em qualquer circunstância, Jesus não nos abandona.
O Evangelho de
hoje ensina-nos algo importante: a não perdermos a esperança, nem mesmo nos
momentos de escuridão, quando nos sentimos impotentes perante os problemas que,
apesar dos nossos esforços, nos fazem pensar que estamos a recuar em vez de
avançar. Em qualquer circunstância, Jesus não nos abandona. Foi o que disse o
Papa no Angelus ao meio-dia deste domingo, 9 de agosto, XIX Domingo do Tempo
Comum, ao rezar a oração mariana com os fiéis peregrinos reunidos na Praça São
Pedro.
Quando o Mestre
entra no barco, a tempestade acalma, e então brota espontaneamente do coração
dos discípulos a profissão de fé: «Tu és, realmente, o Filho de Deus!» Foi o
que ressaltou o Santo Padre aos fiéis e peregrinos reunidos na Praça São Pedro
ao explicar o Evangelho deste XIX Domingo do Tempo Comum, no habitual encontro
dominical do Angelus. Na alocução que precedeu a oração mariana, Leão XIV
ateve-se ao Evangelho do dia (Mt 14, 22-33), em que Jesus, caminhando sobre as
águas do mar da Galileia, vai ter com os discípulos no meio de uma tempestade.
Após o milagre
dos pães e dos peixes, ressaltou o Papa, o Mestre obriga os seus discípulos a
embarcar e ir adiante para a outra margem, enquanto Ele se retira num monte,
sozinho, para rezar. Longe da costa, porém, encontram-se à mercê do vento e têm
dificuldade em avançar. Depois de uma experiência bem-sucedida, na qual tinham
sido protagonistas de um sinal prodigioso, encontram-se agora impotentes e
assustados perante a ameaça das ondas e do vento contrário.
No final da
noite, Jesus vai ao encontro deles sobre as águas agitadas, e, assustados,
confundem-no com um fantasma. Mas Ele diz-lhes: «Tranquilizai-vos! Sou Eu! Não
temais!»
A presença do
Senhor muda tudo
“A presença do
Senhor muda tudo: Pedro chega até mesmo a dar alguns passos sobre as ondas na
direção d’Ele; depois assusta-se, começa a afundar e Jesus salva-o. Quando o
Mestre entra no barco, a tempestade acalma, e então brota espontaneamente do
coração dos discípulos a profissão de fé: «Tu és, realmente, o Filho de Deus!»”
Para chegar a
este ponto, prosseguiu o Pontífice, não lhes bastou assistir a um milagre, nem
ter tido bom êxito diante das pessoas: tiveram de passar pela experiência da
própria fraqueza, reconhecendo nela a presença de Deus. Só assim conseguiram
verdadeiramente abrir os olhos e o coração à sua proximidade, reencontrando a
paz mesmo no meio da tempestade.
Um dia, mais
tarde, Jesus dir-lhes-á: «Se tiverdes fé e não duvidardes […], se disserdes a
este monte: “Tira-te daí e lança-te ao mar”, assim acontecerá». E foi
precisamente isso que eles experimentaram no lago: a paz de Cristo, que tinha
estado na montanha a rezar, alcançou-os no meio da fúria das águas.
Não perder a
esperança, nem mesmo nas horas de escuridão
Com efeito,
observou Leão XIV, este milagre ensina-nos algo importante: em primeiro lugar,
a não nos vangloriarmos pelo sucesso e a nunca nos considerarmos superiores aos
outros; depois, a não perdermos a esperança, nem mesmo nos momentos de
escuridão, quando nos sentimos impotentes perante os problemas que, apesar dos
nossos esforços, nos fazem pensar que estamos a recuar em vez de avançar.
“Em qualquer
circunstância, Jesus não nos abandona e, se o acolhermos humildemente no barco
da nossa vida – através da oração, dos Sacramentos e da escuta da Palavra –,
n’Ele encontraremos a paz, a luz e a força para o nosso caminho.”
Que Maria nos
ajude a viver assim, com confiante abandono em Deus, Ela que foi proclamada
bem-aventurada pela sua fé, rezou por fim o Santo Padre.
