quarta-feira, 18 de março de 2026

Papa na catequese desta quarta-feira:

a Igreja, enquanto comunhão dos fiéis, não pode errar na fé

Na catequese da Audiência Geral desta quarta-feira, 18 de março, Leão XIV refletiu sobre o Povo de Deus à luz da Lumen Gentium e destacou o papel de todos os batizados na missão da Igreja.

Ao dar continuidade ao ciclo de catequeses sobre os documentos do Concílio Vaticano II, o Papa Leão XIV, na Audiência Geral desta quarta-feira (18/03), retomou o segundo capítulo da Constituição conciliar Lumen Gentium, dedicado à Igreja como Povo de Deus. O Pontífice explicou que, pela nova e eterna Aliança, Cristo constitui os seus discípulos como um “sacerdócio real”, tornando-os participantes da sua missão profética. Essa dignidade comum nasce do Batismo, que permite aos fiéis adorar a Deus “em espírito e em verdade” e testemunhar a fé recebida por meio da Igreja:

“O exercício do sacerdócio real manifesta-se de muitas formas, todas elas voltadas para a nossa santificação, principalmente pela participação na oferta da Eucaristia. Através da oração, do ascetismo e da caridade ativa, assistimos, assim, a uma vida renovada pela graça de Deus.”

25 mil fiéis estavam presentes na Praça São Pedro (@Vatican Media)

Testemunho coerente de Cristo

O Papa também abordou o chamado ‘sensus fidei’, o sentido sobrenatural da fé presente em todo o povo cristão, graças ao qual a Igreja reconhece a revelação transmitida e permanece fiel ao Evangelho ao longo da história. Trata-se, explicou, de um dom do Espírito Santo que pertence aos fiéis não isoladamente, mas enquanto membros de um único corpo. Nesse contexto, Leão XIV recordou o ensinamento conciliar sobre a infalibilidade da Igreja, que se manifesta quando todo o povo de Deus, unido aos seus pastores, exprime consenso em matéria de fé e costumes:

“A Igreja, portanto, enquanto comunhão dos fiéis, que inclui obviamente os pastores, não pode errar na fé: o órgão dessa propriedade, fundada na unção do Espírito Santo, é o senso sobrenatural da fé de todo o povo de Deus, que se manifesta no consenso dos fiéis. Dessa unidade, que o Magistério eclesial salvaguarda, resulta que cada batizado é um sujeito ativo da evangelização, chamado a dar um testemunho coerente de Cristo, segundo o dom profético que o Senhor infunde em toda a sua Igreja.”

Cada batizado é protagonista da missão

A partir dessa unidade sustentada pelo Espírito, o Pontífice destacou que todos os cristãos são chamados a ser protagonistas da evangelização, segundo os dons recebidos. O Espírito Santo continua a distribuir carismas a pessoas de todas as condições, tornando-as aptas a contribuir para a renovação e a edificação da Igreja. Também a vida consagrada e as associações eclesiais, acrescentou o Papa, são sinais visíveis dessa vitalidade espiritual que brota da graça e manifesta a fecundidade do Povo de Deus na história.

“Despertemos em nós a consciência e a gratidão por termos recebido o dom de fazer parte do povo de Deus; e também a responsabilidade que isso acarreta”, concluiu Leão XIV.

Thulio Fonseca - Vatican News

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Assista:

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                                          Fonte: vaticannews.va   Fotos e vídeo: (@Vatican Media

terça-feira, 17 de março de 2026

Agradeçamos a Deus

pelo nosso querido Padroeiro e sigamos o seu exemplo!






































































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Reze com a CNBB

pelo desarmamento e pela paz, em 19 de março

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) se une ao Papa Leão XIV, no próximo dia 19 de março, Solenidade de São José, para rezar pelo desarmamento e pela paz. Os fiéis de todo o Brasil são convidados para este momento de oração, rezando a prece sugerida pela Rede Mundial de Oração do Papa nas celebrações eucarísticas ou em outros momentos de oração nas comunidades.

A CNBB pede que os fiéis e suas comunidades coloquem em suas intenções as populações atingidas pela violência, para que o Senhor inspire os responsáveis pelas nações a escolherem os caminhos do entendimento, da reconciliação e do respeito à dignidade de todos os povos.

