e uma trajetória pioneira
na música, na comunicação e na catequese
Ordenado no
contexto do Concílio Vaticano II, sacerdote construiu uma trajetória entre
novas linguagens e hoje, aos 85 anos, define sua fase atual como a do “sol
poente”.
Gabi Buonvechio
- Cidade do Vaticano
Em uma sociedade
marcada pela tecnologia e pelo acesso imediato à informação, o novo rapidamente
cede lugar ao próximo. A cada dia, surgem novos nomes no cenário religioso:
cantores, pregadores, missionários e influenciadores que encontram nas
plataformas digitais novos espaços de evangelização. O microfone, antes
restrito a poucos, tornou-se acessível a muitos. No palco físico ou virtual,
multiplicam-se as vozes.
Mas nem sempre
foi assim. Esse caminho está marcado por pessoas que, num passado não tão
distante, resolveram arriscar e assumir as consequências que o pioneirismo
exige.
Há seis décadas,
um sacerdote começou a trilhar um desses caminhos. Iniciativas que hoje parecem
corriqueiras, como abrir espaço para que jovens tocassem violão e cantassem na
Santa Missa, podiam ser recebidas, naquele contexto, como uma heresia. Em uma fase
de transformações na Igreja, marcado pelo Concílio Vaticano II, José Fernandes
de Oliveira, mais conhecido como Pe. Zezinho, scj, compreendeu que seu
ministério também seria chamado a dialogar com um novo tempo.
Anos depois,
aquele período de mudanças ajuda a compreender parte do percurso que Pe.
Zezinho, scj, construiu ao longo de seu ministério. O sacerdote completou 60
anos de sacerdócio nesta segunda-feira, 21 de setembro. O jubileu reúne
diferentes capítulos de uma trajetória que passa pela música, pela catequese,
pela comunicação e pela literatura.
Do Zezé ao
seminarista
Mineiro de
nascimento, José Fernandes de Oliveira deixou sua terra natal aos três anos de
idade, quando sua família se mudou para o interior de São Paulo em busca de
melhores condições de vida. Em Taubaté, cresceu a poucos metros do Convento
Sagrado Coração de Jesus, conhecido como Conventinho.
Foi na
convivência com os padres dehonianos que o desejo pelo sacerdócio começou a
ganhar forma. Aos 12 anos, ingressou no Seminário Menor da Escola Apostólica
Dehonista, em Lavras (MG).
Entre todos os
lugares por onde passou durante o período de formação, Corupá, em Santa
Catarina, ocupou um espaço particular em sua história. Foi ali, entre 1954 e
1959, que completou o ensino médio e viveu experiências que contribuíram para
que José Fernandes se desprendesse do menino Zezé.
Ainda
adolescente, o seminarista já demonstrava sensibilidade artística. Seu
interesse pela música, porém, nem sempre encontrou espaço entre os formadores.
Em determinado período, chegou a ser impedido de aprender a tocar instrumentos.
Podia participar de atividades e apresentações, mas muitas vezes apenas nos
bastidores.
Foi também nessa
época que começou a escrever. Diante das restrições, encontrou uma maneira de
continuar: criava pseudônimos e pedia a colegas que declamassem seus poemas. A
música e a escrita, que naquele momento pareciam apenas inclinações pessoais,
acabariam se tornando instrumentos centrais de seu ministério.
Um padre do
Sagrado Coração de Jesus
Em 1963, José
Fernandes foi enviado para Hales Corners, nos Estados Unidos, onde estudou
Teologia e aprofundou seus conhecimentos em Comunicação e Psicologia.
Em 17 de junho
de 1966, recebeu a ordenação diaconal pela imposição das mãos de dom William
Cousins. Três meses depois, em 21 de setembro, foi ordenado sacerdote pelo
mesmo bispo.
Para o
ministério que iniciava, escolheu como lema: “Ajoelhei-me na consciência da
minha pequenez, e o Senhor me ergueu pequeno, mas sacerdote para sempre”.
Sua ordenação
ocorreu no ano em que o Concílio Vaticano II chegava ao fim. A Igreja
atravessava um período de renovação, e Pe. Zezinho viveria seu ministério
justamente nesse contexto de novas linguagens e novas formas de participação na
vida eclesial.
Em 1967,
retornou ao Brasil e foi destinado ao Santuário São Judas Tadeu, no Jabaquara,
em São Paulo. Ali, dedicou-se especialmente aos jovens e às escolas,
participando da criação da pastoral da juventude.
Foi nesse
ambiente que seu modo de catequizar por meio da música, da arte e de uma
linguagem próxima do cotidiano ganhou maior projeção.
O trabalho
chamou a atenção da Ir. Maria Nogueira, então diretora da gravadora Paulinas.
Veio o convite para uma gravação de teste. A partir dali, a música se tornaria
uma das principais formas pelas quais o sacerdote comunicaria a fé.
Uma voz entre
diferentes realidades
Sua produção
musical percorre diferentes dimensões da experiência cristã. Há espaço para a
espiritualidade, mas também para questões sociais e fraternidade. Canções como
“Estou Pensando em Deus” e “Oração pela Família” convivem, em seu repertório,
com composições como “Por um Pedaço de Pão” e “Mataram Mais um Irmão”.
Essa diversidade
também fez com que, ao longo das décadas, suas posições fossem interpretadas de
maneiras distintas. Pe. Zezinho chegou a ser alvo de classificações políticas
opostas e, em determinado período, permaneceu na Espanha após ser perseguido pela
ditadura ao defender o direito dos jovens ao voto.
Em meio às
diferentes interpretações, uma referência marca sua trajetória: a Igreja em
diálogo com a realidade do mundo, como expressa a Gaudium et Spes, constituição
pastoral do Concílio Vaticano II.
Para Pe.
Zezinho, comunicar a fé também significa cantar as alegrias e as dores do povo.
O retorno às
origens
Aos 85 anos, o
sacerdote vive atualmente no Conventinho, em Taubaté, o mesmo endereço que
marcou sua infância e o despertar de sua vocação junto aos dehonianos. Depois
de décadas entre viagens, palcos, estúdios, livros e programas de TV e rádio, a
rotina tornou-se mais tranquila.
A atividade, no
entanto, permanece: Pe. Zezinho continua compondo, escrevendo e gravando. Ao
longo de 60 anos de sacerdócio, o que marca sua trajetória não é apenas o
volume da obra, com cerca de 1.800 canções e mais de 120 livros, mas a forma
simples como essa mensagem chegou às pessoas. Seja em orações feitas em
família, em celebrações ou em salas de aula, seu repertório traduziu a fé em
linguagem cotidiana e acompanhou diferentes gerações.
Ao falar sobre o
envelhecimento, o sacerdote recorre à imagem do sol poente:
“Envelhecer é a
fase do sol poente. A aurora é bonita, mas o poente também é rico de
experiências”
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Fonte: vaticanews.va Foto: (@Vatican Media