nas exortações Familiaris Consortio e Amoris Laetitia
O mês de agosto
é dedicado na Igreja no Brasil às vocações, com diversas iniciativas de
reflexão, promoção e animação vocacional. Na segunda semana, iniciada com o Dia
dos Pais, o olhar é voltado para a vocação para a vida familiar. E neste ano em
que a Comissão Episcopal para a Vida e a Família da Conferência Nacional dos
Bispos do Brasil (CNBB) dedica à celebração de 45 anos da exortação
apostólica Familiaris Consortio e 10 anos da exortação Amoris Laetitia, o Portal da CNBB destaca 7 pontos que os
dois textos oferecem para falar dessa vocação à família.
Os dois textos
– um de 1981, escrito por São João Paulo II, e outro de 2016, escrito pelo
Papa Francisco – oferecem ao povo cristão e ao mundo os ensinamentos da Igreja
sobre a vocação ao amor e à vida familiar na realidade do mundo atual. Eles
oferecem indicações pastorais que ajudam os jovens a descobrirem a beleza
e a grandeza da vocação ao amor e ao serviço da vida, animam os
esposos em sua missão de cuidado mútuo e na criação e desenvolvimento dos
filhos, e estabelecem como deve ser o acompanhamento da Igreja à família
em suas diversas fases e situações.
A
exortação Familiaris Consortio apresenta em seu conteúdo diversos
chamados à família, em especial no que diz respeito ao anúncio do Evangelho e
ao crescimento progressivo da pessoa humana:
“A família
cristã, de fato, é a primeira comunidade chamada a anunciar o Evangelho à
pessoa humana em crescimento e a levá-la, através de uma catequese e educação
progressiva, à plenitude da maturidade humana e cristã”
Separamos sete
pontos que apontam a vocação familiar nos dois documentos:
1. Vocacionados
ao amor
A
fundamental e originária vocação do ser humano é ao amor, ensina
a Familiaris Consortio. Além de chamar o ser humano à existência, Deus o
chama para o amor.
“Enquanto
espírito encarnado, isto é, alma que se exprime no corpo informado por um
espírito imortal, o homem é chamado ao amor nesta sua totalidade unificada. O
amor abraça também o corpo humano e o corpo torna-se participante do
amor espiritual” (FC, 11).
2. Modo de
realizar a vocação da pessoa humana e sinal imperfeito da doação de Cristo pela
Igreja
A Igreja entende
que há dois modos específicos de realizar a vocação da pessoa humana na
sua totalidade ao amor: o Matrimónio e a Virgindade. “Quer um quer outro, na
sua respectiva forma própria, são uma concretização da verdade mais profunda do
homem, do seu “ser à imagem de Deus”, ensina a Familiaris Consortio.
Para um homem e
uma mulher que abraçam a vocação familiar, por meio do Sacramento do
Matrimônio, a plenitude desse amor simbolizada na doação total de Cristo por
sua Igreja.
Neste sacrifício
descobre-se inteiramente aquele desígnio que Deus imprimiu na humanidade do
homem e da mulher, desde a sua criação; o matrimónio dos batizados torna-se
assim o símbolo real da Nova e Eterna Aliança, decretada no Sangue de Cristo. O
Espírito, que o Senhor infunde, doa um coração novo e torna o homem e a mulher
capazes de se amarem, como Cristo nos amou. O amor conjugal atinge aquela
plenitude para a qual está interiormente ordenado: a caridade conjugal, que é o
modo próprio e específico com que os esposos participam e são chamados a viver
a mesma caridade de Cristo que se doa sobre a Cruz. (FC, 13)
Na
exortação Amoris Laetitia, o Papa Francisco fala dessa entrega de Cristo,
sinalizando que ela manifesta o “amor infinito do Pai”. Essa manifestação é que
permite compreender o mistério das famílias cristãs.