“Que em nossas comunidades se eleve um só clamor a Deus: que os corações sejam desarmados, que as armas se calem e que a paz floresça entre os povos”, sugere a CNBB.

Na sede da Conferência Episcopal, haverá uma programação especial para elevar preces a Deus junto com toda a Igreja. Às 7h30, haverá a oração das Laudes; às 11h30, Missa Solene; e às 16h30, oração do Ofício Divino.

Você pode compartilhar o momento de oração, marcando a CNBB (@cnbbnacional) nos stories do Instagram.

Confira a oração:

“Reza com o Papa – março: pelo desarmamento e pela paz”

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Senhor da Vida,
que moldastes cada ser humano à vossa imagem e semelhança,
acreditamos que nos criastes para a comunhão, não para a guerra,
para a fraternidade, não para a destruição.

Tu, que saudastes os teus discípulos dizendo: “A paz esteja convosco”,
concede-nos o dom da vossa paz
e a força para torná-la realidade na história.
Hoje elevamos a nossa súplica pela paz no mundo,
pedindo que as nações renunciem às armas
e escolham o caminho do diálogo e da diplomacia.

Desarmai os nossos corações do ódio, do rancor e da indiferença,
para que possamos ser instrumentos de reconciliação.
Ajudai-nos a compreender que a verdadeira segurança
não nasce do controle que alimenta o medo,
mas da confiança, da justiça e da solidariedade entre os povos.

Senhor, iluminai os líderes das nações,
para que tenham a coragem de abandonar projetos de morte,
parar a corrida ao armamento
e colocar no centro a vida dos mais vulneráveis.
Que nunca mais a ameaça nuclear condicione o futuro da humanidade.

Espírito Santo,
fazei de nós construtores fiéis e criativos de paz cotidiana:
em nosso coração, em nossas famílias,
em nossas comunidades e em nossas cidades.

Que cada palavra amável, cada gesto de reconciliação
e cada decisão de diálogo sejam sementes de um mundo novo.

Amém.

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                                                                                                           Fonte: cnbb.org.br

segunda-feira, 16 de março de 2026

Papa a jornalistas:

mostrar a guerra com seus sofrimentos,
não como um videogame

Nos 50 anos do TG2, o telejornal do segundo canal da RAI na Itália, Leão XIV parabenizou pelo aniversário e recordou que a história do noticiário contada pelo convívio de "posições culturais diferentes", ainda hoje pode ser "exemplo de diálogo" em tempos de guerra. Alertou para os riscos do jornalista em se tornar porta-voz do poder e do conflito virar videogame: "cabe a vocês mostrar o sofrimento que a guerra traz às populações; mostrar o rosto da guerra e contá-la com os olhos das vítimas".

O Papa Leão XIV se uniu às felicitações italianas pelos 50 anos do telejornal do segundo canal da RAI (Radiotelevisione Italiana SpA), o serviço público de rádio e televisão da Itália, que só de oferta na TV administra 13 canais nacionais. A RAI 2 é uma das três redes de editoria generalista, com abordagem mais leve e inovadora em relação ao canal nacional RAI 1, que desde a fundação em 1961 apresenta uma programação direcionada ao entretenimento e à informação. O TG2, então, o telejornal da RAI 2, nasceu 15 anos após a fundação da rede, em 15 de março de 1976, graças a uma reforma do serviço público que, na época, reorganizou o panorama de TV na Itália. Segundo a própria primeira-ministra, Giorgia Meloni, "o TG2 sempre foi caracterizado como o telejornal da inovação e da busca por novos formatos".

Leia a íntegra da saudação do Papa Leão XIV à redação do TG2 da RAI

A audiência foi realizada na Sala Clementina, no Vaticano

A saudação do Papa Leão XIV

Nesta segunda-feira (16/03), um dia após as comemorações oficiais do TG2, o Papa Leão XIV recebeu em audiência os profissionais que compõem aa redação com seus familiares na Sala Clementina, no Vaticano. Após parabenizar o noticiário por "ter alcançado a marca de 50 anos", o Pontífice propôs uma reflexão "de aniversário" sobre o caminho percorrido, "como paradigma dos desafios que o jornalismo televisivo enfrentou e daqueles que ainda tem pela frente":

"Penso na transição do sistema analógico para o digital, na qual vocês foram protagonistas ao aproveitar as oportunidades e compreender que nenhuma novidade tecnológica pode substituir a criatividade, o discernimento crítico e a liberdade de pensamento. E se o desafio do nosso tempo é aquele da inteligência artificial, penso na necessidade de regular a comunicação de acordo com o paradigma humano e não com o tecnológico. O que significa, em última instância, saber distinguir entre os meios e os fins."

