Ouvi dizer que há um tesouro escondido...
♦ “O Reino de Deus está oculto. Muitos ainda não
descobriram o grande tesouro do projeto de Deus para um mundo novo. Mas não é
um mistério inacessível. Está oculto em Jesus, em sua vida e sua mensagem. Uma
comunidade cristã que não descobriu o Reino de Deus, não conhece bem a Jesus e
não pode seguir seus passos” (Pagola, Mateus, p. 169).
♦ Viver. Fundamental viver e viver com toda
intensidade. Não deslizar pelas coisas. Parar, escutar, observar, respeitar,
acolher. Viver, no entanto, é empreendimento complexo e cheio de curvas.
Cave-nos arrumar as coisas para a viagem. Ajeitamos as abóboras no
caminhãozinho da vida. Sacolejamos. Há pistas melhor conservadas que nos
permitem “deslizar”. Há outras esburacadas. Homem, mulher, trabalho, descanso,
relacionamentos, filhos, parentes, viagens, sede, ser homem, ser mulher, saúde,
doenças, preocupações, dívidas…vida…
♦ Carregamos perguntas e questionamentos. Por vezes
tudo abafamos. Muitos questionamentos: Para onde vamos? Por que conflitos e
dilaceramentos? O que quer viver na verdade? A quem farei falta quando morrer?
O que transmitir aos nossos filhos? Será que desperdiçamos a vida? Qual o saldo
de nossa existências? Para que ou para quem eu conto? Deixamos que as pessoas
pudessem sentar-se na sala de visitas de nosso coração? Por vezes penso que
melhor do que respostas deveríamos nos deter mais nas perguntas. As respostas
se encontram mais facilmente, quando as perguntas são bem formuladas. Carregam
as respostas.
♦ O homem que soube que existia um tesouro no campo
não perdeu tempo. O mesmo se deu com o comerciante de pérolas. Ficaram quietos
para que ninguém soubesse. Esse tesouro não seria o Mistério? Não seria um voz
a nos invadir e querer que a ouçamos a partir do nó de nossa vida? Não poderia
ser despontar de uma luz para o viver?
♦ Antes de chegar ao tesouro é preciso não dizer
nada a ninguém, guardar silêncio, pensar, perscrutar. “O que ou quem está
querendo mexer com a minha vida?”. O desejo de Deus, o desejo do amor é
escondimento. Quando vivemos para sermos vistos, falseamos a verdade. Quando
vivemos só de ação, tornamo-nos possessivos. O tempo que precede alcançar o
tesouro que é o amor de Deus, é tempo de noviciado, de purificação, de baixar o
preço do que vendemos ou mesmo de dar tudo para que aconteça a festa do
encontro, de preparar as bodas.
♦ Encontrar o tesouro muda a vida dos protagonistas
das parábolas. Há neles uma explosão de alegria. Encontraram o essencial, o
melhor de Jesus. O importante é buscar o Reino e tudo o mais será dado de
acréscimo.
♦ Venderam o que tinham. Agora é o tesouro. Tesouro,
amor, vida plena, o próprio Altíssimo. Tesouro: certeza de que somos amados
pelo Senhor e que deu provas disto. Tesouro que é a vida de Jesus que no alto
da cruz como que dizia a Adão e a nós: “Onde tu estás”. Tesouro do amor de
Deus.
♦ Tesouro, modo novo de viver: ter a certeza de que
contamos aos olhos do Senhor, desapropriar-nos de nós mesmos e sermos dádiva,
dom; esposos que se amam e se respeitam, que organizam sua vida segundo os
ditames da Sermão das Bem-aventuranças, trabalhadores e profissionais que
exercem bem o que precisam fazer e que com sua dedicação vislumbram seres
humanos para além das máquinas, das burocracia, da rotina.
♦ O Reino começa quando deixarmos de dançar em torno
de nosso mesquinho e pequeno mundinho.
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Para a reflexão
Mas afinal, que tesouro é esse?
A experiência de quem encontra um tesouro e vende tudo por ele é, na realidade a experiência de quem ouve a Palavra que lhe diz: “Tu és precioso aos meus olhos e Eu te amo. Eu entrego populações em troca de ti” (Is 43,4). É este amor o segredo da alegria da radicalidade de uma vida cristã, é este o amor, o bem precioso a proteger e salvaguardar, este o amor do Senhor e pelo Senhor que pode renovar vidas tentadas pelo envelhecimento, cansaço, insensibilidade, cinismo, indiferença. A nós que, na oração dizemos ao Senhor “és tu o meu Senhor, não há nenhum bem além de ti” e “tu és o meu único bem” (Sl 16,2), e, ainda, “em ti ó Deus se alegra o meu coração, exulta o meu íntimo” (Sl 16,9), é pedido que nos ponhamos à prova para saber se Cristo habita em nós(cf.2Cor 13,5). E isto porque nós habitamos lá, onde está o nosso tesouro: é o tesouro que nos assenta, que nos situa. Se Cristo habita em nós, nós habitamos em Cristo e então podemos gozar a alegria indizível no caminho para o Reino. Trata-se apenas de redescobrirem cada dia a preciosidade do dom recebido, combatendo a tentação do banal, do adquirido, do “tudo é devido”. (Luciano Manicardi – Comentário à Liturgia Dominical e Festiva – Paulinas (Portugal), p. 126)
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FREI ALMIR GUIMARÃES, OFM, ingressou na Ordem Franciscana em 1958. Estudou catequese e pastoral no Institut Catholique de Paris, a partir de 1966, período em que fez licenciatura em Teologia. Em 1974, voltou a Paris para se doutorar em Teologia. Tem diversas obras sobre espiritualidade, sobretudo na área da Pastoral familiar. É o editor da Revista “Grande Sinal”.