No Angelus deste
domingo, 9 de agosto, mais um veemente apelo do Santo Padre em favor da paz,
com um olhar para a trágica situação no Sudão, expressando sua proximidade
espiritual com todo o povo daquele país, e o pedido de uma cessação dos ataques
sobre os civis por parte da Rússia e da Ucrânia, lembrando que a guerra apenas
gera mais guerra e provoca enorme sofrimento: “É hora de interromper a espiral
de violência e dar espaço à diplomacia e ao diálogo para abrir caminho à paz”,
exorta o Papa.
Bombardeios russos na Ucrânia (ANSA)
“Continuo
acompanhando com preocupação a trágica situação no Sudão, especialmente na
cidade de El-Obeid. Ao expressar minha proximidade espiritual com todo o povo
daquele país, renovo meu apelo às autoridades para que garantam corredores
humanitários para a população civil. Ao mesmo tempo, exorto a comunidade
internacional a apoiar os esforços destinados a alcançar um cessar-fogo
imediato. Rezemos para que o Senhor sustente aqueles que sofrem, converta os
corações daqueles que semeiam a violência e conceda a tão esperada paz.”
Foi o veemente
apelo do Pontífice no Angelus deste domingo, 9 de agosto, ao manifestar sua
proximidade espiritual com todo o povo daquele país africano que já de há muito
vem sofrendo com as violências, pedindo um cessar-fogo imediato.
Ucrânia e
Rússia, outra realidade de sofrimento
O olhar do Santo
Padre voltou-se também para outra realidade de sofrimento, desta vez na Ucrânia
e Rússia, de onde continuam a chegar notícias dolorosas de pessoas inocentes
mortas e feridas, frisou o Papa:
Episódios
trágicos se sucedem, ou melhor, se multiplicam, causando cada vez mais vítimas
civis, entre as quais também crianças. Faço-me próximo das famílias das
vítimas, dos feridos e de todos aqueles que sofrem por causa do conflito em
curso. Diante de tanta dor, renovo um apelo veemente para que se respeite o
direito humanitário e cessem, por ambas as partes, os ataques que atingem alvos
civis. A guerra apenas gera mais guerra e provoca enormes sofrimentos. É hora
de interromper a espiral de violência e dar espaço à diplomacia e ao diálogo
para abrir caminho à paz.
Testemunhas
luminosas do Evangelho
Após ressaltar a
presença de muitos jovens, que escolhem dedicar alguns dias de férias a
atividades formativas e de amizade, como um sinal de esperança, Leão XIV
lembrou o evento dos jovens franciscanos que teve a alegria de encontrar na
última quinta-feira em Assis, recordando, em seguida, que nestes dias o
calendário litúrgico propõe algumas figuras luminosas de Santos e Santas,
convidando-os a conhecê-las melhor e a se deixarem entusiasmar por estas
testemunhas exemplares o Evangelho:
Ontem, São
Domingos, fundador dos Frades Pregadores; hoje, Santa Teresa Benedita da Cruz,
Edith Stein, carmelita assassinada em Auschwitz e co-padroeira da Europa;
amanhã, São Lourenço, diácono da Igreja de Roma; depois de amanhã, Santa Clara
de Assis, que abandonou uma vida confortável para seguir Jesus, pobre e
humilde, seguindo o exemplo de seu conterrâneo São Francisco. Queridos jovens,
deixai-vos inspirar por essas testemunhas exemplares do Evangelho!
Ao completar sua
30ª edição no Brasil, a Semana Nacional da Família de 2026 apresenta uma
proposta de altíssima densidade teológica e pastoral. Organizada pela Comissão
Nacional da Pastoral Familiar da CNBB, a edição deste ano traz como tema
“Família, torna-te aquilo que és” e como lema bíblico “O amor jamais acabará”
(1 Coríntios 13, 8).