O Papa junto ao grupo de jornalistas para a foto oficial do encontro


O desafio do TG2 em tempos de guerra

O Papa, então, recordou das características distintivas que, desde o início, marcaram a identidade do TG2: a laicidade e o pluralismo das fontes de informação, "inclusive na televisão estatal". Ao comentar sobre a "forte tentação" de buscar somente o que confirma a própria opinião, Leão XIV alertou que "não pode haver boa comunicação, nem verdadeira liberdade e pluralismo saudável" sem uma abertura autêntica ao fatos, encontros, olhares e vozes dos outros. E a história do TG2, contada pelo convívio de "posições culturais diferentes", ainda hoje pode ser "um exemplo de diálogo" diante de uma época dominada "por polarizações, fechamentos ideológicos e slogans, que impedem de ver e compreender a complexidade da realidade":

"Sempre, mas de maneira especial nas circunstâncias dramáticas de guerra, como as que estamos vivendo, a informação deve evitar o risco de se transformar em propaganda. E a tarefa dos jornalistas, ao verificar as notícias, para não se tornar megafone do poder, torna-se ainda mais urgente e delicada, diria que essencial."

“Cabe a vocês mostrar o sofrimento que a guerra sempre traz às populações; mostrar o rosto da guerra e contá-la com os olhos das vítimas para não transformá-la em um videogame. Não é fácil nos poucos minutos de um telejornal e dos seus espaços de aprofundamento. Mas é aí que está o desafio.”

A audiência foi em comemoração aos 50 anos do telejornal do segundo canal da RAI

Andressa Collet - Vatican News

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domingo, 15 de março de 2026

Reflexão para o seu domingo:

Jesus é para os excluídos

José Antonio Pagola

É “cego de nascença”. Não sabe o que é a luz. Nunca a conheceu. Nem ele nem seus pais têm culpa, mas ali está ele, sentado, pedindo esmola. Seu destino é viver em trevas.

Um dia, ao passar Jesus por ali, vê o cego. O evangelista diz que Jesus é a “Luz do mundo”. Talvez lembrando as palavras do antigo profeta Isaías, garantindo que um dia chegará a Israel alguém que “gritará aos cativos: ‘Saí’ e aos que estão nas trevas: ‘Vinde à luz’”. Jesus passa nos olhos do pobre cego a mistura de barro e saliva para infundir-lhe sua força vital. A cura não é automática. Também o cego deve colaborar. Ele faz o que Jesus lhe indica: vai lavar os olhos, limpar seu olhar e começa a ver.

Quando as pessoas lhe perguntam quem foi que o curou, ele não sabe como responder. Foi “um homem chamado Jesus”. Não sabe dizer mais nada. Também não sabe onde ele está. Só sabe que, graças a este homem, pode ver a vida com olhos novos. É isto que importa. Quando os fariseus e entendidos em religião o acossam com suas perguntas, o homem responde com toda simplicidade: “acho que ele é um profeta”. Não sabe muito bem quem é, mas alguém capaz de abrir os olhos só pode vir de Deus. Então os fariseus se enfurecem, o insultam e o “expulsam” de sua comunidade religiosa.

A reação de Jesus é comovente. “Quando ficou sabendo que o expulsaram, foi procurá-lo”. Assim é Jesus. Não devemos esquecer jamais que é Ele que vem ao encontro dos homens e mulheres que não são acolhidos pela religião. Jesus não abandona quem o busca e o ama, mesmo que tenha sido excluído de sua comunidade religiosa.

O diálogo é breve: “Crês no Filho do homem?” Ele está disposto a crer. Seu coração já é crente, mas ignora tudo: “Quem é Ele, Senhor, para que eu creia nele?” Jesus lhe diz que não está longe: “Tu o estás vendo: é aquele que fala contigo, é esse”. Segundo o evangelista, esta história aconteceu em Jerusalém por volta do ano trinta, e continua acontecendo hoje entre nós no século XXI.

