o ano
litúrgico acompanha os fiéis na história da salvação
Na Audiência
Geral desta quarta-feira, 12/08, Leão XIV aprofundou o capítulo V da
Constituição conciliar Sacrosanctum Concilium, dedicado ao ano litúrgico. O
Pontífice recordou a centralidade do domingo e da Eucaristia e ressaltou que,
ao longo do ano, a Igreja celebra a atualidade do mistério de Cristo e permite
aos fiéis participar cada vez mais profundamente dele.
Pela segunda
semana consecutiva, a Audiência Geral com o Papa Leão XIV foi realizada na
Basílica de São Pedro, nesta quarta-feira, 12 de agosto, enquanto Roma continua
enfrentando as altas temperaturas do verão no hemisfério norte. Em sua
catequese, o Santo Padre deu continuidade ao ciclo de reflexões sobre os
documentos do Concílio Vaticano II, detendo-se desta vez no capítulo V da
Constituição Sacrosanctum Concilium, dedicado ao ano litúrgico.
Cristo no centro
do ano litúrgico
Ao explicar o
significado do ano litúrgico para a vida dos fiéis, o Pontífice recordou o
ensinamento de Pio XII na Encíclica Mediator Dei: não se trata simplesmente de
recordar acontecimentos do passado, mas de entrar em contato com o mistério de
Cristo, que permanece vivo e atuante na Igreja.
“O ano litúrgico
deve, portanto, ser entendido como uma atualização constante da obra da
salvação, que Cristo realiza na história.”
Ao percorrer
esse ciclo, explicou Leão XIV, a Igreja permanece em contato com a ação
redentora do Senhor e coloca no centro de cada momento a celebração do mistério
pascal: o encontro com Jesus, morto e ressuscitado por nós.
O domingo, “dia
do Senhor”
O Papa dedicou
especial atenção ao domingo, definido pelos Padres conciliares como “o
principal dia de festa” e “fundamento e centro de todo o ano litúrgico”.
Citando São João Paulo II, recordou que o domingo é a “Páscoa semanal”, que
torna presente a Ressurreição de Cristo e orienta o tempo dos homens para a sua
segunda vinda. Para santificar o domingo, acrescentou, é fundamental a
celebração da Eucaristia. A comunidade cristã reunida torna visível sua
comunhão com o Senhor e testemunha sua pertença a Cristo e sua fidelidade à
Igreja:
“Esta assembleia
não pode ser substituída por uma presença meramente virtual, nem se reduz a uma
reunião meramente passiva.”
Nesse contexto,
Leão XIV dirigiu também um apelo para que sejam criadas condições que permitam
a participação na Missa inclusive daqueles que precisam trabalhar aos domingos.
Participar do
mistério de Cristo
Na parte final
da catequese, o Papa percorreu brevemente o desenvolvimento histórico do ano
litúrgico: da celebração da Páscoa semanal à Páscoa anual, passando pela
Quaresma, pelo tempo pascal e pelo ciclo do Natal, até a inserção da veneração
da Virgem Maria e da memória dos mártires e dos santos. Dessa forma,
concluiu Leão XIV, o ano litúrgico acompanha os fiéis ao longo de toda a
história da salvação, “desde a espera do Messias até à plenitude do mistério
pascal e à antecipação da glória futura”.
“Nele, a Igreja
celebra a atualidade salvífica do mistério de Cristo, permitindo aos fiéis
participar nele cada vez mais profundamente.” Por isso, ressaltou o Pontífice,
o ano litúrgico constitui “o princípio inspirador e o quadro de referência
essencial de toda a ação pastoral”.
nas exortações Familiaris Consortio e Amoris Laetitia
O mês de agosto
é dedicado na Igreja no Brasil às vocações, com diversas iniciativas de
reflexão, promoção e animação vocacional. Na segunda semana, iniciada com o Dia
dos Pais, o olhar é voltado para a vocação para a vida familiar. E neste ano em
que a Comissão Episcopal para a Vida e a Família da Conferência Nacional dos
Bispos do Brasil (CNBB) dedica à celebração de 45 anos da exortação
apostólica Familiaris Consortio e 10 anos da exortação Amoris Laetitia, o Portal da CNBB destaca 7 pontos que os
dois textos oferecem para falar dessa vocação à família.