Trata-se de um
perfil de proposta que se recusa a ficar na superficialidade: o texto convoca a
família a olhar para o espelho do Evangelho, redescobrir sua vocação original e
firmar-se no amor de Cristo diante das tempestades da contemporaneidade. O tema
escolhido para 2026 recupera uma das frases mais emblemáticas do Magistério da
Igreja sobre a família, formulada por São João Paulo II na Exortação Apostólica
Familiaris Consortio. A escolha é profética, pois coincide com a celebração dos
45 anos da Familiaris Consortio e com os 10 anos da Exortação Apostólica Amoris
Laetitia do Papa Francisco.
Esta proposta
imperativa exige da família cristã uma tomada de consciência, pois não é um
mero apelo moralista, mas ontológico. A família não precisa inventar uma nova
identidade a cada mudança de vento cultural; ela precisa assumir o que Deus já
planejou para ela. Deve configurar-se, assim, como um antídoto contra a
desconstrução. Em tempos nos quais o conceito de família é frequentemente
esvaziado, a Igreja recorda que a família é a célula mãe da sociedade e a
Igreja Doméstica.
A proposta para
este ano decorre de um chamado à conversão contínua, considerando que
“Tornar-se” é um verbo de processo. Significa que o lar é uma oficina diária
onde o perdão, a paciência, o diálogo e a fidelidade são lapidados
continuamente. O lema bíblico – “O amor jamais acabará” (1Cor 13,8) – extraído
do Hino à Caridade de São Paulo oferece o alicerce espiritual necessário para
sustentar o tema.
Diante de um
mundo onde os relacionamentos se tornaram frágeis, descartáveis e “líquidos”, a
Palavra de Deus proclama uma verdade contra-cultural: o amor autêntico é
definitivo. Este lema injeta esperança nos lares, lembrando que as crises
financeiras, as divergências de geração e os desgastes do tempo não têm a
última palavra quando a família está fundamentada no amor que vem da Cruz e da
Ressurreição.
A proposta da
Semana da Família 2026 toca nas feridas mais abertas da sociedade
contemporânea, oferecendo remédios pastorais concretos com respostas à crise de
pertencimento e conectividade vazia. As famílias de hoje vivem frequentemente
hiperconectadas digitalmente, mas profundamente isoladas no plano afetivo. O
apelo a “tornar-se o que se é” convida os lares a reestabelecerem a mesa do jantar, o abraço físico, a escuta atenta e a oração em conjunto como espaços sagrados de comunhão.
A proposta
caminha ainda lado a lado com a defesa da dignidade humana em todas as suas
etapas. A família que sabe quem é torna-se um escudo protetor para os filhos
contra as ideologias desumanizantes e um porto seguro de acolhimento e respeito
para os idosos. A vulnerabilidade econômica, o desemprego, as enfermidades
mentais (como ansiedade e depressão entre os jovens) e as tensões conjugais são
investidas reais. O lema “O amor jamais acabará” garante que a família católica
não está abandonada à própria sorte: na graça dos sacramentos, os casais e pais
encontram o sustento sobrenatural para recomeçar todos os dias.
A Semana
Nacional da Família de 2026 traça um perfil corajoso, denso e profundamente
esperançoso. Ela não mascara as dores das famílias, mas recusa-se a entregá-las
ao desânimo. Ao proclamar “Família, torna-te aquilo que és” e testemunhar que
“O amor jamais acabará”, a Igreja lança um clarão de luz sobre a sociedade: a
família é, e continuará sendo, a maior riqueza de um povo, o santuário da vida
e o caminho privilegiado para a santidade.
Dom Anuar Battisti - Arcebispo Emérito de Maringá (PR)
Não é fácil responder com sinceridade essa pergunta que Jesus faz a Pedro no momento em que o salva de afundar na água: “Por que duvidaste?”
Às vezes, as mais profundas convicções se desvanecem e os olhos da alma ficam turvos sem que saibamos exatamente por quê. Princípios aceitos até então como inalteráveis começam a cambalear. E desperta em nós a tentação de abandonar tudo sem reconstruir nada novo.
Outras vezes, o mistério de Deus parece oprimir-nos. A última palavra sobre a minha vida me escapa e é duro abandonar-me ao mistério: minha razão continua buscando insatisfeita uma luz clara e incontestável que não encontra, nem jamais poderá encontrar.
