Após a
Sacrosanctum Concilium, agora é a vez da Constituição Pastoral Gaudium et Spes
ser aprofundada pelo Papa Leão XIV em seu ciclo de catequeses sobre os
documentos do Concílio Vaticano II. O texto trata da relação da Igreja com o
mundo contemporâneo, buscando "responder, de modo adaptado em cada
geração, às eternas perguntas dos homens acerca do sentido da vida".
A Audiência
Geral desta quarta-feira voltou para a Praça São Pedro, depois de quatro
semanas sendo realizada na Basílica Vaticana. Diante de cerca de 15 mil fiéis,
Leão XIV introduziu um novo documento do Concílio Vaticano II, a
Constituição Pastoral Gaudium et spes.
O texto
aprofunda um tema fundamental, que é a relação da Igreja com o mundo
contemporâneo, reconhecendo "uma nova ordem de relações
humanas", como definiu São João XXIII. A Constituição
Conciliar Gaudium et spes começa por declarar que a Igreja sente como
suas "as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens
de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem" (GS 1).
"Essa
partilha com a humanidade é o caminho que Cristo pede à Igreja", afirmou
Leão XIV.
“É uma partilha
que nos convida a sair de toda a passividade e indiferença perante os
acontecimentos, a história e a vida das pessoas, sobretudo perante a mudança
rápida e profunda que hoje vivemos. Não é possível permanecer como espectadores
desinteressados; pelo contrário, é preciso escutar com o coração, deixar-se
interpelar, envolver-se.”
Papa saúda os recém-casados
A ilusão de que
a guerra é um caminho eficaz para construir a paz
Os fiéis são
então chamados a assumir as dificuldades dos irmãos, "sobretudo daqueles
que são oprimidos pela injustiça, pela discriminação e pela
violência". Nesse sentido, acrescentou o Pontífice, a proximidade com
a humanidade abre caminho a uma leitura mais profunda dos acontecimentos e da
própria Revelação e, nessa mesma perspectiva, a Gaudium et
spes recorda o «dever de a Igreja investigar a todo o momento os sinais
dos tempos, e interpretá-los à luz do Evangelho» (GS 4).
Esta
Constituição conciliar, portanto, exortou a Igreja a um compromisso permanente
de conversão e a desmascarar as contradições que caracterizam o mundo
contemporâneo. Como exemplo, o Papa citou o progresso científico e tecnológico
que oferece sempre novas possibilidades, mas apenas a alguns; ou ainda, uma
maior disponibilidade de riquezas desproporcionamente distribuídas; ou ainda,
diante de ações que ameaçam o futuro do planeta, a incapacidade de renunciar ao
consumo egoísta e à ilusão de que a guerra é um caminho eficaz para construir a
paz.
Papa se entretém com os fiéis
A Igreja é
chamada a servir o ser humano
Assim, concluiu
Leão XIV, numa época de profundas mudanças, "das quais decorrem
desequilíbrios preocupantes, a Igreja é chamada a servir o ser humano,
escutando e acolhendo as questões mais profundas do seu coração e os anseios
que nele habitam, indicando em Cristo «a chave, o centro e o fim de toda a
história humana» (GS 10)".
“Queridos irmãos
e irmãs, que a alegria e a esperança – gaudium et spes – sejam as
características distintivas de uma Igreja que anuncia e testemunha o Evangelho,
aproximando-se das mulheres e dos homens do nosso tempo.”
A intenção de
oração do Papa para o mês de setembro convida a reconhecer a água como um dom
de Deus e um direito "sem fronteiras".
O Papa Leão XIV
dedica a sua intenção de oração do mês de setembro ao cuidado da água, neste
início do Tempo da Criação.
O Pontífice
inicia sua mensagem de vídeo divulgada, nesta terça-feira (1°/09), dando graças
ao "Senhor da Vida" pelo "dom da água, fonte de fecundidade,
frescor e esperança. Ela sacia a sede, fecunda a terra e cura as feridas".
É "símbolo da tua graça e do teu amor que nos renovam através do
Batismo", diz ainda o Papa, convidando os fiéis e as pessoas de boa
vontade a rezar para que a humanidade aprenda a cuidar da água "com
gratidão, justiça e responsabilidade".
“Pedimos-te
perdão porque fizemos dela mercadoria, esquecendo que é um presente universal,
um direito sem fronteiras, destinado a todos os teus filhos. Com dor vemos
tantos irmãos e irmãs sem acesso a água potável, que caminham quilômetros para
a encontrar, e que adoecem por causa da sua escassez.”