Os dois textos
– um de 1981, escrito por São João Paulo II, e outro de 2016, escrito pelo
Papa Francisco – oferecem ao povo cristão e ao mundo os ensinamentos da Igreja
sobre a vocação ao amor e à vida familiar na realidade do mundo atual. Eles
oferecem indicações pastorais que ajudam os jovens a descobrirem a beleza
e a grandeza da vocação ao amor e ao serviço da vida, animam os
esposos em sua missão de cuidado mútuo e na criação e desenvolvimento dos
filhos, e estabelecem como deve ser o acompanhamento da Igreja à família
em suas diversas fases e situações.
A
exortação Familiaris Consortio apresenta em seu conteúdo diversos
chamados à família, em especial no que diz respeito ao anúncio do Evangelho e
ao crescimento progressivo da pessoa humana:
“A família
cristã, de fato, é a primeira comunidade chamada a anunciar o Evangelho à
pessoa humana em crescimento e a levá-la, através de uma catequese e educação
progressiva, à plenitude da maturidade humana e cristã”
Separamos sete
pontos que apontam a vocação familiar nos dois documentos:
1. Vocacionados
ao amor
A
fundamental e originária vocação do ser humano é ao amor, ensina
a Familiaris Consortio. Além de chamar o ser humano à existência, Deus o
chama para o amor.
“Enquanto
espírito encarnado, isto é, alma que se exprime no corpo informado por um
espírito imortal, o homem é chamado ao amor nesta sua totalidade unificada. O
amor abraça também o corpo humano e o corpo torna-se participante do
amor espiritual” (FC, 11).
2. Modo de
realizar a vocação da pessoa humana e sinal imperfeito da doação de Cristo pela
Igreja
A Igreja entende
que há dois modos específicos de realizar a vocação da pessoa humana na
sua totalidade ao amor: o Matrimónio e a Virgindade. “Quer um quer outro, na
sua respectiva forma própria, são uma concretização da verdade mais profunda do
homem, do seu “ser à imagem de Deus”, ensina a Familiaris Consortio.
Para um homem e
uma mulher que abraçam a vocação familiar, por meio do Sacramento do
Matrimônio, a plenitude desse amor simbolizada na doação total de Cristo por
sua Igreja.
Neste sacrifício
descobre-se inteiramente aquele desígnio que Deus imprimiu na humanidade do
homem e da mulher, desde a sua criação; o matrimónio dos batizados torna-se
assim o símbolo real da Nova e Eterna Aliança, decretada no Sangue de Cristo. O
Espírito, que o Senhor infunde, doa um coração novo e torna o homem e a mulher
capazes de se amarem, como Cristo nos amou. O amor conjugal atinge aquela
plenitude para a qual está interiormente ordenado: a caridade conjugal, que é o
modo próprio e específico com que os esposos participam e são chamados a viver
a mesma caridade de Cristo que se doa sobre a Cruz. (FC, 13)
Na
exortação Amoris Laetitia, o Papa Francisco fala dessa entrega de Cristo,
sinalizando que ela manifesta o “amor infinito do Pai”. Essa manifestação é que
permite compreender o mistério das famílias cristãs.
Ele também
compreende que o amor conjugal é um “sinal imperfeito do amor entre Cristo e a
Igreja”, por isso que o Sacramento do Matrimônio confere aos esposos, através
da Igreja, “a graça para testemunhar o Evangelho do amor de Deus”.
“Os esposos são,
portanto, para a Igreja a lembrança permanente daquilo que aconteceu na cruz;
são um para o outro, e para os filhos, testemunhas da salvação, da qual o
sacramento os faz participar” (AL, 72)
O matrimônio
cristão é um sinal que não só indica quanto Cristo amou a sua Igreja na Aliança
selada na Cruz, mas torna presente esse amor na comunhão dos esposos. (AL, 73)
3. Vocação que
tem frutos
A resposta à
vocação familiar é única e insubstituível, como os participantes do Sínodo de
2015 apontaram no relatório final daquela Assembleia, indicando alguns dos
frutos que a família gera para a Igreja e a sociedade:
“A beleza do dom
recíproco e gratuito, a alegria pela vida que nasce e a amorosa solicitude de
todos os seus membros, desde os pequeninos aos idosos”.
No mesmo
parágrafo da Amoris Laetitia, o Papa Francisco aponta o amor vivido nas
famílias como uma “força permanente para a vida da Igreja”.
