é a condição para a nossa justiça, e não o contrário
“É o amor de
Deus a condição para a nossa justiça”. Foi o que disse o Papa Leão XIV na
alocução que precedeu o Regina Cæli na Praça São Pedro, na presença de milhares
de fiéis e peregrinos, neste VI Domingo da Páscoa.
“Hoje, no
Evangelho, escutámos algumas palavras que Jesus dirige aos seus discípulos
durante a Última Ceia. Ao fazer do pão e do vinho o sinal vivo do seu amor,
Cristo diz: «Se me tendes amor, cumprireis os meus mandamentos». Esta afirmação
liberta-nos de um equívoco, ou seja, da ideia de sermos amados se observarmos
os mandamentos: a nossa justiça seria então condição para o amor de Deus. É o
amor de Deus, pelo contrário, a condição para a nossa justiça”. Foi o que
disse o Papa Leão XIV na alocução que precedeu o Regina Cæli na Praça São
Pedro, na presença de milhares de fiéis e peregrinos, neste VI Domingo da
Páscoa.
Observamos
verdadeiramente os mandamentos, - continuou o Papa - segundo a vontade de Deus,
se reconhecermos o seu amor por nós, tal como Cristo o revela ao mundo. As
palavras de Jesus são, portanto, um convite à relação, não uma chantagem ou uma
incerteza.
“Eis por que o
Senhor manda que nos amemos uns aos outros como Ele nos amou: é o amor de Jesus
que gera em nós o amor. O próprio Cristo é o critério, o paradigma do
verdadeiro amor: que é fiel para sempre, puro e incondicional”.
“Aquele que não
conhece nem “mas” nem “talvez”; que se doa sem querer possuir; que dá vida sem
levar nada em troca. Porque Deus nos ama primeiro, também nós podemos amar; e
quando amamos de verdade a Deus, amamo-nos de verdade uns aos outros”.
Acontece o mesmo
com a vida, acrescentou o Papa: “só quem a recebeu pode viver, e assim só quem
foi amado pode amar”.
“Os mandamentos
do Senhor são, por isso, uma regra de vida que nos cura dos falsos amores; são
um estilo espiritual, que é caminho para a salvação”.
Precisamente
porque nos ama - afirmou o Papa - o Senhor não nos deixa sozinhos nas provações
da vida: promete-nos o Paráclito, ou seja, o Advogado defensor, o «Espírito da
Verdade».
“É um dom que «o
mundo não pode receber», enquanto se obstinar no mal que oprime o pobre, exclui
o fraco, mata o inocente”.
Quem, pelo
contrário, - destacaou o Papa - corresponde ao amor que Jesus nutre por todos,
encontra no Espírito Santo um aliado que nunca falha: "Vós é que O
conheceis – diz Jesus – porque permanece junto de vós, e está em vós".
Sempre e em toda a parte podemos, então, testemunhar Deus, que é amor: esta
palavra não significa uma ideia da mente humana, mas a realidade da vida
divina, pela qual todas as coisas foram criadas do nada e salvas da morte.
O Santo Padre
sublinhou em seguida que ao oferecer-nos o amor verdadeiro e eterno, Jesus
partilha conosco a sua identidade de Filho amado: “Eu estou no meu Pai, e vós
em mim, e Eu em vós”. Esta envolvente comunhão de vida desmente o Acusador, ou
seja, o adversário do Paráclito, o espírito contrário ao nosso defensor. Com
efeito, enquanto o Espírito Santo é força de verdade, este Acusador é “pai da
mentira”, que quer opor o homem a Deus e os homens entre si: precisamente o
oposto do que faz Jesus, salvando-nos do mal e unindo-nos como povo de irmãos e
irmãs na Igreja.
Jesus está se despedindo de seus discípulos. Ele os amou apaixonadamente, com o mesmo amor que o Pai o amou. Agora tem que deixá-los. Conhece o egoísmo deles. Não sabem amar-se mutuamente. Jesus os vê discutindo entre si para obter os primeiros postos. O que será deles?
As palavras de Jesus adquirem um tom solene. Hão de ficar bem gravadas em todos: “Este é o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros como eu vos amei”. Jesus não quer que seu modo de amar desapareça entre os seus. Se um dia o esquecerem, ninguém poderá reconhecê-los como discípulos seus.
De Jesus permaneceu uma lembrança inapagável. As primeiras gerações assim resumiam sua vida: “Passou por toda parte fazendo o bem”. Era bom encontrar-se com Ele, pois buscava sempre o bem das pessoas, ajudava a viver. Sua vida foi uma Boa Notícia. Nele se podia descobrir a boa proximidade de Deus.