Não raras vezes a superficialidade e a leviandade de nossa vida cotidiana e o culto secreto a tantos ídolos nos submergem em graves crises de indiferença e ceticismo interior, com a sensação de termos realmente perdido a Deus.
Com frequência é nosso próprio pecado que enfraquece nossa fé, pois ela decai e se debilita quando nos afastamos de Deus. Se somos sinceros, temos que confessar que há uma distância enorme entre o crente que professamos ser e o crente que somos na realidade. O que fazer ao constatar uma fé às vezes tão frágil e vacilante em nós?
Primeiramente, não desesperar nem assustar-nos ao descobrir dúvidas e vacilações em nós. A busca de Deus se vive quase sempre na insegurança, na obscuridade e no risco. A Deus se busca “às apalpadelas”. E não devemos esquecer que muitas vezes “a genuína fé só pode aparecer como dúvida superada” (Ladislao Boros).
O importante é aceitar o mistério de Deus com o coração aberto. Nossa fé depende da verdade de nossa relação com Ele. E não é preciso esperar que nossas interrogações e dúvidas se resolvam para viver em verdade diante desse Pai.
Por isso é importante saber gritar como Pedro: “Senhor, salva-me”. Saber levantar nossas mãos vazias para Deus, não só como gesto de súplica, mas também de entrega confiante de alguém que se reconhece pequeno, ignorante e necessitado de salvação. Não esqueçamos que a fé é “caminhar sobre a água”, mas com a possibilidade de encontrar sempre essa mão que nos salva quando começamos a afundar.
JOSÉ ANTONIO PAGOLAcursou Teologia e Ciências Bíblicas na Pontifícia Universidade Gregoriana, no Pontifício Instituto Bíblico de Roma e na Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. É autor de diversas obras de teologia, pastoral e cristologia. Atualmente é diretor do Instituto de Teologia e Pastoral de São Sebastião. Este comentário é do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, da Editora Vozes.
♦ Deus não está nos fenômenos naturais grandiosos e violentos: vento, terremoto, fogo; mas no sopro leve da brisa, com que significando a espiritualidade e a intimidade das manifestações de Deus ao homem. (Missal dominical e festivo p. 769)
♦ Uma vez mais somos confrontados com a Palavra. Ela nos reúne, congrega, anima e fortalece na medida em que pessoal e comunitariamente queremos. Nos deixamos interiormente tocar por ela. Sempre de novo a qualidade de nossa escuta. Vamos vivendo essa vida de todos os dias. Tentamos tudo esclarecer com uma luz que do Mistério, desse que mora numa luz inacessível, da fé. Somos cristãos e não gostaríamos de ver a figura de Jesus se diluir nas coisas de todos os dias. Que o Senhor aumente nossa fé.
♦ Elias está cansado. É penoso ser profeta, dizer aos homens o que Deus manda dizer e que é para o bem deles. O profeta está tentado abandonar tudo. É demais. Hoje vemo-lo subir ao Horeb, a montanha de Deus. Vai ali passar a noite. Deus se lhe manifesta. Vento impetuoso que quebrava os rochedos. Terremoto que a tudo sacudia e fogo violento. Ali não estava Deus. E veio uma brisa suave, um silencio sutil. E ali estava Ele, o Altíssimo como que a dizer ao mais íntimo do profeta desanimado que o acolhesse. “Elias cobriu o rosto com o manto, saiu e pôs-se à entrada da gruta”.
♦ Confiança numa presença sutil, que não pode ser vista. O Senhor não está nas violências, nos estardalhaços. A experiência está sempre a nos dizer que o encontramos quando deixamos o bulício, mas na busca persistente de encontros no âmbito da brisa ligeira. Talvez no eloquente silêncio, quem sabe quarto ou em nossos templos. Nesse empenho de silencio interior, no degustar os salmos vamos alimentando nossa inteira certeza de uma proximidade que nos permite superar medos e desânimos, como foi o caso de Elias. Trata-se de uma experiência interior. Francisco de Assis foi um amante e frequentador das grutas, mas nos garante que sua reviravolta interior começou num episódio terra a terra, ou seja, a carinhosa aproximação sua das carnes do leproso. Ali ele tocou o Mistério.
