Em comunhão com
a Igreja
Dom Odilo Pedro Scherer
– Cardeal Arcebispo de São Paulo
No dia 1º de
julho passado, aconteceu a excomunhão de dois bispos ligados à Fraternidade
Sacerdotal São Pio X, por terem ordenado quatro bispos novos, também ligados à
mesma Fraternidade, sem terem o Mandato Pontifício, com a aprovação e nomeação
dos novos bispos, sempre requerido para ordenar um novo bispo. Falou-se muito
na imprensa e nas mídias sobre o fato; mesmo assim, desejo apresentar algumas
reflexões e esclarecimentos. Afinal, não é todos os dias que acontecem cismas e
excomunhões na Igreja, graças a Deus!
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| Dom Odilo Pedro Scherer |
A excomunhão é a
pena mais grave que a Igreja impõe a um fiel (clérigo, religioso ou leigo) por
alguma falta muito grave cometida por ele, com a consequente exclusão da
comunhão com a Igreja. O efeito principal da excomunhão é a separação (cisma)
da comunhão visível com a Igreja e, portanto, também a suspensão dos direitos
que fazem parte da comunhão eclesial, como a recepção válida dos Sacramentos e,
para os clérigos, a exclusão da celebração dos Sacramentos. A excomunhão, em
determinados casos previstos pela norma da Igreja, é automática; em outros, ela
pode ser declarada e imposta a alguém após o devido processo canônico. No caso
que tratamos, ela foi automática.
Quem são e o que
fizeram os novos excomungados para receberem pena tão grave? A Fraternidade São
Pio X foi fundada em 1970 pelo Arcebispo francês Marcel Lefebvre, que não
aceitou o Concílio Vaticano II e se opôs ostensivamente à sua aplicação. Na
Fraternidade, foram sendo acolhidos outros católicos, que igualmente não
aceitam o Concílio Vaticano II e toda a Igreja pós-conciliar. Não se trata
apenas de rezar a missa em latim e de costas para o povo, na forma
pre-conciliar, mas de muito mais. De fato, significa não aceitar a Igreja
pós-conciliar, que consideram desviada e fora da autêntica “tradição” católica;
por isso, ela já não seria mais a verdadeira Igreja de Cristo. Alguns mais
extremados chegam a negar a legitimidade de todos os Papas que sucederam a Pio
XII: São João XXIII, São Paulo VI, João Paulo I, São João Paulo II, Bento XVI,
Francisco e Leão XIV. E isso, naturalmente, é muito grave e espalha uma grande
confusão, insegurança e divisão no meio da Igreja.
Se isso já não
bastasse, o próprio Dom Marcel Lefebvre, junto com outros dois bispos
cismáticos, ordenou alguns bispos da linha dele, sem a aprovação do Papa, em
1988, sendo excomungado junto com os outros bispos ordenantes e os bispos
ordenados por ele. E agora, dia 1º de julho, foram ordenados outros quatro
bispos novos, também sem o Mandato Pontifício, ou seja, sem a aprovação do
Papa, que é o único que aprova a nomeação de bispos na Igreja Católica. Leão
XIV, em diversas ocasiões, pediu e até suplicou paternalmente à Fraternidade
São Pio X que não o fizesse. E a Santa Sé deixou claro que, com esse ato, os
bispos ordenantes e os bispos ordenados incorreriam automaticamente na pena de
excomunhão. Ainda no dia 30 de junho, véspera da ordenação, o Papa Leão XIV fez
um último apelo aos responsáveis da Fraternidade para que não fizessem a
ordenação. Tudo inútil. A ordenação foi feita e, portanto, os autores desse ato
incorreram em excomunhão. O que a Santa Sé fez, através do Dicastério para a
Doutrina da Fé, foi apenas formalizar a excomunhão, já acontecida com a decisão
e atitude dos citados bispos.
