Dom Roberto Francisco Ferreria Paz - BispodeCampos ( RJ)
Acompanhando a Copa Mundial de Futebol da FIFA, gostaria de compartilhar esta historinha criada pelo Pe. Anthony de Mello, que nos traz alguns aspectos e valores esquecidos no atual certame.
Mostra Jesus acompanhando com interesse um jogo de futebol e de repente um time faz um gol, e ele se levanta e festeja. Depois de certo tempo o outro time rival faz um gol e empata e ele também se levanta e festeja. Quem estava a seu lado pergunta afinal por quem você torce? Jesus responde: vim ver o jogo e apreciar a arte de todos os jogadores não me importa quem ganhe, mas a alegria dos que jogam e a beleza do esporte.
Nunca deveríamos esquecer que todo esporte tem por finalidade melhorar e tornar mais plenas as pessoas, e não apenas um resultado. O futebol sem essa mística esportiva humanizadora, pode tornar-se uma guerra, um fator de rivalidade e divisão, e uma forma de escravizar os jogadores e alienar os espectadores, como acontecia em Roma nas lutas de gladiadores e certas formas de luta “livre” de hoje.
Não reparamos as vezes que detrás de uma camiseta existe um povo, uma história que devemos incorporar e também acolher no respeito e na fraternidade universal como faziam os gregos nas olimpíadas.
Sempre me lembro de uma copa passada quando um jogador japonês interpelou a um jogador rival por ter trapaceado e fingido uma falta. Se não respeitamos as normas do jogo que mérito tem nossa vitória e estaríamos ensinando de forma errada que vencer é levar vantagem.
Outro aspecto é a empatia com os jogadores que sofrem por uma lesão ou por ter falhado,nuncaesquecerei do goleiro do Brasil Barboza no mundial de 1950, que ficou arrasado e desconsolado pela derrota na final, culpando-se da derrota. O capitão do time uruguaio deixou de iràfesta para celebrar a vitória para ficar com ele toda a noite para confortá-lo e aliviá-lo. Importa observar também como comportamo-nos no festejo dos gols e no final dos jogos, a alegria deve serabundante e contagiante,mas não precisa de foguetes que causem sofrimento a crianças e adultos autistas ou neurodivergentes e animais domésticos que padecem transtornos e ficam profundamente confusos e estremecidos. Muito menos debochar dos que perderam, ou provocá-los mostrando animosidade agressiva.
É bonito ver a confraternização de torcedores, a partilha e camaradagem, pois isso gera novas atitudes, desarma os corações, possibilitando que nos olhemos como irmãos que habitam o mesmo planeta, que imitando as crianças brincam juntas, e tornam-se amigas trocando como fazem os atletas as camisetas após o jogo que oportuniza a cultura da paz, do encontro e da ternura. Deus seja louvado!
A sabedoria de
Deus, e não dos homens, ensina que Cristo é libertação, esperança e perdão
diante de uma humanidade ferida. Jesus cuida dos que mais sofrem, dos cansados
e oprimidos, correspondendo com "o seu amor e partilhando a sua vida até a
cruz": "como pode ser 'leve' e 'suave' o peso da cruz? Só por uma
razão: porque o Senhor o carrega primeiro e com todos nós, sem nunca nos deixar
sozinhos diante do que nos oprime".
O Papa Leão XIV,
um dia após a visita pastoral a Lampedusa, no sul da Itália, voltou a enaltecer
a importância de se aprender com Deus através da sua "confidência cheia de
amor" por nós. Um amor que torna mais suave o fardo aparentemente pesado
da vida e de realidades como aquela vivida na ilha do Mar Mediterrâneo pelos
migrantes e por que os acolhe. Na homilia da missa no sábado (04/07), o Papa
convidou a entrar em um "movimento do amor" liderado por Jesus que
confirma que "não há amor a Deus sem amor ao próximo, e não há próximo se
eu não me aproximar". Um apelo à "civilização do amor" reforçado
também na alocução que precedeu o Angelus deste domingo (05/07).
Cerca de 18 mil pessoas rezaram com o Papa a oração mariana do Angelus
Corresponder ao
amor de Jesus até a cruz
Através da
reflexão do Evangelho da liturgia de hoje (Mt 11, 25-30), do
louvor do Filho de Deus ao Pai, feito homem, Leão XIV exortou a reconhecer
a presença de Cristo que gosta de se revelar «aos pequeninos», enquanto
permanece escondido «aos sábios e aos entendidos», aqueles "cheios das
próprias ideias", fruto da "sabedoria humana que se torna em
arrogância":
"A
verdadeira sabedoria de Deus revela-se na humildade da carne e o seu
ensinamento dirige-se àqueles que passam por maiores dificuldades: «Vinde a
mim, todos os que estais cansados e oprimidos», diz o Senhor. Ir ao encontro de
Jesus significa corresponder ao seu amor e partilhar a sua vida até à
cruz."