Ele também
compreende que o amor conjugal é um “sinal imperfeito do amor entre Cristo e a
Igreja”, por isso que o Sacramento do Matrimônio confere aos esposos, através
da Igreja, “a graça para testemunhar o Evangelho do amor de Deus”.
“Os esposos são,
portanto, para a Igreja a lembrança permanente daquilo que aconteceu na cruz;
são um para o outro, e para os filhos, testemunhas da salvação, da qual o
sacramento os faz participar” (AL, 72)
O matrimônio
cristão é um sinal que não só indica quanto Cristo amou a sua Igreja na Aliança
selada na Cruz, mas torna presente esse amor na comunhão dos esposos. (AL, 73)
3. Vocação que
tem frutos
A resposta à
vocação familiar é única e insubstituível, como os participantes do Sínodo de
2015 apontaram no relatório final daquela Assembleia, indicando alguns dos
frutos que a família gera para a Igreja e a sociedade:
“A beleza do dom
recíproco e gratuito, a alegria pela vida que nasce e a amorosa solicitude de
todos os seus membros, desde os pequeninos aos idosos”.
No mesmo
parágrafo da Amoris Laetitia, o Papa Francisco aponta o amor vivido nas
famílias como uma “força permanente para a vida da Igreja”.
“O fim unitivo
do matrimónio é um apelo constante a crescer e aprofundar este amor. Na sua
união de amor, os esposos experimentam a beleza da paternidade e da
maternidade; partilham projetos e fadigas, anseios e preocupações; aprendem a
cuidar um do outro e a perdoar-se mutuamente. Neste amor, celebram os seus
momentos felizes e apoiam-se nos episódios difíceis da história da sua vida”.
4. Habilita e
empenha na vocação de leigos
O Papa João
Paulo II escreveu na Familiaris Consortio que o Sacramento do Matrimônio
“habilita e empenha os cônjuges e os pais cristãos a viver a sua vocação de
leigos, e por tanto a ‘procurar o Reino de Deus tratando das realidades
temporais e ordenando-as segundo Deus'”, retomando um ensinamento da
Constituição Lumen Gentium, do Concílio Vaticano II.
Baseada num
casal de leigos, as famílias cristãs dão um contributo particular à causa
missionária da Igreja, segundo a Familiaris Consortio: “cultivando as vocações
missionárias nos seus filhos e filhas e, de uma forma mais generalizada, com
uma obra educativa que vai ‘dispondo os filhos, desde a infância para
conhecerem o amor de Deus por todos os homens'”.
Na família,
especialmente em relação aos filhos, os esposos também participam da obra
criadora de Deus: “gerando no amor e por amor uma nova pessoa, que traz em si a
vocação ao crescimento e ao desenvolvimento, os pais assumem por isso mesmo o
dever de a ajudar eficazmente a viver uma vida plenamente humana”.
5. Vocação que
chama à Santidade
O chamado à
santidade é uma “alta vocação” a que os cônjuges são chamados, segundo o plano
de Deus, lê-se na Familiaris Consortio. Isso se realiza “na medida em que
a pessoa humana está em grau de responder ao mandato divino com espírito
sereno, confiando na graça divina e na vontade própria”.
Já
na Amoris Laetitia, esse chamado à santidade é alimentado pelo dom do
Sacramento que faz com que a união entre o homem e a mulher sejam “a
representação real, através do sinal sacramental, da mesma relação de Cristo
com a Igreja”.
6. Vocação
fascinante e união plena
No
parágrafo 206 da Amoris Laetitia, o Papa Francisco fala do Matrimônio
como algo fascinante, para o qual os jovens precisam ser auxiliados pela Igreja
a fim de descobrirem o valor e a riqueza.
Nessa reflexão,
o matrimônio é entendido como “união plena que eleva e aperfeiçoa a dimensão
social da vida, confere à sexualidade o seu sentido maior, ao mesmo tempo que
promove o bem dos filhos e lhes proporciona o melhor contexto para o seu
amadurecimento e educação.
