diante de Deus não há lugar para invejas nem divisões
Deus tem
caminhos diferentes e pensamentos novos também para aqueles que se consideram
os primeiros e acham que conseguiram o que são por si mesmos, que mereceram os
resultados que alcançaram. No entanto, todos nós experimentamos alegria,
inteligência e futuro quando a lei do amor interrompe a do cálculo, a
experiência da misericórdia amplifica a do mérito, o dom da paz coloca fim às
rivalidades e nos aproxima na gratidão: disse o Papa no Angelus deste domingo
(20/09), XXV do Tempo comum.
Os desígnios de
Deus são infinitamente maiores e, digamos até, mais “humanos” do que aqueles
que nós, homens e mulheres marcados pelo pecado, podemos conceber e realizar.
Foi o que destacou o Papa no Angelus deste domingo (20/09) - XXV Domingo do
Tempo Comum -, comentando a liturgia do dia. Na alocução que precedeu a oração
mariana, o Pontífice ressaltou que pela boca do profeta Isaías, o Senhor nos dá
um grande motivo de esperança, dizendo que os seus pensamentos não são os
nossos pensamentos e os seus caminhos não são os nossos caminhos (cf. Is 55,
8). Por isso, acrescentou, eis – mais atual do que nunca – o apelo do profeta:
abandonar os nossos caminhos tortuosos e regressar ao Senhor, que é
misericórdia e perdão.
Atendo-se à
página do Evangelho dominical, o Santo Padre ressaltou aos 20 mil fiéis e
peregrinos presentes na Praça São Pedro que as parábolas de Jesus descrevem a
novidade do que Deus tem reservado para nós, mas, em geral, também manifestam a
resistência que estamos dispostos a opor a uma justiça mais generosa e a um
amor maior. Hoje, em particular - observou -, escutamos a história dos
trabalhadores chamados para a vinha (cf. Mt 20, 1-16): uns por um dia inteiro,
outros apenas por algumas horas, outros ainda já quase ao pôr-do-sol.
Mas o núcleo da
parábola está no momento da remuneração, quando o dono da vinha cumpre a
palavra dada aos trabalhadores da primeira hora e lhes paga conforme acordado,
embora queira que eles vejam a sua bondade tratando, diante dos seus olhos, os
últimos da mesma forma.
Há um pormenor
que não nos deve escapar. O dono dá ao capataz uma ordem precisa a seguir: os
trabalhadores devem ser pagos «começando pelos últimos até aos primeiros».
Assim, a reação negativa daqueles que tinham trabalhado o dia inteiro poderia
facilmente ter sido evitada; no entanto, foi intencional, porque a revelação da
bondade de Deus é para todos, não apenas para alguns.
Deus tem
caminhos diferentes e pensamentos novos também para aqueles que se consideram
os primeiros e acham que conseguiram o que são por si mesmos, que mereceram os
resultados que alcançaram. No entanto, todos nós experimentamos alegria,
inteligência e futuro quando a lei do amor interrompe a do cálculo, a
experiência da misericórdia amplifica a do mérito, o dom da paz coloca fim às
rivalidades e nos aproxima na gratidão.
Por fim, o
Pontífice afirmou que é uma graça sermos colaboradores de Deus, trabalhar na
Sua vinha, servir o Seu Reino de justiça e paz! Onde irrompe a novidade de
Deus, não há lugar para invejas nem divisões. Procuremos, pois, o Senhor
enquanto Ele se pode encontrar, invoquemo-Lo enquanto está perto; abandonemos
os caminhos tortuosos e os pensamentos iníquos! - disse Leão XIV ecoando as
palavras de exortação do profeta Isaías, concluindo em seguida:
Olhemos para a
nossa Mãe Santíssima: é uma criatura como nós, mas sem mancha; por isso, Ela
ajuda-nos a esperar em Deus e a confiar na sua misericórdia, para que os seus
caminhos se tornem os nossos caminhos e os seus pensamentos os nossos
pensamentos.
Provavelmente era outono e nos povoados da Galileia se fazia intensamente a vindima. Jesus via nas praças aqueles que não possuíam terras próprias, esperando para serem contratados para ganhar o sustento do dia. Como ajudar a essa pobre gente a intuir a bondade misteriosa de Deus para com todos?