Tratou-se,
portanto, de um ato cismático, ou seja, de separação da comunhão da Igreja,
para escolher autonomamente um caminho fora da comunhão da Igreja. E foi uma
desobediência gravíssima ao Papa e à própria Igreja, que tem a autoridade para
estabelecer as suas normas sobre a reta ordem e para assegurar o maior bem dos
fiéis. Sobre as questões doutrinais em jogo, é preciso ir mais a fundo e não
seria o lugar de fazê-lo aqui, mediante este breve artigo. Mas é certo que não
se tratou apenas de desobediência ao Papa e às normas da Igreja, mas foi ferida
a própria fé na Igreja Católica e no Espírito Santo, que conduz a Igreja
através dos seus legítimos Pastores, sobretudo em referência ao Papa, o que é,
de forma prática, negado pela Fraternidade São Pio X.
Nestes últimos
anos, a Igreja está refletindo muito sobre a “comunhão eclesial” que,
lamentavelmente, é ferida e até rompida de diversas formas. A comunhão eclesial
refere-se à aceitação da mesma fé, afirmada no “Creio em Deus Pai” e explicada
oficialmente pelo Magistério da Igreja, sobretudo no Catecismo da Igreja
Católica, nos documentos conciliares, nos escritos e na voz do Papa e dos
bispos em comunhão com ele. Mas refere-se também na comunhão litúrgica, ou
seja, na forma de celebrar os mistérios da fé na forma aprovada pelo Magistério
da Igreja. E a Igreja conclama a todos a viverem e testemunharem essa comunhão
na caridade fraterna, no serviço evangélico ao reino de Deus no mundo e na
esperança na salvação prometida.
A celebração da
Eucaristia representa o momento visível mais forte dessa comunhão invisível da
Igreja. Que nossas celebrações eucarísticas unam sempre mais a Igreja e que
todos os que se reúnem em torno do altar (que representa Cristo), ouvem a
Palavra de Deus e acolhem o Pão da Vida sejam sempre mais um só corpo, sem
divisões.
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No doloroso
impasse de ver alguém ser excluído da totalidade dos bens espirituais comuns
aos fiéis, nada nos resta dizer, senão, que estamos com Pedro. Afinal, Pedro
esteve com Jesus e, antes de tudo, Jesus esteve com Pedro.
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| Dom José Francisco |
Se as últimas
notícias nos encheram de tristeza, também nos deram a confiança na continuidade
de Pedro: essa continuidade traz a marca da identidade e da segurança.
Identidade e
segurança são achados preciosos no incerto momento atual. Nunca nossa espécie
esteve tão insegura de encontrar segurança. Nunca a marca da identidade faltou
tanto a uma geração consumidora de novidades.
O que mais pesa
no momento é a ruptura de alguns, apenas em prol de si mesmos, como se tivessem
encontrado a chave que abre todas as portas.
Quando nenhum
apelo parece suficiente para não rasgarem a túnica inconsútil de Cristo, é a
hora da verdade abrir caminho.
Por isso,
ficamos com Pedro onde encontramos a identidade e a segurança da verdade sob a
guarda do Espírito.
Nesse momento, o
Evangelho é a nossa luz.
Vem dele a
imagem, três vezes repetida, de Jesus andando sobre o lago de Cafarnaum, à
noite, com o vento contrário e sob forte neblina, na direção dos discípulos.
Todos estão amedrontados e Pedro assim como os outros.
Foi quando eles
se assustaram com um fantasma, antes de distinguir quem vinha caminhando sobre
as águas.
Então, Pedro sai
ao encontro de Jesus munido só das suas certezas. Mas aí, ele afunda e grita.
Jesus estende os braços e o agarra. Ao subirem à barca, o vento cessou.
A Igreja é feita
de homens dispostos a irem ao encontro de Jesus. Homens parecidos com Pedro. O
caminho, todos sabemos. Agora, só nos resta seguir.
Estamos com
Pedro na barca de Jesus. Estamos com ele aonde ele nos levar. Porque Pedro
sempre esteve com Jesus. E Jesus nunca o abandonou.
Dom José
Francisco Rezende Dias - Arcebispo Metropolitano de Niterói
João Dias