É precisamente o
dom de si mesmo por amor, explicou o Papa, que constitui o “jugo” de Jesus, ou
seja, "a síntese do seu ensinamento, o cerne da sua sabedoria, ardente de
caridade para com todos":
"Irmãos e
irmãs, como pode ser 'leve' e 'suave' o peso da cruz? Só por uma razão: porque
o Senhor o carrega primeiro e com todos nós, sem nunca nos deixar sozinhos
diante do que nos oprime. Como autêntico mestre, Jesus toma sobre si a
humanidade ferida pelo mal, para cuidar dela. A sabedoria que Ele nos dá é um
anúncio de salvação e o seu jugo levanta-nos de todas as quedas."
O consolo que
vem da cruz de Cristo
Ao seguir
Cristo, comentou Leão XIV, o nosso caminho "é uma escola de liberdade, que
leva a sério o drama da história e ilumina sempre o seu sentido, sobretudo nos
momentos mais sombrios". Como Filho de Deus e com a força do Espírito
Santo, Jesus se torna nosso irmão e consegue mostrar que "só na cruz o mal
é redimido: só na sua paixão é que o nosso cansaço mortal encontra consolo e
resgate":
“Em situações de
escravidão, Cristo é libertação. No flagelo da guerra, Cristo é esperança. Na
hora do pecado, Cristo é perdão. Esta é a verdadeira sabedoria, ou seja, o
caminho que queremos percorrer juntos, unidos como discípulos em seu nome.”
Em português
mesmo! Leão XIV voltou a saudar os brasileiros, desta vez aqueles presentes na
Praça São Pedro, munidos de bandeiras do país e inclusive vestindo a camiseta
verde-amarela, numa bonita coincidência com a data: neste domingo, 5 de julho,
a Seleção Brasileira enfrenta a Noruega pelas oitavas de final da Copa Mundo
nos Estados Unidos. Ao final do Angelus, o Papa também saudo os fiéis
provenientes da Polônia.
“Saúdo com
carinho todos vocês presentes hoje na Praça São Pedro! Dou as boas-vindas aos
peregrinos do Brasil!”
O Papa Leão XIV
voltou a falar em português ao final do Angelus deste domingo (05/07), saudando
os brasileiros presentes na Praça São Pedro, numa bonita coincidência com a
data, já que o Brasil enfrenta a Noruega pelas oitavas de final da Copa Mundo
nos Estados Unidos. A Seleção Brasileira, liderada pelo treinador italiano
Carlo Ancelotti, entra em campo às 17h do Horário de Brasília deste domingo
(05/07) no MetLife Stadium em Nova Jersey, em Nova York. O time
canarinho continua sendo o maior campeão com cinco troféus, e a Argentina é a
atual vencedora. Pela primeira vez na história, 48 seleções disputam o título
até 19 de julho em três sedes: além dos EUA, no Canadá e México. Poucas
palavras do Pontífice foram o suficiente para entusiasmar os brasileiros em
meio aos 18 mil fiéis presentes na Praça São Pedro, munidos de bandeiras do
país ou vestindo a camiseta verde-amarela.
Os peregrinos brasileiros que puderam ouvir a saudação do Papa em português
A saudação do
Papa aos fiéis provenientes da Polônia
Em seguida à
saudação em português, o Papa também fez menção - em espanhol - ao Coro da
Universidade de Mérida, da Venezuela, e, em italiano, aos grupos de fiéis
italianos provenientes de Bellagio, do Lago de Como, e da Sicília. Leão
XIV também saudou os peregrinos da Polônia, como os novos sacerdotes dos Frades
Menores Capuchinhos da Província de Cracóvia; o Coro Infantil da Arquidiocese
de Łódź, acompanhado pelo bispo auxiliar; e o grupo proveniente da diocese de
Legnica.
As cores da bandeira da Polônia eram visivelmente identificadas em meio aos 18 mil peregrinos
O apoio aos
obreiros do Evangelho
O Papa também
recordou da beatificação de 2 de julho no Santuário de Tac Say, no Vietnã, do
Pe. Francisco Xavier Tru’o’ng Bǚu, assassinado
em 1946 por ódio à fé. A celebração foi presidida pelo cardeal Louis Antonio Gokim
Tagle, pro-prefeito do Dicastério para a
Evangelização, que definiu o sacerdote como “um missionário por excelência”. Leão XIV o indicou como exemplo de proximidade:
“Em um contexto
de opressão e violência, ele se colocou como defensor dos direitos do povo e
não abandonou seus paroquianos. Que a sua intercessão e a sua oração apoiem os
obreiros do Evangelho que, ainda hoje, se encontram em situações de
perseguição.”
Há muitos anos, na Escola Bíblica de Jerusalém, um mestre em exegese nos iniciava na difícil arte de desentranhar o Evangelho de Mateus. Tudo parecia pouco para captar o sentido último do texto: crítica textual, análise literária, estrutura da passagem. Um dia chegamos a esses versículos nos quais Jesus exclama: “Eu te louvo, Pai, Senhor dos céus e da terra, porque escondeste estas coisas dos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos”. O professor fez um longo silêncio. Depois disse bem devagar: “Não esqueçam nunca essas palavras. Todo o mais vocês podem esquecer”. Esta foi provavelmente a melhor lição de exegese que recebi. Depois, ao longo dos anos, pude ver que é exatamente assim.
