a Igreja renova o diálogo contra o ódio e a divisão
No aniversário
da declaração conciliar, que abriu um novo capítulo na história das relações
entre católicos e fiéis de outras religiões, os Dicastérios para a Doutrina da
Fé, para a Promoção da Unidade dos Cristãos e para o Diálogo Inter-religioso
publicam o documento "Um caminho de esperança". Um convite a combater
o fundamentalismo e o extremismo, abandonar "lógicas de defesa,
hostilidade ou conquista", proteger a liberdade religiosa e construir uma
convivência fundada na fraternidade.
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| O Papa assina a nota “Um caminho de esperança” na presença dos cardeais prefeitos e dos secretários dos Dicastérios para a Doutrina da Fé, para a Promoção da Unidade dos Cristãos e para o Diálogo Inter-Religioso |
Na época, foi um
verdadeiro marco. Um marco nas relações entre católicos e judeus e com os fiéis
de outras religiões, além de um farol de esperança no período pós-guerra. Hoje,
sessenta anos depois, a Declaração Conciliar Nostra Aetate continua sendo um ponto
de referência para “refundar essa esperança em nosso mundo devastado pela
guerra e em nosso meio ambiente degradado”, além de um paradigma para orientar
as escolhas pastorais e teológicas da Igreja, enquanto as divisões prevalecem
sobre o diálogo, a liberdade religiosa é constantemente violada e o nome de
Deus é traído e usado para legitimar a violência e o terrorismo.
LEIA
A NOTA NA ÍNTEGRA
Não à
discriminação e à perseguição
É por isso que,
na sexta década desta "breve, mas ousada" declaração conciliar, três
Dicastérios da Cúria Romana — para a Doutrina da Fé, para a Promoção da Unidade
dos Cristãos e para o Diálogo Inter-religioso — publicam "Um caminho de esperança",
um documento que repercorre as etapas essenciais do diálogo desde a Nostra
Aetate, avaliando seus desafios e objetivos e delineando perspectivas para o
futuro. Tudo isso para relançar uma mensagem atemporal:
A Igreja
reprova, por isso, como contrária ao espírito de Cristo, toda e qualquer
discriminação ou violência praticada por motivos de raça ou cor, condição ou
religião.
O caminho do
Concílio até hoje
A reflexão do
documento se desdobra a partir de uma questão premente e de relevância atual:
"Como viver concretamente o chamado à fraternidade universal em sociedades
marcadas por crescente diversidade cultural e religiosa, guerras e violência, e
caracterizadas por uma crescente tendência à secularização?" O documento,
com aproximadamente vinte páginas, é de autoria dos prefeitos dos respectivos
Dicastérios, os cardeais Víctor Manuel Fernández, Kurt Koch e George Koovakad,
e seus secretários, os monsenhores Armando Matteo, Flavio Pace e Indunil
Janakaratne Kodithuwakku Kankanamalage. O documento traça o caminho desde a
gênese da Nostra Aetate, na época considerada "uma resposta às trágicas
consequências do antissemitismo que culminaram no Holocausto". Sua
publicação em 28 de outubro de 1965 marcou "uma mudança profunda",
pois, pela primeira vez, a Igreja afirmou explicitamente que "não rejeita
nada do que é verdadeiro e santo" em outras religiões e convidou os fiéis
a considerarem esses preceitos e doutrinas "com estima e respeito". A
outra declaração, Dignitatis Humanae, acrescentou um princípio: "Nenhuma
relação respeitosa com outras religiões é sincera e praticável sem um respeito
concomitante pela liberdade religiosa dos outros". Com a mesma
"convicção", os signatários apelaram para "a mesma liberdade
para os cristãos nos países onde são minoria", destacando a
"perseguição" que os cristãos ainda sofrem hoje, em várias partes do
mundo, por parte de grupos religiosos extremistas.
Toda perseguição
motivada por religião é sempre uma violação da dignidade humana. É urgente
encontrar uma resposta comum que, no espírito da Nostra Aetate, promova o
respeito, o diálogo e a convivência pacífica entre todos.
A relação entre
judeus e cristãos
O documento
Vaticano dedica um espaço considerável à natureza específica da relação entre
cristãos e judeus, desde as suas raízes comuns no Antigo Testamento até à
recomendação do Concílio de "mútuo conhecimento e estima" e diálogo
"fraterno". Um Caminho de esperança, seguindo a mesma linha, reitera
que "a aliança de Deus com o povo judeu é irrevogável, e isso desafia
constantemente a Igreja". Isto não significa que "a aliança com o
povo judeu seja paralela ao caminho cristão da salvação": para a Igreja,
"Cristo é o único redentor". Contudo, "esta aliança irrevogável
tem um significado teológico"; consequentemente, "não podemos
prescindir uns dos outros".
Luta comum
contra o antissemitismo
A solidariedade
ao povo judeu inclui também uma "luta comum" contra o antissemitismo.