“O fim unitivo
do matrimónio é um apelo constante a crescer e aprofundar este amor. Na sua
união de amor, os esposos experimentam a beleza da paternidade e da
maternidade; partilham projetos e fadigas, anseios e preocupações; aprendem a
cuidar um do outro e a perdoar-se mutuamente. Neste amor, celebram os seus
momentos felizes e apoiam-se nos episódios difíceis da história da sua vida”.
4. Habilita e
empenha na vocação de leigos
O Papa João
Paulo II escreveu na Familiaris Consortio que o Sacramento do Matrimônio
“habilita e empenha os cônjuges e os pais cristãos a viver a sua vocação de
leigos, e por tanto a ‘procurar o Reino de Deus tratando das realidades
temporais e ordenando-as segundo Deus'”, retomando um ensinamento da
Constituição Lumen Gentium, do Concílio Vaticano II.
Baseada num
casal de leigos, as famílias cristãs dão um contributo particular à causa
missionária da Igreja, segundo a Familiaris Consortio: “cultivando as vocações
missionárias nos seus filhos e filhas e, de uma forma mais generalizada, com
uma obra educativa que vai ‘dispondo os filhos, desde a infância para
conhecerem o amor de Deus por todos os homens'”.
Na família,
especialmente em relação aos filhos, os esposos também participam da obra
criadora de Deus: “gerando no amor e por amor uma nova pessoa, que traz em si a
vocação ao crescimento e ao desenvolvimento, os pais assumem por isso mesmo o
dever de a ajudar eficazmente a viver uma vida plenamente humana”.
5. Vocação que
chama à Santidade
O chamado à
santidade é uma “alta vocação” a que os cônjuges são chamados, segundo o plano
de Deus, lê-se na Familiaris Consortio. Isso se realiza “na medida em que
a pessoa humana está em grau de responder ao mandato divino com espírito
sereno, confiando na graça divina e na vontade própria”.
Já
na Amoris Laetitia, esse chamado à santidade é alimentado pelo dom do
Sacramento que faz com que a união entre o homem e a mulher sejam “a
representação real, através do sinal sacramental, da mesma relação de Cristo
com a Igreja”.
6. Vocação
fascinante e união plena
No
parágrafo 206 da Amoris Laetitia, o Papa Francisco fala do Matrimônio
como algo fascinante, para o qual os jovens precisam ser auxiliados pela Igreja
a fim de descobrirem o valor e a riqueza.
Nessa reflexão,
o matrimônio é entendido como “união plena que eleva e aperfeiçoa a dimensão
social da vida, confere à sexualidade o seu sentido maior, ao mesmo tempo que
promove o bem dos filhos e lhes proporciona o melhor contexto para o seu
amadurecimento e educação.
7. Vocação que
lança os noivos adiante
Os dois
documentos papais sobre a família apontam diversas indicações pastorais que
ajudaram a estruturar, inicialmente, e atualizar, num tempo mais próximo, a
Pastoral Familiar. Eles destacam o discernimento vocacional e a preparação para
a vida matrimonial, não como algo que é feito às vésperas de um cerimônia, mas
como um caminho que se inicia desde uma preparação remota até a preparação
próxima.
Isso nos aponta
o último ponto, o qual mostra que o acompanhamento devido ajuda os noivos na
sua preparação para receber o Sacramento do Matrimônio:
“Tanto a
preparação próxima como o acompanhamento mais prolongado devem procurar que os
noivos não considerem o matrimônio como o fim do caminho, mas o assumam como
uma vocação que os lança para diante, com a decisão firme e realista de
atravessarem juntos todas as provações e momentos difíceis”.
As redes sociais
apresentam-se como um novo espaço de evangelização, que exige atenção redobrada
de nós, católicos e cristãos. Precisamos de um discernimento profundamente
eclesial para não permitir o enfraquecimento da nossa consciência...
Sempre
compreendi a Cultura no sentido mais amplo, conforme aprendi, ao iniciar
meus estudos em Filosofia: ela é o conjunto de costumes, crenças, valores,
expressões artísticas, normas, hábitos e conhecimentos adquiridos e
transmitidos pelos membros de uma sociedade. Como ministro ordenado, exercendo
meu ministério e percorrendo diversas regiões do Brasil, em cursos e
formações sobre dízimo, pastoral urbana, gestão eclesial e, mais recentemente,
sobre os impactos da Inteligência Artificial na evangelização, tenho aprendido
muito com o modo de vida e as experiências de diferentes grupos humanos. Como
primeiro servidor da Diocese de Leopoldina, reconheço, diariamente, o
desafio de compreender a Cultura em suas luzes e sombras, especialmente no
contexto da realidade eclesial e dos ministros ordenados do Sudeste, nas Minas
Gerais.