Jesus contou-lhes uma parábola surpreendente. Falou-lhes de um senhor que contratou todos os jornaleiros que encontrou. Ele mesmo foi à praça do povo várias vezes, em horas diferentes. Ao final do dia, embora o trabalho tivesse sido absolutamente desigual, pagou a todos uma diária: o que a família deles precisava para viver.
O primeiro grupo protestou. Não se queixam de receber mais ou menos dinheiro. O que os ofende é que o senhor “tratou os últimos como a nós”. A resposta do senhor ao que é o porta-voz deles é admirável: “Vais ter inveja por eu ser bom?”
A parábola é tão revolucionária que certamente depois de vinte séculos não nos atrevemos ainda a tomá-la a sério. Será verdade que Deus é bom inclusive para aqueles que dificilmente podem apresentar-se diante dele com méritos e obras? Será verdade que em seu coração de Pai não há privilégios baseados no trabalho mais ou menos meritório daqueles que trabalharam em sua vinha?
Todos os nossos esquemas cambaleiam quando aparece o amor livre e insondável de Deus. Por isso achamos escandaloso que Jesus pareça esquecer-se dos “piedosos”, carregados de méritos, e se aproxime precisamente dos que não têm direito a recompensa alguma da parte de Deus: pecadores que não observam a Aliança ou prostitutas que não têm acesso ao templo.
Às vezes ficamos presos aos nossos cálculos, sem deixar a Deus ser bom para todos. Não toleramos sua bondade infinita para com todos: há pessoas que não o merecem. Achamos que Deus deveria dar a cada um o que ele merece e só o merecido. Menos mal que Deus não é como nós. De seu coração de Pai, Ele sabe dar também seu amor salvador a essas pessoas que nós não sabemos amar.
JOSÉ ANTONIO PAGOLAcursou Teologia e Ciências Bíblicas na Pontifícia Universidade Gregoriana, no Pontifício Instituto Bíblico de Roma e na Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. É autor de diversas obras de teologia, pastoral e cristologia. Atualmente é diretor do Instituto de Teologia e Pastoral de São Sebastião. Este comentário é do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, da Editora Vozes.
O livro de
Daniel foi escrito para que um povo ameaçado não perdesse a capacidade de
esperar. Há momentos em que a missão da Igreja não consiste em oferecer
respostas rápidas, mas em ajudar as pessoas a enxergarem além daquilo que estão
vivendo. A linguagem apocalíptica faz exatamente isso: retira o véu da
aparência e proclama que a história não está abandonada às forças que parecem
dominá-la.
Daniel vive em
terra estrangeira, conhece outra cultura, atua em estruturas de poder que não
compartilham sua fé e, ainda assim, conserva aberta a janela pela qual reza
voltado para Jerusalém. A Igreja também precisa saber viver assim:
profundamente inserida no tempo presente, dialogando com suas linguagens e
perguntas, sem fechar a janela que a mantém voltada para Deus. Nem isolamento,
nem dissolução. Presença fiel.
Daniel descreve
poderes que se animalizam quando transformam domínio, violência e arrogância em
critérios de governo. Pastoralmente, isso exige discernimento. Nem tudo o que
cresce é Reino de Deus; nem tudo o que impressiona é sinal de vitalidade; nem
todo poder é autoridade. A comunidade cristã precisa perguntar constantemente
se suas relações, decisões e estruturas refletem o rosto o Filho do Homem ou
reproduzem, ainda que discretamente, a lógica das feras.
Daniel inspira
igualmente uma pastoral capaz de permanecer na noite. Nossa sociedade tem pouca
paciência com processos longos. Queremos soluções imediatas para crises
familiares, para o sofrimento e a violência, para a diminuição da participação
comunitária e para as dificuldades na transmissão da fé. Daniel recorda que
existem noites que precisam ser atravessadas. Esperança cristã não consiste em
imaginar que tudo se resolverá rapidamente. Consiste em continuar caminhando
porque sabemos que a última palavra pertence a Deus.
Por isso,
precisamos também recuperar uma pastoral da eternidade. Muitas vezes, falamos
bastante sobre como viver melhor e pouco sobre o horizonte último da
existência. Daniel ousa falar de ressurreição, julgamento e vida eterna. A fé
cristã não oferece apenas recursos para suportar esta vida; anuncia que a
existência humana é chamada a atravessar a própria morte. Uma pastoral que
perde o horizonte da eternidade corre o risco de reduzir o Evangelho à ética, à
assistência ou à busca de bem-estar. Cuidamos da vida presente justamente
porque cremos que cada pessoa possui uma dignidade destinada que a morte não
pode anular e uma vocação à comunhão eterna com Deus.
