
Nos dias
passados, antes que o coração conhecesse o tempo, já pairava sobre o mundo uma
Palavra mais antiga que as estrelas. Dela vinham os começos, e por ela se
sustentavam os caminhos que viriam a existir.
Nós, porém,
labutávamos como viajantes sob névoa ouvindo nas dobras do vento e no rumor das
águas um eco distante; cada geração guardava, como podia, um fragmento dessa
lembrança. Fruto de uma voz que o mundo ouviu em sua juventude, uma promessa
que não se distrai daquilo que promete.
A voz ouvida não
era como a voz dos reis da terra, que juram ao amanhecer e ao cair da tarde já
esqueceram. Sua palavra não era como a fumaça, que se eleva por um momento e
logo se desfaz. Aquilo que ele pronunciava permanecia, aquilo que ele prometia
se cumpria. E assim, por muitas eras de eras, enquanto os povos erguiam torres,
quebravam alianças, atravessavam desertos e enterravam seus mortos, a promessa
feita seguia seu caminho oculto, como rio cavando por baixo da terra árida.
Então veio o
tempo em que a promessa se encarnou e já não quis apenas ressoar nos profetas e
nos sonhos da noite; tomou para si o peso do dia, o pó das estradas e o cansaço
dos que labutam.
Aquele que desde
sempre guardava o mundo em sua palavra desceu até ele. Não veio com o fulgor
diante do qual as muralhas se desfazem, nem com o estrondo que sucede ao
relâmpago. Veio em silêncio como chegam os viajantes ao cair da tarde, veio sob
o céu da humanidade, trazendo consigo a verdade.
Tomou para si a
condição dos que caminham entre aurora e sepulcro. Recebeu o peso das horas, a
sucessão dos dias, o frio das madrugadas e a lentidão dos passos humanos.
Aquele a quem
pertenciam os confins da terra quis conhecer o limite de um corpo, o compasso
do coração, a fome depois da jornada, a amizade ao redor do pão, o pranto
diante do túmulo, a solidão sob as árvores da noite. Assim, o Senhor entrou no
mundo como caminhante entre caminhantes.
Essa esperança
já estava escrita no barro de Adão e na canção secreta do criado. Entrar na
terra dos vivos é aceitar a travessia.
Ninguém nasce
para permanecer junto ao limiar. A humanidade recebe a vida como caminhante.
Aprende o nome das coisas andando, amadurece sob o peso dos dias, ama em meio
às guerras, perde sob o mesmo céu. Leva anos para compreender que existir é
mover-se entre promessa e cumprimento.
Por isso o Filho
caminhou.
Caminhou pelas
margens onde a água recolhe as vozes dos simples; entre colinas e ruas
estreitas. Caminhou entre doentes, pescadores, mães aflitas, crianças,
estrangeiros, pobres de espírito, homens endurecidos pelo costume e mulheres
que sofriam em silêncio. Uma marcha sem pressa na encosta do mundo.
O caminhar
recordou-nos de alguma coisa anterior ao medo. Os cegos ergueram o rosto, como
se sentissem um clarão sem nome. Os cansados descobriam que o peso de seus
fardos podia ser aliviado. Os pecadores, acostumados a viver a sombra,
ouviam em sua voz a seriedade de uma misericórdia antiga como o tempo. E ainda
assim sua presença trazia também inquietação, porque a luz sempre perturba as
fortalezas do orgulho e as casas da injustiça.
Muitos pensaram
que seu caminho terminaria como terminam os caminhos dos justos entre os
homens. Em recusa, em abandono e em sangue derramado sobre a terra ingrata. E,
de fato, para lá seus passos se encaminharam, embora poucos o soubessem. Cada
estrada por que passava inclinava-se secretamente para aquela descida; cada
monte anunciava uma colina de dor; cada repouso junto à mesa apontava para a
hora em que ofereceria não apenas pão, mas a si mesmo.
Assim o
Caminhante avançou para o coração escuro do mundo.
