quando a saudade se encontra com a
esperança
Dom Leomar Brustolin - Arcebispo de Santa Maria (RS)
O Dia de Finados nos coloca diante de uma experiência que nenhuma
geração conseguiu evitar: a despedida daqueles que amamos. Um dia, alguém que
fazia parte de nossa vida deixa de estar fisicamente conosco. Permanecem a
fotografia, os objetos, as histórias, talvez uma cadeira vazia. E permanece
sobretudo a saudade. Por isso, Finados não é simplesmente um dia dedicado aos
mortos. É um dia em que os vivos são convidados a redescobrir o significado do
amor, a acolher a dor da ausência e a renovar a esperança que nasce da
fé.
A Igreja não nos pede que escondamos a tristeza. Jesus chorou diante do
túmulo de Lázaro. Suas lágrimas revelam algo profundamente cristão: a fé na
ressurreição não torna o coração insensível. Choramos justamente porque amamos.
As lágrimas podem dizer aquilo que as palavras já não conseguem expressar. O
próprio Filho de Deus conheceu a dor da separação e santificou, com suas
lágrimas, o sofrimento humano. A fé não elimina o sofrimento provocado pela
separação; oferece-lhe um horizonte.
Há, entretanto, uma diferença decisiva entre recordar e simplesmente
olhar para trás. Para o cristão, visitar um cemitério não significa procurar
quem amamos entre os mortos. O corpo ali depositado merece todo respeito,
porque participou de uma história, amou, trabalhou, sofreu, abraçou e foi
templo do Espírito Santo. Mas a pessoa não está reduzida à sepultura. A
esperança cristã proclama que a morte não destrói a identidade de quem partiu e
que Deus chama a pessoa inteira à plenitude da ressurreição.
É por isso que Finados é também dia de oração. Levamos flores, acendemos
velas, cuidamos dos túmulos, recordamos nomes. Tudo isso possui beleza quando
expressa amor. O gesto especificamente cristão, contudo, vai além: rezamos
pelos falecidos. Não tentamos estabelecer com eles uma comunicação misteriosa
nem buscamos sinais de sua presença. Nós os confiamos a Deus, suplicando que,
em sua infinita misericórdia, os acolha na plenitude da vida eterna. A comunhão
permanece, mas acontece em Cristo. Entre nós e aqueles que partiram não existe
um vazio: existe o Deus dos vivos.
A Eucaristia, por isso, ocupa um lugar singular neste dia. Santa Mônica,
aproximando-se da morte, não pediu aos filhos grandes homenagens. Pediu algo
muito mais simples e profundo: que se lembrassem dela junto ao altar do Senhor.
Celebrar pelos falecidos significa colocá-los dentro da Páscoa de Cristo. Ali
não oferecemos apenas nossa saudade; proclamamos que aquele que morreu e
ressuscitou abriu uma passagem onde parecia existir somente um muro.
Finados contém ainda uma pergunta dirigida aos vivos. Caminhar entre
túmulos é encontrar silenciosamente muitas histórias concluídas. Pessoas que
fizeram projetos, acumularam bens, tiveram preocupações, vitórias, conflitos e
sonhos. Um dia, tudo aquilo ficou para trás. O cemitério relativiza muitas
urgências que consideramos absolutas. Recorda-nos que a vida é preciosa
justamente porque é limitada. Lembrar que morreremos pode nos ensinar a viver
melhor, cultivar o essencial e reconhecer que cada dia é uma oportunidade de
amar e servir.
A fé cristã acrescenta algo ainda maior: nossa existência não caminha
para o desaparecimento. São Paulo escreveu a uma comunidade que chorava seus
mortos para que seus membros não permanecessem tristes “como os outros que não
têm esperança” (1Ts 4,13). Ele não disse que os cristãos não ficam tristes.
Disse que existe uma tristeza diferente: uma tristeza visitada pela esperança.
A esperança cristã não é um consolo imaginário diante do inevitável, mas a
confiança fundada na ressurreição de Jesus Cristo. Nele, a morte deixou de ser
um destino sem retorno e tornou-se passagem para a vida que não conhece
ocaso.
No dia 02 de novembro, passado, presente e eternidade se aproximam.
Agradecemos pelas vidas que fizeram parte da nossa; rezamos por aqueles que
partiram; reconciliamo-nos com nossa própria finitude e renovamos a esperança
no encontro definitivo com Deus. Ao deixar o cemitério, portanto, deveríamos
sair um pouco diferentes de quando entramos. Mais conscientes de que o tempo é
breve, mais dispostos a perdoar, menos preocupados com coisas pequenas, mais
atentos às pessoas que ainda podemos abraçar.
