O termo
“desenvolvimento integral” foi amplamente trabalhado pelo Papa Paulo VI em sua
Carta encíclica Populorum Progressio, sobre o desenvolvimento dos povos,
publicada em 26 de março de 1967, na esteira das preocupações sociais já
apresentadas por seus predecessores Leão XIII, Pio XI, Pio XII e João XXIII.
Assim, Paulo VI iniciou sua Encíclica:
“O
desenvolvimento dos povos, especialmente daqueles que se esforçam por afastar a
fome, a miséria, as doenças endêmicas, a ignorância; que procuram uma
participação mais ampla nos frutos da civilização, uma valorização mais ativa
das suas qualidades humanas; que se orientam com decisão para o seu pleno
desenvolvimento, é seguido com atenção pela Igreja” (PP, 1).
Para justificar
que a missão da Igreja abrange também as questões socioeconômicas, Paulo VI
declarou: “Depois do Concílio Ecumênico Vaticano II, uma renovada
conscientização das exigências da mensagem evangélica traz à Igreja a obrigação
de se pôr ao serviço dos homens, para os ajudar a aprofundarem todas as
dimensões de tão grave problema e para os convencer da urgência de uma ação
solidária neste virar decisivo da história da humanidade” (PP, 1).
Após apresentar
as principais aspirações do ser humano, o texto analisa a realidade da
colonização e do colonialismo, constatando um desequilíbrio crescente. Em
contrapartida, percebe-se uma tomada de consciência cada vez maior
dessa realidade. Isso gera “o choque entre as civilizações tradicionais e as
novidades da civilização industrial”, que acaba por quebrar “as estruturas que
não se adaptam às novas condições” (PP, 10).
O Papa apresenta
a visão cristã do desenvolvimento, que “não se reduz a um simples crescimento
econômico. Para ser autêntico, deve ser integral, quer dizer, promover todos os
homens e o homem todo” (PP, 14). Um pouco mais à frente, Paulo VI explica melhor
esse conceito: “O desenvolvimento integral do homem não pode realizar-se sem o
desenvolvimento solidário da humanidade (…). Por isso, sugerimos a busca de
meios de organização e de cooperação, concretos e práticos, para pôr em comum
os recursos disponíveis e realizar, assim, uma verdadeira comunhão entre todas
as nações” (PP, 43).
Recentemente, o
Papa Leão XIV retomou o conceito de desenvolvimento integral, inserindo-o no
debate socioambiental diante dos desafios que enfrentamos, e nos advertiu: “a
qualidade do desenvolvimento mede-se pela sua capacidade de manter juntas, sem
as separar, a justiça para com as pessoas e a salvaguarda da Casa comum,
favorecendo condições de vida dignas, acesso aos bens essenciais, relações
sociais justas, cuidado da criação e atenção às gerações futuras” (MH,
84).
Há um sério
risco de se gerar um pretenso desenvolvimento para uma pequena classe de
privilegiados, deixando cair apenas migalhas para a enorme multidão de
explorados e descartados da sociedade. Continua o Papa: “Daí se conclui que não
é verdadeiro progresso o que aumenta o bem-estar de alguns degradando os
ecossistemas, descarregando os custos nas comunidades mais vulneráveis ou
prejudicando as condições de vida de quem virá depois de nós” (MH, 84).
Como Igreja,
desejamos que a história da humanidade seja uma história de prosperidade,
justiça, dignidade humana, compromisso socioambiental, concórdia e paz.
Queremos que todos os seres humanos trilhem o caminho do desenvolvimento
integral. Com os Titãs, cantamos e parafraseamos: “a gente não quer só comida,
quer comida, diversão e arte” (Comida).
A gente não quer
só emprego; a gente quer emprego, respeito e justiça social.
A gente não quer
só um ar de desenvolvimento; a gente quer ar sem cheiro de explosivos e de
contaminação de grandes empresas;
A gente não quer
só propaganda enganosa e migalhas; a gente quer acesso ao direito à saúde
pública e tratamento adequado para nossas crianças e pessoas atingidas pelas
explorações.