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JOSÉ ANTONIO PAGOLA cursou Teologia e Ciências Bíblicas na Pontifícia Universidade Gregoriana, no Pontifício Instituto Bíblico de Roma e na Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. É autor de diversas obras de teologia, pastoral e cristologia. Atualmente é diretor do Instituto de Teologia e Pastoral de São Sebastião. Este comentário é do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, da Editora Vozes.

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sábado, 14 de março de 2026

Reflexão para este sábado:

Quaresma: Jesus vem abrir nossos olhos

Frei Almir Guimarães

♦ Vai avançado nosso retiro quaresmal. Ouvimos, neste domingo, o belo e dramático relato da cura do cego de nascença. Tema da luz e da claridade. Esse Jesus que se dirige para Jerusalém é luz. Vem para ser claridade na vida dos homens, Filho do Pai que é luz inacessível. A epístola aos efésios, por sua vez, afirma que nós cristãos, como filhos da luz, caminhamos de claridade em claridade. Na primeira leitura, entre os filhos de Jessé, Samuel resolve ungir Davi, aquele que não tinha condições de ser escolhido por sua frágil aparência. As aparências podem enganar. Deus vê de modo diferente do olhar dos homens. Deus tem um olhar diferente do olhar dos mortais.

♦ No famoso relato de João, o cego não procura Jesus, nem Jesus está a buscá-lo. As coisas acontecem ao sabor das andanças do Senhor. Em seus deslocamentos o Mestre encontra pessoas: pescadores, cobradores de impostos, gente de certa importância, pecadores, cegos, coxos, homens, mulheres. Estabelece com uns e outros diferentes tipos de relacionamentos. É sempre no coração da vida que Jesus aproxima-se das pessoas. Os guias do povo complicam a vida com suas leis frias e sem alma. Jesus vê um cego e quer ilumina-lo.

♦ Neste episódio, Jesus está presente o tempo todo, só intervém, no entanto, no começo e no fim. A figura central é o próprio cego. Ele é testemunha da luz e, no final, será um pessoa gratíssima a Jesus que lhe abriu os olhos do rosto e fez com que ele fosse inundado por uma claridade de existir. Será missionário da luz. Evoca-se aqui o drama da história humana: trata-se de aceitar ou rejeitar a luz.

♦ Os circunstantes viam na cegueira do homem um castigo pelo pecados. O homem sofre duplamente. Não enxerga e os outros enxergam-no como um pecador e coberto com a sina do pecado cometidos por seus pais. Os discípulos de Jesus participam dessa crença. O Mestre rejeita esta interpretação. Jesus elimina o aspecto degradante de seu mal, restitui-lhe a dignidade e faz despontar um horizonte de aurora. O cego começa a se sentir livre. Alguém se interessa por ele.

♦ Nós somos o cego. Precisamos ver as trilhas a caminhar, as providências que precisamos tomar para sair do nevoeiro, para enxergar o sentido destas pernas e destes braços, desta vista e deste ouvido. Não queremos apenas olhar o que nos convém e o que serve para satisfazer nosso pequeno eu. Queremos poder enxergar o que está por detrás do rosto fechado dos que vivem perto de nós, ver para além da graça do corpo e do redondo dos bíceps, o que está para além da fala de um doente, ver para além das aparências, porque as aparências enganam. Jesus se apresenta ao cego como Messias como aquele que veio para que os que não veem vejam e os que veem se tornem cegos. Veio para espancar as trevas do legalismo, da indiferença. No final de todos os caminhos o cego haverá de der: “Creio que tu és o Messias”. No momento atual quais são as cegueiras que nos afetam?

♦ “O gesto terapêutico aplicado por Jesus ao cego, quando fez uma pasta de lama e a aplicou sobre seus olhos recorda o gesto com que Deus criou Adão, moldando-o do pó da terra. A recriação nada tem de mágico ou espiritualista, mas tem um valor humaníssimo, e conduz aquele que era apenas objeto de palavras e juízo de outros a tornar-se sujeito, a assumir a sua própria vida, a tomar a palavra e a reivindicar a sua identidade: “Sou eu”. Aquele “sou eu” é essencial para poder chegar a proclamar em liberdade e com convicção: “Eu creio”. Tornarmo-nos crentes não nos exime de nos tornarmos pessoas. Antes o exige” (Luciano Manicardi).