Sempre que tive a impressão de estar junto a uma pessoa próxima de Deus, tratava-se de alguém de coração simples. Às vezes uma pessoa sem grandes conhecimentos, outras vezes alguém de notável cultura, mas sempre um homem ou mulher de alma humilde e limpa, pura.
Em mais de uma ocasião pude comprovar que não basta falar de Deus para despertar a fé. Para muita gente, certos conceitos religiosos estão muito gastos e, ainda que se trate de tirar-lhes todo o vigor e sabor que tiveram em sua origem, Deus continua como que “fossilizado” em suas consciências. No entanto, encontrei-me com pessoas simples que parecem não necessitar de grandes ideias nem de raciocínios. Intuem logo depois que Deus é “um Deus oculto”, e de seu coração nasce espontânea uma invocação: “Senhor, mostra-me teu rosto”.
Encontrei-me também com pessoas que se movem sempre no terreno do útil. Algumas abandonam a Deus porque Ele lhes é inteiramente inútil; outras o retêm e lhe prestam culto porque lhes é útil. Mas também pude conhecer pessoas simples que vivem dando graças a Deus. Desfrutam do bom da vida, suportam com paciência os males; sabem viver e fazer viver. Não sei como o conseguem, mas de seu coração parece estar sempre brotando o louvor ao Criador. Sua vida é um acerto.
Expus muitas vezes temas religiosos e falei de Deus diante de pessoas as mais diversas. Em certas ocasiões encontrei-me com pessoas que faziam perguntas e mais perguntas sobre todo tipo de questões teológicas, sem mostrar o menor interesse em querer encontrar-se com Deus. Mas também vi gente simples cujos olhos brilhavam de forma especial quando eu lia textos como este do Profeta Isaías: “Eu sou o Senhor, teu Deus … Já que contas muito para mim, me és caro e eu te amo … Não tenhas medo, pois estou contigo!” (Is 43,4); ou quando pronunciava o SlI 103: “Como um pai ama seus filhos com ternura, assim o Senhor se enternece por aqueles que o temem, pois Ele sabe de que somos feitos, lembra-se de que somos pó (Sl 103,l3-14). Sim, Deus se revela às pessoas simples.
JOSÉ ANTONIO PAGOLAcursou Teologia e Ciências Bíblicas na Pontifícia Universidade Gregoriana, no Pontifício Instituto Bíblico de Roma e na Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. É autor de diversas obras de teologia, pastoral e cristologia. Atualmente é diretor do Instituto de Teologia e Pastoral de São Sebastião. Este comentário é do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, da Editora Vozes.
O Papa Leão XIV,
após pouco mais de uma hora de viagem, chegou às 8h54 do horário italiano na
ilha de Lampedusa para a tão aguardada visita pastoral neste sábado, 4 de
julho, em que retoma um dos gestos mais emblemáticos do pontificado de
Francisco. Em 2013, o Papa argentino denunciou a “globalização da
indiferença” e chamou a atenção do mundo para o drama dos migrantes que
arriscam a própria vida em busca de melhores condições, em particular, dessa
rota migratória do Mediterrâneo que havia definido como "o maior cemitério
da Europa". E foi depositando flores em um dos túmulos dos migrantes do
cemitério local, que morreram durante a travessia, que começou a visita
pastoral de Leão XIV à Lampedusa. No setor dedicado a migrantes, estimativas
apontam que estão sepultadas de 40 a 70 pessoas, a maioria não identificada. Ao
longo das últimas décadas, muitos migrantes identificados foram transferidos
para as suas famílias e outros foram enterrados em outros locais da Sicília por
falta de espaço em Lampedusa.
A visita do Papa
à Porta da Europa
Em seguida, o
Pontífice foi até a "Porta da Europa", um monumento criado pelo
artista Mimmo Paladino, em 2008, em memória às milhares de pessoas que perderam
a vida cruzando o Mar Mediterrâneo. A grande porta é feita de cerâmica e ferro,
com cerca de 5 metros de altura e voltada para omar. No local, o Pontífice
encontrou uma família de migrantes que o conduziu até esse que é um símbolo de
esperança em Lampedusa. Na sequência, o Papa desafiou o vento forte do local e
se dirigiu, primeiramente sozinho, até o promontório, que é uma elevação de
rocha que se projeta em direção ao mar. O local, com vista para o
mar, pode ser visto por quem chega de barco e, ao mesmo tempo, também
representa um memorial às vítimas das travessias marítimas e um convite à reflexão
sobre direitos humanos, fronteiras e hospitalidade.
A terceira etapa
da visita foi no Cais Favaloro, no Porto Novo de Lampedusa. Uma placa que
dedica o local a Papa Francisco ganhou a bênção de Leão XIV. Na ocasião, o
Pontífice encontrou outro grupo de migrantes, desta vez acompanhados pela Cruz
Vermelha.
Leão XIV celebra
a missa no Campo Esportivo “Arena” ao final da sua visita em Lampedusa. Recorda
o Papa Francisco, as vítimas dos naufrágios, agradece às instituições civis,
sociais e eclesiais pelo trabalho de acolhimento realizado nestes anos e pelo
“milagre da compaixão”. Em seguida, lança um apelo ao Velho Continente para que
opte pela paz e não pela lógica da força. Recomenda derrubar as barreiras:
aquelas decorrentes da pertença religiosa ou entre migrantes e turistas.