Leão XIV pede ao
Espírito Santo que "nos transforme em peregrinos do essencial, capazes de
viver com sobriedade, denunciando o desperdício e a contaminação, e defendendo
o direito de cada irmão e irmã a beber sem medo, sem desigualdade".
O Papa conclui a
mensagem de vídeo, dizendo:
“Que o nosso
cuidado com a água seja sinal de amor ao Criador e compromisso com a vida dos
mais pobres, educando novas gerações que valorizem e protejam os recursos da
Terra.”
A intenção do
Papa surge perante uma realidade confirmada pelos dados internacionais. Segundo
o relatório "Progressos em relação à água potável, saneamento e higiene
domiciliares" 2000-2024, do Programa Conjunto de Monitorização (JMP) da
Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Fundo das Nações Unidas para a Infância
(UNICEF), apresentado em agosto de 2025, 2,1 bilhões de pessoas continuam sem
acesso seguro à água potável - por exemplo, com acesso intermitente,
insuficiente, demasiado dispendioso ou a grande distância -, e 106 milhões
dependem diretamente de rios, lagos ou outras águas superficiais sem
tratamento. Embora, entre 2015 e 2024, a cobertura mundial de acesso seguro à
água potável tenha aumentado de 68% para 74%, o mesmo relatório alerta que,
para alcançar o acesso universal até 2030, os países de baixo rendimento terão
de progredir a um ritmo sete vezes superior ao atual.
A falta de água
potável está, além disso, intimamente ligada à ausência de saneamento e de
higiene: 3,4 bilhões de pessoas não dispõem de saneamento gerido de forma
segura, 1,7 bilhão de pessoas carecem de serviços básicos de higiene em casa e
611 milhões não têm nenhuma instalação para lavar as mãos, segundo os dados da
OMS/UNICEF (agosto de 2025). Além disso, estima-se que 1 milhão e 400 mil
mortes por ano estejam associadas à água insegura e à falta de saneamento.
Nesta
terça-feira (1°/09), o Papa inaugura o Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da
Criação, data que marca também o início do Tempo Ecumênico da Criação, que se
concluirá em 4 de outubro, Festa de São Francisco de Assis, e tem como lema
"Água Viva".
A missa por
ocasião do Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação foi celebrada nos
jardins pontifícios de Castel Gandolfo, mais precisamente no Jardim de Nossa
Senhora do Borgo Laudato si’. Foi utilizado o formulário da “Missa pelo Cuidado
da Criação", fruto do caminho compartilhado entre os Dicastérios para o
Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, para o Culto Divino e a Disciplina
dos Sacramentos, para a Doutrina da Fé e para a Promoção da Unidade dos
Cristãos.
Em meio à
natureza dos jardins pontifícios de Castel Gandolfo, Leão XIV presidiu na tarde
desta terça-feira (1º/09) à Santa Missa por ocasião do Dia Mundial de
Oração pelo Cuidado da Criação, que chega à sua 11ª edição.
O dia 1º de
setembro marca também, todos os anos, o início do Tempo da Criação -, caminho
ecumênico de oração e comprometimento com o cuidado da Casa Comum, que se
encerra em 4 de outubro, festa de São Francisco de Assis, de quem celebramos os
800 anos de falecimento. Trata-se de um período em que a Igreja, juntamente com
as outras comunidades cristãs, é convidada a renovar seu compromisso com a
Criação, deixando-se guiar pela oração, pela conversão e por gestos concretos
de cuidado.
Colocar em
"modo silencioso" as obras humanas para ouvir a voz da criação
Em sua homilia,
o Pontífice comentou as leituras escolhidas especialmente para este Dia, em que
nos são dirigidos dois convites à contemplação das obras do Senhor. O Livro da
Sabedoria exorta a contemplar a beleza e o poder da criação para que possamos apreciar
o seu Artífice (cf. Sb 13, 1-9). O Salmo 18 incentiva a erguer o
olhar para contemplar os céus que proclamam a glória de Deus e o firmamento que
anuncia a obra de suas mãos. "Toda a criação fala-nos da grandeza do
Criador", recorda o Santo Padre, desde que o olhar e o coração estejam
abertos a tão grande mistério. Também o texto evangélico de Mateus
(cf. Mt 6, 24-34) convida à contemplação da criação, sublinhando o
amor especial do Senhor pelo ser humano.
