sábado, 4 de julho de 2026

Leão XIV em Lampedusa neste sábado

Papa leva esperança
a Lampedusa e visita monumento a migrantes

O Papa Leão XIV, após pouco mais de uma hora de viagem, chegou às 8h54 do horário italiano na ilha de Lampedusa para a tão aguardada visita pastoral neste sábado, 4 de julho, em que retoma um dos gestos mais emblemáticos do pontificado de Francisco. Em 2013, o Papa argentino denunciou a “globalização da indiferença” e chamou a atenção do mundo para o drama dos migrantes que arriscam a própria vida em busca de melhores condições, em particular, dessa rota migratória do Mediterrâneo que havia definido como "o maior cemitério da Europa". E foi depositando flores em um dos túmulos dos migrantes do cemitério local, que morreram durante a travessia, que começou a visita pastoral de Leão XIV à Lampedusa. No setor dedicado a migrantes, estimativas apontam que estão sepultadas de 40 a 70 pessoas, a maioria não identificada. Ao longo das últimas décadas, muitos migrantes identificados foram transferidos para as suas famílias e outros foram enterrados em outros locais da Sicília por falta de espaço em Lampedusa.

A visita do Papa à Porta da Europa

Em seguida, o Pontífice foi até a "Porta da Europa", um monumento criado pelo artista Mimmo Paladino, em 2008, em memória às milhares de pessoas que perderam a vida cruzando o Mar Mediterrâneo. A grande porta é feita de cerâmica e ferro, com cerca de 5 metros de altura e voltada para omar. No local, o Pontífice encontrou uma família de migrantes que o conduziu até esse que é um símbolo de esperança em Lampedusa. Na sequência, o Papa desafiou o vento forte do local e se dirigiu, primeiramente sozinho, até o promontório, que é uma elevação de rocha que se projeta em direção ao mar. O local, com vista para o mar, pode ser visto por quem chega de barco e, ao mesmo tempo, também representa um memorial às vítimas das travessias marítimas e um convite à reflexão sobre direitos humanos, fronteiras e hospitalidade.

A terceira etapa da visita foi no Cais Favaloro, no Porto Novo de Lampedusa. Uma placa que dedica o local a Papa Francisco ganhou a bênção de Leão XIV. Na ocasião, o Pontífice encontrou outro grupo de migrantes, desta vez acompanhados pela Cruz Vermelha.

Andressa Collet - Vatican News

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Papa sobre fenômeno migratório:

mortos no mar são vítimas da falta de decisões

Leão XIV celebra a missa no Campo Esportivo “Arena” ao final da sua visita em Lampedusa. Recorda o Papa Francisco, as vítimas dos naufrágios, agradece às instituições civis, sociais e eclesiais pelo trabalho de acolhimento realizado nestes anos e pelo “milagre da compaixão”. Em seguida, lança um apelo ao Velho Continente para que opte pela paz e não pela lógica da força. Recomenda derrubar as barreiras: aquelas decorrentes da pertença religiosa ou entre migrantes e turistas.

O apelo, feito sem gritos e, justamente por isso, ainda mais contundente, é dirigido à Europa, chamada a assumir “uma responsabilidade única” em relação à questão migratória. A homenagem é aos “mortos no mar”, vítimas de “decisões tomadas e decisões que faltaram”. O agradecimento é a todos: Igreja, instituições civis, ONGs, Guarda Costeira e aos próprios migrantes, que demonstraram por si mesmos capacidade de acolhimento, resistência e resiliência. Fala como Pontífice, mas se apresenta como peregrino “seguindo os passos de Papa Francisco”, o Papa Leão XIV, em uma Lampedusa que o acolhe com calor e fervor, assim como fez há 13 anos, em 8 de julho de 2013, com o Pontífice argentino que, sem muitos avisos prévios e com muito pouco tempo de preparação, quis realizar nesta ilha a primeira viagem como Sucessor de Pedro para levar consolo à comunidade abalada por um naufrágio no qual perderam a vida mais de 300 pessoas.

Leia a íntegra da homilia do Papa Leão XIV

O agradecimento do Papa

Uma tragédia que se repete ao longo do tempo nessas praias cristalinas, repletas de turistas, e que sempre receberam a mesma resposta: acolhimento, solidariedade, proximidade. Primeiro improvisada e espontânea por parte da população, depois organizada e controlada graças às ONGs e às forças de segurança. Por isso, Leão, na homilia da missa no Campo Esportivo "Arena" da Localidade Salina – último compromisso da viagem a Lampedusa –, diante de 4 mil pessoas de toda a região, repete várias vezes a palavra “obrigado”.

"Agradeço aos voluntários, às associações agrupadas no “Fórum Solidário de Lampedusa”, às instituições civis, à Guarda Costeira, aos presidentes de Câmara e às administrações que se sucederam ao longo do tempo; agradeço aos diáconos, padres, religiosas, médicos, psicólogos, educadores; agradeço às forças de segurança e a todos aqueles que, com ou sem o dom da fé, optaram por amar em conjunto."

O Papa Leão na missa celebrada em Lampedusa   (@Vatican Media)

O Evangelho fica mudo quando cada um se transforma em uma ilha

Uma longa lista de instituições e representantes da Igreja, da política e da sociedade civil que, nestes anos de desembarques e resgates, testemunharam aquele amor que é o cerne do Evangelho. E é justamente do Evangelho que o Papa extrai sua reflexão: ele, afirma, “ressoa onde os povos se encontram, as pessoas se acolhem mutuamente, as suas experiências se entrelaçam e as diversas culturas dialogam entre si”. Torna-se “mudo”, ao contrário, “onde cada um faz de si próprio uma ilha, onde o contato é evitado e o intercâmbio é interrompido”.