A gente não quer
só emprego; a gente quer emprego e desenvolvimento sustentável para todos,
especialmente para as famílias e comunidades impactadas por aqueles que dizem
trazer o desenvolvimento para nossas cidades.
A gente não quer
moradia só para alguns privilegiados; a gente quer que todos tenham direito à
moradia digna, sem rachaduras; com suas mesas e chão sem poeira geradas pelas
mineradoras e queimadas da monocultura.
A gente não quer
apenas retirada de nossas riquezas, deixando buracos revirados; a gente quer
respeito ao meio ambiente, aos territórios de nossas comunidades tradicionais,
aos nossos rios, matas e animais.
Continuando a
citar Titãs: “A gente não quer só dinheiro. A gente quer dinheiro e felicidade.
A gente não quer só dinheiro. A gente quer inteiro e não pela metade”
(Comida).
Na abertura do
encontro internacional pelos dez anos da Amoris laetitia, o Papa reafirma a
beleza do plano de Deus para o matrimônio e a família, reconhece a “distância
crescente” entre a forma como sexualidade e intimidade são vividas e a visão
cristã do matrimônio e convida a Igreja a se interrogar sobre sua linguagem e
suas práticas pastorais. “Conseguimos reconhecer a ação da graça mesmo em
situações marcadas por limites, feridas e aparentes fracassos?”, questiona o
Pontífice.
“Que tipo de
Igreja as pessoas encontram precisamente quando estão mais frágeis?” A pergunta
do Papa Leão XIV está no centro do desafio lançado nesta quarta-feira, 7 de
outubro, na abertura do encontro “Dez anos após Amoris laetitia: anunciar o
Evangelho com as famílias hoje”, que reúne no Vaticano hierarcas das Igrejas
Orientais, presidentes de Conferências Episcopais, casais, especialistas e
representantes da pastoral familiar. O encontro, que prossegue até 14 de
outubro, tem caráter global e reúne 187 participantes dos cinco continentes.
Entre eles está a delegação brasileira, composta pelo arcebispo de Porto Alegre
e presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Jaime
Spengler; pelo bispo de Ponta Grossa (PR) e presidente da Comissão Episcopal
para a Vida e a Família, dom Bruno Elizeu; e pelo casal coordenador nacional da
Pastoral Familiar, Alisson e Solange Schila.
Ao abrir os
trabalhos na Sala Paulo VI, Leão XIV convidou os participantes a olhar para o
caminho percorrido pela Igreja desde a publicação, há dez anos, da Exortação
Apostólica Amoris laetitia, do Papa Francisco, e a discernir, à luz do Espírito
Santo, o que essa experiência tem ensinado à Igreja sobre o matrimônio, a
família e os novos desafios pastorais.
A família
continua sendo fundamental
Ao recordar o
percurso da Igreja desde o Concílio Vaticano II, o Papa destacou que a vida
familiar oferece “um ponto de entrada privilegiado” para as grandes questões
culturais, econômicas, sociais e políticas do nosso tempo, inclusive para a
promoção da paz. Leão XIV reafirmou, ao mesmo tempo, a visão cristã do
matrimônio:
“A
interdependência dessas questões tornou-se ainda mais evidente hoje, sempre à
luz da Palavra de Deus: ‘Deus os fez homem e mulher. Por isso, o homem deixará
seu pai e sua mãe para se unir à sua mulher’ (Mc 10,6-7). A família continua
sendo fundamental para uma abordagem que una o local e o global, guiada pela
busca de uma fraternidade universal em Cristo, que o Evangelho nos chama a
construir com todos.”
Para o
Pontífice, os dez anos transcorridos desde a publicação de Amoris laetitia
fazem agora parte da própria vida das Igrejas particulares, em diferentes
culturas e contextos pastorais. O objetivo destes dias, explicou, é reunir as
experiências vividas, as dificuldades encontradas e os frutos surgidos ao longo
desse caminho.