Não recuou
diante do ódio dos violentos, nem se desviou quando a amizade vacilou, nem se
escondeu quando a noite se fechou. Seus pés, que haviam atravessado aldeias e
campos, subiram também a estrada amarga. E ali a fidelidade do Altíssimo
mostrou sua grandeza além de toda medida.
A promessa
entrou na aflição, o amor na ferida, a vida na morte. O Caminhante estendeu-se
sobre a madeira como quem abre uma ponte sobre o abismo, para que os perdidos
encontrem passagem.
Veio então o
primeiro dia, e o mundo tremeu sob a dor de contemplar seu Senhor entregue às
mãos da violência. O céu se velou. A terra guardou silêncio. Muitos julgaram
que a antiga promessa havia enfim sido vencida, e que o túmulo seria a morada
da esperança.
Veio depois o
segundo dia, o mais estranho de todos os dias desde que o sol iluminou este
mundo. Era o dia imóvel, o dia fechado, o dia em que as portas pareciam pesadas
demais para serem abertas e o ar espesso para ser respirado. Nesse dia, o mundo
viu apenas a pedra, o sepulcro e a ausência. Mas as raízes da fidelidade
trabalhavam escondidas, para além do alcance da vista, como sementes sob a neve
ou fogo debaixo das cinzas.
Então amanheceu
o terceiro dia!
E nenhum canto,
nenhum brilho, nenhuma aurora nas montanhas desde o princípio do mundo se
igualou àquele romper. Pois a morte, que havia fechado suas mãos sobre reis e
mendigos, sábios e crianças, profetas e pecadores, descobriu que tocara aquele
a quem não podia reter. O sepulcro foi espalancado como se irrompe de águas
sufocantes. A pedra se partiu. O silêncio foi superado por uma vida que não
voltaria a perecer. E o Caminhante levantou-se.
Levantou-se
trazendo uma novidade ao alcance dos mortais. Em seu corpo glorioso, ainda
marcado pela memória dos cravos, brilhava a verdade que nenhuma palavra humana
pode pronunciar sem espanto. A promessa atravessou a noite inteira e permaneceu
inteira; a fidelidade passou pelo abismo e trouxe consigo a aurora; o Deus que
desceu ao mundo não voltou atrás, mas foi até o fim.
Desde então,
todos os caminhos da terra foram mudados, ainda que muitos o ignorem.
O Caminhante
chama agora outros caminhantes. Sua voz percorre campos, cidades, claustros,
desertos, lares e ruínas, dizendo a cada geração que se ponha de pé e siga. Não
chama apenas os fortes, os sábios, ou os puros. Chama os que têm pés cansados,
coração dividido, memória ferida e pouca esperança. Chama-os porque conhece a
estrada. Chama-os porque já entrou na noite do mundo e abriu uma Clareira.
Chama-os porque é caçador de vida e luz, e não de morte e escuridão.
Assim nasceram
os discípulos, como companheiros do Caminhante. A eles foi dado mais do que
doutrina; foi dado um caminho. Entregue mais do que consolação; foi confiada
uma marcha.
Tornamo-nos povo
da estrada, gente do terceiro dia, mulheres e homens que aprenderam a
reconhecer na sexta-feira a seriedade do amor, no sábado a paciência da
esperança e no domingo a vitória do coração sobre a dureza do tempo.
E ainda agora,
quando os reinos envelhecem, as guerras obscurecem o horizonte e muitos se
perguntam se a promessa se perdeu entre as ruínas do mundo, o que permanece é o
fato que o Altíssimo entrou na história como caminhante. Seus pés tocaram a
poeira. Sua voz chamou os perdidos. Sua fidelidade desceu até a morte. Sua vida
abriu a manhã do terceiro dia. E, todo aquele que o ouve, cedo ou tarde,
encontra dentro de si o vestígio dessa verdade.
Dom Lindomar Rocha Mota - Bispo de São Luís de Montes Belos (GO)
___________________________________________________________________________
Fonte: diocesesaoluiz.org.br