A Nostra Aetate deplorou o ódio e a perseguição antijudaica "em qualquer
época e por qualquer pessoa", inclusive dentro da Igreja. Recordam-se as
condenações dos Papas, particularmente contra o Holocausto. Observa-se que os
conflitos que eclodiram no Oriente Médio também "deixaram sua marca"
no diálogo entre judeus e cristãos. "Muitas pontes de comunicação
vacilaram e continuam sendo testadas pela diferente leitura dos eventos
subsequentes, muitas vezes não unânime mesmo dentro das respectivas comunidades
religiosas", afirmam os Dicastérios, exortando a Igreja a manter e
fortalecer ainda mais esse "mútuo conhecimento e estima" que se
mantive forte ao longo de sessenta anos de "trabalho conjunto".
Frutos visíveis
do diálogo
Este trabalho
conjunto, destaca o texto, também produziu frutos "visíveis" no
diálogo com o Islã e outras religiões, como o Hinduísmo, o Budismo, o Jainismo,
o Sikhismo, o Xintoísmo, o Taoísmo, o Confucionismo, o Zoroastrismo, bem como
com religiões tradicionais africanas.
Foram
estabelecidas amizades duradouras entre líderes religiosos, foram lançados
projetos educacionais e sociais conjuntos e declarações conjuntas foram
publicadas diante de tragédias humanitárias, guerras ou crises ambientais.
Fundamentais a
este respeito são o diálogo teológico entre especialistas ou o diálogo
monástico inter-religioso, bem como a experiência vivida silenciosa e discreta
de sacerdotes, religiosos e leigos em bairros multirreligiosos, "onde o
simples fato de viver em paz, de estar presente uns para os outros — como
vizinhos — já é um testemunho". Todos esses resultados, "às vezes
embrionários, invisíveis, mas fecundos", encarnam a intuição da Nostra
Aetate:
Viver no mundo
como testemunhas do amor de Deus, em diálogo com todos.
Sem islamofobia
Os três
Dicastérios, portanto, não poupam críticas às manifestações de
"islamofobia" que "não distinguem adequadamente os casos de
fundamentalismo e violência da convivência pacífica de outros muçulmanos que se
integram e trabalham nos países que os acolhem". "Devemos agradecer
às comunidades cristãs que cresceram num espírito de acolhimento e também numa
maior compreensão e respeito pelos muçulmanos", lê-se num trecho.
Os pobres:
"A bússola"
O documento
Vaticano — que repercorre o magistério dos Papas de Paulo VI a Leão XIV —
centra-se na importância do diálogo neste período histórico. Indica o
"acolhimento ou a rejeição" dos pobres como um "critério de
discernimento universal" para entender se estamos caminhando na direção
certa. Eles são "a bússola": "A atenção concreta aos mais
vulneráveis é o indicador essencial para avaliar a correção de todo projeto, seja ele político, econômico, social, acadêmico, religioso
ou cultural."
As dificuldades
do diálogo
As
"dificuldades do diálogo" hoje são destacadas entre quem teme o
"relativismo doutrinário ou uma diluição da identidade religiosa",
relações "historicamente conflituosas" ou a memória de "feridas
antigas" que dificultam a confiança recíproca. Os próprios fundamentos do
diálogo são minados pelo "crescimento do fundamentalismo, pela
persistência de preconceitos, pela manipulação política das afiliações
religiosas ou pela violência em nome de Deus". Soma-se a isso, nas
sociedades secularizadas, a marginalização ou a instrumentalização do discurso
religioso, "reduzido a folclore, opinião subjetiva ou completamente
obscurecido".
Comportar-se
como irmãos
O caminho,
portanto, continua sendo "desafiador" e "exige humildade,
coragem e discernimento". O diálogo, reitera o documento, não é uma
"estratégia" nem uma renúncia à própria identidade, mas sim um
"autêntico caminho evangélico", que pressupõe "uma clara
consciência da própria identidade religiosa e cultural, junto com uma abertura
real ao outro". "Respeito" e "estima" são
"fundamentos imprescindíveis" para "superar atitudes de
exclusão, desprezo ou indiferença que há muito prevalecem".
Não podemos
invocar Deus como Pai de toda a humanidade se nos recusamos a nos comportar
como irmãos daqueles criados à imagem de Deus.
Abandonar as
lógicas de defesa, hostilidade ou conquista
Diante daqueles
que hoje "fomentam divisões e preparam conflitos", os fiéis de
diferentes tradições são chamados a "buscar, com clareza e esperança, as
condições para a convivência pacífica". Para alcançar esse objetivo,
devemos "abandonar as lógicas de defesa, hostilidade ou conquista e adotar
uma atitude aberta, benevolente e corajosa".
Artesãos da paz
O apelo é
dirigido a todos: "Tornar-se construtores de pontes, não de muros",
"artesãos da paz e da fraternidade", capazes de "acolher os
outros em suas diferenças" e "colaborar na construção de uma
sociedade mais justa e humana".
Salvatore Cernuzio – Vatican News
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Fonte: vaticanews.va Foto e vídeo: (@Vatican Media