Aprender a
escutar
O Papa ressaltou
que as próprias famílias participam da missão da Igreja na vida cotidiana, por
meio do amor e da fidelidade, do cuidado e do perdão, da educação dos filhos,
da transmissão da fé e da atenção aos idosos e às pessoas vulneráveis. Aos
pastores, recordou a responsabilidade de proclamar “a beleza do plano de Deus
para o matrimônio e a família e o seu apelo ao amor e à ternura”, sem deixar de
acompanhar as pessoas nas circunstâncias concretas em que procuram viver sua
vocação:
“Este ministério
coloca-nos também numa escola de escuta. A sabedoria do Povo de Deus chega até
nós através da nossa fé comum, que ilumina todas as famílias, incluindo as
situações marcadas por dificuldades, solidão e, por vezes, até mesmo por um
aparente fracasso. Temos certamente muito a aprender com as famílias e, quando
dedicamos tempo a ouvir, o próprio Senhor pacientemente nos ensina.”
Sexualidade,
intimidade e os jovens
Foi justamente a
partir da experiência concreta das famílias que o Santo Padre apontou algumas
das questões que, segundo ele, precisam ser enfrentadas “com coragem”. Entre
elas, está a “distância crescente” que, em muitos contextos, se verifica entre
as formas como a sexualidade e a intimidade são vividas e a visão cristã do
matrimônio:
“Os jovens
continuam a desejar o amor, a fidelidade e o sentimento de pertencimento, mas
muitos têm dificuldade em compreender como essa visão do amor pode
concretizar-se em suas próprias vidas ou em acreditar que um compromisso para
toda a vida é a condição para alcançar aquilo que desejam. A insegurança
econômica, a migração, a violência, a solidão e outras formas de fragilidade
emocional também moldam as escolhas que as pessoas fazem e as possibilidades
que conseguem imaginar para o seu futuro.”
Diante desse
cenário, o Papa pediu que a Igreja não se limite a observar as transformações
culturais, mas tenha a coragem de se deixar questionar por elas, inclusive
sobre a capacidade de sua própria linguagem pastoral de alcançar as pessoas.
“Estas
realidades suscitam uma série de questões que devemos enfrentar com coragem. O
que as pessoas procuram verdadeiramente por trás dessas mudanças culturais? O
que suas alegrias e esperanças, suas tristezas e angústias nos revelam? Em que
aspectos nossa linguagem e nossas práticas pastorais conseguem abrir caminho e
onde não conseguem tocar o coração das pessoas nem apoiar seus esforços para
fazer o bem? O que nos ensina a experiência vivida pelas famílias — uma
experiência da qual ainda não aprendemos plenamente? O que podemos oferecer em
termos de formação para uma vida familiar saudável e santa? Em particular, o
que podemos aprender com os pais, que procuram acompanhar seus filhos, e com os
jovens nesses contextos?”
Uma Igreja
próxima nas fragilidades
Outro ponto
central do discurso foi a fragilidade. Segundo Leão XIV, ela pode marcar
profundamente a maneira como uma pessoa olha para si mesma, para o futuro e até
para sua relação com Deus e com a Igreja. Por isso, é preciso perguntar se
somos capazes de permanecer próximos uns dos outros quando “a vida já não
corresponde ao que se esperava” e de reconhecer a ação da graça mesmo em
situações marcadas “por limites, feridas e aparentes fracassos”.
“Também a este
respeito, a experiência das famílias tem algo a ensinar a todos, uma vez que a
fragilidade pertence à nossa condição humana comum e, por isso, também à vida
da Igreja. Todos conhecemos a distância entre o bem que desejamos e aquilo que
somos capazes de viver. Precisamos de graça, perdão e novos começos para
cumprir a vontade de Deus, e aprendemos que a fidelidade é, ela própria, uma
graça a receber e um caminho a renovar gradualmente, muitas vezes através da
provação.”
Foi nesse
contexto que o Papa dirigiu à Igreja algumas das perguntas mais incisivas de
seu discurso: “Que tipo de Igreja as pessoas encontram precisamente quando
estão mais frágeis? Nossas comunidades ajudam-nas a descobrir que ainda têm um
lugar, uma responsabilidade e dons para oferecer? A verdade que proclamamos
pode ser encontrada através da paciência, da proximidade e da misericórdia da
nossa presença pastoral? Como podemos anunciar-lhes a plenitude do ensinamento
do Evangelho sobre a família?”