Assim sendo, o
conceito de Cultura também se desdobra em diversas dimensões: política,
econômica, psicológica e religiosa, entre tantas outras.
É, justamente, a partir dessa compreensão, que proponho uma
reflexão sobre como as tecnologias digitais vêm influenciando, de forma gradual
e, muitas vezes, imperceptível, todos os setores da Sociedade, alcançando
também as instituições e as subculturas das tradições religiosas. Esse será o
nosso ponto de partida para compreender os desafios e as oportunidades que a
transformação digital apresenta à vivência da fé.
As redes sociais
apresentam-se como um novo espaço de evangelização, que exige atenção
redobrada de nós, católicos e cristãos. Precisamos de um discernimento
profundamente eclesial para não permitir o enfraquecimento da nossa
consciência, moldada, ao longo dos séculos, sob três pilares
fundamentais: a revelação judaico-cristã, o direito romano e a lógica
aristotélica. Nesse contexto, a cultura religiosa e as nossas estruturas
tradicionais são, simultaneamente, impactadas e desafiadas pelas
liberdades e ferramentas oferecidas pelas mídias digitais.
No cotidiano,
somos bombardeados por conteúdos de padres com mensagens rápidas da passagem
litúrgica do Evangelho, de momentos de aconselhamentos espirituais apoiados em
eclesiologias e cristologias diversas, bem como por grupos de mensagens
voltados a interesses específicos, como devoção religiosa particular e regras
morais. Paralelamente, comunicadores e pregadores digitais promovem
transmissões eucarísticas com ritos variados e teologias das mais diversas
vertentes, muitas vezes, direcionando o Evangelho a linhas ou controles
ideológicos específicos e reforçando diferentes noções de hierarquia,
autoridade e infinitas maneiras light de vivenciar a fé.
Esse ecossistema
digital atua, diretamente, sobre o conceito dos sacramentos, de maneira
especial, o casamento, a criação dos filhos e o comportamento ético dos fiéis,
impactando indivíduos, comunidades e instituições. Por meio de debates
teológicos, memes, imagens virais e hashtags, esses conteúdos
são, frequentemente, desvinculados de seus contextos institucionais e
doutrinários originais, moldando sutilmente os hábitos das comunidades
paroquiais e eclesiais missionárias. Assim, a influência digital passa a
redefinir espectadores, preceitos religiosos e morais e estilos de vida,
reconfigurando os contornos da própria fé.
Diante dessas
transformações, o papa Leão XIV, na introdução da encíclica Magnifica
Humanitas, recorda-nos que a Igreja é chamada a "orientar a ação para
Deus, de modo que, à sua luz, o pluralismo não se disperse na desordem"
(MH 10). O ambiente digital, com sua velocidade e apelos sutis, não deve
enfraquecer a consciência nem fragmentar a riqueza da nossa fé. Cabe a nós,
portanto, cultivar um discernimento, profundamente eclesial e
evangelizador, capaz de acolher as novas mídias sem renunciar aos alicerces da
tradição e à dignidade da vocação humana.
Dom Edson José Oriolo dos Santos - Bispo da Igreja Particular de Leopoldina MG
em qualquer circunstância, Jesus não nos abandona.
O Evangelho de
hoje ensina-nos algo importante: a não perdermos a esperança, nem mesmo nos
momentos de escuridão, quando nos sentimos impotentes perante os problemas que,
apesar dos nossos esforços, nos fazem pensar que estamos a recuar em vez de
avançar. Em qualquer circunstância, Jesus não nos abandona. Foi o que disse o
Papa no Angelus ao meio-dia deste domingo, 9 de agosto, XIX Domingo do Tempo
Comum, ao rezar a oração mariana com os fiéis peregrinos reunidos na Praça São
Pedro.
Quando o Mestre
entra no barco, a tempestade acalma, e então brota espontaneamente do coração
dos discípulos a profissão de fé: «Tu és, realmente, o Filho de Deus!» Foi o
que ressaltou o Santo Padre aos fiéis e peregrinos reunidos na Praça São Pedro
ao explicar o Evangelho deste XIX Domingo do Tempo Comum, no habitual encontro
dominical do Angelus. Na alocução que precedeu a oração mariana, Leão XIV
ateve-se ao Evangelho do dia (Mt 14, 22-33), em que Jesus, caminhando sobre as
águas do mar da Galileia, vai ter com os discípulos no meio de uma tempestade.