7. Vocação que
lança os noivos adiante
Os dois
documentos papais sobre a família apontam diversas indicações pastorais que
ajudaram a estruturar, inicialmente, e atualizar, num tempo mais próximo, a
Pastoral Familiar. Eles destacam o discernimento vocacional e a preparação para
a vida matrimonial, não como algo que é feito às vésperas de um cerimônia, mas
como um caminho que se inicia desde uma preparação remota até a preparação
próxima.
Isso nos aponta
o último ponto, o qual mostra que o acompanhamento devido ajuda os noivos na
sua preparação para receber o Sacramento do Matrimônio:
“Tanto a
preparação próxima como o acompanhamento mais prolongado devem procurar que os
noivos não considerem o matrimônio como o fim do caminho, mas o assumam como
uma vocação que os lança para diante, com a decisão firme e realista de
atravessarem juntos todas as provações e momentos difíceis”.
As redes sociais
apresentam-se como um novo espaço de evangelização, que exige atenção redobrada
de nós, católicos e cristãos. Precisamos de um discernimento profundamente
eclesial para não permitir o enfraquecimento da nossa consciência...
Sempre
compreendi a Cultura no sentido mais amplo, conforme aprendi, ao iniciar
meus estudos em Filosofia: ela é o conjunto de costumes, crenças, valores,
expressões artísticas, normas, hábitos e conhecimentos adquiridos e
transmitidos pelos membros de uma sociedade. Como ministro ordenado, exercendo
meu ministério e percorrendo diversas regiões do Brasil, em cursos e
formações sobre dízimo, pastoral urbana, gestão eclesial e, mais recentemente,
sobre os impactos da Inteligência Artificial na evangelização, tenho aprendido
muito com o modo de vida e as experiências de diferentes grupos humanos. Como
primeiro servidor da Diocese de Leopoldina, reconheço, diariamente, o
desafio de compreender a Cultura em suas luzes e sombras, especialmente no
contexto da realidade eclesial e dos ministros ordenados do Sudeste, nas Minas
Gerais.
Assim sendo, o
conceito de Cultura também se desdobra em diversas dimensões: política,
econômica, psicológica e religiosa, entre tantas outras.
É, justamente, a partir dessa compreensão, que proponho uma
reflexão sobre como as tecnologias digitais vêm influenciando, de forma gradual
e, muitas vezes, imperceptível, todos os setores da Sociedade, alcançando
também as instituições e as subculturas das tradições religiosas. Esse será o
nosso ponto de partida para compreender os desafios e as oportunidades que a
transformação digital apresenta à vivência da fé.
As redes sociais
apresentam-se como um novo espaço de evangelização, que exige atenção
redobrada de nós, católicos e cristãos. Precisamos de um discernimento
profundamente eclesial para não permitir o enfraquecimento da nossa
consciência, moldada, ao longo dos séculos, sob três pilares
fundamentais: a revelação judaico-cristã, o direito romano e a lógica
aristotélica. Nesse contexto, a cultura religiosa e as nossas estruturas
tradicionais são, simultaneamente, impactadas e desafiadas pelas
liberdades e ferramentas oferecidas pelas mídias digitais.
No cotidiano,
somos bombardeados por conteúdos de padres com mensagens rápidas da passagem
litúrgica do Evangelho, de momentos de aconselhamentos espirituais apoiados em
eclesiologias e cristologias diversas, bem como por grupos de mensagens
voltados a interesses específicos, como devoção religiosa particular e regras
morais. Paralelamente, comunicadores e pregadores digitais promovem
transmissões eucarísticas com ritos variados e teologias das mais diversas
vertentes, muitas vezes, direcionando o Evangelho a linhas ou controles
ideológicos específicos e reforçando diferentes noções de hierarquia,
autoridade e infinitas maneiras light de vivenciar a fé.