Há ainda algo
muito bonito. Daniel não evangeliza pela força. Sua fidelidade interroga reis,
adversários e pessoas que não compartilham sua fé. Em uma cultura cansada de
discursos, talvez o anúncio mais fecundo seja o testemunho de uma comunidade
cuja maneira de viver desperte perguntas: por que cuidam dos pobres? Por que
não respondem ao ódio com ódio? Por que continuam unidos? Por que ainda
esperam? Urge encontrar cristãos cuja maneira de viver seja capaz de tornar
Deus novamente uma pergunta para o nosso tempo.
Daniel nos
oferece uma pastoral do amanhecer. A cova não é o último lugar de Daniel. A
perseguição não encerra sua história. Os impérios não possuem a palavra
definitiva, e nem mesmo a morte estabelece os limites do poder de Deus. Daniel
alimentou a esperança no Reino indestrutível, na ressurreição e na vitória
definitiva de Deus, esperança que os cristãos leem e compreendem à luz de
Cristo.
Daniel, assim,
ensina-nos a esperar sem fugir da realidade: ter os pés dentro da história, os
olhos atentos aos sofrimentos humanos e o coração voltado para o Reino. Porque
uma Igreja missionária é aquela que, mesmo quando todos enxergam apenas a
noite, já é capaz de discernir os primeiros sinais do amanhecer.
Dom Leomar Brustolin - Arcebispo de Santa Maria (RS)
Os pensamentos do Senhor nem sempre são os nossos pensamentos.
♦ Uma parábola após a outra: Jesus vai forjando a personalidade nova dos ouvintes de então e suas Palavras ressoam através dos tempos para nos atingir e formar em nós caracteres limpidamente parecidos com o Mestre. Ouvimos a parábola dos operários da última hora. Quanto já se escreveu sobre isso. Mesmo chegando no final o expediente ainda se pode ganhar o salário.
♦ Trata-se de uma parábola cujo ponto nevrálgico é: os pensamentos de Deus não batem com nosso jeito de medir as coisas e a vida. Isaías já lembra: os pensamentos do Senhor não são com os pensamentos dos homens. A parábola fala de convite e uns começaram a trabalhar bem cedo. Outros chegaram na última hora e todos tiveram o mesmo pagamento. Os que atravessaram o dia reclamaram. Mereciam mais. O patrão diz que o que havia combinado pagava e ponto final.
♦ Não conseguimos penetrar nos meandros do coração e do pensamento de Deus. Fomos aprendendo a nos aproximar do Senhor com carinho. Houve um momento em nossa vida, espero eu, que ele passou a ocupar um lugar importante na organização e nosso projeto de vida. Conhecemos essas pessoas que desde a juventude andaram se revestindo do Evangelho, vivendo no meio do mundo como se não fossem do mundo. Encanta-nos esta fidelidade que não pode deixar de encantar o Senhor. O Senhor lhes deu o amor de seu coração. São os operários da primeira hora. Os verdadeiros fiéis, mesmo é claro, conhecendo alguns arranhões.
♦ No caso da parábola os operários da primeira hora se revoltam. Movimento de inveja. Jesus fala de “olho mau”. Diz que ele, o Senhor, quer ser generoso. Quer ser bom. Qual o impedimento? Por que ele recebeu igual a mim? Estamos num movimento de inveja. Os especialistas dizem que inveja vem de in-videre que significa não ver, ver contra. Deus é bom porque quer ser bom. Os invejosos se dessolidarizam dos irmãos. Destroem a fraternidade.
♦ O Missal Festivo da Paulus, no comentário que faz da parábola, lembra o paradoxo das leis do Reino: “A lei do reino Deus parece ser o paradoxo, o inédito, inesperado. Deus escolhe as coisas frágeis e desprezíveis do mundo para confundir as fortes e bem consideradas. Não escolhe o primeiro, mas o último; não o justo, mas o pecador, não o sadio, mas o doente. Faz mais festa com ovelha perdida e reencontrada do que pelas noventa e nove que estão na segurança do aprisco. O Deus cristão é o “absolutamente-Outro”, o imprevisível (p. 806).