Após o milagre
dos pães e dos peixes, ressaltou o Papa, o Mestre obriga os seus discípulos a
embarcar e ir adiante para a outra margem, enquanto Ele se retira num monte,
sozinho, para rezar. Longe da costa, porém, encontram-se à mercê do vento e têm
dificuldade em avançar. Depois de uma experiência bem-sucedida, na qual tinham
sido protagonistas de um sinal prodigioso, encontram-se agora impotentes e
assustados perante a ameaça das ondas e do vento contrário.
No final da
noite, Jesus vai ao encontro deles sobre as águas agitadas, e, assustados,
confundem-no com um fantasma. Mas Ele diz-lhes: «Tranquilizai-vos! Sou Eu! Não
temais!»
A presença do
Senhor muda tudo
“A presença do
Senhor muda tudo: Pedro chega até mesmo a dar alguns passos sobre as ondas na
direção d’Ele; depois assusta-se, começa a afundar e Jesus salva-o. Quando o
Mestre entra no barco, a tempestade acalma, e então brota espontaneamente do
coração dos discípulos a profissão de fé: «Tu és, realmente, o Filho de Deus!»”
Para chegar a
este ponto, prosseguiu o Pontífice, não lhes bastou assistir a um milagre, nem
ter tido bom êxito diante das pessoas: tiveram de passar pela experiência da
própria fraqueza, reconhecendo nela a presença de Deus. Só assim conseguiram
verdadeiramente abrir os olhos e o coração à sua proximidade, reencontrando a
paz mesmo no meio da tempestade.
Um dia, mais
tarde, Jesus dir-lhes-á: «Se tiverdes fé e não duvidardes […], se disserdes a
este monte: “Tira-te daí e lança-te ao mar”, assim acontecerá». E foi
precisamente isso que eles experimentaram no lago: a paz de Cristo, que tinha
estado na montanha a rezar, alcançou-os no meio da fúria das águas.
Não perder a
esperança, nem mesmo nas horas de escuridão
Com efeito,
observou Leão XIV, este milagre ensina-nos algo importante: em primeiro lugar,
a não nos vangloriarmos pelo sucesso e a nunca nos considerarmos superiores aos
outros; depois, a não perdermos a esperança, nem mesmo nos momentos de
escuridão, quando nos sentimos impotentes perante os problemas que, apesar dos
nossos esforços, nos fazem pensar que estamos a recuar em vez de avançar.
“Em qualquer
circunstância, Jesus não nos abandona e, se o acolhermos humildemente no barco
da nossa vida – através da oração, dos Sacramentos e da escuta da Palavra –,
n’Ele encontraremos a paz, a luz e a força para o nosso caminho.”
Que Maria nos
ajude a viver assim, com confiante abandono em Deus, Ela que foi proclamada
bem-aventurada pela sua fé, rezou por fim o Santo Padre.
No Angelus deste
domingo, 9 de agosto, mais um veemente apelo do Santo Padre em favor da paz,
com um olhar para a trágica situação no Sudão, expressando sua proximidade
espiritual com todo o povo daquele país, e o pedido de uma cessação dos ataques
sobre os civis por parte da Rússia e da Ucrânia, lembrando que a guerra apenas
gera mais guerra e provoca enorme sofrimento: “É hora de interromper a espiral
de violência e dar espaço à diplomacia e ao diálogo para abrir caminho à paz”,
exorta o Papa.
Bombardeios russos na Ucrânia (ANSA)
“Continuo
acompanhando com preocupação a trágica situação no Sudão, especialmente na
cidade de El-Obeid. Ao expressar minha proximidade espiritual com todo o povo
daquele país, renovo meu apelo às autoridades para que garantam corredores
humanitários para a população civil. Ao mesmo tempo, exorto a comunidade
internacional a apoiar os esforços destinados a alcançar um cessar-fogo
imediato. Rezemos para que o Senhor sustente aqueles que sofrem, converta os
corações daqueles que semeiam a violência e conceda a tão esperada paz.”
Foi o veemente
apelo do Pontífice no Angelus deste domingo, 9 de agosto, ao manifestar sua
proximidade espiritual com todo o povo daquele país africano que já de há muito
vem sofrendo com as violências, pedindo um cessar-fogo imediato.
