Na Solenidade de
Corpus Christi, celebrada neste domingo (7/06) em diversos países, o Papa
presidiu a Santa Missa na Plaza de Cibeles, em Madri, diante de mais de 1,2
milhão de fiéis. Em sua homilia, o Pontífice recordou que a Eucaristia é a
presença viva de Cristo no meio do seu povo e convidou os católicos a
transformarem a fé em testemunho concreto de caridade e esperança.
Neste domingo, 7
de junho, segundo dia de sua quarta Viagem Apostólica, o Papa Leão XIV presidiu
a celebração de Corpus Christi na Plaza de Cibeles, em Madri. Em alguns países,
como a Espanha, a solenidade é transferida da tradicional quinta-feira para o
domingo seguinte, permitindo uma participação mais ampla dos fiéis nas
celebrações e procissões eucarísticas. Também na capital espanhola, os fiéis
prepararam os tradicionais tapetes ornamentais que serviram de cenário para a
procissão do Santíssimo Sacramento pelas ruas da capital espanhola, uma
tradição presente na história e na espiritualidade do país.
Tapetes preparados para a procissão (@Vatican Media)
A presença viva
de Cristo no meio do povo
Em sua homilia,
com o olhar voltado para o tema da Eucaristia, Leão XIV recordou que Corpus
Christi celebra o dom da presença viva de Cristo, que continua a alimentar o
seu povo e a caminhar com ele ao longo da história. O Papa destacou que a
solenidade não representa apenas uma expressão cultural ou folclórica, mas a
manifestação da fé na presença real do Senhor.
“Não se trata de
uma manifestação exterior, de uma sobrevivência folclórica ou de um simples
adorno estético: trata-se aqui da fé na presença do Senhor Ressuscitado, que
está vivo e continua a passar no meio de nós.”
Leão XIV profere a homilia (@Vatican Media)
Corpus Christi
além da tradição
Ao refletir
sobre o significado da procissão eucarística, o Pontífice explicou que ela
expressa a proximidade de Deus com a humanidade. Segundo ele, Cristo não
permanece fechado nos templos, mas vai ao encontro das pessoas em suas
realidades concretas:
“Jesus caminha
pelas ruas, atravessa as praças, visita os nossos bairros, habita os lugares da
nossa vida quotidiana. Ele é o Deus próximo que caminha com o seu povo.”
Leão XIV
recordou ainda que a Igreja na Espanha associa há muitos anos a Solenidade de
Corpus Christi ao Dia da Caridade, ressaltando que a adoração eucarística deve
conduzir ao compromisso com os mais pobres, os doentes, os que sofrem e os que
vivem situações de abandono.
Momento do ofertório (@Vatican Media)
A religião não é
um museu do passado, mas uma escola de fé
Dirigindo-se
especialmente à sociedade espanhola, o Santo Padre fez um apelo para que a rica
herança religiosa do país continue sendo uma fonte viva para o presente e para
o futuro:
“Não seja a
religiosidade que anima este país há séculos um museu do passado para ser
visitado, mas uma escola de fé da qual ainda hoje se pode beber.”
Segundo o Papa,
essa escola de fé ensina a colocar Deus e o próximo no centro da vida, a viver
a gratuidade do amor e a assumir responsabilidades diante dos desafios da
sociedade, contribuindo para a construção do bem comum.
A Eucaristia
como fonte de esperança
Na conclusão da
homilia, Leão XIV convidou os fiéis a retornarem continuamente à fonte da
Eucaristia para encontrar força, esperança e renovação espiritual.
Inspirando-se em São João da Cruz, recordou que Cristo permanece presente mesmo
nas noites mais escuras da existência, oferecendo uma luz que não se apaga:
"A graça
eucarística transforma-nos, mas também nos converte em protagonistas da
transformação da história e em sinal de esperança para aqueles que encontramos.
Que o Senhor Jesus, presente na Eucaristia, faça de vocês pão partido, entregue
e oferecido, para que uma vida plena possa brotar para vocês, para as suas
famílias e para o seu país."
Procissão pelas ruas de Madri (@Vatican Media)
Após a
celebração da Santa Missa, o Papa conduziu a tradicional procissão de Corpus
Christi pelas ruas de Madri e concedeu a bênção eucarística aos milhares de
fiéis reunidos no centro da capital espanhola.
Dom Anuar
Battisti - Arcebispo Emérito de Maringá (PR)
Viver o que se
celebra e prega no amor e na caridade! Cuidado com as aparências externas!
Há uma cena no
Evangelho deste 10º Domingo do Tempo Comum – Mt 9,9-13 – que merece atenção.