O apelo, feito
sem gritos e, justamente por isso, ainda mais contundente, é dirigido à Europa,
chamada a assumir “uma responsabilidade única” em relação à questão migratória.
A homenagem é aos “mortos no mar”, vítimas de “decisões tomadas e decisões que faltaram”.
O agradecimento é a todos: Igreja, instituições civis, ONGs, Guarda Costeira e
aos próprios migrantes, que demonstraram por si mesmos capacidade de
acolhimento, resistência e resiliência. Fala como Pontífice, mas se apresenta
como peregrino “seguindo os passos de Papa Francisco”, o Papa Leão XIV, em uma
Lampedusa que o acolhe com calor e fervor, assim como fez há 13 anos, em 8 de
julho de 2013, com o Pontífice argentino que, sem muitos avisos prévios e com
muito pouco tempo de preparação, quis realizar nesta ilha a primeira viagem
como Sucessor de Pedro para levar consolo à comunidade abalada por um naufrágio
no qual perderam a vida mais de 300 pessoas.
Uma tragédia que
se repete ao longo do tempo nessas praias cristalinas, repletas de turistas, e
que sempre receberam a mesma resposta: acolhimento, solidariedade, proximidade.
Primeiro improvisada e espontânea por parte da população, depois organizada e controlada
graças às ONGs e às forças de segurança. Por isso, Leão, na homilia da missa no
Campo Esportivo "Arena" da Localidade Salina – último compromisso da
viagem a Lampedusa –, diante de 4 mil pessoas de toda a região, repete várias
vezes a palavra “obrigado”.
"Agradeço
aos voluntários, às associações agrupadas no “Fórum Solidário de Lampedusa”, às
instituições civis, à Guarda Costeira, aos presidentes de Câmara e às
administrações que se sucederam ao longo do tempo; agradeço aos diáconos,
padres, religiosas, médicos, psicólogos, educadores; agradeço às forças de
segurança e a todos aqueles que, com ou sem o dom da fé, optaram por amar em
conjunto."
O Papa Leão na
missa celebrada em Lampedusa (@Vatican Media)
O Evangelho fica
mudo quando cada um se transforma em uma ilha
Uma longa lista
de instituições e representantes da Igreja, da política e da sociedade civil
que, nestes anos de desembarques e resgates, testemunharam aquele amor que é o
cerne do Evangelho. E é justamente do Evangelho que o Papa extrai sua reflexão:
ele, afirma, “ressoa onde os povos se encontram, as pessoas se acolhem
mutuamente, as suas experiências se entrelaçam e as diversas culturas dialogam
entre si”. Torna-se “mudo”, ao contrário, “onde cada um faz de si próprio uma
ilha, onde o contato é evitado e o intercâmbio é interrompido”.
Nas palavras do
Pontífice, retorna a parábola do bom samaritano, proclamada durante a liturgia,
como exemplo de “uma história que continua”. Lampedusa e Linosa encontram-se
hoje em “uma estrada perigosa”, como aquela que descia de Jerusalém a Jericó.
“Aqui — diz Leão XIV — vocês viram não apenas um, mas milhares de seres humanos
que caíram nas mãos de salteadores que lhes roubaram tudo, os espancaram
cruelmente e se afastaram, deixando-os meio mortos”. “O mar acolheu os outros,
aqueles que não conseguiram chegar onde desejavam”, ressalta o Papa. E hoje
sentimos “a presença deles”, que interpela a consciência de todos e, antes de
qualquer consideração intelectual e convicção ideológica, “convida à
proximidade”.
“Próximos nos
fazemos, próximos nos tornamos!”
Mas nos tornamos
próximos por meio do amor, no qual “a compaixão, que vê o irmão no mar, é como
o primeiro estremecimento, o apelo profundo para ousar aquilo que nunca teriam
pensado”.
A memória dos
migrantes mortos no mar
O Papa dirige o
olhar às pessoas migrantes presentes no estádio: “elas mesmas não receberam só
solidariedade, mas muitas vezes a exerceram durante a sua viagem, como pobres a
ajudar os mais pobres. Obrigado, irmãos e irmãs, porque a aproximação de vocês não
é um dado adquirido nem tem nada de automático.”.
A reflexão do
Papa, ou melhor, sua denúncia também se dirige a quem “opte por não ser próximo
e há quem decida não decidir”. Os mortos no mar são, de fato, “vítimas tanto
das decisões tomadas como das decisões que faltaram”.
"O
desinteresse pelo bem comum e a corrupção nos lugares de origem, um sistema
económico mundial que gera pobreza e exclusão, o medo que alimenta preconceitos
e desprezo, a ideia de que tais problemas não nos dizem respeito, os cálculos
criminosos de quem lucra com o drama alheio, a lenta e difícil passagem de uma
mera gestão de emergências à elaboração de políticas orgânicas e partilhadas:
tudo isto reproduz hoje a pressa de 'passar adiante'".