Novas formas de
anunciar o Evangelho
Para o Santo
Padre, a resposta a essas questões passa por uma Igreja capaz não apenas de
interpretar a realidade, mas de permitir que ela interpele sua própria
responsabilidade pastoral. O Espírito Santo, afirmou, fala também “através das
próprias situações que nos desafiam”, ajudando a reconhecer como a misericórdia
de Deus e a graça de Cristo podem alcançar as famílias em suas fraquezas,
esperanças, desilusões e busca de sentido. A tarefa da Igreja, acrescentou o
Papa, é encontrar “formas renovadas de proclamar o Evangelho, oferecer as
graças sacramentais, acompanhar as famílias e tornar visível a ternura com que
Cristo continua a caminhar entre o seu povo”.
Ao concluir,
Leão XIV pediu que os dias de encontro sejam vividos na escuta, na oração e no
discernimento, permitindo que as experiências provenientes dos diferentes
contextos culturais ajudem toda a Igreja a reconhecer novos caminhos:
“Que o Senhor
nos conceda a liberdade de nos ouvirmos uns aos outros, a sabedoria para
reconhecer a sua obra entre o seu povo e a coragem para seguir por onde Ele nos
conduz, para que, dia após dia, o Evangelho se torne cada vez mais plenamente
uma boa notícia para as famílias em todo o mundo.”
Na Audiência
Geral na Praça São Pedro, o Papa Leão comentou o quarto capítulo da
Constituição Pastoral Gaudium et spes, que trata da missão da Igreja no mundo
atual. Esta missão se realiza principalmente pelo testemunho da fé e da
caridade, no empenho pela justiça, paz e fraternidade.
A missão da
Igreja no mundo contemporâneo foi o tema da catequese do Papa Leão na Audiência
Geral desta quarta-feira, 7 de outubro. O Pontífice retomou o ciclo sobre os
documentos do Concílio Vaticano II, comentando esta semana o quarto capítulo da
Constituição conciliar Gaudium et spes (GS).
Em primeiro
lugar, o Concílio recorda que a Igreja não está "acima" nem "ao
lado" do mundo, mas sim enraizada nele: "a Igreja é o mundo já
reconciliado com Deus; somos peregrinos na terra e partilhamos com este mundo a
fragilidade e a beleza", explicou o Santo Padre.
Como se lê na
Magnifica humanitas, a missão eclesial tem um alcance histórico e implica
responsabilidade no que diz respeito à maneira como se tecem as relações
sociais. Assim, a primeira tarefa é ajudar as pessoas a estarem atentas às
questões profundas da vida, sobre a nossa origem e destino, bem como sobre o
sentido do amor e da dor:
“A lógica do
lucro a todo o custo e a manipulação da informação correm o risco de exercer
uma pressão indevida para que as pessoas se conformem a um estilo de vida
centrado no consumo de bens materiais, mas o nosso coração foi feito para olhar
para o alto.”
Ao saudar os lusófonos, Papa confiou o povo brasileiro a Nossa Senhora Aparecida
O cristão não
pode aceitar a injustiça
Os Padres do
Concílio recordam ainda que a missão da Igreja se concretiza também na
contribuição para a construção da cidade terrena. Não significa uma tarefa de
natureza política, mas consiste no testemunho da fé e da caridade, juntamente
com o empenho pela justiça, pela paz e pela fraternidade.
“Ao adorar
Cristo, o Justo que morreu pelos injustos, o fiel não pode aceitar a opressão
dos pequenos e dos pobres, nem as estruturas injustas que perpetuam condições
de dependência e de injustiça.”
Para orientar a
ação dos cristãos existe a Doutrina Social da Igreja. De modo especial, os
leigos são chamados a animar o mundo com o espírito cristão e a visão do
Evangelho, sobretudo na família e na atividade profissional. Isso exige, acima
de tudo, coerência. Pois como recordam os Padres conciliares, o distanciamento
entre a fé professada e a vida quotidiana "deve ser contado entre os mais
graves erros do nosso tempo" (GS, 43).