♦ Detenhamo-nos agora na perícope do evangelho. Jesus despede as multidões depois da multiplicação dos pães. Pede que os discípulos avancem até o outro lado do Lago de Genesaré. O evangelista observa que “Jesus sobe ao monte para rezar a sós”. Essas coisas ditas en passant são importantes. Jesus sente necessidade de estar a sós com o Pai.
♦ Ordem de atravessar o mar… mas o impiedoso mar impedia e complicava a ordem de Jesus. Tempestade e medo. Parece nossa história de fé. Sensação de abandono. Jesus nos pediu e nos pede que continuemos sua obra. Garantiu que estaria conosco até o final dos tempos. Palavrinha curta e difícil. Fé. Na proximidade de sua presença. Confiança de ir até andando sobre as águas. Supõe fé em Jesus. Preciso a coragem de ir sempre “ao encontro de Jesus”.
♦ Necessário saber gritar como Pedro: “Senhor, salva-me”. No empenho de divulgar a Boa Nova do Evangelho, a alegria da fé, nos desalentos e nas dúvidas: “Senhor, salva-me”.
FREI ALMIR GUIMARÃES, OFM, ingressou na Ordem Franciscana em 1958. Estudou catequese e pastoral no Institut Catholique de Paris, a partir de 1966, período em que fez licenciatura em Teologia. Em 1974, voltou a Paris para se doutorar em Teologia. Tem diversas obras sobre espiritualidade, sobretudo na área da Pastoral familiar. É o editor da Revista “Grande Sinal”.
A comunicação
digital deixou de ser apenas uma ferramenta para tornar-se o principal meio de
nos relacionarmos. Hoje, resolvemos quase tudo por aplicativos de mensagens:
conversamos com amigos, trabalhamos, fazemos compras, pagamos contas
e solucionamos problemas com empresas por meio de canais digitais de
atendimento. Em muitos lares, é comum que pessoas da mesma casa conversem mais
pela tela do que pessoalmente. Ganhamos rapidez e praticidade, mas será que não
estamos perdendo algo essencial?
Essa é a
inquietação do filósofo sul-coreano Byung-Chul Han em No Enxame. Ao
afirmar que “a mídia digital
furta à comunicação a tatilidade e a corporeidade”, ele não critica o avanço da tecnologia. Sua preocupação é mais profunda. A comunicação humana deixa de ser um verdadeiro encontro entre
pessoas para reduzir-se a uma simples troca de informações. Comunicar-se é
uma experiência essencialmente corporal e vai muito além das
palavras. A comunicação humana envolve o olhar, os gestos, as expressões
faciais, a entonação da voz, os silêncios e toda a riqueza dos sinais não
verbais que somente a presença física pode oferecer. É justamente essa dimensão
relacional que torna possível o encontro autêntico com o outro. A comunicação
digital, porém, empobrece essa experiência ao privilegiar a circulação de informações
em detrimento da presença humana, esvaziando a profundidade e a densidade
próprias das relações interpessoais.
Quando essa
dimensão corporal desaparece, também muda a nossa forma de perceber o outro. Ao
evitar o encontro direto, passamos gradualmente a nos relacionar mais com
imagens, perfis e mensagens do que com pessoas concretas. O smartphone
transforma-se num “espelho digital”, reforçando uma lógica narcísica na qual
estamos continuamente voltados para nós mesmos. O outro deixa de ser alguém que
nos interpela, nos desafia e nos surpreende para tornar-se um objeto
manipulável, que pode ser aceito, ignorado ou descartado com um simples
deslizar de dedo sobre a tela. Assim, a alteridade cede lugar à
lógica da seleção e do consumo, empobrecendo a experiência do encontro humano.
A comunicação
digital empobrece o olhar. Mesmo as videochamadas, que prometem
proximidade, não conseguem substituir o encontro presencial, pois
eliminam a experiência de ver e ser verdadeiramente visto. Embora aproximem
pessoas fisicamente distantes, elas não substituem a experiência de
olhar nos olhos, perceber a linguagem corporal, compartilhar os silêncios e
sentir a presença do outro. Como consequência, enfraquecem-se a escuta atenta,
a empatia e a capacidade de acolher a singularidade de cada pessoa.