Esse ecossistema
digital atua, diretamente, sobre o conceito dos sacramentos, de maneira
especial, o casamento, a criação dos filhos e o comportamento ético dos fiéis,
impactando indivíduos, comunidades e instituições. Por meio de debates
teológicos, memes, imagens virais e hashtags, esses conteúdos
são, frequentemente, desvinculados de seus contextos institucionais e
doutrinários originais, moldando sutilmente os hábitos das comunidades
paroquiais e eclesiais missionárias. Assim, a influência digital passa a
redefinir espectadores, preceitos religiosos e morais e estilos de vida,
reconfigurando os contornos da própria fé.
Diante dessas
transformações, o papa Leão XIV, na introdução da encíclica Magnifica
Humanitas, recorda-nos que a Igreja é chamada a "orientar a ação para
Deus, de modo que, à sua luz, o pluralismo não se disperse na desordem"
(MH 10). O ambiente digital, com sua velocidade e apelos sutis, não deve
enfraquecer a consciência nem fragmentar a riqueza da nossa fé. Cabe a nós,
portanto, cultivar um discernimento, profundamente eclesial e
evangelizador, capaz de acolher as novas mídias sem renunciar aos alicerces da
tradição e à dignidade da vocação humana.
Dom Edson José Oriolo dos Santos - Bispo da Igreja Particular de Leopoldina MG
em qualquer circunstância, Jesus não nos abandona.
O Evangelho de
hoje ensina-nos algo importante: a não perdermos a esperança, nem mesmo nos
momentos de escuridão, quando nos sentimos impotentes perante os problemas que,
apesar dos nossos esforços, nos fazem pensar que estamos a recuar em vez de
avançar. Em qualquer circunstância, Jesus não nos abandona. Foi o que disse o
Papa no Angelus ao meio-dia deste domingo, 9 de agosto, XIX Domingo do Tempo
Comum, ao rezar a oração mariana com os fiéis peregrinos reunidos na Praça São
Pedro.
Quando o Mestre
entra no barco, a tempestade acalma, e então brota espontaneamente do coração
dos discípulos a profissão de fé: «Tu és, realmente, o Filho de Deus!» Foi o
que ressaltou o Santo Padre aos fiéis e peregrinos reunidos na Praça São Pedro
ao explicar o Evangelho deste XIX Domingo do Tempo Comum, no habitual encontro
dominical do Angelus. Na alocução que precedeu a oração mariana, Leão XIV
ateve-se ao Evangelho do dia (Mt 14, 22-33), em que Jesus, caminhando sobre as
águas do mar da Galileia, vai ter com os discípulos no meio de uma tempestade.
Após o milagre
dos pães e dos peixes, ressaltou o Papa, o Mestre obriga os seus discípulos a
embarcar e ir adiante para a outra margem, enquanto Ele se retira num monte,
sozinho, para rezar. Longe da costa, porém, encontram-se à mercê do vento e têm
dificuldade em avançar. Depois de uma experiência bem-sucedida, na qual tinham
sido protagonistas de um sinal prodigioso, encontram-se agora impotentes e
assustados perante a ameaça das ondas e do vento contrário.
No final da
noite, Jesus vai ao encontro deles sobre as águas agitadas, e, assustados,
confundem-no com um fantasma. Mas Ele diz-lhes: «Tranquilizai-vos! Sou Eu! Não
temais!»
A presença do
Senhor muda tudo
“A presença do
Senhor muda tudo: Pedro chega até mesmo a dar alguns passos sobre as ondas na
direção d’Ele; depois assusta-se, começa a afundar e Jesus salva-o. Quando o
Mestre entra no barco, a tempestade acalma, e então brota espontaneamente do
coração dos discípulos a profissão de fé: «Tu és, realmente, o Filho de Deus!»”