♦ A vida nos ensina que nem sempre no tempo da juventude conseguimos nos encantar pelo Senhor. Pode mesmo ter acontecido (e acontece) que começamos a “fazer parte de uma religião”, como nossos pais e muitos habitantes do lugar. Pode ter se dado que fomos batizados, participamos de missa, celebramos nosso casamento no sacramento. Fomos vivendo ritos e colocando palavras religiosas sem atentar para o Mistério de Deus e para a figura de Cristo que viessem arrancar uma alegre adesão de nosso interior. A vida foi nos levando e chegamos a experimentar situações muito delicadas e pecaminosas: falcatruas, desrespeito sério à pessoa do outro, infidelidades de toda sorte. Há os que chegaram ao fundo do poço e quase na iminência do desespero de viver. Ora, na undécima hora, quase no fim da existência, o Amor nos encurralou, entrou em nossa existência com a palavra alguém, com o pranto doído de arrependimento, com uma esposa bonita e santa. Levantamo-nos e passamos a ser, com toda alegria, operários da última hora quem sabe, quem sabe, com mais ardor do que os que haviam começado às nove da manhã.
“Um mal da vida comunitária e eclesial é a murmuração. Murmurando os trabalhadores da primeira hora afirmam que o patrão não tinha direito de comportar-se como se comportou. A murmuração não é uma palavra pessoal clara que exprime uma discordância leal, mas um movimento subterrâneo, que agrega diversas pessoas que se dão força mutuamente com seu mau humor, para depois se exprimirem em acusações e queixas” (Luciano Manicardi).
Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei. Eis que estavas dentro e eu fora. E aí te procurava e lançava-me nada belo ante a beleza que tu criaste. Estavas comigo e eu não contigo. Seguravam-me longe de ti as coisas que não existiriam se não existissem em ti. Chamaste, clamaste, e rompeste a minha surdez, brilhaste, resplandeceste e afugentaste a minha cegueira. Exalaste perfume e respirei. Agora anelo por ti Provei-te, e tenho fome e sede. Tocaste-me e ardi por tua paz. (Santo Agostinho)
FREI ALMIR GUIMARÃES, OFM, ingressou na Ordem Franciscana em 1958. Estudou catequese e pastoral no Institut Catholique de Paris, a partir de 1966, período em que fez licenciatura em Teologia. Em 1974, voltou a Paris para se doutorar em Teologia. Tem diversas obras sobre espiritualidade, sobretudo na área da Pastoral familiar. É o editor da Revista “Grande Sinal”.
partilhar um estilo pastoral, não uniformizar experiências
Na Assembleia da
Diocese de Roma na Basílica de São João de Latrão, o Papa convidou a Igreja em
Roma a encontrar Cristo, gerar comunidades "livres e reconciliadas" e
servir a cidade como um "local de missão". Leão XIV anunciou que aprovou
com alegria a abertura do processo de canonização do pe. Di Liegro, fundador da
Caritas de Roma, que nos ensina que o Evangelho não pode se encarnar sem
escutar a realidade.
O Papa Leão XIV
presidiu a Assembleia da Diocese de Roma, nesta sexta-feira (18/09), na
Basílica de São João de Latrão.
O Santo Padre
iniciou o seu discurso, recordando o que aconteceu na manhã de Páscoa, num
jardim e num túmulo vazio. Maria Madalena estava lá. "Um homem se aproxima
dela, que ela confunde com o jardineiro, e lhe faz duas perguntas: 'Por que
você está chorando? Quem você está procurando?'"
Leão XIV disse
que essas duas perguntas podem inspirar "o caminho imediato da Diocese de
Roma", pois podemos "ouvi-las hoje dirigidas à nossa Igreja e a toda
a cidade", sublinhou.
"Maria
Madalena acorda antes do amanhecer e corre para o túmulo, porque nela há vida,
há esperança! Assim, em Roma, há muitas pessoas que recomeçam a cada manhã, mas
também comunidades paroquiais, associações, movimentos, grupos e entidades
eclesiais que trabalham generosamente na evangelização, na caridade, no serviço
à oração litúrgica. Claro que, ao lado dessa riqueza, vocês reconheceram
honestamente algumas dificuldades. É o desânimo de quem não consegue encontrar
o Senhor. Uma experiência que partilhamos com muitos irmãos e irmãs, mas que
também vivenciamos. Às vezes, as propostas, as atividades e os encontros
se multiplicam, e o centro, o sentido evangélico do que fazemos, se
perde", disse o Papa.