Papa saúda a multidão
Anunciar com
firmeza, sem se sujeitar às modas culturais
O desejo da
Igreja, segundo expresso na Gaudium et spes, é "poder desenvolver-se
livremente sob qualquer regime que reconheça os direitos fundamentais da pessoa
e da família e os imperativos do bem comum". Para isso, está sempre atenta
ao que acontece e se desenvolve na sociedade, sem se deixar levar por modas
culturais. "Com efeito, não é certamente diluindo os conteúdos e
suavizando as exigências que se pode tornar o cristianismo atraente",
acrescentou o Santo Padre.
O convite final
do Pontífice aos fiéis é para que nos tornemos dóceis à ação do Espírito Santo,
"para que Ele nos ajude a viver em santidade e caridade, de modo que o
mundo possa acreditar e ter esperança".
A pessoa humana
deve estar no centro da vida social, política e econômica. Este é o princípio
básico do ensino social da Igreja Católica, reafirmado desde o final do século
19. Na encíclica Magnifica humanitas, sobre a salvaguarda da pessoa humana
na era da inteligência artificial (2026), o papa Leão XIV recordou esse e
outros grandes princípios fundamentais para o desenvolvimento de um humanismo
integral.
Dom Odilo Pedro Sherer
Essa preocupação
justifica-se na era da inteligência artificial: bem mais magnífica do que todas
as suas invenções e tecnologias, a pessoa humana não deve ser obscurecida por
elas. É preciso salvaguardar a dignidade única de cada ser humano, não importando
a sua condição social, econômica, étnica ou cultural. Em nada se pode ceder ao
risco da desumanização, quer por mecanismos tecnológicos, quer, ainda mais, por
tendências culturais, como o ódio cego, o fundamentalismo intolerante e o
egoísmo insensível.
A dignidade da
pessoa humana é o tema mais recorrente no ensino social da Igreja. Leão XIII
escreveu na encíclica Rerum Novarum (1891): “A ninguém é lícito
violar impunemente a dignidade do homem” (n.º 57). Essa dignidade não é
outorgada pelo Estado ou pela sociedade, pois é inerente à própria natureza
humana. O Estado e a sociedade têm a missão de a reconhecer e de velar por ela.
É injusto e oprimente qualquer sistema que fere a dignidade da pessoa humana.
A subordinação
da ordem social à ordem moral é um princípio fundamental do humanismo integral
proposto pela Igreja: tudo e todos são regidos pela ordem moral, que expressa,
em última análise, a ordem querida pelo Criador para as criaturas. Por isso, a
convivência e todas as atividades humanas precisam ter sua referência na reta
ordem moral, que pode ser conhecida pela razão. Os graves problemas sociais e
políticos são sempre decorrentes de questões morais.
Também o
princípio da solidariedade perpassa toda a doutrina social da Igreja. Todos
dependem uns dos outros e também são responsáveis uns pelos outros. O papa
Francisco desenvolveu este princípio na sua encíclica Fratelli tutti (2020),
indicando a fraternidade universal entre as pessoas e os povos como base da
solidariedade entre todos. Este princípio opõe-se a todas as formas de
individualismo social ou político fechado e voltado apenas aos interesses
privados. A edificação da ordem social necessita de justiça, mas também de amor
fraterno.
O bem comum,
outro princípio sempre presente nos documentos sociais da Igreja, se refere à
promoção do bem de todos – indivíduos, grupos e povos. O papa João XXIII, na
encíclica Mater et Magistra (1961), definiu o bem comum como o
conjunto das condições sociais que permitem e favorecem o desenvolvimento
integral das pessoas (ver n.º 65). Esse princípio se traduz na afirmação dos
direitos humanos, na defesa e promoção da vida, da educação, do alimento, de
moradia, entre outros. A promoção do bem comum cabe a todos, mas, sobretudo, ao
Estado, pois é esse o motivo principal da existência da sociedade organizada e
do Estado.