Para chegar a
este ponto, prosseguiu o Pontífice, não lhes bastou assistir a um milagre, nem
ter tido bom êxito diante das pessoas: tiveram de passar pela experiência da
própria fraqueza, reconhecendo nela a presença de Deus. Só assim conseguiram
verdadeiramente abrir os olhos e o coração à sua proximidade, reencontrando a
paz mesmo no meio da tempestade.
Um dia, mais
tarde, Jesus dir-lhes-á: «Se tiverdes fé e não duvidardes […], se disserdes a
este monte: “Tira-te daí e lança-te ao mar”, assim acontecerá». E foi
precisamente isso que eles experimentaram no lago: a paz de Cristo, que tinha
estado na montanha a rezar, alcançou-os no meio da fúria das águas.
Não perder a
esperança, nem mesmo nas horas de escuridão
Com efeito,
observou Leão XIV, este milagre ensina-nos algo importante: em primeiro lugar,
a não nos vangloriarmos pelo sucesso e a nunca nos considerarmos superiores aos
outros; depois, a não perdermos a esperança, nem mesmo nos momentos de
escuridão, quando nos sentimos impotentes perante os problemas que, apesar dos
nossos esforços, nos fazem pensar que estamos a recuar em vez de avançar.
“Em qualquer
circunstância, Jesus não nos abandona e, se o acolhermos humildemente no barco
da nossa vida – através da oração, dos Sacramentos e da escuta da Palavra –,
n’Ele encontraremos a paz, a luz e a força para o nosso caminho.”
Que Maria nos
ajude a viver assim, com confiante abandono em Deus, Ela que foi proclamada
bem-aventurada pela sua fé, rezou por fim o Santo Padre.
No Angelus deste
domingo, 9 de agosto, mais um veemente apelo do Santo Padre em favor da paz,
com um olhar para a trágica situação no Sudão, expressando sua proximidade
espiritual com todo o povo daquele país, e o pedido de uma cessação dos ataques
sobre os civis por parte da Rússia e da Ucrânia, lembrando que a guerra apenas
gera mais guerra e provoca enorme sofrimento: “É hora de interromper a espiral
de violência e dar espaço à diplomacia e ao diálogo para abrir caminho à paz”,
exorta o Papa.
Bombardeios russos na Ucrânia (ANSA)
“Continuo
acompanhando com preocupação a trágica situação no Sudão, especialmente na
cidade de El-Obeid. Ao expressar minha proximidade espiritual com todo o povo
daquele país, renovo meu apelo às autoridades para que garantam corredores
humanitários para a população civil. Ao mesmo tempo, exorto a comunidade
internacional a apoiar os esforços destinados a alcançar um cessar-fogo
imediato. Rezemos para que o Senhor sustente aqueles que sofrem, converta os
corações daqueles que semeiam a violência e conceda a tão esperada paz.”
Foi o veemente
apelo do Pontífice no Angelus deste domingo, 9 de agosto, ao manifestar sua
proximidade espiritual com todo o povo daquele país africano que já de há muito
vem sofrendo com as violências, pedindo um cessar-fogo imediato.
Ucrânia e
Rússia, outra realidade de sofrimento
O olhar do Santo
Padre voltou-se também para outra realidade de sofrimento, desta vez na Ucrânia
e Rússia, de onde continuam a chegar notícias dolorosas de pessoas inocentes
mortas e feridas, frisou o Papa:
Episódios
trágicos se sucedem, ou melhor, se multiplicam, causando cada vez mais vítimas
civis, entre as quais também crianças. Faço-me próximo das famílias das
vítimas, dos feridos e de todos aqueles que sofrem por causa do conflito em
curso. Diante de tanta dor, renovo um apelo veemente para que se respeite o
direito humanitário e cessem, por ambas as partes, os ataques que atingem alvos
civis. A guerra apenas gera mais guerra e provoca enormes sofrimentos. É hora
de interromper a espiral de violência e dar espaço à diplomacia e ao diálogo
para abrir caminho à paz.