Jesus passa por uma coletoria de impostos, olha para um homem chamado Mateus e
diz apenas duas palavras: “Segue-me.” Mateus se levanta e o segue. Sem
negociação, sem lista de condições, sem exigência prévia de perfeição. O
chamado vem antes da conversão. A misericórdia precede a mudança.
Isso não é
detalhe. É o coração do Evangelho. A cena seguinte é igualmente reveladora.
Jesus está à mesa com cobradores de impostos e pecadores. Os fariseus
estranham. Para eles, a santidade se media pela distância: quanto mais longe do
impuro, mais perto de Deus. Jesus inverte essa lógica completamente. Ele cita
Oséias, o mesmo profeta que ouvimos na primeira leitura: “Quero misericórdia, e
não sacrifício” (Os 6,6). Não é uma citação decorativa. É uma correção de rota
para quem confunde religiosidade com proximidade de Deus.
O que Oséias já
havia dito? – Os 6,3-6 – Oséias fala a um povo que pratica o culto, mas não
pratica o amor. Oferece holocaustos, mas não oferece o coração. O Senhor, pela
voz do profeta, é direto: “O vosso amor é como nuvem pela manhã, como orvalho
que cedo se desfaz” (Os 6,4). Amor inconstante. Devoção de fachada. Essa é uma
tentação antiga e muito atual. É possível participar da Santa Missa, rezar o
terço, cumprir os ritos e, ao mesmo tempo, ter o coração fechado para o irmão
que está ao lado. É possível ser rigoroso na observância religiosa e
completamente indiferente ao sofrimento alheio. Oséias chama isso pelo nome:
não é conhecimento de Deus. É performance religiosa.
O que Deus quer
não é o sacrifício do animal sobre o altar. Quer o sacrifício do orgulho, da
autossuficiência, da ilusão de que somos melhores do que os outros. “Quero
amor, e não sacrifícios, conhecimento de Deus, mais do que holocaustos” (Os
6,6). Conhecer a Deus, na linguagem bíblica, não é acumular informação
teológica. É entrar em relação. É deixar que o coração de Deus toque o nosso
coração.
A fé de Abraão
como modelo. São Paulo, na carta aos Romanos – Rm 4,8-15 –, apresenta Abraão
como modelo de fé que não depende das circunstâncias. Abraão tinha cem anos.
Sara era estéril. Do ponto de vista humano, a promessa era impossível. Mas ele
“contra toda a humana esperança, firmou-se na esperança e na fé” (Rm 4,18). Não
fraquejou. Não calculou. Confiou. Essa fé não é ingenuidade. É a disposição de
colocar a vida nas mãos de Deus mesmo quando os sinais externos dizem o
contrário. É exatamente o que Mateus fez quando se levantou da coletoria. Ele
não pediu garantias. Não fez perguntas. Levantou-se e foi. Há momentos em que
Deus nos pede exatamente isso: levantar antes de entender. Confiar antes de
ver. Caminhar antes de ter o mapa completo.
O médico que
busca os doentes. Jesus, diante da crítica dos fariseus, usa uma imagem simples
e poderosa: o médico não vai visitar os que estão bem. Vai onde estão os
doentes. Não é uma defesa da mediocridade moral. É uma declaração sobre a
lógica da misericórdia divina. Deus não espera que estejamos prontos para nos
chamar. Ele nos chama no meio da nossa fragilidade, das nossas contradições,
das nossas cobranças que pesam sobre os outros. O chamado de Mateus é o chamado
de cada um de nós. Nenhum de nós foi chamado porque era perfeito. Fomos
chamados porque Deus quis.
Isso tem uma
consequência pastoral concreta: a Igreja não pode ser uma comunidade de
chegados que olha de longe para os que ainda estão de fora. A Igreja é a casa
do médico. E o médico sai para buscar quem precisa de cuidado.
Irmãos e irmãs,
neste domingo somos convidados a rever onde colocamos o peso da nossa vida de
fé. Nos rituais que cumprimos ou no amor que praticamos? Na observância que
exibimos ou na misericórdia que oferecemos?
A resposta de
Jesus é clara. E o lema que nos guia também: caminhai no Senhor, não na
aparência da religião, mas na profundidade do amor.
A bordo do voo
para Madri, o Papa encontrou-se com os jornalistas para uma breve saudação. Em
suas respostas às perguntas, reforçou a importância do diálogo para a Ucrânia,
manifestou proximidade ao Líbano e refletiu sobre os abusos e a guerra,
especialmente sobre a perigosidade das armas utilizadas nos conflitos atuais.
Das monjas de clausura espanholas, um rosário para cada profissional da
imprensa que acompanha a viagem papal.