Nas palavras do Pontífice, retorna a parábola do bom samaritano, proclamada durante a liturgia, como exemplo de “uma história que continua”. Lampedusa e Linosa encontram-se hoje em “uma estrada perigosa”, como aquela que descia de Jerusalém a Jericó. “Aqui — diz Leão XIV — vocês viram não apenas um, mas milhares de seres humanos que caíram nas mãos de salteadores que lhes roubaram tudo, os espancaram cruelmente e se afastaram, deixando-os meio mortos”. “O mar acolheu os outros, aqueles que não conseguiram chegar onde desejavam”, ressalta o Papa. E hoje sentimos “a presença deles”, que interpela a consciência de todos e, antes de qualquer consideração intelectual e convicção ideológica, “convida à proximidade”.

“Próximos nos fazemos, próximos nos tornamos!”

Mas nos tornamos próximos por meio do amor, no qual “a compaixão, que vê o irmão no mar, é como o primeiro estremecimento, o apelo profundo para ousar aquilo que nunca teriam pensado”.

A memória dos migrantes mortos no mar

O Papa dirige o olhar às pessoas migrantes presentes no estádio: “elas mesmas não receberam só solidariedade, mas muitas vezes a exerceram durante a sua viagem, como pobres a ajudar os mais pobres. Obrigado, irmãos e irmãs, porque a aproximação de vocês não é um dado adquirido nem tem nada de automático.”.

A reflexão do Papa, ou melhor, sua denúncia também se dirige a quem “opte por não ser próximo e há quem decida não decidir”. Os mortos no mar são, de fato, “vítimas tanto das decisões tomadas como das decisões que faltaram”.

"O desinteresse pelo bem comum e a corrupção nos lugares de origem, um sistema económico mundial que gera pobreza e exclusão, o medo que alimenta preconceitos e desprezo, a ideia de que tais problemas não nos dizem respeito, os cálculos criminosos de quem lucra com o drama alheio, a lenta e difícil passagem de uma mera gestão de emergências à elaboração de políticas orgânicas e partilhadas: tudo isto reproduz hoje a pressa de 'passar adiante'".

Cristo derrubou todos os muros

Assim como na parábola do bom Samaritano, também hoje, mas, de modo geral, em todas as épocas, “há quem tenha medo de se contaminar no contato com os outros, negando assim – mesmo perante o sofrimento e a morte – a origem comum em Deus, a dignidade infinita de cada ser humano e o chamamento ao amor sem limites”. Portanto, afirma Leão, “é tempo de reconhecer e afirmar que a pertença religiosa nunca deve tornar-se motivo de discriminação, como se a fé tivesse fronteiras e não fosse, pelo contrário, um chamamento universal à salvação”.

"Onde havia muros de separação, Cristo derrubou-os. Não há amor a Deus sem amor ao próximo, e não há próximo se eu não me aproximar. Parar, comover-se, inclinar-se, chorar perante a dor alheia – como fez Jesus – significa entrar no movimento do amor, aquele em que Deus se revelou."

A missa celebrada no Campo Esportivo "Arena"   (@Vatican Media)

A civilização do amor

Quem se deixa “levar por essa dinâmica de compaixão, de misericórdia” começa, de fato, “a viver de maneira diferente, a ser cidadão de maneira diferente, a trabalhar de maneira diferente”. Ou seja, lança as bases para a “civilização do amor” invocada por João XXIII, Paulo VI e João Paulo II, que, “juntamente com um grande número de profetas e mártires do século passado”, compreenderam que “aos abismos do coração humano e aos horrores da guerra, somente a misericórdia sabe responder com novos começos”.

"Apoiando-nos nestes gigantes, entramos num milênio no qual devemos dar forma espiritual, cultural, jurídica, política e econômica à civilização do amor. Possa a enorme dor que testemunhamos levar-nos a compreender a radicalidade deste apelo."

É possível “mudar de rumo e de direção”, assegura Leão XIV: “a civilização do amor não nasce de um gesto único e espetacular, mas de uma soma de pequenas e tenazes fidelidades, que travam a desumanização”. Os habitantes de Lampedusa são testemunhas disso. “Nem todos têm o mesmo poder de incidir sobre a realidade […]. No entanto, ninguém está isento de responsabilidade. Cada um dispõe de um próprio âmbito de ação, e é aí – e não noutro lugar – que é chamado a escolher entre alimentar a lógica da força (mesmo que apenas com a indiferença, o cinismo, a mentira, o ódio), ou zelar pela lógica da paz (com a verdade, a sobriedade, a proximidade, o cuidado)”.

Mensagem à Europa

Deste extremo recanto do Mar Mediterrâneo, o apelo é dirigido à Europa que, no que diz respeito às migrações, mas também à transição ecológica e à promoção da paz, “possui um potencial único, que lhe deriva de sua história e de sua cultura, e, portanto, uma responsabilidade equivalente”.

"Devido à sua localização geográfica e à sua estrutura institucional, a Europa é capaz de enfrentar a crise de forma orgânica, inserindo os primeiros socorros num plano estratégico de longo prazo, que permita acolher, proteger, promover e integrar os migrantes e, ao mesmo tempo, trabalhar em prol do desenvolvimento, para que ninguém seja obrigado a emigrar."

Tudo isso zelando pelo “respeito à dignidade de cada pessoa”, tarefa que cabe às instituições públicas, à sociedade civil e à Igreja.

As barreiras entre náufragos e turistas

Leão aborda, então, um dos pontos sensíveis da realidade de Lampedusa: “A cultura do acolhimento tem uma vocação turística, que pode sentir-se infelizmente ameaçada pelas rotas migratórias e transformar-se em indiferença, ou mesmo em contraposição aos seus aspetos dramáticos”, destaca. “Para muitos, de fato, as férias representam somente diversão, descontração e despreocupação. Por isso, parece que é necessário erguer um muro invisível entre o mar dos náufragos e o dos turistas”.

"Tenham a ousadia de pensar de forma diferente. Pouco a pouco e com criatividade, conseguirão fazer que quem transcorre um período, mesmo de descanso, nesta ilha, se possa tornar mais humano ao confrontar-se com a caridade de vocês, com o que o mar os ensinou, com os encontros que os educaram."

“Efetivamente, existe autêntico descanso onde se redescobre o sentido da vida; e existe bem-estar verdadeiro quando a economia é justa e fraterna”, comenta Leão. “Nessa economia, o cuidado pela criação e pela amizade social fundem-se numa síntese, que hoje a humanidade procura.”.