Cristo derrubou
todos os muros
Assim como na
parábola do bom Samaritano, também hoje, mas, de modo geral, em todas as
épocas, “há quem tenha medo de se contaminar no contato com os outros, negando
assim – mesmo perante o sofrimento e a morte – a origem comum em Deus, a
dignidade infinita de cada ser humano e o chamamento ao amor sem limites”.
Portanto, afirma Leão, “é tempo de reconhecer e afirmar que a pertença
religiosa nunca deve tornar-se motivo de discriminação, como se a fé tivesse
fronteiras e não fosse, pelo contrário, um chamamento universal à salvação”.
"Onde havia
muros de separação, Cristo derrubou-os. Não há amor a Deus sem amor ao próximo,
e não há próximo se eu não me aproximar. Parar, comover-se, inclinar-se, chorar
perante a dor alheia – como fez Jesus – significa entrar no movimento do amor,
aquele em que Deus se revelou."
A missa
celebrada no Campo Esportivo "Arena" (@Vatican Media)
A civilização do
amor
Quem se deixa
“levar por essa dinâmica de compaixão, de misericórdia” começa, de fato, “a
viver de maneira diferente, a ser cidadão de maneira diferente, a trabalhar de
maneira diferente”. Ou seja, lança as bases para a “civilização do amor”
invocada por João XXIII, Paulo VI e João Paulo II, que, “juntamente com um
grande número de profetas e mártires do século passado”, compreenderam que “aos
abismos do coração humano e aos horrores da guerra, somente a misericórdia sabe
responder com novos começos”.
"Apoiando-nos
nestes gigantes, entramos num milênio no qual devemos dar forma espiritual,
cultural, jurídica, política e econômica à civilização do amor. Possa a enorme
dor que testemunhamos levar-nos a compreender a radicalidade deste apelo."
É possível
“mudar de rumo e de direção”, assegura Leão XIV: “a civilização do amor não
nasce de um gesto único e espetacular, mas de uma soma de pequenas e tenazes
fidelidades, que travam a desumanização”. Os habitantes de Lampedusa são
testemunhas disso. “Nem todos têm o mesmo poder de incidir sobre a realidade
[…]. No entanto, ninguém está isento de responsabilidade. Cada um dispõe de um
próprio âmbito de ação, e é aí – e não noutro lugar – que é chamado a escolher
entre alimentar a lógica da força (mesmo que apenas com a indiferença, o
cinismo, a mentira, o ódio), ou zelar pela lógica da paz (com a verdade, a
sobriedade, a proximidade, o cuidado)”.
Mensagem à
Europa
Deste extremo
recanto do Mar Mediterrâneo, o apelo é dirigido à Europa que, no que diz
respeito às migrações, mas também à transição ecológica e à promoção da paz,
“possui um potencial único, que lhe deriva de sua história e de sua cultura, e,
portanto, uma responsabilidade equivalente”.
"Devido à
sua localização geográfica e à sua estrutura institucional, a Europa é capaz de
enfrentar a crise de forma orgânica, inserindo os primeiros socorros num plano
estratégico de longo prazo, que permita acolher, proteger, promover e integrar
os migrantes e, ao mesmo tempo, trabalhar em prol do desenvolvimento, para que
ninguém seja obrigado a emigrar."
Tudo isso
zelando pelo “respeito à dignidade de cada pessoa”, tarefa que cabe às
instituições públicas, à sociedade civil e à Igreja.
As barreiras
entre náufragos e turistas
Leão aborda,
então, um dos pontos sensíveis da realidade de Lampedusa: “A cultura do
acolhimento tem uma vocação turística, que pode sentir-se infelizmente ameaçada
pelas rotas migratórias e transformar-se em indiferença, ou mesmo em
contraposição aos seus aspetos dramáticos”, destaca. “Para muitos, de fato, as
férias representam somente diversão, descontração e despreocupação. Por isso,
parece que é necessário erguer um muro invisível entre o mar dos náufragos e o
dos turistas”.
"Tenham a
ousadia de pensar de forma diferente. Pouco a pouco e com criatividade,
conseguirão fazer que quem transcorre um período, mesmo de descanso, nesta
ilha, se possa tornar mais humano ao confrontar-se com a caridade de vocês, com
o que o mar os ensinou, com os encontros que os educaram."
“Efetivamente,
existe autêntico descanso onde se redescobre o sentido da vida; e existe
bem-estar verdadeiro quando a economia é justa e fraterna”, comenta Leão.
“Nessa economia, o cuidado pela criação e pela amizade social fundem-se numa
síntese, que hoje a humanidade procura.”.
“O'scià!”
Uma palavra
também às paróquias, para que sejam “comunidades onde, à luz do Evangelho, se
aprenda juntos a acolher, acompanhar e integrar, num espírito de comunhão”. E,
por fim, uma recomendação: “não nos deixemos dominar pelo medo, mas encaremos
as dificuldades do dia a dia como oportunidades e um tempo de testemunho. Que a
fé de vocês, caríssimos, seja, pois, fortalecida por estes anos de provação e
de empenho generoso”.
"Nunca os
falte o alento da fé, da esperança e da caridade: «O’scià!»" [Saudação
típica dos habitantes de Lampedusa].