A prioridade do
trabalho sobre o capital vem sendo afirmada desde a encíclica Rerum
novarum, de Leão XIII (1891). Embora seja necessária a relação entre capital e
trabalho, este representa a afirmação da pessoa, enquanto o capital é um bem
instrumental. O trabalho está relacionado com a dimensão subjetiva do homem,
que é o sujeito do trabalho e que se realiza e se expressa por meio dele. Leão
XIV, na encíclica Magnifica humanitas (2026), reafirmou a preocupação
com a salvaguarda da dignidade dos trabalhadores e do trabalho na atual
transição digital.
A questão
salarial, por sua vez, é acompanhada com atenção especial pelo magistério
social da Igreja. Leão XIII já tratou do justo salário no contexto da grave
questão operária decorrente da revolução industrial do século 19. Nem sempre o
salário legal é também um salário justo, que deve ser suficiente para assegurar
a subsistência digna do trabalhador. O trabalho humano não pode ser tido apenas
como uma mercadoria, sujeita às leis do mercado.
A Doutrina
Social da Igreja afirma o direito à propriedade privada de bens, inclusive dos
meios de produção. Ao mesmo tempo, porém, ensina que a propriedade privada não
é um direito absoluto e ilimitado. João Paulo II escreveu: “Os bens deste mundo
são originariamente destinados a todos” e, por isso, também a propriedade
privada possui uma função social: “Sobre a propriedade privada pesa uma
hipoteca social” (ver encíclica Sollicitudo rei socialis, 1987, n.º 42).
Enfim, o cuidado
da vida humana e da natureza é uma preocupação crescente na Doutrina Social da
Igreja. O princípio da “casa comum” foi desenvolvido, sobretudo, a partir das
encíclicas Caritas in veritate (2009), de Bento XVI, e Laudato
si’, de Francisco (2015). O mundo da natureza é a casa e o ambiente da
vida, que abriga, nutre e sustenta o homem e os demais seres. Nesse ambiente
acontecem as relações humanas e o cuidado de uns pelos outros e pela casa, que
é de todos.
Cardeal Odilo
Pedro Scherer - Arcebispo
Metropolitano de São Paulo
Publicado
originalmente no jornal O ESTADO DE S.PAULO em 12 de setembro de 2026
Leão XIV no tradicional encontro com os casais ao final da Audiência Geral das quartas-feiras
Os jovens
"foram criados para o amor", escreve Leão XIV no prefácio do livro da
Fundação YOUCAT, intitulado "Amor para sempre", que será apresentado
em Roma nesta terça (06/10). E a forma de amor entre homem e mulher é
verdadeiro, é um "sim profundo ao outro", uma aliança para a vida
toda quando reflete Deus. A obra, inspirada pelo Papa Francisco, prepara casais
ao matrimônio e ao chamado para esse "grande amor. Não tenham medo da sua
profundidade", "não é perfeito, mas cresce à luz da fé".
O Papa Leão XIV
escreveu o prefácio do novo "YOUCAT Amor para empre”, uma obra destinada a
acompanhar os jovens na reflexão sobre o amor, os relacionamentos e o
matrimônio à luz da fé católica. A apresentação internacional será nesta
terça-feira, 6 de outubro, no Centro Internazionale Giovanile San
Lorenzo de Roma, com a presença de representantes da Igreja e colaboradores
envolvidos no projeto YOUCAT.
Na programação da noite, celebração de missa presidida por dom John Joseph
Kennedy, secretário do Dicastério para a Doutrina da Fé; apresentação de
testemunhos e do próprio livro com o prólogo do Pontífice, em formato
audiovisual, que agora propomos o texto na íntegra:
"Queridos
jovens amigos,
O coração de
vocês anseia por amor. Um amor que seja profundo, apaixonado e duradouro. Esse
anseio não é por acaso. É sinal de que vocês foram criados para o amor. Santo
Agostinho, cujo coração ardente, trespassado por uma seta, está representado no
meu brasão, expressou-o desta forma: 'Inquieto está o nosso coração enquanto
não repousar em Ti, ó Deus' (Confi ssões 1,1). Assim ele expressou o anseio
pelo amor divino, que Deus realmente derrama em nossa alma quando estamos
unidos a Ele. De fato, o próprio Deus pode estar presente no amor humano e
transformá-lo. Então, Ele nos concede a capacidade de amar como Ele ama: no
serviço, na generosa entrega de si mesmo e, quando necessário, no perdão. Pois
Deus é amor e nos criou para amar – a Ele e às pessoas ao nosso lado.