“O'scià!”

Uma palavra também às paróquias, para que sejam “comunidades onde, à luz do Evangelho, se aprenda juntos a acolher, acompanhar e integrar, num espírito de comunhão”. E, por fim, uma recomendação: “não nos deixemos dominar pelo medo, mas encaremos as dificuldades do dia a dia como oportunidades e um tempo de testemunho. Que a fé de vocês, caríssimos, seja, pois, fortalecida por estes anos de provação e de empenho generoso”.

"Nunca os falte o alento da fé, da esperança e da caridade: «O’scià!»" [Saudação típica dos habitantes de Lampedusa].

Salvatore Cernuzio – enviado a Lampedusa

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De Francisco a Leão XIV em Lampedusa:

o Papa continua com vocês

"O fato de vocês terem decidido intitular o Cais Favaloro com o nome do Papa Francisco é um sinal do vínculo que o meu predecessor estabeleceu com a comunidade de vocês e com os irmãos e irmãs migrantes: o Papa esteve ao lado de vocês neste período tão difícil para vocês. E hoje estou aqui para lhes dizer que o Papa continua a acompanhá-los, a apoiá-los e a encorajá-los", disse Leão XIV na saudação que precedeu a missa no Campo Esportivo de Lampedusa, na manhã deste sábado (04/07).

No Campo Esportivo "Arena" de Lampedusa, no sul da Itália, onde o Papa transcorreu a manhã deste sábado (04/07) em visita pastoral, Leão XIV encontrou os fiéis durante um giro de papamóvel antes da celebração da missa e última etapa na ilha que é símbolo das rotas migratórias no Mediterrâneo. Ele foi saudado pelo prefeito Filippo Mannino, que descreveu a visita de Leão XIV como um presente, um gesto fraterno, além de uma responsabilidade naquele "pequeno pedaço de terra em meio ao mar", mas que há muitos anos carrega feridas e esperanças que pertencem ao mundo inteiro.

Lampedusa, continuou o prefeito, é também "espera, porto de chegada, dor e memória. É o lugar onde tantas pessoas buscaram salvação, dignidade e futuro. Algumas encontraram uma nova perspectiva, outras nunca chegaram: todas elas estão em nossos corações. Nossa comunidade conhece o valor e o peso dessa história", entre pescadores, socorristas, forças de segurança, voluntários, profissionais e famílias inteiras, além das instituições que serviram de apoio. A ilha, disse Mannino, "muitas vezes em silêncio, aprendeu a encarar o mar não apenas como uma fronteira, mas como um chamado", acreditando "que toda vida humana é sagrada" e que sirva de farol no apelo de paz pelos povos feridos que defendem a vida:

“Esta é Lampedusa: um pequeno sinal de paz no coração do Mediterrâneo que fala aos homens de todas as partes do mundo. Uma ilha tão pequena mostrou que mesmo o que parece frágil pode realizar coisas imensas. Ela acolheu, socorreu, consolou. Conheceu o medo, o cansaço, a dor, a raiva, mas nunca deixou de estender a mão.”

O Papa continua ao lado de vocês

Ao agradecer a mensagem do prefeito em nome de Lampedusa e Linosa, Leão XIV agradeceu a calorosa acolhida na ilha, que também continua honrando a passagem do Papa Francisco e o legado deixado para a comunidade e todos os migrantes. Esse reconhecimento veio com uma placa que dedica o Cais Favaloro, no Porto Novo, a Papa Francisco, que inclusive foi abençoada por Leão XIV:

"O fato de vocês terem decidido intitular o Cais Favaloro com o nome do Papa Francisco é um sinal do vínculo que o meu predecessor estabeleceu com a comunidade de vocês e com os irmãos e irmãs migrantes: o Papa esteve ao lado de vocês neste período tão difícil para vocês. E hoje estou aqui para lhes dizer que o Papa continua a acompanhá-los, a apoiá-los e a encorajá-los."

“Não vim para fazer discursos, mas para celebrar a Eucaristia, sinal supremo da presença de Cristo entre nós. O gesto de Jesus que parte o pão para doar a Si mesmo dá sentido e força aos nossos gestos cotidianos de assistência e partilha. Sim, este é um lugar onde, mais do que palavras, falam os gestos. Mas os gestos, para serem humanos, precisam de um coração. É por isso que nos reunimos aqui: para buscar em Cristo o amor que somente Ele pode nos dar, para que o mundo de hoje e de amanhã seja mais humano, mais humano para todos.”

Andressa Collet - Vatican News

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Leão XIV preside missa
no final da visita pastoral em Lampedusa

A visita pastoral do Papa Leão XIV neste sábado (04/07), na ilha italiana de Lampedusa, foi concluída com a missa no Campo Esportivo "Arena", na localidade Salina. Confira a íntegra da homilia do Pontífice.

"Queridos irmãos e irmãs,

Deus ama-nos sempre primeiro. A beleza do mar, desta ilha e dos vossos rostos é um reflexo da sua iniciativa gratuita: o amor precede-nos, envolve-nos e reúne-nos. Estou grato ao Senhor por poder visitar-vos, seguindo os passos do Papa Francisco, que, a 8 de julho de 2013, quis vir a Lampedusa na sua primeira viagem como Sucessor de Pedro.

Como é sabido, os Apóstolos navegaram pelo Mediterrâneo e experimentaram a hospitalidade dos habitantes das suas ilhas e costas, que há milénios são uma encruzilhada de civilizações. O Evangelho ressoa onde os povos se encontram, as pessoas se acolhem mutuamente, as suas experiências se entrelaçam e as diversas culturas dialogam entre si. Em contrapartida, não ecoa onde cada um faz de si próprio uma ilha, onde o contacto é evitado e o intercâmbio é interrompido. Neste sentido, a parábola do Bom Samaritano, que acabou de ser proclamada, descreve uma história em continuidade (cf. Lc 10, 25-37). A Encíclica Fratelli tutti ajudou-nos a relê-la nas circunstâncias históricas dramáticas em que ainda nos encontramos imersos. A Palavra de Deus é sempre para o hoje da história e conduz-nos a um diálogo do qual saímos transfigurados. Como responderemos, então, ao amor daquele que nos amou primeiro?