“Em nossas
comunidades, podemos permanecer anônimos, invisíveis e incompreendidos, ou
podemos ser vistos, conhecidos e chamados pelo nome. E quem realmente encontra
Cristo, como Maria Madalena, sente o coração cheio e, então, não consegue ficar
parado; corre e vai anunciar. "Eu vi o Senhor!", diz a mulher aos
discípulos. Não uma lembrança, não um assunto privado, mas uma alegria profunda
que gera comunidade.”
Um momento do encontro na Basílica de São João de Latrão
O método da
verificação pastoral
O Papa disse que
não estava ali para apresentar "um novo programa pastoral". "Não
estamos começando do zero, e nada do que vivemos deve ser arquivado. Nosso
trabalho sobre as "doenças espirituais" nos ensinou a reconhecer o
que, em nossa vida eclesial, precisa de cura, correção ou conversão. O
Caminho Sinodal nos ensinou a escutar e discernir juntos, corresponsáveis pela única missão", disse Leão XIV,
convidando a desenvolver a dimensão "da
verificação pastoral".
“Verificar, sob
a luz do Espírito Santo, significa parar, reler o que aconteceu, reconhecer o
que deu frutos, compreender o que não funcionou e buscar juntos as razões.
Significa, em suma, estabelecer a verdade. Convido vocês a fazerem essa
verificação envolvendo toda a comunidade e, sempre que possível, ouvindo também
aqueles que não fazem parte dela e que veem as coisas, por assim dizer,
"de fora".”
Para fazer essa
verificação pastoral, o Papa sugeriu alguns pontos: primeiro, encontrar Cristo
e fazer com que os outros o encontrem. "A Igreja não existe para si mesma,
mas para conduzir cada pessoa a um encontro com o Senhor." Segundo, gerar comunidade.
"A partir da Páscoa de Cristo, nascem novas comunidades livres e
reconciliadas." Terceiro, habitar e servir a cidade. "Roma não é o
cenário indiferente de nossas comunidades: é o local da nossa missão."
"A essas três vertentes de verificação soma-se uma quarta, que abrange
todas elas: a formação do Povo de Deus", acrescentou o Papa.
“O Bispo não
está pedindo que vocês planejem novas atividades: está propondo um método
compartilhado de escuta, discernimento, verificação e conversão. Os conteúdos e
as prioridades continuam sendo de responsabilidade de suas comunidades, nos
cinco âmbitos que são a catequese e a iniciação cristã, juventude, família,
caridade e vocações, porque o objetivo é partilhar um estilo pastoral, não
uniformizar as experiências. Nesse sentido, as Prefeituras são chamadas a se
tornarem cada vez mais lugares de encontro, diálogo e elaboração pastoral
compartilhada.”
O testemunho de uma família
Inicia o
processo de canonização do pe. Di Liegro
Uma grande
aplauso saudou o anúncio de Leão XIV a propósito do início do processo de
canonização do pe. Luigi Di Liegro — fundador e posteriormente diretor da
Caritas de Roma e promotor, em 1974, da histórica conferência diocesana sobre
"A responsabilidade dos cristãos diante das expectativas de caridade e
justiça na cidade de Roma", conhecida como "a conferência sobre os
males de Roma".
Aos presentes,
representantes das 334 paróquias de um território de 881 quilômetros quadrados,
o Papa indicou o pe. Di Liegro como referência para uma ação pastoral autêntica
e concreta. O Pontífice reiterou que o testemunho desse sacerdote para a caminhada
da Igreja "não reside primordialmente nas obras que realizou: o padre
Luigi, antes de construir qualquer coisa, queria 'ver'. Em 1969, encomendou um
levantamento sobre a religiosidade romana, pois aprendera que não há
encarnação da mensagem sem escutar a realidade. Em seu último discurso, poucas
semanas antes de morrer, pe. Luigi disse à sua equipe: "O discernimento é
esta pergunta: Senhor, onde você está?"