♦ O ser humano todo inteiro é chamado à luz em corpo e alma como bem exprime Paul Claudel:

“Acabe eu por completo de ser obscuro
Libertai todo o sol que há em mim
toda capacidade da vossa luz.
Possa eu ver-vos não apenas com os olhos,
mas com todo meu corpo e todo meu ser
com toda minha materialidade resplandecente e sonora.

“Eu vim a este mundo para fazer um novo julgamento: para que os que não viam, passem a ver, e os que viam, se tornem cegos”.

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Oração

Quando meu pecado me desanimar,
ajuda-me a crer que tu não deixas
nunca de semear no barro de minha mediocridade.
Quando o sofrimento me deixa sem forças,
ajuda-me a crer que tu estás semeando em mim
uma secreta fecundidade.
Quando a morte próxima me causar medo,
ajuda-me a crer que o grão que morre
é semente de uma espiga dourada.
Quando a desgraça dos oprimidos me entristecer,
ajuda-me a crer que nosso amor solidário
é semente de justiça e liberdade. (Inspirada em Michel Hubaut)

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FREI ALMIR GUIMARÃES, OFM, ingressou na Ordem Franciscana em 1958. Estudou catequese e pastoral no Institut Catholique de Paris, a partir de 1966, período em que fez licenciatura em Teologia. Em 1974, voltou a Paris para se doutorar em Teologia. Tem diversas obras sobre espiritualidade, sobretudo na área da Pastoral familiar. É o editor da Revista “Grande Sinal”.

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sexta-feira, 13 de março de 2026

Frei Roberto Pasolini na seguna pregação da Quaresma:

em um mundo de guerras
fraternidade não é um ideal, mas responsabilidade

A graça e a responsabilidade da comunhão estão no centro da segunda meditação da Quaresma da manhã desta sexta-feira, 13 de março, na Sala Paulo VI, na presença do Papa. O pregador da Casa Pontifícia detém-se na intuição de São Francisco ao ver as relações interpessoais como uma oportunidade para aprender a lógica do Evangelho: “Não estamos sozinhos e não somos tudo – afirma ele – e quando não conseguimos fazer as pazes com essa realidade, a presença do outro pode tornar-se insuportável”

Da arte aos modelos econômicos, diversos campos tentaram imaginar uma harmonia universal entre os homens, deparando-se com uma realidade que, nos dias de hoje, é marcada por divisões e conflitos que a fazem parecer “um ideal a ser alcançado”. A fraternidade, por outro lado, é um dom, mas também uma responsabilidade “séria e urgente”, pois recorre à diversidade para derreter os corações e permite que cada um faça as pazes com aquela parte de si que gostaria de fazê-lo acreditar que é único e autossuficiente. Estas são algumas das reflexões oferecidas na manhã desta sexta-feira, 13 de março, pelo pregador da Casa Pontifícia, padre frei Roberto Pasolini, na Sala Paulo VI, no Vaticano, na presença do Papa Leão XIV.

A fraternidade, lugar da conversão autêntica

O frade capuchinho desenvolve sua segunda meditação da Quaresma, com o tema “Se alguém está em Cristo, é uma nova criatura. A conversão ao Evangelho segundo São Francisco”, detendo-se na fraternidade, definida como “a graça e a responsabilidade da comunhão fraterna”.

A fraternidade não é um acessório da vida espiritual, nem apenas um contexto favorável no qual crescer mais facilmente na graça. É o lugar onde a conversão realmente se realiza: o banco de provas mais sério e, ao mesmo tempo, o sinal mais eloquente do que o Evangelho pode operar em nossa vida.

O exemplo das primeiras comunidades franciscanas

Pasolini remete à vida das primeiras comunidades franciscanas, que o Pobrezinho de Assis desejava sem relações de poder ou superioridade, à semelhança das primeiras comunidades cristãs. Não um lugar “onde se refugiar para viver em paz”, mas um espaço onde somos conduzidos “às profundezas do próprio coração”, com suas sombras e suas inquietudes.

Os irmãos são um dom do Senhor. Mas, justamente por isso, não têm simplesmente a função de nos ajudar ou apoiar ao longo do caminho: são-nos confiados para que nossa vida possa mudar.

“Aquele que vem do mesmo ventre”

Refletindo sobre o significado etimológico da palavra irmão, adelphós, literalmente “aquele que vem do mesmo ventre”, o pregador da Casa Pontifícia observa como os irmãos não confirmam simplesmente “o que somos”, mas nos chamam a uma transformação.