Jesus tem um modo de amar inconfundível. É muito sensível ao sofrimento das pessoas. Não pode passar ao largo de quem está sofrendo. Um dia, ao entrar na pequena aldeia de Naim, encontrou-se com um enterro: uma viúva em pranto estava levando seu filho único à sepultura. Do íntimo de Jesus brota seu amor por aquela desconhecida: “Mulher, não chores”. Quem ama como Jesus vive aliviando o sofrimento e secando lágrimas.
Os evangelhos lembram em diversas ocasiões como Jesus captava com seu olhar o sofrimento das pessoas. Olhava-as e se comovia: via-as sofrendo ou abatidas, como ovelhas sem pastor. Rapidamente se punha a curar as pessoas mais enfermas ou a alimentá-las com suas palavras. Quem ama como Jesus, aprende a olhar os rostos das pessoas com compaixão.
É admirável a disponibilidade de Jesus para fazer o bem. Ele não pensa em si mesmo. Está sempre atento a qualquer chamado, disposto a fazer o que pode. A um mendigo cego que lhe pede compaixão enquanto vai passando, Ele o acolhe com estas palavras: “O que queres que faça por ti?” Com esta atitude anda pela vida quem ama como Jesus.
Jesus sabe estar junto dos mais desvalidos. Nem precisam pedir-lhe e Ele faz o que pode para curar suas doenças, libertar suas consciências ou transmitir sua confiança em Deus. Mas não pode resolver todos os problemas daquela gente.
Então se dedica a fazer gestos de bondade: abraça as crianças da rua: não quer que ninguém se sinta órfão; abençoa os enfermos: não quer que se sintam esquecidos por Deus; acaricia a pele dos leprosos: não quer que se vejam excluídos. Assim são os gestos de quem ama como Jesus.
JOSÉ ANTONIO PAGOLAcursou Teologia e Ciências Bíblicas na Pontifícia Universidade Gregoriana, no Pontifício Instituto Bíblico de Roma e na Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. É autor de diversas obras de teologia, pastoral e cristologia. Atualmente é diretor do Instituto de Teologia e Pastoral de São Sebastião. Este comentário é do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, da Editora Vozes.
Os cristãos são narradores da esperança. (Luciano Manicardi)
♦ Estamos vivendo as alegrias da Páscoa. Cinquenta dias nos são propostos para aprofundar esse evento único: aquele Jesus que percorreu nossos caminhos e que se entregou livremente nas mãos dos que lhe tiraram a vida, vive. Vive do que chamamos de vida eterna, vida com a Vida no Pai. Não se trata ter o mesmo corpo reanimado. A humanidade de Jesus foi assumida na glória do Pai. Não ocupa mais os espaços físicos do mundo, mas é capaz de passar por portas fechadas. Durante semanas, a liturgia da Igreja nos pede a delicadeza de ouvir esses antigos relatos que esquentam o coração e nos falam da presença do Senhor. O Espírito vem em nosso socorro.
♦ Uma das mais doloridas experiências que os humanos podem fazer é, seguramente, a da orfandade. Crianças, adolescentes e jovens que, por diferentes razões, perdem o pai e/ou a mãe experimentam uma punhalada: perdem carinho, apoio, nutrimento pela vida, confiança, esperança. Nada substitui completamente os pais. Multiplicam-se sentimentos de solidão, abandono, insegurança. Os apóstolos ao sentirem a iminência da partida de Jesus ficam atônitos. Jesus afirma que não os deixará órfãos.
♦ “Eu virei a vós…”. Trata-se da vinda do Espírito, alma da comunidade, força, água, energia, fogo. Esse Espírito o mundo não é capaz de receber. Receberão os discípulos do Senhor que não querem errar o Caminho. Haverão de suplicar essa força como vento e calor, como fogo e refrigério. Jesus afirma que esse Sopro será enviado por ele e pelo Pai. Na hora das decisões, nos momentos de reflexão sobre o amanhã do mundo, da comunidade e de nossa vida pessoal não estaremos em estado de orfandade. Ele estará dentro de nós. Luciano Manicardi afirma que os cristãos são “narradores da esperança”.
♦ “Como é descrito o Espírito? Vem descrito como um fogo, como um sopro enérgico, uma luz, um ânimo, um desassombro, um alento que nos faltava para podermos ser. Essa imagem, que é também uma experiência do Espírito que, penso, todos fazemos – pois em algum momento sentimos que a amizade com Deus nos atravessa de uma forma total – conduz-nos certamente à verdade de Deus, mas descrevendo-a como experiência de plenitude” (José Tolentino Mendonça, Nenhum caminho será longo, Paulinas, p. 56).