Salvatore Cernuzio – enviado a Lampedusa
_______________________________________
De Francisco a Leão XIV em Lampedusa:
o Papa continua com vocês
"O fato de
vocês terem decidido intitular o Cais Favaloro com o nome do Papa Francisco é
um sinal do vínculo que o meu predecessor estabeleceu com a comunidade de vocês
e com os irmãos e irmãs migrantes: o Papa esteve ao lado de vocês neste período
tão difícil para vocês. E hoje estou aqui para lhes dizer que o Papa continua a
acompanhá-los, a apoiá-los e a encorajá-los", disse Leão XIV na saudação
que precedeu a missa no Campo Esportivo de Lampedusa, na manhã deste sábado
(04/07).
No Campo
Esportivo "Arena" de Lampedusa, no sul da Itália, onde o Papa
transcorreu a manhã deste sábado (04/07) em visita pastoral, Leão XIV encontrou
os fiéis durante um giro de papamóvel antes da celebração da missa e última
etapa na ilha que é símbolo das rotas migratórias no Mediterrâneo. Ele foi
saudado pelo prefeito Filippo Mannino, que descreveu a visita de Leão XIV como
um presente, um gesto fraterno, além de uma responsabilidade naquele
"pequeno pedaço de terra em meio ao mar", mas que há muitos anos
carrega feridas e esperanças que pertencem ao mundo inteiro.
Lampedusa,
continuou o prefeito, é também "espera, porto de chegada, dor e
memória. É o lugar onde tantas pessoas buscaram salvação, dignidade e futuro.
Algumas encontraram uma nova perspectiva, outras nunca chegaram: todas elas
estão em nossos corações. Nossa comunidade conhece o valor e o peso dessa
história", entre pescadores, socorristas, forças de segurança,
voluntários, profissionais e famílias inteiras, além das instituições que
serviram de apoio. A ilha, disse Mannino, "muitas vezes em silêncio, aprendeu
a encarar o mar não apenas como uma fronteira, mas como um chamado",
acreditando "que toda vida humana é sagrada" e que sirva de farol no
apelo de paz pelos povos feridos que defendem a vida:
“Esta é
Lampedusa: um pequeno sinal de paz no coração do Mediterrâneo que fala aos
homens de todas as partes do mundo. Uma ilha tão pequena mostrou que mesmo o
que parece frágil pode realizar coisas imensas. Ela acolheu, socorreu,
consolou. Conheceu o medo, o cansaço, a dor, a raiva, mas nunca deixou de
estender a mão.”
O Papa continua
ao lado de vocês
Ao agradecer a
mensagem do prefeito em nome de Lampedusa e Linosa, Leão XIV agradeceu a
calorosa acolhida na ilha, que também continua honrando a passagem do Papa
Francisco e o legado deixado para a comunidade e todos os migrantes. Esse
reconhecimento veio com uma placa que dedica o Cais Favaloro, no Porto Novo, a
Papa Francisco, que inclusive foi abençoada por Leão XIV:
"O fato de
vocês terem decidido intitular o Cais Favaloro com o nome do Papa Francisco é
um sinal do vínculo que o meu predecessor estabeleceu com a comunidade de vocês
e com os irmãos e irmãs migrantes: o Papa esteve ao lado de vocês neste período
tão difícil para vocês. E hoje estou aqui para lhes dizer que o Papa continua a
acompanhá-los, a apoiá-los e a encorajá-los."
“Não vim para
fazer discursos, mas para celebrar a Eucaristia, sinal supremo da presença de
Cristo entre nós. O gesto de Jesus que parte o pão para doar a Si mesmo dá
sentido e força aos nossos gestos cotidianos de assistência e partilha. Sim,
este é um lugar onde, mais do que palavras, falam os gestos. Mas os gestos,
para serem humanos, precisam de um coração. É por isso que nos reunimos aqui:
para buscar em Cristo o amor que somente Ele pode nos dar, para que o mundo de
hoje e de amanhã seja mais humano, mais humano para todos.”
A visita
pastoral do Papa Leão XIV neste sábado (04/07), na ilha italiana de Lampedusa,
foi concluída com a missa no Campo Esportivo "Arena", na localidade
Salina. Confira a íntegra da homilia do Pontífice.
"Queridos
irmãos e irmãs,
Deus ama-nos
sempre primeiro. A beleza do mar, desta ilha e dos vossos rostos é um reflexo
da sua iniciativa gratuita: o amor precede-nos, envolve-nos e reúne-nos. Estou
grato ao Senhor por poder visitar-vos, seguindo os passos do Papa Francisco,
que, a 8 de julho de 2013, quis vir a Lampedusa na sua primeira viagem como
Sucessor de Pedro.
Como é sabido,
os Apóstolos navegaram pelo Mediterrâneo e experimentaram a hospitalidade dos
habitantes das suas ilhas e costas, que há milénios são uma encruzilhada de
civilizações. O Evangelho ressoa onde os povos se encontram, as pessoas se
acolhem mutuamente, as suas experiências se entrelaçam e as diversas culturas
dialogam entre si. Em contrapartida, não ecoa onde cada um faz de si próprio
uma ilha, onde o contacto é evitado e o intercâmbio é interrompido. Neste
sentido, a parábola do Bom Samaritano, que acabou de ser proclamada, descreve
uma história em continuidade (cf. Lc 10, 25-37). A
Encíclica Fratelli tutti ajudou-nos a relê-la nas circunstâncias
históricas dramáticas em que ainda nos encontramos imersos. A Palavra de Deus é
sempre para o hoje da história e conduz-nos a um diálogo do qual saímos
transfigurados. Como responderemos, então, ao amor daquele que nos amou
primeiro?