Em sua diversidade, em seus limites e, às vezes, até mesmo em suas fadigas, eles se tornam o espaço concreto em que Deus trabalha nossa humanidade, dissolvendo nossas rigidez e nos ensinando a viver com um coração mais verdadeiro e mais capaz de amar.

Abel e Caim, um “problema de olhar”

Uma das histórias que melhor descreve essas resistências é a “relacionamento sofrido” entre Abel e Caim. Uma ruptura que nasce de “um problema de olhar”, segundo o frade capuchinho. O primeiro irmão, na história do Gênesis, oferece os primogênitos de seu rebanho – oferta que Deus “olha com favor” –, enquanto o segundo apresenta simplesmente alguns frutos da terra.

Não é tanto a qualidade da oferta que faz a diferença, mas o fato de que o que se oferece represente verdadeiramente a própria vida. Por isso Deus não aceita a oferta de Caim: não para condená-lo, mas para provocá-lo. Aceitar aquele gesto significaria deixá-lo na convicção de que realmente não tem nada de bom a oferecer. Deus, ao contrário, parece querer ajudá-lo a acreditar que também a sua vida pode se tornar uma oferta.

“Quem é Caim dentro de nós”

A partir desse episódio, Pasolini nos convida a nos questionar, perguntando-nos “quem é Caim dentro de nós”: ou seja, quanto espaço ocupa o ressentimento, que se transforma em distância e depois em violência, no coração de cada um. Aquele rancor que nasce da constatação de que “não estamos sozinhos” e “não somos tudo”.

Quando não conseguimos fazer as pazes com essa realidade, a presença do outro pode se tornar insuportável.

A lógica da misericórdia para com quem erra

Para São Francisco, no entanto, a fraternidade não era um problema a ser enfrentado, mas uma oportunidade para aprender a lógica misericordiosa do Evangelho para com o próximo que erra. Uma dinâmica que se encontra também na breve, mas intensa, Carta a Filêmon de São Paulo.

Nas ocasiões em que as relações se deterioram e a comunhão é ferida, o Evangelho não sugere, em primeiro lugar, defender os próprios direitos, mas buscar o bem maior e sempre possível: aquele que permite reconhecer no outro não mais um adversário ou um devedor, mas um irmão amado pelo Senhor.

Acolher em meio a feridas, decepções e aversões

Essa realidade pode parecer distante da vida concreta, mas torna-se tangível quando as relações se baseiam em “um vínculo de liberdade”. Não na simpatia ou na afinidade, mas no “fato de que Deus nos escolheu e nos chamou para viver juntos na Igreja como irmãos e irmãs”.

A Páscoa começou a agir em nós no momento em que descobrimos que podemos acolher os outros mesmo quando nos ferem, quando nos decepcionam, quando se comportam como adversários. Não porque nos tornamos mais fortes ou mais virtuosos, mas porque algo em nós já morreu e algo novo começou a viver.

Não perder de vista o horizonte

A intuição do Pobrezinho de Assis, explica ainda o pregador da Casa Pontifícia, é ver a conversão que brota “precisamente daquilo que os outros nos fazem, mesmo quando nos ferem ou nos colocam à prova”.

Isso amplia muito nosso olhar. Na vida cotidiana, as fadigas da fraternidade podem ser pesadas. As distâncias entre nós, as palavras que ferem, os mal-entendidos que permanecem em aberto podem se tornar dolorosos. Precisamente por isso, nunca devemos perder o horizonte. Quando perdemos a perspectiva da vida eterna, certas fadigas se tornam totalmente inaceitáveis.

Receber a fraternidade como dom e responsabilidade

A fé, conclui Pasolini, não separa, mas nos lembra que “ninguém pode ser excluído do nosso coração”. Liberados, por meio da ressurreição de Jesus, não do cansaço das relações, mas da suspeita de que tal esforço seja inútil.

Por isso, nestes dias da Quaresma, enquanto a história do mundo continua a ser atravessada por divisões, guerras e conflitos, nós, cristãos, não podemos nos limitar a falar de fraternidade como um ideal a ser alcançado. Somos chamados a recebê-la como um dom e, ao mesmo tempo, a assumi-la como uma responsabilidade muito séria e urgente.

 Edoardo Giribaldi – Vatican News

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