Que os
presbíteros sejam homens de escuta
A seguir, o Papa
enfatizou que Roma precisa de sacerdotes que sejam homens de escuta e
discernimento, homens que permanecem "diante do Senhor" para conduzir
outros a um encontro verdadeiramente vivido com Ele. Sacerdotes que refletem
sua vocação todos os dias.
“O sacerdote não
concentra toda a responsabilidade em si mesmo. Ele reconhece carismas, forma
consciências e possibilita a corresponsabilidade dos leigos: não por falta de
força, mas por fidelidade à natureza da Igreja. Uma comunidade em que tudo
depende do pároco é uma comunidade frágil, e presidir não significa fazer tudo.
Significa gerar comunhão, valorizar as energias dos outros, conectar pessoas e
realidades e preservar a unidade.”
"O
sacerdote integra-se e deseja pertencer a uma comunidade capaz de compreender
seu entorno, compartilhar suas feridas e esperanças, responsável pela vida de
todos, mesmo daqueles que nunca entram na Igreja. Esta é a forma que a caridade
assume na presidência pastoral, e é o que impede uma paróquia de se
autopreservar", sublinhou.
O presbitério é
uma fraternidade
"O
presbitério não é a soma de sacerdotes que se reúnem para fins
organizacionais: é uma fraternidade, e é o primeiro lugar para verificar
se o que fazemos realmente gera comunhão", disse Leão XIV. O Papa convidou
os seminaristas a deixarem-se "formar tanto pelos livros, necessários para
o encontro com bons mestres, quanto pelos rostos: dos pobres, dos doentes,
do povo de nossas paróquias. A vocês e aos seus formadores, expresso minha
gratidão e minha confiança. Os jovens não se entregam a um papel, mas
seguem homens e mulheres felizes com o que são".
O Papa concluiu,
dizendo: "Queridos irmãos e irmãs de Roma, não tenham medo de se deixarem
chamar pelo nome! O Senhor vivo se deixa encontrar por quem, como Maria no
amanhecer da Páscoa, ainda têm a coragem de procurá-lo, mesmo em lágrimas,
mesmo na escuridão. Que a Mãe de Deus, Salus Populi Romani, os acompanhe".
Buscai o Senhor, enquanto pode ser achado; invocai-o, enquanto ele está perto. Abandone o ímpio seu caminho, e o homem injusto, suas maquinações; volte para o Senhor, que terá piedade dele, volte para nosso Deus, que é generoso no perdão.
Meus pensamentos não são como os vossos pensamentos, e vossos caminhos não são como os meus caminhos, diz o Senhor. Estão meus caminhos tão acima dos vossos caminhos e meus pensamentos acima dos vossos pensamentos, quanto está o céu acima da terra.
— Todos os dias haverei de bendizer-vos,/ hei de louvar o vosso nome para sempre./ Grande é o Senhor e muito digno de louvores,/ e ninguém pode medir sua grandeza.
— Misericórdia e piedade é o Senhor,/ ele é amor, é paciência, é compaixão./ O Senhor é muito bom para com todos,/ sua ternura abraça toda criatura.
— É justo o Senhor em seus caminhos,/ é santo em toda obra que ele faz./ Ele está perto da pessoa que o invoca,/ de todo aquele que o invoca lealmente.
Irmãos: Cristo vai ser glorificado no meu corpo, seja pela minha vida, seja pela minha morte. Pois, para mim, o viver é Cristo e o morrer é lucro. Entretanto, se o viver na carne significa que meu trabalho será frutuoso, neste caso, não sei o que escolher.
Sinto-me atraído para os dois lados: tenho o desejo de partir, para estar com Cristo — o que para mim seria de longe o melhor — mas para vós é mais necessário que eu continue minha vida neste mundo. Só uma coisa importa: vivei à altura do Evangelho de Cristo.
Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo São Mateus
«De fato, o Reino do Céu é como um patrão, que saiu de madrugada para contratar trabalhadores para a sua vinha. Combinou com os trabalhadores uma moeda de prata por dia, e os mandou para a vinha.
Às nove horas da manhã, o patrão saiu de novo. Viu outros que estavam desocupados na praça, e lhes disse: ‘Vão vocês também para a minha vinha. Eu lhes pagarei o que for justo’. E eles foram.
O patrão saiu de novo ao meio-dia e às três horas da tarde, e fez a mesma coisa. Saindo outra vez pelas cinco horas da tarde, encontrou outros que estavam na praça, e lhes disse: ‘Por que vocês estão aí o dia inteiro desocupados?’ Eles responderam: ‘Porque ninguém nos contratou’. O patrão lhes disse: ‘Vão vocês também para a minha vinha’.