Testemunhas
luminosas do Evangelho
Após ressaltar a
presença de muitos jovens, que escolhem dedicar alguns dias de férias a
atividades formativas e de amizade, como um sinal de esperança, Leão XIV
lembrou o evento dos jovens franciscanos que teve a alegria de encontrar na
última quinta-feira em Assis, recordando, em seguida, que nestes dias o
calendário litúrgico propõe algumas figuras luminosas de Santos e Santas,
convidando-os a conhecê-las melhor e a se deixarem entusiasmar por estas
testemunhas exemplares o Evangelho:
Ontem, São
Domingos, fundador dos Frades Pregadores; hoje, Santa Teresa Benedita da Cruz,
Edith Stein, carmelita assassinada em Auschwitz e co-padroeira da Europa;
amanhã, São Lourenço, diácono da Igreja de Roma; depois de amanhã, Santa Clara
de Assis, que abandonou uma vida confortável para seguir Jesus, pobre e
humilde, seguindo o exemplo de seu conterrâneo São Francisco. Queridos jovens,
deixai-vos inspirar por essas testemunhas exemplares do Evangelho!
Ao completar sua
30ª edição no Brasil, a Semana Nacional da Família de 2026 apresenta uma
proposta de altíssima densidade teológica e pastoral. Organizada pela Comissão
Nacional da Pastoral Familiar da CNBB, a edição deste ano traz como tema
“Família, torna-te aquilo que és” e como lema bíblico “O amor jamais acabará”
(1 Coríntios 13, 8).
Trata-se de um
perfil de proposta que se recusa a ficar na superficialidade: o texto convoca a
família a olhar para o espelho do Evangelho, redescobrir sua vocação original e
firmar-se no amor de Cristo diante das tempestades da contemporaneidade. O tema
escolhido para 2026 recupera uma das frases mais emblemáticas do Magistério da
Igreja sobre a família, formulada por São João Paulo II na Exortação Apostólica
Familiaris Consortio. A escolha é profética, pois coincide com a celebração dos
45 anos da Familiaris Consortio e com os 10 anos da Exortação Apostólica Amoris
Laetitia do Papa Francisco.
Esta proposta
imperativa exige da família cristã uma tomada de consciência, pois não é um
mero apelo moralista, mas ontológico. A família não precisa inventar uma nova
identidade a cada mudança de vento cultural; ela precisa assumir o que Deus já
planejou para ela. Deve configurar-se, assim, como um antídoto contra a
desconstrução. Em tempos nos quais o conceito de família é frequentemente
esvaziado, a Igreja recorda que a família é a célula mãe da sociedade e a
Igreja Doméstica.
A proposta para
este ano decorre de um chamado à conversão contínua, considerando que
“Tornar-se” é um verbo de processo. Significa que o lar é uma oficina diária
onde o perdão, a paciência, o diálogo e a fidelidade são lapidados
continuamente. O lema bíblico – “O amor jamais acabará” (1Cor 13,8) – extraído
do Hino à Caridade de São Paulo oferece o alicerce espiritual necessário para
sustentar o tema.
Diante de um
mundo onde os relacionamentos se tornaram frágeis, descartáveis e “líquidos”, a
Palavra de Deus proclama uma verdade contra-cultural: o amor autêntico é
definitivo. Este lema injeta esperança nos lares, lembrando que as crises
financeiras, as divergências de geração e os desgastes do tempo não têm a
última palavra quando a família está fundamentada no amor que vem da Cruz e da
Ressurreição.
A proposta da
Semana da Família 2026 toca nas feridas mais abertas da sociedade
contemporânea, oferecendo remédios pastorais concretos com respostas à crise de
pertencimento e conectividade vazia. As famílias de hoje vivem frequentemente
hiperconectadas digitalmente, mas profundamente isoladas no plano afetivo. O
apelo a “tornar-se o que se é” convida os lares a reestabelecerem a mesa do jantar, o abraço físico, a escuta atenta e a oração em conjunto como espaços sagrados de comunhão.