Caríssimos, hoje, Lampedusa e Linosa encontram-se numa estrada tão perigosa como aquela que descia de Jerusalém para Jericó (cf. v. 30). Aqui vistes não apenas um, mas milhares de seres humanos que caíram nas mãos de salteadores que lhes roubaram tudo, os espancaram cruelmente e se afastaram, deixando-os meio mortos (cf. Lc 10, 30). Os outros – aqueles que não conseguiram chegar onde desejavam – acolheu-os o mar. Sentimos, no entanto, a sua presença, que nos interpela não menos que a daqueles que desembarcaram, necessitados de atenção e socorro. Antes de qualquer consideração intelectual e convicção ideológica, o embate com quem jaz diante de nós, despojado de tudo, convida-nos à proximidade. A Carta aos Hebreus diz-nos: «Lembrai-vos […] dos que são maltratados, porque também vós tendes um corpo» (Heb 13, 3). Trata-se do ponto central da parábola evangélica: próximos nos fazemos, próximos nos tornamos (cf. Lc 10, 36-37)!

Vim agradecer-vos, irmãos e irmãs aqui em Lampedusa, a proximidade que muitos de vós decidistes exercer. O milagre da compaixão voltou a acontecer. «Vendo-o, encheu-se de compaixão» (v. 33): uma revolução interior que faz surgir em nós o “sentir” de Deus e alarga os pensamentos, o coração e a vida. Agradeço aos voluntários, às associações agrupadas no “Fórum Solidário de Lampedusa”, às instituições civis, à Guarda Costeira, aos presidentes de Câmara e às administrações que se sucederam ao longo do tempo; agradeço aos diáconos, padres, religiosas, médicos, psicólogos, educadores; agradeço às forças de segurança e a todos aqueles que, com ou sem o dom da fé, optaram por amar em conjunto. Sim, porque entre vós foi o amor que se organizou, aquele amor cuja compaixão – vendo o irmão no mar – é como o primeiro estremecimento, o apelo profundo para ousar aquilo que nunca teríeis pensado. Saúdo os migrantes que aqui se encontram: eles próprios não receberam só solidariedade, mas muitas vezes a exerceram durante a sua viagem, como pobres a ajudar os mais pobres. Obrigado, irmãos e irmãs, porque a vossa aproximação não é um dado adquirido nem tem nada de automático.

A parábola que acabámos de escutar diz-nos isso mesmo: o amor existe sempre na liberdade e a liberdade está nas decisões. Há quem opte por não ser próximo e há quem decida não decidir. Os mortos neste mar são vítimas tanto das decisões tomadas como das decisões que faltaram. O desinteresse pelo bem comum e a corrupção nos lugares de origem, um sistema económico mundial que gera pobreza e exclusão, o medo que alimenta preconceitos e desprezo, a ideia de que tais problemas não nos dizem respeito, os cálculos criminosos de quem lucra com o drama alheio, a lenta e difícil passagem de uma mera gestão de emergências à elaboração de políticas orgânicas e partilhadas: tudo isto reproduz hoje a pressa de “passar adiante”, da narrativa evangélica (cf. vv. 31.32).

Na parábola, um sacerdote encontra-se ali «por coincidência» (v. 31), e depois dele um levita. Ambos veem, mas passam adiante. Infelizmente, em todas as épocas há quem tenha medo de se contaminar no contacto com os outros, negando assim – mesmo perante o sofrimento e a morte – a origem comum em Deus, a dignidade infinita de cada ser humano e o chamamento ao amor sem limites. É tempo de reconhecer e afirmar que a pertença religiosa nunca deve tornar-se motivo de discriminação, como se a fé tivesse fronteiras e não fosse, pelo contrário, um chamamento universal à salvação. Onde havia muros de separação, Cristo derrubou-os (cf. Ef 2, 14). Não há amor a Deus sem amor ao próximo, e não há próximo se eu não me aproximar. Parar, comover-se, inclinar-se, chorar perante a dor alheia – como fez Jesus – significa entrar no movimento do amor, aquele em que Deus se revelou.

Caríssimos, quem se deixa conduzir por esta dinâmica de compaixão e misericórdia começa a viver de forma diferente, a ser cidadão de forma diferente, a trabalhar de forma diferente. Pode, então, surgir verdadeiramente a civilização do amor, proposta pelos meus santos predecessores João XXIII, Paulo VI e João Paulo II. Com um grande número de profetas e mártires do século passado, perante os abismos do coração humano e os horrores da guerra, compreenderam que só a misericórdia sabe responder com novos começos. Apoiando-nos nestes gigantes, entrámos num milénio no qual devemos dar forma espiritual, cultural, jurídica, política e económica à civilização do amor. Possa a enorme dor que testemunhamos levar-nos a compreender a radicalidade deste apelo.

Tal como o samaritano, podemos mudar de planos e direção. E mais do que o samaritano, dispomos de recursos e oportunidades para concretizar historicamente a esperança. Ele «aproximou-se, ligou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho, colocou-o sobre a sua própria montada, levou-o para uma estalagem e cuidou dele» (Lc 10, 34). Também nós temos de reconhecer que «a civilização do amor não nasce dum gesto único e espetacular, mas duma soma de pequenas e tenazes fidelidades, que travam a desumanização» (Carta enc. Magnifica humanitas, 213). Disto, amigos de Lampedusa, vós sois testemunhas! Aqui, estando convosco, compreende-se melhor o nosso tempo e cada um pode examinar o rumo da própria vida. «Claro, nem todos têm o mesmo poder de incidir sobre a realidade […]. No entanto, ninguém está isento de responsabilidade. Cada um dispõe de um próprio âmbito de ação, e é aí – e não noutro lugar – que é chamado a escolher entre alimentar a lógica da força (mesmo que apenas com a indiferença, o cinismo, a mentira, o ódio), ou zelar pela lógica da paz (com a verdade, a sobriedade, a proximidade, o cuidado)» (ibid., 212).