“¡Muy buenos
días a todos!”. Com estas palavras, pronunciadas em espanhol, Leão XIV saudou
na manhã deste sábado, 6 de junho, os mais de oitenta jornalistas que o
acompanham na viagem apostólica à Espanha. O voo papal decolou do Aeroporto
Internacional de Roma-Fiumicino às 8h13, com destino a Madri, primeira etapa da
visita que levará o Pontífice ao encontro de comunidades eclesiais, autoridades
e fiéis do país ibérico.
Como acontece
tradicionalmente nas viagens internacionais, o Papa dirigiu-se à parte traseira
da aeronave pouco antes do pouso para cumprimentar pessoalmente os
representantes dos meios de comunicação. O encontro, breve e cordial, foi
marcado por apertos de mão, sorrisos e algumas perguntas sobre a atualidade
internacional. Entre os temas mais sérios, também houve espaço para um momento
descontraído. Ao ser perguntado, já a caminho da Espanha, se torcia pelo Real
Madrid ou pelo Barcelona, Leão XIV respondeu sorrindo que torce “por todos os
times”, provocando risos entre os presentes.
A Igreja tem uma
mensagem para todos
“Esta é a
primeira viagem de um Papa à Espanha depois de muito tempo, e pessoalmente
estou muito feliz”, afirmou Leão XIV em sua saudação aos jornalistas. “É uma
visita apostólica para encontrar os fiéis, celebrar a fé e anunciar a mensagem
de Jesus Cristo, mas, ao mesmo tempo, para saudar a todos, toda a sociedade,
porque a Igreja tem uma mensagem para todos, como acredito que tenha ficado
muito claro na carta encíclica publicada em 25 de maio.”
Os jovens,
mensageiros do amor de Deus
O Papa sabe que
o entusiasmo dos jovens marcará de forma especial esta viagem. “Parece que
haverá um grande número de jovens com todo o seu entusiasmo e acredito que,
nesse sentido, compartilhando todos a alegria da fé, poderemos transmitir uma
mensagem muito bonita”, destacou. Uma mensagem que, acrescentou, deverá
ser levada a Madri, Barcelona e às Ilhas Canárias, “para viver a fé e anunciar
a mensagem do amor de Deus, da caridade e do respeito por cada ser humano”.
Os abusos, uma
ferida ainda aberta
Questionado
sobre os abusos cometidos por membros do clero, o Papa afirmou que encontrará
algumas vítimas durante a viagem, assegurando seu compromisso pessoal e o de
toda a Igreja na luta contra aquilo que definiu como “uma ferida ainda aberta”.
Na noite de ontem, 5 de junho, o diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé,
Matteo Bruni, já havia informado sobre esse encontro organizado pela Igreja
local.
Irã: não existe
uma “guerra justa”
Ao ser
perguntado se haveria uma guerra justa no Irã, Leão XIV respondeu: “Creio que
isso já foi dito com muita clareza: no Irã não se encontram os elementos de uma
guerra justa. A teoria da guerra justa remonta a séculos passados, quando não
se imaginavam as armas e a capacidade de destruição de que o ser humano dispõe
hoje”. Entre os temas abordados pelos jornalistas esteve também o conflito
na Ucrânia, sobre o qual o Papa reiterou a necessidade de prosseguir com
determinação pelo caminho do diálogo e da paz. O Pontífice dirigiu ainda seu
pensamento ao Líbano, confirmando a atenção da Santa Sé à situação do país por
meio do contato constante com as autoridades religiosas. Ao responder, por
fim, sobre a questão da guerra, Leão XIV recordou as reflexões desenvolvidas
nos últimos anos pelo magistério da Igreja a respeito das profundas
transformações introduzidas pelas modernas tecnologias militares e pelo poder
destrutivo dos armamentos contemporâneos.
O presente das
monjas
Enquanto o avião
sobrevoava o Mediterrâneo, a viagem era acompanhada também por um sinal
discreto, mas significativo. Diversos mosteiros de clausura da Espanha
decidiram sustentar espiritualmente a visita apostólica rezando um rosário por
cada jornalista presente no voo papal. Cada profissional da imprensa recebeu
uma coroa do rosário como presente das comunidades contemplativas, que
confiaram à oração o trabalho daqueles que relatarão estes dias por meio de
reportagens, fotografias, transmissões de rádio e serviços televisivos. Um
gesto simples que une simbolicamente o trabalho da informação e a vida
escondida da oração, duas realidades que frequentemente acompanham, cada uma à
sua maneira, as viagens do Sucessor de Pedro. Ao Papa também foi entregue um desenho
preparado pelos pequenos pacientes do Hospital Pediátrico Bambino Gesù.