Quando chegou a tarde, o patrão disse ao administrador: ‘Chame os trabalhadores, e pague uma diária a todos. Comece pelos últimos, e termine pelos primeiros’. Chegaram aqueles que tinham sido contratados pelas cinco da tarde, e cada um recebeu uma moeda de prata. Em seguida chegaram os que foram contratados primeiro, e pensavam que iam receber mais. No entanto, cada um deles recebeu também uma moeda de prata.
Ao receberem o pagamento, começaram a resmungar contra o patrão: ‘Esses últimos trabalharam uma hora só, e tu os igualaste a nós, que suportamos o cansaço e o calor do dia inteiro!’ E o patrão disse a um deles: ‘Amigo, eu não fui injusto com você. Não combinamos uma moeda de prata? Tome o que é seu, e volte para casa. Eu quero dar também a esse, que foi contratado por último, o mesmo que dei a você. Por acaso não tenho o direito de fazer o que eu quero com aquilo que me pertence? Ou você está com ciúme porque estou sendo generoso?’ Assim, os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos.»
O evangelho de hoje é “escandaloso”. O patrão sai a contratar diaristas para a safra da uva. Sai de manhã cedo, às nove, ao meio-dia, às três da tarde, e ainda uma vez às cinco da tarde. Na hora do pagamento, começa pelos últimos contratados, paga-lhes a diária completa; e depois, paga a mesma quantia aos que passaram o dia todo no serviço…
Será justo que alguém que trabalhou apenas uma hora pode ganhar tanto quanto o que trabalhou o dia inteiro?
Alguém que viveu uma vida irregular, mas se converte na última hora, pode entrar no céu igual aos piedosos? Aos que se escandalizam com isso, o “senhor”responde: “Estás com inveja porque eu estou sendo bom?” Quando Deus usa da mesma bondade para com os que pouco fizeram e para com os que labutaram o dia todo, ele não está sendo injusto, mas bom. Já no Antigo Testamento, Deus se defende contra a acusação de injustiça por perdoar ao pecador (1ª leitura).
Deus não pensa como a gente. Nós raciocinamos em termos de discriminação; Deus, em termos de comunhão. Nós pensamos em economia material, Deus segue a economia da salvação. Sua graça é infinita; ninguém a merece propriamente, e todos podem participar, por graça, se estão em comunhão com ele. Nós, facilmente achamos que os outros não fazem o suficiente para participar do Reino; não se engajam, não se esforçam… Mas quem faz o suficiente? O que importa não é o quanto fazemos: será sempre insuficiente! Importa que queiramos participar, ainda que tarde. E uma vez que está participando, a gente faz tudo…
O dom de Deus não pode ser merecido; é graça. Claro, quem trabalha na vinha do Senhor, se esforça. Mas esse esforço não é para “merecer”, mas por gratidão e alegria, por termos sido convidados, ainda que tarde – pois, em relação ao antigo Israel, nós “pagãos” somos os da undécima hora… Nosso empenho não é trabalho forçado, mas participação. Não somos movidos pelo moralismo, mas pela graça. Se entendermos bem isso, valorizaremos mais aquela humilde, mas autêntica boa vontade daqueles que sempre foram marginalizados, na Igreja e na sociedade, e que agora começam a participar mais plenamente: a Igreja dos pobres.
Então, tem ainda sentido falar em “merecer o céu”? Estritamente falando, é impossível. O céu não se paga. Mas se essa expressão significa nossa busca de estar em comunhão com Deus e viver em amizade com ele, tem sentido. Inclusive, essa busca já é o começo do céu.
PE. JOHAN KONINGS nasceu na Bélgica em 1941, onde se tornou Doutor em Teologia pela Universidade Católica de Lovaina, ligado ao Colégio para a América Latina (Fidei Donum). Veio ao Brasil, como sacerdote diocesano, em 1972. Em 1985 entrou na Companhia de Jesus (Jesuítas) e, desde 1986, atuou como professor de exegese bíblica na FAJE, Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, em Belo Horizonte. Faleceu no dia 21 de maio de 2022. Este comentário é do livro “Liturgia Dominical, Editora Vozes.