A proposta
caminha ainda lado a lado com a defesa da dignidade humana em todas as suas
etapas. A família que sabe quem é torna-se um escudo protetor para os filhos
contra as ideologias desumanizantes e um porto seguro de acolhimento e respeito
para os idosos. A vulnerabilidade econômica, o desemprego, as enfermidades
mentais (como ansiedade e depressão entre os jovens) e as tensões conjugais são
investidas reais. O lema “O amor jamais acabará” garante que a família católica
não está abandonada à própria sorte: na graça dos sacramentos, os casais e pais
encontram o sustento sobrenatural para recomeçar todos os dias.
A Semana
Nacional da Família de 2026 traça um perfil corajoso, denso e profundamente
esperançoso. Ela não mascara as dores das famílias, mas recusa-se a entregá-las
ao desânimo. Ao proclamar “Família, torna-te aquilo que és” e testemunhar que
“O amor jamais acabará”, a Igreja lança um clarão de luz sobre a sociedade: a
família é, e continuará sendo, a maior riqueza de um povo, o santuário da vida
e o caminho privilegiado para a santidade.
Dom Anuar Battisti - Arcebispo Emérito de Maringá (PR)
Não é fácil responder com sinceridade essa pergunta que Jesus faz a Pedro no momento em que o salva de afundar na água: “Por que duvidaste?”
Às vezes, as mais profundas convicções se desvanecem e os olhos da alma ficam turvos sem que saibamos exatamente por quê. Princípios aceitos até então como inalteráveis começam a cambalear. E desperta em nós a tentação de abandonar tudo sem reconstruir nada novo.
Outras vezes, o mistério de Deus parece oprimir-nos. A última palavra sobre a minha vida me escapa e é duro abandonar-me ao mistério: minha razão continua buscando insatisfeita uma luz clara e incontestável que não encontra, nem jamais poderá encontrar.
Não raras vezes a superficialidade e a leviandade de nossa vida cotidiana e o culto secreto a tantos ídolos nos submergem em graves crises de indiferença e ceticismo interior, com a sensação de termos realmente perdido a Deus.
Com frequência é nosso próprio pecado que enfraquece nossa fé, pois ela decai e se debilita quando nos afastamos de Deus. Se somos sinceros, temos que confessar que há uma distância enorme entre o crente que professamos ser e o crente que somos na realidade. O que fazer ao constatar uma fé às vezes tão frágil e vacilante em nós?
Primeiramente, não desesperar nem assustar-nos ao descobrir dúvidas e vacilações em nós. A busca de Deus se vive quase sempre na insegurança, na obscuridade e no risco. A Deus se busca “às apalpadelas”. E não devemos esquecer que muitas vezes “a genuína fé só pode aparecer como dúvida superada” (Ladislao Boros).
O importante é aceitar o mistério de Deus com o coração aberto. Nossa fé depende da verdade de nossa relação com Ele. E não é preciso esperar que nossas interrogações e dúvidas se resolvam para viver em verdade diante desse Pai.
Por isso é importante saber gritar como Pedro: “Senhor, salva-me”. Saber levantar nossas mãos vazias para Deus, não só como gesto de súplica, mas também de entrega confiante de alguém que se reconhece pequeno, ignorante e necessitado de salvação. Não esqueçamos que a fé é “caminhar sobre a água”, mas com a possibilidade de encontrar sempre essa mão que nos salva quando começamos a afundar.
JOSÉ ANTONIO PAGOLAcursou Teologia e Ciências Bíblicas na Pontifícia Universidade Gregoriana, no Pontifício Instituto Bíblico de Roma e na Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. É autor de diversas obras de teologia, pastoral e cristologia. Atualmente é diretor do Instituto de Teologia e Pastoral de São Sebastião. Este comentário é do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, da Editora Vozes.