Ucrânia e
Rússia, outra realidade de sofrimento
O olhar do Santo
Padre voltou-se também para outra realidade de sofrimento, desta vez na Ucrânia
e Rússia, de onde continuam a chegar notícias dolorosas de pessoas inocentes
mortas e feridas, frisou o Papa:
Episódios
trágicos se sucedem, ou melhor, se multiplicam, causando cada vez mais vítimas
civis, entre as quais também crianças. Faço-me próximo das famílias das
vítimas, dos feridos e de todos aqueles que sofrem por causa do conflito em
curso. Diante de tanta dor, renovo um apelo veemente para que se respeite o
direito humanitário e cessem, por ambas as partes, os ataques que atingem alvos
civis. A guerra apenas gera mais guerra e provoca enormes sofrimentos. É hora
de interromper a espiral de violência e dar espaço à diplomacia e ao diálogo
para abrir caminho à paz.
Testemunhas
luminosas do Evangelho
Após ressaltar a
presença de muitos jovens, que escolhem dedicar alguns dias de férias a
atividades formativas e de amizade, como um sinal de esperança, Leão XIV
lembrou o evento dos jovens franciscanos que teve a alegria de encontrar na
última quinta-feira em Assis, recordando, em seguida, que nestes dias o
calendário litúrgico propõe algumas figuras luminosas de Santos e Santas,
convidando-os a conhecê-las melhor e a se deixarem entusiasmar por estas
testemunhas exemplares o Evangelho:
Ontem, São
Domingos, fundador dos Frades Pregadores; hoje, Santa Teresa Benedita da Cruz,
Edith Stein, carmelita assassinada em Auschwitz e co-padroeira da Europa;
amanhã, São Lourenço, diácono da Igreja de Roma; depois de amanhã, Santa Clara
de Assis, que abandonou uma vida confortável para seguir Jesus, pobre e
humilde, seguindo o exemplo de seu conterrâneo São Francisco. Queridos jovens,
deixai-vos inspirar por essas testemunhas exemplares do Evangelho!
Ao completar sua
30ª edição no Brasil, a Semana Nacional da Família de 2026 apresenta uma
proposta de altíssima densidade teológica e pastoral. Organizada pela Comissão
Nacional da Pastoral Familiar da CNBB, a edição deste ano traz como tema
“Família, torna-te aquilo que és” e como lema bíblico “O amor jamais acabará”
(1 Coríntios 13, 8).
Trata-se de um
perfil de proposta que se recusa a ficar na superficialidade: o texto convoca a
família a olhar para o espelho do Evangelho, redescobrir sua vocação original e
firmar-se no amor de Cristo diante das tempestades da contemporaneidade. O tema
escolhido para 2026 recupera uma das frases mais emblemáticas do Magistério da
Igreja sobre a família, formulada por São João Paulo II na Exortação Apostólica
Familiaris Consortio. A escolha é profética, pois coincide com a celebração dos
45 anos da Familiaris Consortio e com os 10 anos da Exortação Apostólica Amoris
Laetitia do Papa Francisco.
Esta proposta
imperativa exige da família cristã uma tomada de consciência, pois não é um
mero apelo moralista, mas ontológico. A família não precisa inventar uma nova
identidade a cada mudança de vento cultural; ela precisa assumir o que Deus já
planejou para ela. Deve configurar-se, assim, como um antídoto contra a
desconstrução. Em tempos nos quais o conceito de família é frequentemente
esvaziado, a Igreja recorda que a família é a célula mãe da sociedade e a
Igreja Doméstica.
A proposta para
este ano decorre de um chamado à conversão contínua, considerando que
“Tornar-se” é um verbo de processo. Significa que o lar é uma oficina diária
onde o perdão, a paciência, o diálogo e a fidelidade são lapidados
continuamente. O lema bíblico – “O amor jamais acabará” (1Cor 13,8) – extraído
do Hino à Caridade de São Paulo oferece o alicerce espiritual necessário para
sustentar o tema.
Diante de um
mundo onde os relacionamentos se tornaram frágeis, descartáveis e “líquidos”, a
Palavra de Deus proclama uma verdade contra-cultural: o amor autêntico é
definitivo. Este lema injeta esperança nos lares, lembrando que as crises
financeiras, as divergências de geração e os desgastes do tempo não têm a
última palavra quando a família está fundamentada no amor que vem da Cruz e da
Ressurreição.