♦ “Quem me ama, será amado por meu Pai e eu o amarei e manifestarei a ele”. Amar Jesus. Ter em mente esse Jesus ressuscitado. Esse que percorreu os caminhos dos homens e vive. Desde nossa mais terna infância o “conhecemos”. Quem sabe ao longo do tempo da vida fomos nos aproximando dele ou ele querendo aproximar-se de nós. Na candura de nossa fé o acolhemos. Convicção de que ele vive. Fomos afirmando nossa adesão a ele… “A quem iremos?”. Cremos não apenas que ele vive, mas acreditamos que o caminho que ele andou traçando é aquele que abraçamos, apesar de falhas e do pecado. Tentamos estar com Jesus na eucaristia de todos dias. Sabemos que ele anda marcando encontros conosco nos mais abandonados. Queremos, nem sempre conseguindo, dizer com São Paulo que para nós viver é Cristo. Amamos o Senhor, queremos ama-lo. Temos fé que assim ele se nos manifestará. O que é, de fato, amar a Jesus? Fazer nossa a sua causa. Simplesmente. Gastar o tempo da vida por ele e seus sonhos.
Precisamos que alguém nos faça lembrar a verdade de Jesus. Se a esquecermos, não saberemos quem somos nem o que estamos chamados a ser. Vamos desviar-nos sempre de novo do Evangelho e defender em seu nome causas e interesses que pouco têm a ver com ele. Vamos desfigurando a verdade , ao mesmo tempo em que achamos estarem posse dela. E preciso que o Espírito ative nossa memória de Jesus, sua presença viva, sua imaginação criadora. Não se trata de despertar uma lembrança do passado: sublime, comovente, entranhável, mas sempre uma lembrança. O que Espírito do Ressuscitado faz conosco é abrir nosso coração ao encontro com Jesus como alguém vivo. Só esta relação afetiva e cordial com Jesus Cristo é capaz de transformar-nos e gerar em nós uma maneira nova de ser e de viver. (Pagola, João, p.201).
FREI ALMIR GUIMARÃES, OFM, ingressou na Ordem Franciscana em 1958. Estudou catequese e pastoral no Institut Catholique de Paris, a partir de 1966, período em que fez licenciatura em Teologia. Em 1974, voltou a Paris para se doutorar em Teologia. Tem diversas obras sobre espiritualidade, sobretudo na área da Pastoral familiar. É o editor da Revista “Grande Sinal”.
Naqueles dias, Filipe desceu a uma cidade da Samaria e anunciou-lhes o Cristo. As multidões seguiam com atenção as coisas que Filipe dizia. E todos unânimes o escutavam, pois viam os milagres que ele fazia. De muitos possessos saíam os espíritos maus, dando grandes gritos. Numerosos paralíticos e aleijados também foram curados. Era grande a alegria naquela cidade. Os apóstolos, que estavam em Jerusalém, souberam que a Samaria acolhera a Palavra de Deus e enviaram lá Pedro e João. Chegando ali, oraram pelos habitantes da Samaria, para que recebessem o Espírito Santo. Porque o Espírito ainda não viera sobre nenhum deles; apenas tinham recebido o batismo em nome do Senhor Jesus. Pedro e João impuseram-lhes as mãos, e eles receberam o Espírito Santo.
- Aclamai o Senhor Deus, ó terra inteira, / cantai salmos a seu nome glorioso!
- Aclamai o Senhor Deus, ó terra inteira, / cantai salmos a seu nome glorioso!
1. Aclamai o Senhor Deus, ó terra inteira, / cantai salmos a seu nome glorioso, /dai a Deus a mais sublime louvação! / Dizei a Deus: “Como são grandes vossas obras!
2. Toda a terra vos adore com respeito / e proclame o louvor de vosso nome!” /Vinde ver todas as obras do Senhor: / seus prodígios estupendos entre os homens!
3. O mar ele mudou em terra firme, / e passaram pelo rio a pé enxuto. / Exultemos de alegria no Senhor! / Ele domina para sempre com poder!
4. Todos vós que a Deus temeis, vinde escutar: / vou contar-vos todo bem que ele me fez! / Bendito seja o Senhor Deus, que me escutou, † não rejeitou minha oração e meu clamor / nem afastou longe de mim o seu amor!
Caríssimos, santificai em vossos corações o Senhor Jesus Cristo e estai
sempre prontos a dar razão da vossa esperança a todo aquele que vo-la pedir. Fazei-o, porém, com mansidão e respeito e com boa consciência. Então, se em
alguma coisa fordes difamados, ficarão com vergonha aqueles que ultrajam o
vosso bom procedimento em Cristo. Pois será melhor sofrer praticando o bem,
se essa for a vontade de Deus, do que praticando o mal. Com efeito, também
Cristo morreu, uma vez por todas, por causa dos pecados, o justo pelos
injustos, a fim de nos conduzir a Deus. Sofreu a morte na sua existência
humana, mas recebeu nova vida pelo Espírito.
Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo São João
Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: “Se me amais, guardareis os
meus mandamentos, e eu rogarei ao Pai, e ele vos dará um outro Defensor, para
que permaneça sempre convosco: o Espírito da verdade, que o mundo não é capaz
de receber, porque não o vê nem o conhece. Vós o conheceis, porque ele
permanece junto de vós e estará dentro de vós. Não vos deixarei órfãos. Eu
virei a vós. Pouco tempo ainda, e o mundo não mais me verá, mas vós me
vereis, porque eu vivo e vós vivereis. Naquele dia sabereis que eu estou no
meu Pai e vós em mim e eu em vós. Quem acolheu os meus mandamentos e os
observa, esse me ama. Ora, quem me ama será amado por meu Pai, e eu o amarei e me manifestarei a ele”.
Continuando nossas reflexões sobre o batismo, consideramos hoje o sacramento da crisma. Antigamente, o dia da crisma era um dia muito especial para as comunidades, quando o bispo vinha “confirmar” as crianças (hoje, muitas vezes, é o vigário episcopal que faz isso). De onde vem esse costume? Na 1ª leitura lemos que o diácono Filipe batizou novos cristãos na Samaria. Depois, vieram os apóstolos Pedro e João de Jerusalém para confirmar os batizados, impondo-lhes as mãos, para que recebessem o Espírito Santo. Assim, os apóstolos predecessores dos bispos, completaram e “confirmaram” o batismo.
Como “alicerces” da Igreja, os apóstolos garantem aos recém-batizados o dom do Espírito, que lhes foi confiado por Cristo (evangelho) e expressam a unidade das igrejas (no caso, a de Jerusalém e a de Samaria). A confirmação do batismo pela imposição das mãos do bispo – sucessor dos apóstolos – tornou-se o sacramento da crisma: completa o batismo e realiza o dom do Espírito Santo. Chama-se “crisma”, isto é, “unção”, porque o bispo unge a fronte do crismado em sinal da dignidade e vocação do cristão. Antigamente era administrado na mesma celebração do batismo e da eucaristia, que com a crisma constituem a “iniciação cristã”.
Quando se introduziu o costume de batizar as crianças, a confirmação e a eucaristia ficaram para um momento ulterior, geralmente no início da adolescência, pelo que a crisma adquiriu o significado de “sacramento do cristão adulto”. O adolescente ou jovem é confirmado na sua fé, pelo dom do Espírito. Agora, ele terá de assumir pessoalmente o que, quando do batismo, os pais e padrinhos prometeram em seu nome. Pois a fé pode ser exigente (2ª leitura). Para a comunidade, a celebração da crisma significa também a unidade das diversas comunidades locais na “Igreja particular” ou diocese, graças à presença do bispo ou do vigário episcopal.
O evangelho de hoje nos ensina algo mais sobre o Espírito que Jesus envia aos seus. Muitos imaginam o Espírito de modo sensacionalista. Ora, Jesus envia o Espírito para que os fiéis continuem sua obra no mundo. Pois o lugar de Jesus “na carne” era limitado, no tempo e no espaço, e os fiéis são chamados a ampliar, com a força do Espírito-Paráclito, a sua obra pelo mundo afora. É este o sentido profundo da crisma, que assim completa nosso batismo.
PE. JOHAN KONINGS nasceu na Bélgica em 1941, onde se tornou Doutor em Teologia pela Universidade Católica de Lovaina, ligado ao Colégio para a América Latina (Fidei Donum). Veio ao Brasil, como sacerdote diocesano, em 1972. Em 1985 entrou na Companhia de Jesus (Jesuítas) e, desde 1986, atuou como professor de exegese bíblica na FAJE, Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, em Belo Horizonte. Faleceu no dia 21 de maio de 2022. Este comentário é do livro “Liturgia Dominical, Editora Vozes.
____________________________________________________ Fonte: franciscanos.org.br Imagem: vaticannews.va Banner: Frei Fábio M. Vasconcelos
viagens, apelos pela paz e a missão de pastorear o mundo
O Papa Leão XIV
celebra o primeiro aniversário de sua eleição à Sé de Pedro em 8 de maio de
2026. Doze meses marcados por audiências, encontros, mensagens, grandes viagens
ao Oriente Médio e à África, pelo Consistório com o Colégio Cardinalício,
ajustes e renovações na Cúria Romana e por um compromisso com a paz expresso em
vigorosos apelos e pelo trabalho diplomático nos bastidores.