Por isso, a partir desta extremidade da Europa no Mar Mediterrâneo, percebe-se melhor o apelo histórico que o fenómeno migratório dirige às sociedades europeias. Também neste aspeto – tal como nos da transição ecológica e da promoção da paz – a Europa possui um potencial único, decorrente da sua história e da sua cultura, e, por conseguinte, possui uma responsabilidade única. Neste âmbito, devido à sua localização geográfica e à sua estrutura institucional, a Europa é capaz de enfrentar a crise de forma orgânica, inserindo os primeiros socorros num plano estratégico de longo prazo, que permita acolher, proteger, promover e integrar os migrantes e, ao mesmo tempo, trabalhar em prol do desenvolvimento, para que ninguém seja obrigado a emigrar. Tudo isto, zelando pelo respeito da dignidade de cada pessoa. Trata-se de uma tarefa das instituições públicas, mas também de toda a sociedade civil e da Igreja.

Irmãs e irmãos, como referi recentemente em Tenerife, durante a viagem apostólica à Espanha, também em Lampedusa a cultura do acolhimento tem uma vocação turística, que pode sentir-se infelizmente ameaçada pelas rotas migratórias e transformar-se em indiferença, ou mesmo em contraposição aos seus aspetos dramáticos. Com efeito, para muitos, as férias representam somente diversão, descontração e despreocupação. Por isso, parece que é necessário erguer um muro invisível entre o mar dos náufragos e o dos turistas. Tende, pois, a ousadia de pensar de forma diferente. Pouco a pouco e com criatividade, conseguireis fazer que quem transcorre um período, mesmo de descanso, nesta ilha, se possa tornar mais humano ao confrontar-se com a vossa caridade, com o que o mar vos ensinou, com os encontros que vos educaram. Efetivamente, existe autêntico descanso onde se redescobre o sentido da vida; e existe bem-estar verdadeiro quando a economia é justa e fraterna. Nesta economia, o cuidado pela criação e pela amizade social fundem-se numa síntese, que hoje a humanidade procura.

A primeira leitura recordou-nos que, ao praticar a hospitalidade, «alguns, sem o saberem, hospedaram anjos» (Heb 13, 2). Sede, portanto, em pequena escala, uma profecia daquilo a que podemos aspirar juntos em grande escala. Os primeiros a beneficiar disso sereis vós e as vossas famílias, superando divisões e divergências que só a caridade pode dissolver. A paróquia, em particular, seja uma comunidade onde, à luz do Evangelho, aprendemos juntos a acolher, a acompanhar e a integrar, num estilo de comunhão.

Temos aqui, junto ao altar, a imagem da Nossa Senhora de Porto Salvo, padroeira de Lampedusa. Talvez sabais já que Santo Agostinho gostava de descrever a vida humana como uma navegação em mar tempestuoso e o seu destino como um porto protegido e seguro. Não nos deixemos dominar pelo medo, mas encaremos as dificuldades do dia a dia como oportunidades e um tempo de testemunho. Que a vossa fé, caríssimos, seja, pois, fortalecida por estes anos de provação e de empenho generoso. Que esta venerada imagem vos volte a falar com mesma a força de outrora, quando quem vos transmitiu a devoção se confiava à intercessão da Virgem com radical sinceridade. Todos nós temos em Deus um porto seguro, e cada comunidade cristã é chamada a ser um reflexo disso mesmo na terra. A vós, comunidades de Lampedusa e Linosa, nunca vos falte o alento da fé, da esperança e da caridade: «O’scià!» [Saudação típica dos habitantes de Lampedusa]."

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  Fonte: vaticanews.va     Fotos e vídeo: (@Vatican Media) 

Reflexão de frei Almir Guimarães para este sábado:

“Vinde a mim...”

Em nossas celebrações sempre ouvimos a Palavra. Palavra com P maiúsculo, uma Palavra que é uma pessoa. As leituras feitas nos chegam da noite dos tempos e, no entanto, parecem atuais e, mais do que isso, tocam-nos lá por dentro. Deitam em nós sementes de esperança. Alguma coisa pode acontecer, ou deve acontecer após sua acolhida. A Palavra clareia o horizonte e revigora os laços de que nos unem. As palavras pronunciadas chegam ao interior de cada um e de nós todos. Elas nos unem. Importante que sejam bem ditas, articuladas e, sobretudo, acolhidas no interior de cada um, audição precedida e acompanhada de delicado silêncio. Para tanto será importante querer ouvir, ter uma vontade intermitente que os sons penetrem em nosso projeto de vida e nos ajudem a viver. É a escuta que nos dá o sabor da Presença. A fé nasce da escuta.

Uma palavra do profeta, daquele que fala em nome de Deus. Desta vez Zacarias. Texto muito antigo. Texto esperançoso e cheio de júbilo. Jerusalém pode exultar de alegria. Vem um rei. Vem alguém que vai anunciar a paz às nações. Mas prestem atenção: “Eis que vem o teu rei ao teu encontro, ele é justo e ele salva; é humilde e vem montado num jumento, um potro, cria da jumenta”. Somos levados ao Domingo de Ramos em que Jesus entrou na sua cidade, montado numa cria da jumenta, num animalzinho que lhe fora emprestado. O rei que chega não desembarca de um carro triunfal. Somos convidados a olhar com carinho e estima as coisas simples, um adorável personagem que chega sem elevar voz e, segundo Zacarias, para quebrar o arco do guerreiro. Ele que veio montado num burrico.

Na Epístola aos Romanos somos convidados a pensar em nosso jeito de viver. Como discípulos do Senhor somos trabalhados pelo Sopro, pelo Espírito. Paulo lembra que Espírito mora em nós. Não podemos nos esquecer. O mesmo Espírito que pairara sobre o caos, guiara os profetas, preparara caminhos do Povo, fora enviado a uma moça de Nazaré, ungira Jesus no Jordão, esse Espírito foi derramado em nossos corações. Água, vento, sopro.