Inspirado nesses
textos sagrados, a exortação do Papa é para reservar alguns minutos de pausa na
agitação das atividades quotidianas para saborear a grande harmonia da qual
fazemos parte.
“Coloquemos em
“modo silencioso” todos os ruídos das obras humanas para ouvir a voz melodiosa
da criação, na qual Deus, Autor de todas as coisas, nos fala.”
Papa se dirige ao Borgo Laudato si'
Ainda não é
tarde demais!
Para o Santo
Padre, este exercício contemplativo constitui um primeiro passo para uma
autêntica conversão ecológica, onde os efeitos do nosso encontro com Jesus
Cristo se tornam evidentes na nossa relação com o mundo que nos rodeia.
"Da
contemplação da criação e do encontro com o Criador nasce a consciência do
nosso lugar especial no maravilhoso plano de Deus e da nossa responsabilidade
pessoal e coletiva no cuidado da harmonia original. Assim, da tomada de
consciência das nossas falhas e erros, nasce um esforço renovado para restaurar
as relações entre as criaturas segundo a vontade do seu Autor", afirmou
Leão XIV.
Citando sua
Mensagem para este Dia, o Papa retomou o apelo profético a “transformar as
espadas em relhas de arados” (Is 2, 4), a transformar o mal em vida.
“Ainda não é
tarde demais, e o Tempo da Criação convida-nos a uma profunda conversão: o que
tem sido utilizado para a destruição pode ser redirecionado para a vida, para o
cuidado dos pobres, para a alimentação dos famintos e para a salvaguarda da
criação.”
Leão XIV
encerrou sua homilia recordando seu predecessor, Papa Francisco, que por sua
vez se inspirou no Pobrezinho de Assis para para escrever a sua Carta
Encíclica Laudato si’. "Com São Francisco, queremos renovar o nosso
compromisso de viver e promover aquela fraternidade universal que está
inseparavelmente ligada ao dever de cuidar da criação." E recitou um
trecho do Cântico de louvor de São Francisco:
"Louvado
sejas, meu Senhor, com todas as tuas criaturas, especialmente o meu senhor
irmão Sol, […]Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã Lua e pelas estrelas,
[…]Louvado sejas, meu Senhor, pelo irmão vento […].Louvado sejas, meu Senhor,
pela irmã água […].Louvado sejas, meu Senhor, pelo irmão fogo […].Louvado sejas,
meu Senhor, pela nossa irmã, a mãe Terra,que nos sustenta e governa."
Setembro
é dedicado à Palavra de Deus, a Bíblia Sagrada, que deve ocupar lugar especial
em nossa vida, pois, de acordo com São Jerônimo, “ignorar as Escrituras é
ignorar o próprio Cristo”! Ou seja, para se ter o conhecimento sobre Deus e
para amar de verdade a Deus, temos como uma das fontes mais importantes os Escritos
Sagrados, por meio dos quais Ele se revela a nós e nos dá a mensagem de seu
amor e de sua salvação.
A
Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, já há anos, propõe que,
especialmente neste mês, tomemos conhecimento de um livro da Sagrada Escritura.
Neste ano, o livro escolhido é o de Daniel, o quarto e último livro dos
chamados profetas maiores da Bíblia. O livro surgiu em uma época de grandes
perseguições e sofrimento do povo. Seu objetivo era animar as pessoas e
fortalecer sua fé e fidelidade a Deus, aqueles que arriscavam a própria vida
para trilhar os caminhos da salvação.
O
livro não foi escrito por uma pessoa chamada Daniel e sim por um autor
desconhecido, provavelmente um grupo piedoso dos “homens esclarecidos” é o
redator da união de diversas histórias e momentos. O nome do livro vem de um
recurso bíblico que consiste em atribuir a autoria a personagem importante do
passado. Daniel fora um homem justo e sábio (cf. Ezequiel 14,14.20; 28,3), que,
mesmo diante das ameaças de violência e morte, se tornou modelo de fidelidade e
confiança em Deus.
O
livro não narra apenas a história de uma pessoa, mas demonstra a fé de
comunidades que permaneceram fiéis aos seus ideais no enfrentamento das
perseguições e da morte no período em que governava um terrível perseguidor dos
judeus, o rei Antíoco IV Epifanes (175-164 a.C.).
O
autor utiliza a linguagem apocalíptica. O vocábulo apocalipse significa
“revelação”. Por meio de sonhos, visões e símbolos, o livro demonstra uma
verdade fundamental: “Deus continua se revelando como o Senhor da história, e
os poderes que oprimem seu povo não são eternos, estão destinados a
desaparecer”[1].