É justamente
isso que Han deseja denunciar. A eficiência tecnológica tem um custo: a perda
da experiência humana do encontro. Quando o corpo, o silêncio, a proximidade e
a presença deixam de ocupar um lugar central na comunicação, tornam-se mais
frágeis também o diálogo, a amizade, o amor e a construção de uma autêntica
comunidade. Podemos estar permanentemente conectados e, ao mesmo tempo,
profundamente sós.
A crítica de Han
não é um convite a abandonar a tecnologia, mas a utilizá-la sem permitir que
ela substitua aquilo que nos torna verdadeiramente humanos. As mensagens são
úteis, facilitam a comunicação e aproximam quem está distante; os encontros,
porém, permanecem insubstituíveis. Sua advertência é, antes de tudo, ética e
antropológica. Uma sociedade que troca o encontro pela conexão, o rosto pela
tela e a presença pela simples circulação de informações corre o risco de
perder uma dimensão essencial da existência humana: a capacidade de
reconhecer o outro em sua singularidade e de deixar-se transformar pelo
encontro com ele. Afinal, nenhuma tecnologia é capaz de substituir plenamente a
força de um abraço, a profundidade de um olhar, a eloquência de um silêncio
compartilhado ou a riqueza da presença de duas pessoas que verdadeiramente se
encontram.
Naqueles dias, ao chegar a Horeb, o monte de Deus, ao profeta Elias entrou numa gruta, onde passou a noite. E eis que a palavra do Senhor lhe foi dirigida nestes termos: “Sai e permanece sobre o monte diante do Senhor, porque o Senhor vai passar”.
Antes do Senhor, porém, veio um vento impetuoso e forte, que desfazia as montanhas e quebrava os rochedos. Mas o Senhor não estava no vento. Depois do vento, houve um terremoto. Mas o Senhor não estava no terremoto. Passado o terremoto, veio um fogo. Mas o Senhor não estava no fogo. E, depois do fogo, ouviu-se o murmúrio de uma leve brisa. Ouvindo isso, Elias cobriu o rosto com o manto, saiu e pôs-se à entrada da gruta.
— Mostrai-nos, ó Senhor, vossa bondade,/ e a vossa salvação nos concedei!
— Mostrai-nos, ó Senhor, vossa bondade,/ e a vossa salvação nos concedei!
— Quero ouvir o que o Senhor irá falar:/ é a paz que ele vai anunciar. Está perto a salvação dos que o temem,/ e a glória habitará em nossa terra.
— A verdade e o amor se encontrarão, a justiça e a paz se abraçarão; da terra brotará a fidelidade, e a justiça olhará dos altos céus.
— O Senhor nos dará tudo o que é bom, e a nossa terra nos dará suas colheitas; a justiça andará na sua frente e a salvação há de seguir os passos seus.
Irmãos: Não estou mentindo, mas, em Cristo, digo a verdade, apoiado no testemunho do Espírito Santo e da minha consciência.
Tenho no coração uma grande tristeza e uma dor contínua, a ponto de desejar ser eu mesmo segregado por Cristo em favor de meus irmãos, os de minha raça. Eles são israelitas. A eles pertencem a filiação adotiva, a glória, as alianças, as leis, o culto, as promessas e também os patriarcas. Deles é que descende, quanto à sua humanidade, Cristo, o qual está acima de todos, Deus bendito para sempre! Amém!
Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo São Mateus
Logo em seguida, Jesus obrigou os discípulos a entrar na barca, e ir na frente, para o outro lado do mar, enquanto ele despedia as multidões. Logo depois de despedir as multidões, Jesus subiu sozinho ao monte, para rezar. Ao anoitecer, Jesus continuava aí sozinho. A barca, porém, já longe da terra, era batida pelas ondas, porque o vento era contrário.