Madri em festa
Enquanto isso,
na Espanha, os sinos das igrejas de toda a arquidiocese de Madri repicavam para
acolher a chegada do Pontífice. A capital espanhola recebe Leão XIV para uma
das primeiras grandes viagens internacionais de seu pontificado. Entre palavras
dedicadas à paz, o trabalho dos jornalistas e a oração silenciosa das
comunidades contemplativas, a viagem rumo à Península Ibérica já ganhava vida
durante as horas do voo.
é preciso abandonar as narrativas divisórias e polarizadoras
Em seu primeiro
discurso no país ibérico, Leão XIV encontrou-se com as autoridades,
representantes da sociedade civil e o corpo diplomático no Palácio Real de
Madri. O Pontífice destacou as raízes cristãs do país, fez um apelo pela
superação das polarizações e afirmou que a paz se constrói por meio da verdade,
do diálogo e da educação.
A quarta Viagem
Apostólica do Papa Leão XIV teve início neste sábado, 6 de junho, na Espanha.
Após sua chegada a Madri, o Santo Padre dirigiu-se ao Palácio Real, onde se
encontrou com o rei Felipe VI, a rainha Letizia, autoridades civis,
representantes da sociedade e membros do corpo diplomático. Em seu primeiro
discurso em território espanhol, o Papa apresentou uma reflexão sobre a
identidade histórica do país, a busca da verdade, a necessidade da
reconciliação e os desafios enfrentados pelo mundo contemporâneo.
Uma história
marcada pelo Evangelho
Ao iniciar sua
intervenção, Leão XIV agradeceu o convite para visitar a Espanha e recordou a
antiga tradição que associa a evangelização da Península Ibérica ao apóstolo
São Tiago Maior. Segundo o Pontífice, a ligação entre a fé cristã e a história
espanhola moldou profundamente a cultura do país e continua sendo uma fonte de
esperança diante dos desafios atuais.
O Papa também
destacou a riqueza das manifestações da religiosidade popular, das irmandades,
das associações de caridade e do vasto patrimônio artístico e musical espanhol,
frutos do encontro entre o Evangelho e a vida do povo: “Com o patrimônio
artístico-musical e as múltiplas irmandades e associações de caráter
caritativo, dão testemunho do fecundo encontro entre Jesus Cristo e o vosso
povo. Sois um povo cheio de paixão, que ama a vida e o manifesta!”
Papa com os monarcas espanhóis
A cultura do
encontro
Leão XIV
explicou que sua visita deseja fortalecer a fidelidade ao Evangelho e favorecer
uma cooperação mais profunda entre os diversos setores da sociedade espanhola.
Nesse contexto, destacou uma das principais lições da história do país: “Com
efeito, a vossa própria história sugere que não é a cultura do confronto, mas a
do encontro, que gera estabilidade e prosperidade.”
O Santo Padre
recordou ainda um ensinamento do Papa Francisco sobre a necessidade de manter
um diálogo constante entre as ideias e a realidade concreta. Segundo ele, a
verdade nunca pode ser reduzida a construções ideológicas ou narrativas
abstratas, mas deve ser procurada com humildade e abertura: “A verdade é sempre
maior do que nós e, por isso, surpreende-nos e atrai-nos para caminhos de
purificação e reconciliação.”
São João da Cruz
e Santa Teresa de Ávila
Ao refletir
sobre os desafios do tempo presente, o Papa evocou duas das maiores figuras
espirituais da Espanha: São João da Cruz e Santa Teresa de Ávila. Ambos,
afirmou, ensinaram a descobrir a presença de Deus justamente nos momentos de
escuridão e incerteza. Referindo-se ao Ano Jubilar dedicado a São João da Cruz,
Leão XIV observou que muitos homens e mulheres vivem hoje a experiência da
desorientação diante das rápidas transformações sociais, culturais e
tecnológicas. Por isso, disse, é necessário aprender a reconhecer a luz que
surge mesmo em meio às noites da história.
“Também hoje, o
que mais nos assusta, provocando em muitos a escuridão da razão e a violência
das emoções, é o desconhecido, diante do qual pode prevalecer a desorientação,
a sensação de já não termos mapas.”
Um mundo que
clama por paz
O Pontífice
afirmou que, apesar dos conflitos e tensões que marcam o cenário internacional,
existe um profundo desejo de paz no coração da humanidade:
“A nossa época,
que aparentemente se vê abalada por terríveis desequilíbrios e conflitos, no
seu íntimo clama por paz, por um novo conhecimento da pessoa humana e da sua
dignidade inviolável, pela civilização do amor.”
Segundo o Papa,
a construção dessa paz passa pela valorização da liberdade religiosa e de
consciência, pela promoção da cultura e pela formação de pessoas capazes de
cultivar a interioridade e a busca sincera da verdade.