Caríssimos,
hoje, Lampedusa e Linosa encontram-se numa estrada tão perigosa como aquela que
descia de Jerusalém para Jericó (cf. v. 30). Aqui vistes não apenas um, mas
milhares de seres humanos que caíram nas mãos de salteadores que lhes roubaram
tudo, os espancaram cruelmente e se afastaram, deixando-os meio mortos
(cf. Lc 10, 30). Os outros – aqueles que não conseguiram chegar onde
desejavam – acolheu-os o mar. Sentimos, no entanto, a sua presença, que nos
interpela não menos que a daqueles que desembarcaram, necessitados de atenção e
socorro. Antes de qualquer consideração intelectual e convicção ideológica, o
embate com quem jaz diante de nós, despojado de tudo, convida-nos à
proximidade. A Carta aos Hebreus diz-nos: «Lembrai-vos […] dos que são
maltratados, porque também vós tendes um corpo» (Heb 13, 3). Trata-se do
ponto central da parábola evangélica: próximos nos fazemos, próximos nos
tornamos (cf. Lc 10, 36-37)!
Vim
agradecer-vos, irmãos e irmãs aqui em Lampedusa, a proximidade que muitos de
vós decidistes exercer. O milagre da compaixão voltou a acontecer. «Vendo-o,
encheu-se de compaixão» (v. 33): uma revolução interior que faz surgir em nós o
“sentir” de Deus e alarga os pensamentos, o coração e a vida. Agradeço aos
voluntários, às associações agrupadas no “Fórum Solidário de Lampedusa”, às
instituições civis, à Guarda Costeira, aos presidentes de Câmara e às
administrações que se sucederam ao longo do tempo; agradeço aos diáconos,
padres, religiosas, médicos, psicólogos, educadores; agradeço às forças de
segurança e a todos aqueles que, com ou sem o dom da fé, optaram por amar em
conjunto. Sim, porque entre vós foi o amor que se organizou, aquele amor cuja
compaixão – vendo o irmão no mar – é como o primeiro estremecimento, o apelo
profundo para ousar aquilo que nunca teríeis pensado. Saúdo os migrantes que
aqui se encontram: eles próprios não receberam só solidariedade, mas muitas
vezes a exerceram durante a sua viagem, como pobres a ajudar os mais pobres.
Obrigado, irmãos e irmãs, porque a vossa aproximação não é um dado adquirido
nem tem nada de automático.
A parábola que
acabámos de escutar diz-nos isso mesmo: o amor existe sempre na liberdade e a
liberdade está nas decisões. Há quem opte por não ser próximo e há quem decida
não decidir. Os mortos neste mar são vítimas tanto das decisões tomadas como
das decisões que faltaram. O desinteresse pelo bem comum e a corrupção nos
lugares de origem, um sistema económico mundial que gera pobreza e exclusão, o
medo que alimenta preconceitos e desprezo, a ideia de que tais problemas não
nos dizem respeito, os cálculos criminosos de quem lucra com o drama alheio, a
lenta e difícil passagem de uma mera gestão de emergências à elaboração de
políticas orgânicas e partilhadas: tudo isto reproduz hoje a pressa de “passar
adiante”, da narrativa evangélica (cf. vv. 31.32).
Na parábola, um
sacerdote encontra-se ali «por coincidência» (v. 31), e depois dele um levita.
Ambos veem, mas passam adiante. Infelizmente, em todas as épocas há quem tenha
medo de se contaminar no contacto com os outros, negando assim – mesmo perante
o sofrimento e a morte – a origem comum em Deus, a dignidade infinita de cada
ser humano e o chamamento ao amor sem limites. É tempo de reconhecer e afirmar
que a pertença religiosa nunca deve tornar-se motivo de discriminação, como se
a fé tivesse fronteiras e não fosse, pelo contrário, um chamamento universal à
salvação. Onde havia muros de separação, Cristo derrubou-os (cf. Ef 2,
14). Não há amor a Deus sem amor ao próximo, e não há próximo se eu não me
aproximar. Parar, comover-se, inclinar-se, chorar perante a dor alheia – como
fez Jesus – significa entrar no movimento do amor, aquele em que Deus se
revelou.
Caríssimos, quem
se deixa conduzir por esta dinâmica de compaixão e misericórdia começa a viver
de forma diferente, a ser cidadão de forma diferente, a trabalhar de forma
diferente. Pode, então, surgir verdadeiramente a civilização do amor, proposta
pelos meus santos predecessores João XXIII, Paulo VI e João Paulo II. Com um
grande número de profetas e mártires do século passado, perante os abismos do
coração humano e os horrores da guerra, compreenderam que só a misericórdia
sabe responder com novos começos. Apoiando-nos nestes gigantes, entrámos num
milénio no qual devemos dar forma espiritual, cultural, jurídica, política e
económica à civilização do amor. Possa a enorme dor que testemunhamos levar-nos
a compreender a radicalidade deste apelo.