A proposta da
Semana da Família 2026 toca nas feridas mais abertas da sociedade
contemporânea, oferecendo remédios pastorais concretos com respostas à crise de
pertencimento e conectividade vazia. As famílias de hoje vivem frequentemente
hiperconectadas digitalmente, mas profundamente isoladas no plano afetivo. O
apelo a “tornar-se o que se é” convida os lares a reestabelecerem a mesa do jantar, o abraço físico, a escuta atenta e a oração em conjunto como espaços sagrados de comunhão.
A proposta
caminha ainda lado a lado com a defesa da dignidade humana em todas as suas
etapas. A família que sabe quem é torna-se um escudo protetor para os filhos
contra as ideologias desumanizantes e um porto seguro de acolhimento e respeito
para os idosos. A vulnerabilidade econômica, o desemprego, as enfermidades
mentais (como ansiedade e depressão entre os jovens) e as tensões conjugais são
investidas reais. O lema “O amor jamais acabará” garante que a família católica
não está abandonada à própria sorte: na graça dos sacramentos, os casais e pais
encontram o sustento sobrenatural para recomeçar todos os dias.
A Semana
Nacional da Família de 2026 traça um perfil corajoso, denso e profundamente
esperançoso. Ela não mascara as dores das famílias, mas recusa-se a entregá-las
ao desânimo. Ao proclamar “Família, torna-te aquilo que és” e testemunhar que
“O amor jamais acabará”, a Igreja lança um clarão de luz sobre a sociedade: a
família é, e continuará sendo, a maior riqueza de um povo, o santuário da vida
e o caminho privilegiado para a santidade.
Dom Anuar Battisti - Arcebispo Emérito de Maringá (PR)
Não é fácil responder com sinceridade essa pergunta que Jesus faz a Pedro no momento em que o salva de afundar na água: “Por que duvidaste?”
Às vezes, as mais profundas convicções se desvanecem e os olhos da alma ficam turvos sem que saibamos exatamente por quê. Princípios aceitos até então como inalteráveis começam a cambalear. E desperta em nós a tentação de abandonar tudo sem reconstruir nada novo.
Outras vezes, o mistério de Deus parece oprimir-nos. A última palavra sobre a minha vida me escapa e é duro abandonar-me ao mistério: minha razão continua buscando insatisfeita uma luz clara e incontestável que não encontra, nem jamais poderá encontrar.
Não raras vezes a superficialidade e a leviandade de nossa vida cotidiana e o culto secreto a tantos ídolos nos submergem em graves crises de indiferença e ceticismo interior, com a sensação de termos realmente perdido a Deus.
Com frequência é nosso próprio pecado que enfraquece nossa fé, pois ela decai e se debilita quando nos afastamos de Deus. Se somos sinceros, temos que confessar que há uma distância enorme entre o crente que professamos ser e o crente que somos na realidade. O que fazer ao constatar uma fé às vezes tão frágil e vacilante em nós?
Primeiramente, não desesperar nem assustar-nos ao descobrir dúvidas e vacilações em nós. A busca de Deus se vive quase sempre na insegurança, na obscuridade e no risco. A Deus se busca “às apalpadelas”. E não devemos esquecer que muitas vezes “a genuína fé só pode aparecer como dúvida superada” (Ladislao Boros).
O importante é aceitar o mistério de Deus com o coração aberto. Nossa fé depende da verdade de nossa relação com Ele. E não é preciso esperar que nossas interrogações e dúvidas se resolvam para viver em verdade diante desse Pai.
Por isso é importante saber gritar como Pedro: “Senhor, salva-me”. Saber levantar nossas mãos vazias para Deus, não só como gesto de súplica, mas também de entrega confiante de alguém que se reconhece pequeno, ignorante e necessitado de salvação. Não esqueçamos que a fé é “caminhar sobre a água”, mas com a possibilidade de encontrar sempre essa mão que nos salva quando começamos a afundar.
JOSÉ ANTONIO PAGOLAcursou Teologia e Ciências Bíblicas na Pontifícia Universidade Gregoriana, no Pontifício Instituto Bíblico de Roma e na Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. É autor de diversas obras de teologia, pastoral e cristologia. Atualmente é diretor do Instituto de Teologia e Pastoral de São Sebastião. Este comentário é do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, da Editora Vozes.