Leão XIV profere seu discurso
Contra as
polarizações
Leão XIV
manifestou preocupação com o crescimento das divisões sociais e políticas que
marcam muitas sociedades contemporâneas. Para ele, a tentação de obter consenso
alimentando conflitos e antagonismos representa uma ameaça à dignidade humana e
à convivência pacífica, e lançou um apelo direto aos espanhóis:
“Hoje, a
tentação de ganhar popularidade atiçando o fogo das polarizações parece
crescer, em vez de diminuir; a dignidade humana continua a ser violada. Convido
todos, por amor à verdade, a abandonarem as narrativas divisórias e
polarizadoras da vossa realidade social e da vossa história, a fim de que se
passe das simplificações estéreis a uma apreciação fecunda da complexidade.”
Educação,
tecnologia e responsabilidade
O Papa também
dedicou parte significativa do seu discurso aos desafios trazidos pelas novas
tecnologias. Segundo ele, o ambiente digital pode favorecer a difusão de
preconceitos, enfraquecer o pensamento crítico e amplificar interesses que
ameaçam a vida e a dignidade humana. Diante desse cenário, defendeu uma mudança
de prioridades nos investimentos públicos e privados:
“É necessário —
sobretudo por parte de quem tem responsabilidades econômicas, políticas e
institucionais — dar um salto qualitativo, uma mudança de rumo nos
investimentos destinados à escola, à universidade e à pesquisa, às comunidades
locais e à sociedade civil.”
O Santo Padre
ressaltou ainda que a verdadeira segurança não nasce da lógica dos muros e das
armas, mas da capacidade de caminhar juntos. “A segurança — que pensamos, com
demasiada frequência, provir das armas e dos muros — amadurece, pelo contrário,
quando se aprende a avançar com o outro, a crescer juntos, ombro a ombro.”
Papa durante o encontro com as autoridades civis
A contribuição
da Espanha para a Europa e para o mundo
Ao recordar
momentos históricos de convivência entre cristãos, judeus e muçulmanos na
Península Ibérica, o Papa destacou cidades como Toledo e Córdoba como exemplos
de encontro entre culturas, religiões e saberes. Leão XIV afirmou que a Espanha
possui uma vocação especial para ajudar a Europa a redescobrir sua missão de
promover o diálogo e a cooperação entre os povos. Ao concluir seu discurso,
agradeceu o compromisso espanhol com o direito internacional, o
multilateralismo e a solidariedade:
“Encorajo a
cultivar o diálogo e a amizade social também internamente, a levar em conta as
perspectivas dos pobres e dos jovens ao imaginar o futuro, a harmonizar as
exigências de autonomia e de unidade, e a impulsionar o processo de união
europeia.”
Ao final,
confiou o país à proteção divina e dirigiu uma breve invocação: “Que Deus
abençoe a Espanha!”
Dom Rodolfo Luís
Weber - Arcebispo de Passo Fundo (RS)
Depois de
celebrarmos o Tempo da Páscoa, retornamos na liturgia ao Tempo Comum com o
convite de Jesus: “Segue-me!” (Oseias 6,3-6, Salmo 49(50), Romanos 4,18-25 e
Mateus 9,9-13). A presença de Jesus, seus convites e ensinamentos introduzem
novidades e esperança, em todos os ambientes, seja na Igreja ou no mundo. As
notícias sobre o mal feito e catástrofes chamam atenção. Porém, não faltam
notícias de ações boas que despertam otimismo. É neste ambiente de más e boas
notícias que vivem os cristãos. Sua missão é seguir Jesus e transformar vidas a
partir dele.
“Jesus viu um
homem chamado Mateus, sentado na coletoria de impostos, e disse-lhe:
“Segue-me!” Mateus levantou-se e seguiu-o. O convite de Jesus a Mateus, o
sentar-se à mesa com ele e outros “cobradores de impostos e pecadores” provocou
os fariseus. Jesus que não perdia a oportunidade para ensinar, mesmo em
ambiente adverso, faz três afirmações fundamentais para seus discípulos e para
nós: “Aqueles que têm saúde não precisam de médico, mas sim os doentes”. “Quero
misericórdia e não sacrifício”. “Eu não vim para chamar os justos, mas os
pecadores”.
Em primeiro
lugar, chama Mateus que é um publicano cobrador de impostos. A sua atividade
profissional era cobrar impostos para os romanos que ocupavam o território. Uma
pessoa duplamente detestável: recolhe impostos, porque ninguém paga imposto
voluntariamente e faz isto em favor do invasor pagão. Estes cobradores, aliados
dos opressores, eram classificados de imundos, pecadores detestáveis e sem
esperança de mudança.