Entre todas as
formas de amor humano, o amor que existe entre homem e mulher ocupa um lugar
especial. Ele pode atingir o coração como uma flecha – de forma intensa e
rápida. Mas o amor verdadeiro não para por aí.
Não é
simplesmente um sentimento fugaz, que se acende só por um instante. É mais do
que isso. É um “sim” profundo ao outro, uma decisão, um caminho e uma aliança
para a vida toda. “O amor é autêntico e pode durar para sempre apenas quando
reflete o esplendor eterno de Deus, que é amor (cf. 1Jo 4,8). Relacionamentos
sólidos e fecundos constroem-se juntos, com base na confiança mútua, neste
‘para sempre’ que palpita em cada vocação à vida familiar e à consagração
religiosa” (Discurso no encontro com jovens no Líbano). Esse amor pergunta, em
primeiro lugar: “Como posso amar como Cristo amou?” (cf. Jo 15,12); e coloca em
segundo plano a pergunta “O que recebo em troca?”.
No matrimônio,
algo do próprio mistério de Deus se revela. Quando um homem e uma mulher se
entregam totalmente um ao outro no amor, Deus ganha vida no meio deles. Sua
fidelidade, seu perdão e sua luta diária pelo bem são um reflexo do amor de
Cristo pela sua Igreja. Pode parecer um exagero romântico, mas é uma verdade
profunda sobre a realidade: “Naquele que é um, somos um” (Agostinho, Comentário
ao Salmo 127). Deus chama vocês, queridos jovens, a esse grande amor. Não
tenham medo da sua profundidade! Pois o amor para o qual vocês são chamados é
forte o suficiente para vencer as dificuldades; e grande o suficiente para
sustentá-los por toda a vida. Não é perfeito, mas cresce à luz da fé. O amor
verdadeiro é um dom de Deus e não podemos simplesmente criá-lo. Enquanto o amor
humano muitas vezes é manchado por desejos egoístas, o amor de Deus, pelo
contrário, é altruísta, longânime, paciente e possui todas as maravilhosas
qualidades que Paulo elenca na Carta aos Coríntios (cf. 1Cor 13).
A imagem mais
bela do amor verdadeiro é vista quando contemplamos a cruz de Jesus Cristo. Ele
nos amou tanto que se dispôs a morrer por nós. Esse é o “DNA” do cristianismo,
o mandamento de Cristo: “Amem-se uns aos outros, assim como eu amei a vocês.
Ninguém tem amor maior do que alguém que dá a vida pelos amigos” (Jo 15,12-13).
Este livro,
YOUCAT – Amor para sempre, quer acompanhá-los nesse caminho. Jovens como vocês,
de mais de 30 países diferentes, deram aqui testemunho de que o ideal para o
qual Cristo nos chama é um tesouro fascinante. O livro convida vocês a abrirem
o coração a um projeto que é maior do que qualquer sonho humano. Ele serve como
preparação para um “sim” que não é para apenas um dia, mas para a vida toda –
um “sim” que, como o amor de Deus, é incansável e fiel.
Rezo por vocês
que leem este livro, uma obra inspirada pelo nosso amado papa Francisco. Que
Jesus Cristo agite o coração de vocês até que nele encontrem descanso. Que o
Espírito Santo seja a luz e a força de vocês. E que, como Maria, a Mãe do Belo
Amor, vocês respondam com confiança e coragem à mais bela de todas as vocações:
a vocação ao amor."
A capa do livro que leva o prefácio do Papa Leão XIV