O primeiro
Habemus Papam, em 8 de maio de 2025, foi anunciado pela multidão reunida na
Praça São Pedro ao ver o primeiro fio de fumaça branca que saiu da chaminé da
Capela Sistina. Em seguida, veio o anúncio do Cardeal Protodiácono, às 19h12
locais: "Robertum Franciscum..." Por fim, a aparição do balcão
central da Basílica Vaticana às 19h23 locais: vestindo uma murça vermelha, mãos
unidas, um leve sorriso, olhos marejados de emoção. Robert Francisco Prévost é
o 267º Sucessor de Pedro: Leão XIV.
“Que a paz
esteja com todos vocês.”
Ao cair da tarde
deste mesmo dia, doze meses atrás, a história bimilenar da Igreja iniciou um
novo capítulo com a eleição de um novo Pontífice, escolhido num conclave rápido
por 133 cardeais. O primeiro Papa oriundo dos Estados Unidos, nascido 69 anos
atrás em Chicago, de espírito peruano depois de mais de 22 anos vividos naquele
país latino-americano. Um "filho de Santo Agostinho", proveniente da
Ordem Agostiniana, da qual serviu dois mandatos como Prior Geral. Um Papa de
origens mistas, especialista em matemática, línguas e Direito Canônico, pároco
e bispo de Chulucanas, Trujillo e Chiclayo, e cardeal prefeito do Dicastério
para os Bispos. Um Pontífice com uma formação multifacetada, que se dirigiu ao
mundo em sua primeira aparição em italiano, espanhol e latim, lendo um texto de
sua autoria, no qual a palavra "paz" apareceu dez vezes.
O Papa, após a eleição, no balcão central da Basílica de São Pedro
Esforços pela
paz
Por esta paz —
"desarmada e desarmante", como ele a definiu em 8 de maio, com uma
expressão que se tornou uma marca registrada de seu pontificado — o Papa Leão
XIV fez apelos vigorosos ao longo deste ano: de o "Nunca mais a
guerra!", no primeiro Regina Caeli do balcão central da Basílica Vaticana,
ao apontar o dedo para os senhores da guerra cujas mãos "pingam
sangue", durante a missa do Domingo de Ramos (29 de março), e ao denunciar
quem é "escravo" da morte "para fazer de si mesmo e do próprio
poder o ídolo mudo, cego e surdo ao qual sacrifica todos os valores e diante do
qual pretende que o mundo inteiro se ajoelhe", expresso na Vigília de
Oração pela Paz na Basílica de São Pedro, em 11 de abril.
Pela paz, Leão
encontrou-se com representantes do Hezbollah no Líbano, recebeu os presidentes
da Palestina e de Israel, Abbas e Herzog, para reiterar a ambos a urgência do
cessar-fogo em Gaza e da solução de dois Estados, e manteve conversas
telefônicas com vários líderes de nações em guerra, incluindo o presidente
russo Vladimir Putin, que durante o pontificado anterior do Papa Francisco não
havia mostrado nenhum sinal de interlocução.
O Papa durante a procissão de Corpus Christi
Apelos públicos
e trabalho "nos bastidores"
Leão XIV
promoveu o trabalho diplomático pela paz, talvez menos visível ao público em
geral e aos holofotes da mídia, mas fundamental para a nobre causa do bem dos
povos, objetivo primordial da Igreja. Esse trabalho acontece "nos
bastidores", como ele próprio confidenciou a jornalistas no voo de retorno
do Líbano, destino de sua primeira viagem apostólica junto com a Turquia:
"Nosso trabalho não é, primordialmente, algo público que declaramos nas
ruas; é algo que acontece 'nos bastidores'". É algo que já fizemos e
continuaremos a fazer, para tentar, digamos, convencer as partes a abandonarem
as armas, a violência e a se reunirem à mesa de diálogo".