♦ Deus não está nos fenômenos naturais grandiosos e violentos: vento, terremoto, fogo; mas no sopro leve da brisa, com que significando a espiritualidade e a intimidade das manifestações de Deus ao homem. (Missal dominical e festivo p. 769)
♦ Uma vez mais somos confrontados com a Palavra. Ela nos reúne, congrega, anima e fortalece na medida em que pessoal e comunitariamente queremos. Nos deixamos interiormente tocar por ela. Sempre de novo a qualidade de nossa escuta. Vamos vivendo essa vida de todos os dias. Tentamos tudo esclarecer com uma luz que do Mistério, desse que mora numa luz inacessível, da fé. Somos cristãos e não gostaríamos de ver a figura de Jesus se diluir nas coisas de todos os dias. Que o Senhor aumente nossa fé.
♦ Elias está cansado. É penoso ser profeta, dizer aos homens o que Deus manda dizer e que é para o bem deles. O profeta está tentado abandonar tudo. É demais. Hoje vemo-lo subir ao Horeb, a montanha de Deus. Vai ali passar a noite. Deus se lhe manifesta. Vento impetuoso que quebrava os rochedos. Terremoto que a tudo sacudia e fogo violento. Ali não estava Deus. E veio uma brisa suave, um silencio sutil. E ali estava Ele, o Altíssimo como que a dizer ao mais íntimo do profeta desanimado que o acolhesse. “Elias cobriu o rosto com o manto, saiu e pôs-se à entrada da gruta”.
♦ Confiança numa presença sutil, que não pode ser vista. O Senhor não está nas violências, nos estardalhaços. A experiência está sempre a nos dizer que o encontramos quando deixamos o bulício, mas na busca persistente de encontros no âmbito da brisa ligeira. Talvez no eloquente silêncio, quem sabe quarto ou em nossos templos. Nesse empenho de silencio interior, no degustar os salmos vamos alimentando nossa inteira certeza de uma proximidade que nos permite superar medos e desânimos, como foi o caso de Elias. Trata-se de uma experiência interior. Francisco de Assis foi um amante e frequentador das grutas, mas nos garante que sua reviravolta interior começou num episódio terra a terra, ou seja, a carinhosa aproximação sua das carnes do leproso. Ali ele tocou o Mistério.
♦ Detenhamo-nos agora na perícope do evangelho. Jesus despede as multidões depois da multiplicação dos pães. Pede que os discípulos avancem até o outro lado do Lago de Genesaré. O evangelista observa que “Jesus sobe ao monte para rezar a sós”. Essas coisas ditas en passant são importantes. Jesus sente necessidade de estar a sós com o Pai.
♦ Ordem de atravessar o mar… mas o impiedoso mar impedia e complicava a ordem de Jesus. Tempestade e medo. Parece nossa história de fé. Sensação de abandono. Jesus nos pediu e nos pede que continuemos sua obra. Garantiu que estaria conosco até o final dos tempos. Palavrinha curta e difícil. Fé. Na proximidade de sua presença. Confiança de ir até andando sobre as águas. Supõe fé em Jesus. Preciso a coragem de ir sempre “ao encontro de Jesus”.
♦ Necessário saber gritar como Pedro: “Senhor, salva-me”. No empenho de divulgar a Boa Nova do Evangelho, a alegria da fé, nos desalentos e nas dúvidas: “Senhor, salva-me”.
FREI ALMIR GUIMARÃES, OFM, ingressou na Ordem Franciscana em 1958. Estudou catequese e pastoral no Institut Catholique de Paris, a partir de 1966, período em que fez licenciatura em Teologia. Em 1974, voltou a Paris para se doutorar em Teologia. Tem diversas obras sobre espiritualidade, sobretudo na área da Pastoral familiar. É o editor da Revista “Grande Sinal”.