É para o pecador
Mateus que Jesus dirige o olhar e a palavra. Mateus escuta e olha para Jesus.
Segui-lo se torna o novo objetivo da vida. Abandona os opressores que servia
para receber Jesus em sua casa. Acolhe aquele que o acolheu. Jesus considera
Mateus como um irmão e outros tantos pecadores que Mateus convidou para estarem
com Ele. A Igreja não se constitui de puros, mas de pecadores acolhidos pela
misericórdia divina. Esta atitude de Jesus é o norte para todos os
participantes da Igreja. Sempre se faz necessário acolher de forma
misericordiosa todos os pecadores, transmitindo o perdão do Pai. Para
participar “dignamente” do sacramento da Eucaristia não se exige que as pessoas
sejam “justas, perfeitas”, mas sim que reconheçam ser pecadores. No começo de
cada missa, através do rito penitencial, a comunidade celebrante reconhece a
sua condição pecadora, pede perdão e bendiz o Deus misericordioso. Depois,
quando se aproxima a comunhão diz novamente: “Senhor, eu não sou digno que
entreis em minha morada, mas dizei uma palavra e serei salvo”.
Na refeição onde
estava Mateus, Jesus, publicanos também tinha fariseus. Estes se consideram
puros, sadios e perfeitos. Na Igreja convivem os que se consideram “puros” e
pecadores. Isto traz tensões e conflitos. É a presença permanente de Jesus
nesta comunidade que permite a convivência fraterna. “Ele odeia o pecado e ama
ternamente o pecador, porque está doente, mesmo, e sobretudo, quando não sabe.
Nós, pelo contrário, somos duros com os pecadores, porque se parecem com o mal,
que consideramos como bem”, explica o biblista Silvano Fausti.
“Quero
misericórdia e não sacrifício”. Jesus cita o ensinamento do profeta Oseias.
Toda ação litúrgica é mais agradável a Deus quanto mais for expressão da
vivência da fraternidade, da justiça, do perdão e da misericórdia. A liturgia
louva o bem realizado e educa para vivência da vida nova em Cristo.
“Misericórdia: é o caminho que une Deus e o homem, porque nos abre o coração à
esperança de sermos amados para sempre, apesar da limitação do nosso pecado”
nos ensinou o Papa Francisco.
“Eu não vim
chamar os justos, mas os pecadores”. Nenhum de nós é justo. Não temos uma
relação perfeita com Deus e o próximo. Somente Deus é justo que não tem medo de
aproximar-se, de sujar-se com os pecadores como Mateus e nós, oferecendo a
acolhida do perdão e do amor que transforma. Esta é uma bela surpresa e sempre
uma boa notícia.
É preciso saber segui-lo para reconhecer o Senhor. Certa como a aurora é a sua vinda, ele virá até nós como as primeiras chuvas, como as chuvas tardias que regam o solo. “Como vou tratar-te, Efraim? Como vou tratar-te, Judá? O vosso amor é como nuvem pela manhã, como orvalho que cedo se desfaz. Eu os desbastei por meio dos profetas, arrasei-os com as palavras de minha boca, como luz, expandem-se meus juízos; quero amor e não sacrifícios, conhecimento de Deus mais do que holocaustos”.
- A todo homem que procede retamente / eu mostrarei a salvação que vem de Deus.
- A todo homem que procede retamente / eu mostrarei a salvação que vem de Deus.
1. Falou o Senhor Deus, chamou a terra, / do sol nascente ao sol poente a convocou. / “Eu não venho censurar teus sacrifícios, / pois sempre estão perante mim teus holocaustos.
2. Não te diria, se com fome eu estivesse, / porque é meu o universo e todo ser. / Porventura comerei carne de touros? / Beberei, acaso, o sangue de carneiros?
3. Imola a Deus um sacrifício de louvor / e cumpre os votos que fizeste ao Altíssimo. /Invoca-me no dia da angústia, / e então te livrarei e hás de louvar-me.”
Irmãos, Abraão, contra toda a humana esperança, firmou-se na esperança e na fé. Assim, tornou-se pai de muitos povos, conforme lhe fora dito: “Assim será a tua posteridade”. Não fraquejou na fé, à vista de seu físico desvigorado pela idade – cerca de cem anos – ou considerando o útero de Sara já incapaz de conceber. Diante da promessa divina, não duvidou por falta de fé, mas revigorou-se na fé e deu glória a Deus, convencido de que Deus tem poder para cumprir o que prometeu. Essa sua atitude de fé lhe foi creditada como justiça. Afirmando que a fé lhe foi creditada como justiça, a Escritura visa não só à pessoa de Abraão, mas também a nós, pois a fé será creditada também para nós, que cremos naquele que ressuscitou dos mortos Jesus, nosso Senhor. Ele, Jesus, foi entregue por causa de nossos pecados e foi ressuscitado para nossa justificação.
Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo São Mateus
Naquele tempo, partindo dali, Jesus viu um homem chamado Mateus, sentado na coletoria de impostos, e disse-lhe: “Segue-me!” Ele se levantou e seguiu a Jesus. Enquanto Jesus estava à mesa, em casa de Mateus, vieram muitos cobradores de impostos e pecadores e sentaram-se à mesa com Jesus e seus discípulos. Alguns fariseus viram isso e perguntaram aos discípulos: “Por que vosso mestre come com os cobradores de impostos e pecadores?” Jesus ouviu a pergunta e respondeu: “Aqueles que têm saúde não precisam de médico, mas, sim, os doentes. Aprendei, pois, o que significa: ‘Quero misericórdia e não sacrifício’. De fato, eu não vim para chamar os justos, mas os pecadores”.
Há quem diga que o evangelho de hoje é
auto-retrato do evangelista Mateus. De fato, o trecho conta a vocação do
publicano Mateus – ou Levi, como é chamado nos outros evangelhos – por Jesus,
enquanto estava exercendo sua função na coletoria de taxas, espécie de posto de
pedágio (terceirizado) do Império Romano na terra de Israel (Mt 9,9-13). Os
cobradores eram chamados “publicanos”; eram funcionários públicos a serviço do
imperialismo estrangeiro e terrivelmente desprezados pelos “bons judeus”. Jesus
chama alguém dessa categoria para ser seu discípulo. Pior: vai jantar com ele e
seus colegas, considerados pecadores. Os fariseus criticam-no. Jesus, então,
responde com uma parábola: um médico não vem para pessoas sadias, mas para
doentes. E acrescenta um argumento da Sagrada Escritura: “Misericórdia eu
quero, não sacrifícios”, texto do profeta Oséias, que critica uma religiosidade
externa e meramente ritual da parte de pessoas que desconhecem a misericórdia,
primeira qualidade de Deus e primeira exigência nas relações entre as pessoas
(1ª leitura).
Os pecadores notórios convidam Jesus à
mesa; em contraposição, os considerados justos acham isso um desacato.
Consideram a justiça monopólio deles. Assim fazendo, perdem a “justiça” que só
o Deus da misericórdia nos pode atribuir, por pura bondade, sem que o
mereçamos. A vocação dos pecadores revela a gratuidade divina de nossa
salvação. Deus nos dá seu amor porque precisamos dele, não porque o merecemos.
Deus não exclui ninguém, nem mesmo aquele que se apresenta diante dele com as
mãos vazias, mas com verdadeira vontade de conversão no coração (é o que
faltava aos fariseus).
A melhor maneira de entender a lógica de
Deus é fazer como ele: superar o formalismo e dar a cada um o mesmo crédito que
Jesus deu a Mateus … A comunidade eclesial deve se tornar o instrumento da
“misericórdia convidativa” de Cristo. E os pecadores que aceitarem o convite
devem por sua vez convidar os outros (como fez Mateus).
Portanto, não é preciso ser santo para ser
chamado por Cristo. Deus nos chama para tornar-nos santos. Ninguém é justo por
si mesmo. Jesus chamou os pecadores, para mostrar que todos devem converter-se
para receber a misericórdia de Deus.
Com essa lição combina muito bem a 2ª
leitura. Paulo explica que Abraão foi considerado justo por Deus não por causa
de sua vida exemplar – teve as fraquezas humanas de todo mundo -, mas por causa
de sua fé, quando Deus lhe prometeu um filho na sua velhice. Nessa confiança,
ele se mostrou “amigo de Deus” (Rm 4,18-25, cf. Gn 15,5-6).
O problema hoje é que muitos vivem uma vida
tão ambígua quanto a dos publicanos, mas não admitem de modo algum que precisam
de conversão….
PE. JOHAN KONINGS nasceu na Bélgica em 1941, onde se tornou Doutor em Teologia pela Universidade Católica de Lovaina, ligado ao Colégio para a América Latina (Fidei Donum). Veio ao Brasil, como sacerdote diocesano, em 1972. Em 1985 entrou na Companhia de Jesus (Jesuítas) e, desde 1986, atuou como professor de exegese bíblica na FAJE, Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, em Belo Horizonte. Faleceu no dia 21 de maio de 2022. Este comentário é do livro “Liturgia Dominical, Editora Vozes.
do humanismo cristão na universidade e no trabalho
Leão XIV recebeu
as Associações Católicas de Estudantes Alemães e aprofundou os valores que
animam a iniciativa e orientam a vida deles na universidade e no trabalho: a
identidade com a fé católica, que fortalece a unidade "sem colocar
preferências individualistas à frente da Tradição comum da Igreja"; a
comunhão que os torna "representantes do bem comum da humanidade"; e
o compromisso com o estudo e a busca da verdade, que não os deixa ser seduzidos
"por carreiras centradas no dinheiro".