O Papa em uma paróquia em Roma
Estas
declarações do Papa são a chave para muitas iniciativas lançadas neste primeiro
ano de pontificado, começando pela primeira disponibilidade, poucos dias após a
sua eleição, de abrir as portas do Vaticano para acolher as negociações entre a
Rússia e a Ucrânia. Esta proposta foi recebida com ceticismo por parte dos
russos e entusiasmo por parte dos ucranianos, expresso pelo presidente
Volodymyr Zelensky, com quem o Papa se encontrou três vezes. Duas dessas
ocasiões foram em Castel Gandolfo, onde — após doze anos — Leão XIV retomou o
retorno à residência de verão, deixando a Residência Papal como museu aberto ao
público e passando a residir na Villa Barberini. Esta residência tornou-se
familiar a muitos jornalistas que se encontram com o Papa todas as terças-feiras
à noite, depois de ouvirem as suas declarações e observações sobre assuntos da
atualidade. Ou apelos, mesmo que breves, mas sempre com o objetivo de instar os
"grandes líderes mundiais" a "pôr fim à guerra" e trabalhar
pela paz "não com armas", mas "com diálogo", ou a estimular
a ação popular, como quando, após o ataque dos EUA ao Irã, ele exortou seus
compatriotas estadunidenses a "encontrarem maneiras de se comunicar com os
'membros do Congresso', com as autoridades, para dizer que não queremos guerra,
queremos paz!". Essa ação sem precedentes provocou uma reação da
administração dos Estados Unidos, com o presidente Donald Trump criticando
duramente o Pontífice no mesmo dia em que ele embarcava para a Argélia,
destino, juntamente com Camarões, Angola e Guiné Equatorial, de sua até então
viagem apostólica mais longa (13 a 23 de abril). Solicitado por jornalistas no
avião, o Papa não respondeu a essas críticas, mas sim recordou seu papel e
missão: o de "pastor" e não o de "político". Portanto,
"nenhum debate" com Trump, nem "medo" de potenciais ataques
daquela administração, mas apenas a missão de proclamar a "mensagem do
Evangelho", que infelizmente alguns hoje abusam. Palavras reiteradas
recentemente em Castel Gandolfo: "A Igreja proclama o Evangelho, prega a
paz. Se alguém quiser me criticar, que o faça com a verdade."
O Papa na prisão de Bata, Guiné Equatorial
A peregrinação
africana
O anúncio do
Evangelho, como missão primordial do Sucessor de Pedro, Leão XIV reverberou
pelas elegantes praças do Principado de Mônaco durante sua viagem em 28 de
março, e depois nas ruas, estádios e igrejas dos quatro países africanos que
visitou, em meio a filas e plateias de milhares de fiéis em clima de festa,
apesar do calor escaldante e das chuvas tropicais. Os apelos do Pontífice por
uma paz que "não deve ser inventada, mas sim acolhida" em um
território como Bamenda, no noroeste de Camarões, devastado por guerras
separatistas. Exortações à fraternidade numa Argélia 90% muçulmana; apelos por
justiça — a "verdadeira" justiça que corrige e cura — proferidos na
prisão de Bata, na Guiné Equatorial, diante de 630 detentos sob a chuva. E,
mais uma vez, orações e invocações pela distribuição justa de recursos e pelo
desenvolvimento integral em Angola, um país rico em petróleo e diamantes, onde,
no entanto, 50% da população vive em extrema pobreza. O Papa também exortou os
jovens a assumirem um papel de liderança, a respeitarem os direitos humanos, a
defenderem a dignidade dos pobres e das mulheres e a preservarem a fé, um
verdadeiro recurso que ninguém pode saquear. Estas são ideias e motivações para
que o continente caminhe de cabeça erguida rumo ao futuro pelo qual os seus
povos anseiam.
Leão XIV abraça uma menina durante uma missa em Camarões
A viagem à
Turquia e ao Líbano
A viagem à
África foi rica em imagens e palavras; uma viagem que Leão XIV desejava fazer,
como revelou no voo para Argel, desde o início de seu pontificado, mas que
adiou para priorizar a promessa e o desejo de seu antecessor, Francisco.
Tratava-se de ir à Turquia para celebrar em Iznik, hoje Niceia, o aniversário
de 1.700 anos do Concílio e depois ir ao Líbano para encontrar um povo exausto
pela guerra, crises, pobreza, emigração e imigração. Esta também foi uma
peregrinação — de 27 de novembro a 2 de dezembro — que revigorou o caminho
ecumênico, com inúmeros encontros com o Patriarca Bartolomeu, oferecendo
oportunidades de diálogo com líderes de outras religiões e proporcionando
preciosos registros. Dentre eles, o Papa em oração silenciosa diante da devastação
do porto de Beirute, palco da explosão de 2020, ou o Papa imerso no abraço
coletivo de 15 mil jovens libaneses e de outras nacionalidades em Bkerké.
O Papa reza diante do memorial em homenagem às vítimas da explosão no porto de Beirute
Entre os jovens
O Papa Leão viu
muitos jovens nos últimos meses, graças às numerosas celebrações do Jubileu da
Esperança, aberto por Francisco e concluído por ele em 6 de janeiro, Solenidade
da Epifania, com o fechamento da Porta Santa da Basílica de São Pedro. O momento
culminante do Ano Santo foi, sem dúvida, o Jubileu dedicado aos jovens, de 28
de julho a 3 de agosto. Mais de um milhão de jovens, rapazes e moças, de
diversas idades e origens, lotaram as ruas de Roma durante dias, e depois
acorreram à Tor Vergata para a vigília e a missa com o Sucessor de Pedro. Foi
um espetáculo de rostos, luzes, cores, bandeiras e celulares prontos para
registrar as palavras do Pontífice, que encorajou as novas gerações a não se
contentarem com a superficialidade, mas a construírem laços autênticos,
superando a hiperconexão e a falta de comunicação, e aspirando à santidade.