Tal como o
samaritano, podemos mudar de planos e direção. E mais do que o samaritano,
dispomos de recursos e oportunidades para concretizar historicamente a
esperança. Ele «aproximou-se, ligou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e
vinho, colocou-o sobre a sua própria montada, levou-o para uma estalagem e
cuidou dele» (Lc 10, 34). Também nós temos de reconhecer que «a
civilização do amor não nasce dum gesto único e espetacular, mas duma soma de
pequenas e tenazes fidelidades, que travam a desumanização» (Carta
enc. Magnifica humanitas, 213). Disto, amigos de Lampedusa, vós sois
testemunhas! Aqui, estando convosco, compreende-se melhor o nosso tempo e cada
um pode examinar o rumo da própria vida. «Claro, nem todos têm o mesmo poder de
incidir sobre a realidade […]. No entanto, ninguém está isento de
responsabilidade. Cada um dispõe de um próprio âmbito de ação, e é aí – e não
noutro lugar – que é chamado a escolher entre alimentar a lógica da força
(mesmo que apenas com a indiferença, o cinismo, a mentira, o ódio), ou zelar
pela lógica da paz (com a verdade, a sobriedade, a proximidade, o cuidado)» (ibid.,
212).
Por isso, a
partir desta extremidade da Europa no Mar Mediterrâneo, percebe-se melhor o
apelo histórico que o fenómeno migratório dirige às sociedades europeias.
Também neste aspeto – tal como nos da transição ecológica e da promoção da paz
– a Europa possui um potencial único, decorrente da sua história e da sua
cultura, e, por conseguinte, possui uma responsabilidade única. Neste âmbito,
devido à sua localização geográfica e à sua estrutura institucional, a Europa é
capaz de enfrentar a crise de forma orgânica, inserindo os primeiros socorros
num plano estratégico de longo prazo, que permita acolher, proteger, promover e
integrar os migrantes e, ao mesmo tempo, trabalhar em prol do desenvolvimento,
para que ninguém seja obrigado a emigrar. Tudo isto, zelando pelo respeito da
dignidade de cada pessoa. Trata-se de uma tarefa das instituições públicas, mas
também de toda a sociedade civil e da Igreja.
Irmãs e irmãos,
como referi recentemente em Tenerife, durante a viagem apostólica à Espanha,
também em Lampedusa a cultura do acolhimento tem uma vocação turística, que
pode sentir-se infelizmente ameaçada pelas rotas migratórias e transformar-se
em indiferença, ou mesmo em contraposição aos seus aspetos dramáticos. Com
efeito, para muitos, as férias representam somente diversão, descontração e
despreocupação. Por isso, parece que é necessário erguer um muro invisível
entre o mar dos náufragos e o dos turistas. Tende, pois, a ousadia de pensar de
forma diferente. Pouco a pouco e com criatividade, conseguireis fazer que quem
transcorre um período, mesmo de descanso, nesta ilha, se possa tornar mais
humano ao confrontar-se com a vossa caridade, com o que o mar vos ensinou, com
os encontros que vos educaram. Efetivamente, existe autêntico descanso onde se
redescobre o sentido da vida; e existe bem-estar verdadeiro quando a economia é
justa e fraterna. Nesta economia, o cuidado pela criação e pela amizade social fundem-se
numa síntese, que hoje a humanidade procura.
A primeira
leitura recordou-nos que, ao praticar a hospitalidade, «alguns, sem o saberem,
hospedaram anjos» (Heb 13, 2). Sede, portanto, em pequena escala, uma
profecia daquilo a que podemos aspirar juntos em grande escala. Os primeiros a
beneficiar disso sereis vós e as vossas famílias, superando divisões e
divergências que só a caridade pode dissolver. A paróquia, em particular, seja
uma comunidade onde, à luz do Evangelho, aprendemos juntos a acolher, a
acompanhar e a integrar, num estilo de comunhão.
Temos aqui,
junto ao altar, a imagem da Nossa Senhora de Porto Salvo, padroeira de
Lampedusa. Talvez sabais já que Santo Agostinho gostava de descrever a vida
humana como uma navegação em mar tempestuoso e o seu destino como um porto
protegido e seguro. Não nos deixemos dominar pelo medo, mas encaremos as
dificuldades do dia a dia como oportunidades e um tempo de testemunho. Que a
vossa fé, caríssimos, seja, pois, fortalecida por estes anos de provação e de
empenho generoso. Que esta venerada imagem vos volte a falar com mesma a força
de outrora, quando quem vos transmitiu a devoção se confiava à intercessão da
Virgem com radical sinceridade. Todos nós temos em Deus um porto seguro, e cada
comunidade cristã é chamada a ser um reflexo disso mesmo na terra. A vós,
comunidades de Lampedusa e Linosa, nunca vos falte o alento da fé, da esperança
e da caridade: «O’scià!» [Saudação típica dos habitantes de Lampedusa]."