É
nesse cenário de perseguições e martírios que o livro de Daniel anuncia a fé na
ressurreição dos mortos. Essa esperança é uma resposta ao grande questionamento
daqueles que eram perseguidos: vale a pena permanecer fiel até a morte? Daniel
proclama que Deus fará justiça e que a vida dos justos não será perdida. A
ressurreição torna-se sinal de que a fidelidade a Deus é mais forte que a
morte, e de que o martírio não é derrota, mas vitória, caminho para a vida
plena[2].
Daniel
é modelo de oração e perseverança em meio às crises da vida. “No exílio
babilônico, Daniel e seus amigos tornaram-se paradigma de coragem e fidelidade,
sustentados por uma disciplina espiritual concreta e pública. A vida de Daniel
nos ensina que a oração diária sustenta o coração em tempos de paz e de crise.
Ela forma em nós confiança, discernimento e coragem para permanecermos fiéis
quando tudo ao redor vacila. A oração pessoal e comunitária torna-se refúgio,
força e caminho de transformação interior. Quem ora de verdade descobre que
Deus vê o oculto, restaura a esperança e mantém firme o seu povo”[3].
Daniel
é também exemplo de pessoa que age, que atua em defesa da justiça e defende
quem sofre. É o que ocorreu com uma importante personagem do livro, Susana, que
foi difamada e a quem foi atribuído um grande pecado. Daniel sai em sua defesa
e, exigindo um julgamento justo, faz com seja reconhecida a sua inocência.
Por
outro lado, o contexto de violência e perseguição da época também se fez
presente na história da humanidade e hoje se revela com suas garras que oprimem
nações e pessoas. Tem, portanto, a temática de Daniel atualidade e importância.
Conhecer,
estudar e rezar com o livro de Daniel no mês da Bíblia é uma interessante forma
de, à luz de seus ensinamentos, iluminar as crises pessoais e coletivas do
mundo atual para firmar nossa fé n’Aquele que jamais nos decepciona e quer a
realização e a salvação de todos os homens e mulheres que aspiram à vida plena
em Deus.
Luiz
Gonzaga da Rosa -Autor do livro Discípulos e missionários na paróquia (Paulus)
e membro da Comissão de Formação Permanente da arquidiocese de Pouso Alegre
Muita coisa da
atualidade sensibiliza o coração das pessoas e, às vezes, somente pelas
aparências. Compactuamos com situações de verdadeira sedução, que conseguem
mudar nossos objetivos e nos levam para escolhas sem objetividade. São
aparências que acabam influenciando em nossas atitudes. O profeta Jeremias se
diz seduzido pelo Senhor, a quem entrega sua vida, para servi-lo (cf. Jr 20,7).
Ser seduzido por
Deus implica, inevitavelmente, investir na dignidade da vida, mesmo que isto
custe a nós ter que assumir conflitos e passar por momentos de dores, porque
ela é um dom divino e de um inestimável valor. A atual mentalidade secularizada
da cultura dificulta muito o seguimento da vontade de Deus e causa ação pessoal
sem consistência e com vazio de objetividade.
O itinerário da
vida humana não passa pelo prestígio que a pessoa tem diante dos outros, mas
pela forma como são colocados em prática os gestos de amor de uns para com os
demais. Esse amor se transforma em dom de si mesmo e em uma entrega pessoal
para exaltar o valor próprio da vida na comunidade. Isto depende muito de um
maduro discernimento e também atitude de responsabilidade.
É importante a
gente não ser iludido pelas aparências, pois uma decisão imatura pode causar
desilusão, desânimo e sofrimento. As aparências seduzem os olhares, as mentes e
as escolhas. Também têm capacidade para enganar e conduzir as pessoas ao
ridículo. Se Deus é sedutor, os frutos dessa ação é a comunhão com Ele, com os
outros e com o mundo, fortalecendo a existência de cada pessoa.
Deixar-se ser
seduzido por Deus é fazer a oferta da própria vida a Ele. Essa atitude faz com
que haja um inconformismo com muita coisa da atualidade, principalmente com
práticas e estruturas que privilegiam o espírito egoísta e injusto. Muitos
corações e mentes estão fechados para uma cultura que seja libertadora. É
preciso Caminhar, mas renunciando o espírito de orgulho e vaidade.