Também ficou
gravada na memória daqueles dias a surpresa da aparição do Papa num jipe na Via della
Conciliazione, na Praça São Pedro, para saudar a multidão reunida para a
abertura das comemorações do Jubileu.
"Vocês são a luz do
mundo!", exclamou o Bispo de Roma na praça. E por falar
em surpresas, não podemos esquecer a chegada do Papa a Óstia, no dia 17 de outubro, a bordo do Med25 Bel Espoir, o navio que
percorreu os portos do Mediterrâneo
transportando 25 jovens de diferentes nacionalidades e religiões. Ele, Leão XIV, estava no leme com eles, os marinheiros da paz,
"sinais de esperança" em meio ao ódio e à violência.
Leão carrega a cruz do Jubileu com jovens em Tor Vergata
Rearmamento,
violência e o domínio da força
Essa mesma
violência que o Papa por vezes descreveu como "diabólica", como
afirmou em seu discurso monumental na sessão plenária da Reunião das Obras de
Ajuda às Igrejas Orientais (ROACO), condenando a "lógica da divisão e da
retaliação", o comércio de armas que sufoca o desenvolvimento de escolas e
hospitais e a "falsa propaganda do rearmamento". Esse apelo foi
reiterado com força em sua mensagem para o 59º Dia Mundial da Paz, na qual o
Pontífice denunciou "a irracionalidade de uma relação entre os povos"
baseada "no medo e no domínio da força", mais do que na justiça, na
confiança e no diálogo.
Diálogo é talvez
a palavra que mais se repetiu nos discursos, homilias, saudações e reflexões de
Leão XIV neste primeiro ano de seu pontificado. O diálogo é a chave para abrir
todas as portas fechadas, uma ponte para superar todos os muros. O Papa tem apelado
ao diálogo, inclusive dentro da Igreja, para superar essas
"polarizações" que criam feridas no corpo eclesial. É o caso das
fraturas no Vetus Ordo, pelas quais o Pontífice, como escreveu em mensagem aos
bispos franceses, expressou preocupação, ao mesmo tempo que exortou a
"soluções concretas que permitam a inclusão generosa de pessoas
sinceramente" ligadass ao antigo rito, "de acordo com as diretrizes
estabelecidas pelo Concílio Vaticano II sobre a liturgia".
A Via-Sacra no Coliseu
Divisões sobre a
Liturgia
O tema da
Liturgia também foi proposto entre os quatro temas que Leão XIV apresentou aos
mais de 170 cardeais reunidos no Vaticano nos dias 7 e 8 de janeiro para o
primeiro, mas não o último (o próximo será em junho), Consistório com os
membros do Colégio Cardinalício. Com este evento, o Papa procurou iniciar um
método de escuta, trabalho "em conjunto" e colegialidade. Assim,
disse ele em seu discurso de abertura, "algo novo pode começar, algo que
coloque o presente e o futuro em jogo". Dos quatro temas propostos, os
cardeais reunidos durante dois dias no Vaticano votaram por uma clara maioria
os temas sobre os quais refletir: Sínodo e Sinodalidade, Evangelização e
missionariedade na Igreja, conforme interpretado pela Evangelii Gaudium.
O Papa Leão XIV abençoa a multidão na Praça São Pedro
Atenção aos
migrantes
Dois temas
representam fortes ligações com o pontificado do Papa Francisco, citado
inúmeras vezes por Leão XIV em discursos públicos. Embora o atual Pontífice
tenha revisto algumas das decisões de governança de seu antecessor (a
reintegração do Setor Central da Diocese de Roma, a supressão da Comissão de
Doações à Santa Sé e do Comitê para o Dia Mundial da Criança), ele também
concentrou e revitalizou a questão da migração, denunciando o tratamento
dispensado a milhares de migrantes: como se fossem "lixo", disse ele
em seu discurso aos Movimentos Populares, ou "animais", declarou em
sua viagem de retorno da Guiné Equatorial. O Papa irá ver de perto a tragédia
migratória e suas consequências em sua visita a Lampedusa em 4 de julho, terra
que ainda recorda a histórica visita do Papa Francisco em 2013, e sua parada
nas Ilhas Canárias como parte de sua viagem apostólica à Espanha, de 6 a 12 de
junho. Além de Madri e Barcelona, o Papa também visitará Gran Canária e Tenerife, em meio ao fluxo de homens e
mulheres que chegam a essas costas há anos.