Entre as três e as seis da madrugada, Jesus foi até os discípulos, andando sobre o mar. Quando os discípulos o avistaram, andando sobre o mar, ficaram apavorados, e disseram: «É um fantasma!» E gritaram de medo. Jesus, porém, logo lhes disse: «Coragem! Sou eu. Não tenham medo.»
Então Pedro lhe disse: «Senhor, se és tu, manda-me ir ao teu encontro, caminhando sobre a água.» Jesus respondeu: «Venha.» Pedro desceu da barca, e começou a andar sobre a água, em direção a Jesus. Mas ficou com medo quando sentiu o vento e, começando a afundar, gritou: «Senhor, salva-me.» Jesus logo estendeu a mão, segurou Pedro, e lhe disse: «Homem fraco na fé, por que você duvidou?»
Então eles subiram na barca. E o vento parou. Os que estavam na barca se ajoelharam diante de Jesus, dizendo: «De fato, tu és o Filho de Deus.»
As leituras de hoje falam de tempestade e escuridão. Na 1ª leitura, Elias, desanimado, procura Deus no monte no qual este se havia manifestado a Moisés. Deus lhe promete uma “entrevista”. Elias o espera, no vento, no terremoto, no fogo, mas ele não está aí. Depois, porém, surge uma brisa mansa, e Deus lhe fala… No evangelho lemos que, depois da multiplicação dos pães, Jesus manda os discípulos atravessarem o mar, sozinhos. Ele mesmo fica na montanha, para orar. No meio da noite, enquanto os discípulos lutam contra a tempestade, ele vai até eles, andando sobre o mar. Incute-lhes confiança: “Não tenhais medo”. Pedro se entusiasma, quer ir até ele sobre as ondas, mas duvida…
Deus é precedido pela tempestade, mas domina-a. É na calmaria que ele dirige a palavra a Elias. Jesus domina as ondas do lago e dissipa o pânico dos discípulos. Sua manifestação é um convite a ter fé nele. Os doze, o barco, o porta-voz Pedro: tudo isso evoca a Igreja, abalada pelas tempestades da história, enquanto Cristo parece estar demorando para chegar – pois os primeiros cristãos esperavam vivamente e para breve a nova vinda de Cristo, a Parusia, que parecia protelar-se sempre assim. A mensagem da narrativa parece ser que a Igreja deve acreditar na presença confortadora de seu Senhor.Mas nessa fé podem aparecer falhas, como no caso de Pedro…
Que tempestade e escuridão angustiam a Igreja hoje? Cristo nos parece estar longe, não percebemos sua presença… A Igreja como poderosa instituição está sendo atingida pelo desmantelamento da força política que durante muito tempo lhe serviu de sustentáculo: o ocidente europeu e suas extensões coloniais: “Morreu a Cristandade”, o regime no qual Igreja e Sociedade se identificavam. Sociologicamente falando, a Igreja aparece sempre mais como o que ela era no início: uma mera comunidade de fiéis, sem maior peso civil que as sociedades culturais, círculos literários e clubes de futebol (e olhe lá!). Quem ainda não acostumou seus olhos a esses apagamento sociológico, tem dificuldade de enxergar a presença de Cristo.
As dificuldades que a Igreja enfrenta hoje devem nos fazer enxergar melhor a presença de Cristo em novos setores da Igreja, sobretudo na população empobrecida e excluída da sociedade do bem-estar globalizado. De repente, Jesus se manifesta como calmaria no ambiente tempestuoso das “periferias” do mundo, na simplicidade das comunidades nascidas da fé do povo. Temos coragem para ir até ele ou duvidamos ainda, deixando-nos “levar pela onda”?
PE. JOHAN KONINGS nasceu na Bélgica em 1941, onde se tornou Doutor em Teologia pela Universidade Católica de Lovaina, ligado ao Colégio para a América Latina (Fidei Donum). Veio ao Brasil, como sacerdote diocesano, em 1972. Em 1985 entrou na Companhia de Jesus (Jesuítas) e, desde 1986, atuou como professor de exegese bíblica na FAJE, Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, em Belo Horizonte. Faleceu no dia 21 de maio de 2022. Este comentário é do livro “Liturgia Dominical, Editora Vozes.