Seguir os
caminhos de Jesus Cristo não é tão fácil, mas não significa impossibilidade,
pois o ser humano consegue fazer escolhas determinadas e objetivas. Mesmo
diante da verdadeira condição de vulnerabilidade, a vida é espaço de conquista
de situações melhores. É uma questão de fidelidade aos ensinamentos de Deus e
coragem na prática do bem. A luz do fim do túnel é chegar a eternidade.
Dom Paulo Mendes Peixoto - Arcebispo de Uberaba (MG)
A grandeza de
Pedro manifesta-se justamente na sua capacidade de deixar-se transformar por
aquilo que Jesus lhe ensina. Depois de compreender que o Messias não veio para
conquistar pelo poder, mas para entregar a própria vida, o apóstolo permanecerá
fiel a Cristo até o fim, inclusive no martírio. A sua trajetória mostra que a
fé não significa ter todas as respostas imediatamente, mas confiar o suficiente
para continuar caminhando quando ainda não compreendemos tudo. Como Pedro,
somos convidados.
"Efetivamente,
também para nós nem sempre é fácil compreender e aceitar os caminhos de Deus,
especialmente quando estão muito distantes dos nossos". A reação de Pedro
diante da revelação de Jesus de sua Páscoa imininente, inspirou a reflexão de
Leão XIV antes de rezar o Angelus diante da multidão aglomerada na
Praça da Liberdade, diante do Palácio Apostólico, em Castel Gandolfo.
O Evangelho
proposto pela liturgia neste XXII Domingo do Tempo Comum - começou explicando o
Papa aos presentes - apresenta Jesus anunciando a seus discípulos que
"deverá ir a Jerusalém, sofrer, ser morto e, ao terceiro dia,
ressuscitar". Uma revelação, que " está muito distante da imagem de
um Messias triunfante e poderoso que os discípulos esperavam"
Pedro, que pouco
antes havia proclamado sua fé em Jesus como «o Messias, o Filho de Deus vivo»,
reage com espanto e repreende o Mestre: «Deus te livre, Senhor! Isso nunca te
há de acontecer!». Sua atitude nasce de um amor sincero, mas também revela a
dificuldade de aceitar um caminho de salvação diferente daquele que imaginava.
A reação de
Pedro - recorda o Papa - toca uma realidade profundamente humana e presente
também na experiência de fé de cada pessoa:
Efetivamente,
também para nós nem sempre é fácil compreender e aceitar os caminhos de Deus,
especialmente quando estão muito distantes dos nossos. Nessa altura, surge a
tentação de pensar, contra toda a lógica da fé, que é o Senhor quem está
errado, ou pior ainda, que não nos ouve ou que não se interessa por nós.
E perante esta
incerteza - explica o Santo Padre - Pedro, apesar da sua impulsividade,
ensina-nos duas coisas importantes: primeiramente, é necessário manter sempre
aberto o diálogo com o Senhor e apresentar-Lhe com confiança aquilo que
trazemos no coração, inclusive nossas dúvidas, incompreensões e angústias:
A segunda,
porém, é nunca julgar a ação de Deus, mas sim ouvir, com humildade, na oração,
o que Ele nos está a revelar por meio da sua ação, mesmo quando isso não
corresponde às nossas expectativas.
Jesus
repreende Pedro — «Afasta-te, Satanás!» — e deixa claro que o pensamento do
discípulo ainda está preso à lógica humana. Para seguir Cristo, é preciso
aceitar uma lógica diferente: negar a si mesmo, tomar a própria cruz e
segui-lo. O caminho da salvação não passa pelo poder, pela imposição ou pela
vitória segundo os critérios do mundo, mas pelo amor que se entrega, pelo
sofrimento assumido com esperança e pela fidelidade à vontade do Pai. E a
grandeza do Primeiro dos Apóstolos manifesta-se também na sua capacidade de
deixar-se transformar por aquilo que Jesus lhe ensina:
Peçamos ao
Senhor, então, que também nós, na nossa vida de fé e na nossa oração, tenhamos
a mesma sinceridade de Pedro, ao dizer-Lhe humildemente o que realmente
sentimos, mesmo quando o coração está confuso, e, ao mesmo tempo, que saibamos
cultivar a sua mesma docilidade, ao aceitar o que Ele nos pede para além das
nossas expectativas.
Que Maria nos
ajude - foi o pedido de Leão XIV ao concluir - ela que foi obediente aos
desígnios de Deus até junto à Cruz do seu Filho Jesus.