Uma oração… Jesus fala ao Pai com toda intimidade. Ele, esse Filho amado, gosta de estar com o Pai. Talvez um lamento. Jesus falara a todos, mas muitos não o ouviram. Jesus agradece a boa acolhida que lhe fora dada pelos simples, pelos pobres, por aqueles que se maravilham com o amor de Deus. Estamos diante do tema da revelação aos pequenos. “Eu te louvo, Pai, porque revelaste estas coisas aos pequeninos…”.

Humildes, pobres de coração… Não se trata de alimentar uma humildade neurótica. Os pobres são aqueles que não donos de projetos ou desejos. Sabem que precisam dos outros. Nos tempos da pandemia sentimos na pele como não somos os donos de nosso destino. Pobres são aqueles que desatravancam seu interior de falsas seguranças e se tornam alegremente dependentes dos irmãos e Senhor, o grande Doador. Esses escutam o Evangelho. Deixam-se levar por Jesus. Gostam de conjugar o verbo agradecer em todos os tempos e modos. O Pai tem um agrado todo especial para com esses pobres felizes. “Bendirei o Senhor, bendirei em todo o tempo…”

Jesus é o “primeiro dos pobres, dos simples, dos mansos. Carrega na frente a cruz sobre seus ombros; é sua proximidade que torna suportável e leve a cruz de quem o segue. A lei do Reino é a lei dos mais pequeninos e do mas pobre Deus escolhe os humildes, os simples os ignorantes… É a lei do grão de mostarda, dos inícios humildes e ocultos” (Missal Dominical da Paulus. p.737)

“Jesus promete descanso a quem assume o seu jugo (cf Mt 11, 29). Uma existência de crente que esteja permanentemente estressada pelos empenhamentos pastorais e se configure como atividade frenética que não conhece pausa nem descanso, esquece aquela confiança em Cristo que é a fonte do descanso na fadiga e de consolação nas contrariedades. E que dá forma a rosto do crente, não à imagem de gerentes hiperativos, mas do Cristo manso e humilde, paciente e benévolo” (Manicardi, p. 120).

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A arte de descansar

Acontece que mesmo nas férias podemos cair na tirania da agitação. Antes de mais nada, precisamos reencontrar-nos profundamente conosco mesmos e buscar o silêncio, a calma, a serenidade que tantas vezes nos faltam durante o ano, para escutar o melhor que há dentro de nós e ao nosso redor.

Precisamos lembrar que uma vida intensa não é uma vida agitada. Queremos ter tudo, açambarcar tudo e desfrutar de tudo. E nos fazemos rodear de mil coisas supérfluas e inúteis que afogam nossa liberdade e espontaneidade.

Precisamos redescobrir a natureza, contemplar a vida que brota perto de nós. Deter-nos diante das coisas pequenas e das pessoas simples e boas. Experimentar que a felicidade tem pouco a ver com as riquezas, os êxitos e o prazer fácil.

Precisamos lembrar que o sentido último da vida não se esgota no esforço, no trabalho e na luta. Pelo contrário, ele se revela a nós com mais claridade na festa, na alegria compartilhada, na amizade e na convivência fraterna.

(…)

Há um descanso que só se pode encontrar no mistério de Deus acolhido em nosso coração, seguindo os passos de Jesus. (Pagola, Mateus, p. 147-149)

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Oração

Hoje queremos expressar-te, ó Pai, nossa satisfação e alegria,
porque teu alento nos anima e guia,
tuas mãos nos levantam e sustentam,
e em teu regaço encontramos ternura e descanso.
Com o coração acanhado por tantos dons recebidos
e tantos horizontes abertos,
brota em nós com facilidade o louvor.
Inundados por teu amor e cheios de alegria te exaltamos.
Leva a bom termo o que começaste. (F. Ulíbarri)

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FREI ALMIR GUIMARÃES, OFM, ingressou na Ordem Franciscana em 1958. Estudou catequese e pastoral no Institut Catholique de Paris, a partir de 1966, período em que fez licenciatura em Teologia. Em 1974, voltou a Paris para se doutorar em Teologia. Tem diversas obras sobre espiritualidade, sobretudo na área da Pastoral familiar. É o editor da Revista “Grande Sinal”.

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sexta-feira, 3 de julho de 2026

Paróquia São José - Paraisópolis - MG:

Horários de missa e outros eventos
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Dia 4 - Sábado

9h -  Romaria arquidiocesana à Aparecida

19h -  Missa na matriz

19h -  Celebração nas comunidades São Francisco

19h -  Celebração na comunidade São Benedito de Áreas - Festa do Padroeiro

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Dia 5 - 14º Domingo do Tempo Comum

7h e 9h -  Missa na matriz

11h - Missa na igreja de Santa Edwiges

11h -  Missa da festa de São Benedito na comunidade de Áreas

15h - Missa na matriz

  Após esse horário, não  haverá missa na matriz e celebração na igreja de Santo Antônio

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14º Domingo do Tempo Comum:

Leituras e reflexão

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1ª Leitura: Zc 9,9-10

Leitura do Livro de Zacarias

Assim diz o Senhor: “Exulta, cidade de Sião! Rejubila, cidade de Jerusalém. Eis que vem teu rei ao teu encontro; ele é justo, ele salva; é humilde e vem montado num jumento, um potro, cria da jumenta. Eliminará os carros de Efraim, os cavalos de Jerusalém; ele quebrará o arco de guerreiro, anunciará a paz às nações. Seu domínio se estenderá de um mar a outro mar, e desde o rio até aos confins da terra”.

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Responsório: Sl 144

— Bendirei, eternamente, vosso nome, ó Senhor!

— Bendirei, eternamente, vosso nome, ó Senhor!

— Ó meu Deus, quero exaltar-vos, ó meu Rei,/ e bendizer o vosso nome pelos séculos./ Todos os dias haverei de bendizer-vos,/ hei de louvar o vosso nome para sempre.

— Misericórdia e piedade é o Senhor,/ ele é amor, é paciência, é compaixão./ O Senhor é muito bom para com todos,/ sua ternura abraça toda criatura.

