Não existe seguimento de Jesus sem o perdão
Novamente diante nós o complexo e intrincado tema do perdão. Quantas vezes em contextos pequenos de nossa vida pessoal sentimo-nos mais ou menos gravemente ofendidos, preteridos, esquecidos, desrespeitados, caluniados. Claro, de outro lado também ofendemos e magoamos. Quando ofendidos, por vezes, reagimos. Proclamamos nossa pureza ou nossa inocência neste ou naquele assunto com suavidade ou com veemência. Podemos até responder o mal com o mal. Outras vezes negamos a palavra, o peso da ofensa bloqueia nosso caminhar. Uns carregam uma ofensa por toda a vida. Cada pessoa tem seu modo reagir. Há, é claro, situações muito delicadas: o assassinato de um filho, o descuido com que um amigo foi tratado no hospital, a tortura, os campos de concentração de guerra, essa guerra que mata aqueles que amamos. Não podemos, no entanto, escapar da exigência do Evangelho no tocante ao perdão. Tolentino tem razão, o perdão abre as portas de dentro de nós.
Não há escapatória. Somos discípulos de Jesus que nos lembrou o mandamento de sempre: amar o semelhante. Ele mesmo vai ilustrar esse amor dando a vida pelos seus, aceitando a cascata de ofensas, de modo particular no decorrer de seu processo de condenação e nos episódios de sua morte. “Pai, perdoai, eles não sabem o que fazem”. Não há escapatória. Afinal, o Pai faz chover sobre justos e injustos, faz o sol nascer sobre bons e maus. Se somos cumulados de bens pelo Pai, cumularemos de bens os que vivem à nossa volta. Se o patrão da parábola havia perdoado o seu empregado devedor, por que ele adotou outra postura com o outro que lhe devia uma ninharia? O sentido da parábola é claro. Deus perdoa gratuitamente o pecado a quem lhe pede perdão demonstrando benevolência absoluta supondo que o homem prove seu arrependimento e repulsa pelo mal cometido. Cabe-nos ser bons como o Pai e bom. Ou não?
“Quando Jesus fala de amor aos inimigos não está pensando em sentimentos de afeto, simpatia ou carinho para com os que nos fazem o mal. O inimigo continua sendo inimigo e dificilmente poderá despertar em nós tais sentimentos. Amar o inimigo é pensar em seu bem; não buscar o mal, mas aquilo que possa contribuir para que ele viva melhor e de maneira mais digna. Isso supõe esforço, porque precisamos aprender a depor o ódio, superar o ressentimento e buscar o que é bom para ele. Jesus fala de rezar “por aqueles que nos perseguem” provavelmente como uma maneira concreta de ir despertando em nós a capacidade de amá-los” (Pagola, Grupos de Jesus, p. 252-253). Deveríamos, nesse contexto, rezar e cantar a famosa oração da paz atribuída a São Francisco: Senhor, fazei de mim instrumento de vossa paz… onde houver ofensa que eu leve o perdão…
Quando o mundo toma conhecimento de determinadas barbaridades responde com violência. Neste ano um policial americano matou um homem negro colocando seu pesado joelho no seu pescoço. As câmaras registraram a ocorrência e em poucos instantes o mundo inteiro tomou conhecimento do fato. Manifestações de revolta em todo o mundo, violência, ódio. Podemos, até certo ponto, compreender tais reações, embora não concordemos com a violência. O ódio destrói. Há outros modos de reagir. O ódio universal se compreende, mas não se justifica. O homem está preso e certamente será condenado a uma pesada pena. O que o cristão não pode aceitar é entrar numa roda viva de violência.
Uma história contada por Elie Wiesel, escritor judeu, prêmio nobel da paz. O texto aqui reproduzido é de livro de José Tolentino Mendonça: “Na infância esteve prisioneiro em Auschwitz, na companhia dos pais, irmãos, amigos. Praticamente só ele sobreviveu. Podemos imaginar até que ponto sentia-se espoliado. A partir de 1945, quando a guerra acaba, passa anos em que o único objetivo de sua vida era procurar uma possível justiça para o irreparável. “Com foi possível tamanho horror?… Como foi possível?” E a sua vida era isso. Cada dia amanhecia e acordava num inferno. Não conseguia encontrar a sua alma. Até que foi falar com um rabino. E o rabino disse-lhe: “Meu filho, enquanto tu não perdoares serás prisioneiro de Auschwitz”. E essa palavra redimensionou o seu coração para sempre”.
E para terminar: “O perdão é um nascimento espiritual, um novo começo, a ruptura com o passado. É uma oportunidade de viver novamente, de reconstruir o vínculo, a chama da vida. É o sinal visível da liberdade espiritual. Tudo está programado para respondermos sob a lógica da ação e reação, aplicando a conhecida Lei do Talião, olho por olho dente por dente, mas o perdão quebra este ciclo e nos torna verdadeiramente livres, imprevisíveis, espirituais” (Francesc Torralba).
Oração
Reina em mim a escuridão,mas em ti está a luz.Eu estou sómas tu não me abandonas.Estou desanimadomas em ti está a ajuda.Estou intranquilo,mas em ti está a paz.A amargura me domina,mas em ti está a paciência.Não compreendo teus caminhos,mas Tu conheces o caminho para mim. (Dietrich Bonhoeffer)
FREI ALMIR GUIMARÃES, OFM, ingressou na Ordem Franciscana em 1958. Estudou catequese e pastoral no Institut Catholique de Paris, a partir de 1966, período em que fez licenciatura em Teologia. Em 1974, voltou a Paris para se doutorar em Teologia. Tem diversas obras sobre espiritualidade, sobretudo na área da Pastoral familiar. É o editor da Revista “Grande Sinal”.
_______________________________________________________________________________ Fonte: franciscanos.org.br Imagem: vaticannews.va