O Papa Leão XIV
recebeu em audiência nesta sexta-feira (05/06) um grupo de mais de mil pessoas
das Associações Católicas de Estudantes Alemães que estão reunidos em Roma para
uma conferência, "a Cartellversammlung, pela primeira vez fora da Alemanha",
como recordou o Pontífice logo no início do discurso. Uma decisão, continuou o
Papa, motivada pela fé católica, pela comunhão e atividades culturais que
realizam. "Queridos irmãos e irmãs, sejam bem-vindos! Herzlich
willkommen!" foram então as palavras acolhedoras de Leão XIV, que refletiu
sobre três aspectos para fortalecer ainda mais os laços de fraternidade e a
dedicação comum à Igreja, começando justamente pelo compromisso com a
identidade católica:
"Perante o
despotismo e as ideologias do passado, a fé católica nunca foi meramente uma
fachada ou um rótulo, mas sim um modo de vida a ser partilhado nos ambientes
universitários e de trabalho. Como fermento evangélico, a fraternidade de vocês
continua a crescer nos contextos científico e político, bem como em vários
círculos acadêmicos, profissionais e sociais. Essa dimensão comunitária das
suas atividades beneficia não só o país de vocês, mas também toda a Europa, da
qual a Alemanha é o centro."
Na Sala Paulo
VI, o Papa convidou os estudantes a estudar e a promover a "humanidade
comum", sobretudo diante dos desafios da revolução tecnológica.
A pessoa humana, "sempre relacional e limitada" é chamada
"a se tornar uma tarefa para si mesma e um dom para o outro", dando o
"melhor de si para ajudar a construir uma sociedade justa e
pacífica", acrescentou o Pontífice.
A mesma fé que
une é comum e não individual
Leão XIV, então,
abordou o espírito de comunhão que anima os estudantes, enaltecido pelo
lema que fala de unidade, liberdade e caridade. O Papa recordou a importância
da relação das associações não se "limitar à partilha de
conhecimento", mas amadurecer em estima recíproca:
"Como todos
vocês seguem Cristo, o único Senhor e Mestre da vida, vocês representam os
valores católicos na sociedade não como portadores de bandeiras partidárias,
mas como representantes do bem comum da humanidade. Na Alemanha, na Itália e em
todo o mundo, a mesma fé católica fortalece nossa cooperação, sem ceder às
tendências do momento, sem colocar as preferências individualistas à frente da
Tradição comum da Igreja."
Ser testemunha
da verdade e do humanismo cristão
Junto ao
testemunho da "autêntica amizade cristã", o Papa também abordou sobre
a busca pela verdade percorrida pelas associações através das atividades
culturais em vários campos de estudo e trabalho. Uma vocação, disse ele,
que "exige autodisciplina e conversão: uma transformação da mente,
que cultivamos como solo fértil, aprimorando nossas ferramentas de
trabalho".
“Ao dar o nosso
melhor, tornamo-nos administradores responsáveis na sociedade, sem nos
deixarmos seduzir por carreiras centradas no dinheiro. Reconheçamos, em vez
disso, que a cultura é o bem da humanidade: a verdade nos liberta, enquanto a
falsidade distorce nomes e coisas. Diante do que desumaniza as pessoas –
especialmente os pequenos, os pobres ou os doentes –, peço-lhes que sejam
testemunhas do humanismo cristão.”
A esse respeito
Leão XIV recordou em discurso dois dos seus predecessores que trataram sobre o
tema. Um deles, Bento XIV, inclusive um "ilustre ex-membro da
associação", exortou a desenvolver uma “ecologia do homem” coerente. Já o
Papa Francisco, ao conceituar a ecologia integral, "nos mostra que o
mundo está repleto de sentido e não é uma entidade inerte a ser moldada
arbitrariamente ou pela sede de poder". Ao "orientar nossa sede de
vida e justiça, de sabedoria e amor, descobrimos juntos a verdade no conhecer,
no fazer e no crer", disse Leão XIV, ao finalizar:
"Não é
apesar de nossas atividades, portanto, mas precisamente por meio do que fazemos
que desenvolvemos uma relação com Deus, que se torna um caminho para a
santidade. Sim, a missão cultural dos cristãos é orientar a sociedade e a
história para esse ápice de uma vida centrada em Deus."