— Que vossas obras, ó Senhor, vos glorifiquem,/ e os vossos santos com louvores vos bendigam!/ Narrem a glória e o esplendor do vosso reino/ e saibam proclamar vosso poder!

— O Senhor é amor fiel em sua palavra,/ é santidade em toda obra que ele faz./ Ele sustenta todo aquele que vacila/ e levanta todo aquele que tombou.

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2ª Leitura: Rm 8,9.11-13

Leitura da Carta de São Paulo aos Romanos

Irmãos: Vós não viveis segundo a carne, mas segundo o espírito, se realmente o Espírito de Deus mora em vós. Se alguém não tem o Espírito de Cristo, não pertence a Cristo.

E, se o Espírito daquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos mora em vós, então aquele que ressuscitou Jesus Cristo dentre os mortos vivificará também vossos corpos mortais por meio do seu Espírito que mora em vós. Portanto, irmãos, temos uma dívida, mas não para com a carne, para vivermos segundo a carne. Pois, se viverdes segundo a carne, morrereis, mas se, pelo Espírito, matardes o procedimento carnal, então vivereis.

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Evangelho: Mt 11,25-30

Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo, Jesus disse: «Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste essas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado. Meu Pai entregou tudo a mim. Ninguém conhece o Filho, a não ser o Pai, e ninguém conhece o Pai, a não ser o Filho e aquele a quem o Filho quiser revelar.

Venham para mim todos vocês que estão cansados de carregar o peso do seu fardo, e eu lhes darei descanso. Carreguem a minha carga e aprendam de mim, porque sou manso e humilde de coração, e vocês encontrarão descanso para suas vidas. Porque a minha carga é suave e o meu fardo é leve.»

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Reflexão do padre Johan Konings:

Jesus, a violência e a mansidão

Percebe-se a violência crescente no mundo. O terrorismo acorda nas pessoas a vontade de responder com violência. Está certo usar de violência para enfrentar a violência? Conforme o plano de Deus, não. Seu enviado é o mestre “manso” e humilde, cujo “jugo” é suave. O evangelho ensina a revelação da mansidão de Jesus aos pequeninos e mansos, os não-violentos. A pregação de Jesus provoca opção a favor ou contra. Contra ele optam as ambiciosas cidades da Galileia (cf. Mt 11,20-24). A favor, os humildes que escutam sua palavra e a põem em prática (Mt 11,25-30). Os que recebem sua revelação, não os que estão cheios de si, vão conhecer o interior de Jesus. Jesus é o mestre dos humildes, porque ele é, no sentido bíblico, manso, não opressor. E assim é também sua doutrina.

O profeta Zacarias já sabia que o Messias não poderia ser um rei violento e opressor (1ª leitura). Essa expectativa, Jesus a realizou de modo surpreendente. A missão do Messias não se realiza pela violência e pela opressão, mas pela mansidão de um pedagogo, que deixa penetrar, nos humildes, gota por gota, o espírito de amor e solidariedade, que faz crescer o verdadeiro Reino de Deus. Por isso, o mistério de Deus e de seu Filho se manifesta no coração dos humildes, enquanto os poderosos o rejeitam.

Jesus convida os “cansados”. Eles são muitos entre nós hoje. Os que já não aguentam o arrocho salarial, a subnutrição, a degradação da vida social e pública, a violência econômica, a exclusão em todas as suas formas. Será que Jesus tem uma solução para esses “cansados”? Contrariamente à pretensa “lei natural” do poder do mais forte, a comunidade de amor e solidariedade lhes oferece, mais e melhor do que o consumismo da tevê e dos shopping-centers, aquilo que os torna realmente felizes: valorização fraterna, sustento mútuo e, sobretudo, a certeza de “estar na linha de Deus”.

Aos cristãos cabe conscientizar o povo – pobres e ricos – de que a mera força e opressão não resolvem nada, mas afastam as pessoas do espírito de Cristo. E perguntemos: em nossas comunidades, existe verdadeira “mansidão”ou, pelo contrário, reinam práticas opressoras? Aplicarmos uma “pedagogia da mansidão”, deixando a grama crescer no chão em vez de puxá-la para fazer crescê-la mais rápido?

Jesus veio como libertador manso e humilde, não como revolucionário armado, porque o reino do amor fraterno não pode ser implantado pela violência, mas somente pela convicção interior. Essa é sua resposta ao poder da força, contra o qual o pequeno não pode resistir quando se quer medir com ele no mesmo nível.

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PE. JOHAN KONINGS nasceu na Bélgica em 1941, onde se tornou Doutor em Teologia pela Universidade Católica de Lovaina, ligado ao Colégio para a América Latina (Fidei Donum). Veio ao Brasil, como sacerdote diocesano, em 1972. Em 1985 entrou na Companhia de Jesus (Jesuítas) e, desde 1986, atuou como professor de exegese bíblica na FAJE, Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, em Belo Horizonte. Faleceu no dia 21 de maio de 2022. Este comentário é do livro “Liturgia Dominical, Editora Vozes.

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         Fonte: franciscanos.org.br  Imagem: vaticannewss.va  Banner: Frei Fábio M. Vasconcelos

Reflexão necessária e oportuna:

Iniciam as férias escolares  

Cardeal Orani João Tempesta - Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ)

Estamos em tempo de férias escolares. Algumas escolas já iniciaram o período de férias nesta semana, sobretudo as particulares, enquanto as redes municipais e estaduais entrarão em férias nos inícios de julho de 2026. Soma-se a isso o clima da Copa do Mundo, que envolve a todos e contribui para esse ambiente de descanso e lazer. 

O período de férias no meio do ano dura, em média, cerca de um mês, diferentemente das férias de fim de ano, que se estendem por aproximadamente dois meses. Essas férias do meio do ano servem para dar um respiro, fazer uma pausa e restaurar as forças para o segundo semestre que se aproxima. 

Nesse período de férias escolares das crianças, muitos pais também aproveitam para tirar férias juntamente com os filhos. Realizam passeios, visitam parentes e viajam. Muitas vezes, os pais dividem as férias ao longo do ano para aproveitar um tempo com os filhos em julho e em janeiro, sobretudo quando eles ainda são pequenos. 