Leão XIV reza no túmulo do Papa Francisco
Dilexi te e
o foco nos últimos
A missão do
Pontífice para os migrantes está livre de qualquer agenda política, sendo
puramente pastoral, fruto de um foco nos últimos que estão no coração do
Evangelho e da missão da Igreja. O Papa recordou isso na Dilexi te, a primeira
exortação apostólica assinada em 4 de outubro. É um projeto iniciado por
Francisco e relançado por Leão XIV sobre o tema do serviço aos pobres, em cujo
rosto – lemos – encontramos “o sofrimento dos inocentes”. No texto magisterial,
o Papa denuncia a economia que mata, a falta de igualdade, a violência contra
as mulheres, a desnutrição, a crise educacional e “as estruturas de injustiça”
que “devem ser destruídas com a força do bem”.
O Papa com uma criança doente
Ecumenismo e
criação
Outros caminhos
abertos por Bergoglio, e nos quais Prevost está trilhando, são os do diálogo,
do ecumenismo e do respeito pela Criação. Esse compromisso foi reafirmado
durante o momento histórico com os membros da realeza inglesa, Carlos III e
Camilla, vivido na manhã de 23 de outubro, na Capela Sistina, onde ocorreu uma
celebração em louvor a Deus Criador. Esse evento fortaleceu o caminho rumo à
unidade, buscando superar divisões que hoje parecem ainda mais
"escandalosas", como reiterou Leão XIV em sua audiência com a
arcebispa de Cantuária, Sarah Mullally, a primeira mulher a ocupar o cargo de
Primaz da Igreja Anglicana. Mullally foi recebida em 27 de abril, sessenta anos
após o "encontro memorável" entre o arcebispo Michael Ramsey e São
Paulo VI, que anunciou o primeiro diálogo teológico entre anglicanos e
católicos.
O Papa em Santa Maria de Galeria
Visitas na
Itália
Neste primeiro
ano na Sé de Pedro — marcado por aproximadamente 50 audiências gerais, cerca de
100 audiências públicas e privadas e mais de 60 missas — também merece destaque
a primeira visita do Papa à Itália, a Assis, em 20 de novembro, para a conclusão
da Assembleia Geral da Conferência Episcopal Italiana (CEI) e a oração no
túmulo de São Francisco, no oitavo centenário de sua morte. O Pontífice
retornará à cidade da Úmbria em 4 de agosto, no âmbito de suas visitas pelas
dioceses italianas em 2026, que começa na sexta-feira, 8 de maio, dia do
primeiro aniversário de pontificado, com visitas a Pompeia e Nápoles. Ele
visitará então Acerra, na Terra dos Fogos, a já mencionada Lampedusa e Assis, e
participará do Encontro de Rimini (o primeiro Papa em quase 30 anos) e da missa
com a Diocese de Rimini.
Leão XIV rezando no túmulo de São Francisco em Assis
Reformas da
Cúria
Em 2026, o Papa
também fez suas primeiras nomeações internas importantes: dois chefes de
dicastérios, o arcebispo Filippo Iannone, prefeito para os Bispos, e o
arcebispo Anthony Randazzo, prefeito para os Textos Legislativos; o novo
substituto da Secretaria de Estado, o arcebispo Paolo Rudelli, que substituiu o
arcebispo Edgar Peña Parra, nomeado núncio na Itália; o prefeito da Casa
Pontifícia, Petar Rajič; o padre Agostiniano Edward Daniang Daleng,
vice-regente da Prefeitura da Casa Pontifícia; o monsegnhor Anthony Onyemuche
Ekpo, assessor da Secretaria de Estado; e as nomeações dos arcebispos de Nova
York, Ronald Hicks, e de Westminster, Charles Phillip Richard Moth. Por meio de
motu proprio, rescritos e quirógrafos, Leão XIV já iniciou o processo de reforma
financeira do Vaticano, retirando do IOR seus direitos exclusivos de
investimento e introduzindo uma "responsabilidade compartilhada" com
a Administração do Patrimônio da Sé Apostólica (APSA). Publicou o novo
Regulamento da Cúria Romana e promoveu a inclusão de pessoas com deficiência na
comunidade de trabalho da Santa Sé.
O Papa na Praça São Pedro
Rumo ao novo ano
Doze meses,
portanto, de sinais e orientações, com algumas diretrizes já evidentes, como a
centralidade da missão, a atenção às periferias e a diplomacia ativa em
conflitos. Os próximos meses deixarão clara a marca do pontificado, com a
publicação da primeira encíclica e outras viagens internacionais, incluindo uma
à América Latina, desejada pelo Papa Leão.
Salvatore Cernuzio – Vatican News
_____________________________________________________________________ Fonte: vaticanews.vaVídeo e fotos: (@Vatican Media)