageiros e as primeira etapas vencidas. Felizes serão os seres de desejo. Um dia seus desejos serão plenamente saciados.

♥ Felizes os misericordiosos… são os que têm o coração voltado para o que inspira piedade, o frágil, o que cai. O contrário do misericordioso é a pessoa intransigente. Atuam e agem por compaixão. Não têm um coração endurecido. São mesmo capazes de perdoar.

♥ Felizes os que trabalham pela paz… ou seja os que constroem a paz que sempre é fruto da justiça. Paz aceitando as diferenças, paz num diálogo de gente madura. Paz entre os membros de um família, paz quando se busca diminuir as desigualdades. Paz que nos chega pelo perdão do Senhor. Paz que não pacifismo nem inércia.

♥ Felizes os que choram… por serem fiéis ao Evangelho, por se arrependerem de ter magoado a estes e aqueles. Choram porque não conseguem vencer dificuldades. Benditas lágrimas!

♥ Felizes os perseguidos … porque incomodam com seu modo de viver, parecido com o dos profetas e de Jesus. São os mártires, embora não lhes tenham sido arrancada a vida do corpo.

Concluindo

Ser cristão é aprender a “viver bem” seguindo o caminho de Jesus. As bem-aventuranças são o núcleo mais expressivo e “escandaloso” desse caminho. Caminha-se para a felicidade com coração simples e transparente, com fome e sede de justiça, trabalhando pela paz com entranhas de misericórdia, suportando o peso do caminho com mansidão. Este caminho traçado nas bem-aventuranças leva a conhecer já na terra a felicidade vivida e experimentada pelo próprio Jesus (Pagola).

Todos os santos…os santos todos… Francisco de Assis, Teresa de Calcutá, Dietrich Bonhoefer da Alemanha, Gandhi da Índia e Dulce de Salvador, nossa vizinha essencialmente boa e transparente. Eles foram vitoriosos na delicada arte de viver. Santos.

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Para rezar 

E então, felicidade, onde tu estás?

Felicidade,
estás dentro de mim,
cabe deixar possuir-me por ti.

Tu estás nos bem pequeninos
que fazem um gesto de carinho,
na criança que dá seus primeiros passos.
Estás no estudante que aprendeu
bem a lição e ganhou boa nota.

Tu estás no “te amo muito” cochichado ao ouvido,
na música que me deleita,
na volta de alguém ternamente amado,
no vizinho que nos perdoou,
eu te vejo nos outros,
pressinto tua presença em todo esforço
bem sucedido em vista do amor
tudo estás dentro e fora de mim.
“Felicidade é uma casinha pequenina com gerânios
e flor na janela… e uma rede…”

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FREI ALMIR GUIMARÃES, OFM, ingressou na Ordem Franciscana em 1958. Estudou catequese e pastoral no Institut Catholique de Paris, a partir de 1966, período em que fez licenciatura em Teologia. Em 1974, voltou a Paris para se doutorar em Teologia. Tem diversas obras sobre espiritualidade, sobretudo na área da Pastoral familiar. É o editor da Revista “Grande Sinal”.

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