É claro que nós, como cristãos católicos, tiramos férias da escola, do trabalho e de outros afazeres, mas não podemos tirar férias de Deus. Ou seja, devemos preservar, ao menos, a participação na Santa Missa dominical, que é um preceito para nós, católicos. Além disso, mesmo estando de férias, devemos procurar reservar alguns momentos do dia para a oração, pedindo e agradecendo ao Senhor, inclusive pela oportunidade de descansar e estar com a família. 

Se forem viajar para o interior, para outro local do Estado do Rio de Janeiro ou mesmo para outra região do país, procurem informar-se com vizinhos, parentes ou conhecidos sobre onde há uma Igreja Católica, para que, ao menos aos domingos, possam participar da Santa Missa. Os pais são os primeiros catequistas dos filhos, e a família é a Igreja doméstica. Por isso, cabe aos pais transmitir aos filhos os verdadeiros valores, sobretudo aqueles relacionados à fé. Os filhos seguirão o exemplo dos pais. Ao verem os pais rezando e participando da Missa, mesmo durante uma viagem, terão maior facilidade para fazer o mesmo no futuro. 

São os pais os principais responsáveis por transmitir a fé aos filhos. Eles não aprenderão os fundamentos da vida cristã na escola, na rua ou em qualquer outro ambiente, mas, antes de tudo, em casa e, consequentemente, na Igreja. Por isso, não tiramos férias de Jesus nem da Igreja; tiramos férias da escola e do trabalho. Não nos esqueçamos de Deus, pois Ele nunca se esquece de nós nem tira férias do cuidado por cada um de seus filhos. 

Algumas famílias optam por não viajar, seja por questões econômicas, seja por comodidade. Nesses casos, procurem participar da Santa Missa, especialmente aos domingos, em sua comunidade. Ao longo da semana, enquanto estiverem de férias, reservem um tempo para rezar o terço, meditar a Palavra de Deus e partilhar um pouco da vida com os filhos, netos ou afilhados, já que durante o restante do ano a rotina costuma ser muito corrida. Aproveitem também para desligar a televisão, o rádio e o celular por alguns instantes, fazendo silêncio para escutar a voz do Senhor. 

Muitas vezes, nas férias, preferimos acordar mais tarde, sobretudo as crianças. Passamos mais tempo diante da televisão, do celular, do videogame ou do computador. Também aproveitamos para organizar a casa, arrumar armários ou realizar tarefas que não conseguimos fazer durante o ano. No entanto, não nos esqueçamos de reservar, entre uma atividade e outra, entre um programa de televisão e outro ou entre um momento e outro no celular, alguns minutos para rezar e agradecer a Deus. Quem sabe seja também uma oportunidade para participar da Santa Missa durante a semana, e não apenas aos domingos. Talvez pela manhã, quando as crianças acordarem, ou à tarde, após o almoço, seja possível reservar um tempo para a oração. É justamente colocando Deus também no período de férias que pedimos a sua bênção sobre o segundo semestre que se aproxima. 

Agindo dessa forma, daremos um novo significado às nossas férias e às férias de nossa família, vivendo-as verdadeiramente como cristãos. Será também uma oportunidade de tornar as crianças pequenas missionárias. Quando retornarem às aulas, poderão contar aos colegas que, além dos passeios e momentos de lazer, também rezavam em família, meditavam a Palavra de Deus e participavam da Santa Missa. Assim, poderão incentivar outras crianças a fazerem o mesmo. 

Inclusive os diáconos, padres, seminaristas, religiosos e religiosas que tiram férias em julho ou em janeiro podem, naturalmente, viajar, descansar e estar com suas famílias, mas sem se esquecer de Deus e da oração. Para os religiosos, a participação na Santa Missa é diária, assim como os demais momentos de oração, como as Laudes, as Vésperas e a meditação da Palavra de Deus. Normalmente, iniciam o dia rezando as Laudes e participando ou celebrando a Santa Missa, aproveitando depois o restante do dia para o descanso, sem deixar de concluir a jornada com a oração das Vésperas. Portanto, como já dissemos, nunca tiramos férias de Deus, mas apenas das demais obrigações, pois é Ele quem conduz também o nosso descanso. 

Os religiosos conhecem bem as suas obrigações, mesmo durante as férias. Desde o seminário, os seminaristas aprendem a importância da oração e que ela jamais deve ser deixada de lado, mesmo nos períodos de descanso. Após a ordenação diaconal e, posteriormente, a sacerdotal, esse compromisso permanece. A celebração diária da Santa Missa continua sendo parte essencial da vida do sacerdote, inclusive durante as férias. 

Infelizmente, nos dias de hoje, percebemos que existem dificuldades cada vez maiores para tratar da religião em alguns ambientes escolares. Entretanto, é plenamente possível ensinar em casa aos filhos a importância da fé e da vivência católica. Eles poderão testemunhar esses valores também entre os colegas quando retornarem das férias. Se ensinarmos nossos filhos e netos a cultivarem o gosto pela oração, eles não desejarão rezar apenas durante as férias, mas pedirão, ao longo de todo o ano, que pais e avós interrompam por alguns instantes suas atividades para rezarem juntos. 

Portanto, meus irmãos, aproveitemos as férias para descansar e renovar as forças para o semestre que se aproxima. Mas que sejam férias verdadeiramente cristãs, nas quais, além do descanso, não nos esqueçamos da oração. Lembremo-nos sempre de que Deus nunca tira férias de nós; por isso, também não devemos tirar férias d’Ele. Aproveitemos esse tempo para aprofundar a nossa fé, ler algum documento da Igreja e, se as crianças frequentam a catequese, revisar com elas aquilo que aprenderam ao longo do semestre. Também seria muito proveitoso separar alguns filmes sobre a vida dos santos para que toda a família possa assisti-los reunida. Nada é melhor do que colocar, no centro das férias, o crescimento espiritual das famílias, especialmente das crianças. 

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  Fonte: cnbb.org.br   Vídeo: (@Vatican Media)