Um sim que seja sim
♦ Um sim que, na realidade pode ser não, ou um não que venha transformar-se em sim. Mais uma parábola. A dos dois filhos. Um diz que faz as obras do Senhor. Mas não faz. O outro, diz que não, mas volta atrás e faz. O sentido da parábola de Jesus parece claro. No seguimento de Jesus, na construção do Reino há pessoas que dizem sim. Aparentemente vivem dentro dos bons padrões. E de outro lado há os que dizem não. Tudo claro até aqui. Há, no entanto, uma sorte de inversão. Os bons parece que colocaram em si uma etiqueta de bondade, mas que, na realidade esconde um pedaço de inverdade. Consideram-se justos, mas falta-lhes o fogo interior e sua fidelidade tem tudo do legalismo. Dizem que vão, mas não vão. Estão satisfeitos com o mundinho que criaram com tintas de religiosidade. Os que disseram não se arrependem e com ardor transformam o não em sim. Mudam de ideia. Arrependem-se. Convertem-se.
♦ De maneira clara Manicardi aborda nosso tema: “Naquele ‘mudar de ideia’ está o diálogo interior, está a tomada de consciência da realidade, está a audácia de olhar de frente para si próprio, um passo preliminar essencial para o agir responsável. Em suma, está um movimento em direção à responsabilidade, da decisão de passar a irresponsabilidade para a responsabilidade. Nesse sentido, longe de ser um sinal de fraqueza, o arrependimento é sinal de coragem e força. Embora seja raro e impopular, mesmo na Igreja, o gesto de quem reconhece ter errado, de quem admite ter tomado posições que se revelaram pouco conformes com o Evangelho e muda a sua posição, procurando ser mais fiel ao Evangelho, é sinal e grandeza humana e espiritual” (Luciano Manicardi, Comentário à Liturgia Dominical e Festiva, Ano A, Paulinas de Portugal, p.144).
♦ A vida, muitas vezes, é um madrasta desalmada. Acrescentei o adjetivo desalmada porque imagino que existam madrastas com alma. Há pessoas que, na realidade tiveram uma trajetória extremamente acidentada. Um certo mocinho cresceu num ambiente em que pessoas de seu relacionamento assaltavam e ele mesmo passou ser “sócio” do crime. Um mocinha bonita, jeitosa começa a se interessar por aventuras amorosas e receber recompensas e compensações, menina que nunca fora valorizada. Pessoas que pouco visitaram seu interior. Nunca questionaram o que vem a ser voz da consciência. Por um ou outro caminho foram tocadas. A moça sonhava com um companheiro único e a formação de uma família. O rapaz depois de cumprir um tempo de prisão, olhando-se no espelho queria ser diferente. Nessas e em tantas vidas pode irromper Cristo, sobretudo através do testemunho de pessoas que se tornaram evangelho vivo. Os que haviam dito não, disseram um sim cheio de ardor.
♦ Jesus se aproxima dos mais discriminados. Senta-se para comer com publicanos. Deixa que uma pecadora beije seus pés. É conhecido como amigo dos pecadores. Quem suspeita hoje realmente que os bêbados, os mendigos e todos os que formam o refugo, a escória da sociedade podem ser os primeiros do Reino? Quem podia imaginar que os aidéticos, dependentes de drogas poderiam preceder a alguns figurões da religião… (cf. Pagola, Mateus, p. 250.)
♦ A graça do arrependimento. Sim, trata-se de uma graça. Ter-se acostumado a usufruir das coisas e dos bens para si. Ter lucrado percorrendo os caminhos da noite. Ter usado o corpo dos outros…Todas essas páginas escuras. Arrepender-se quer dizer experimentar dor pelo que se cometeu, sobretudo de termos machucado aos outros, a nós mesmos e termos descuidado de responder ao amor do Senhor.
♦ O coração contrito é a única brecha por onde Deus pode entrar numa vida. Uma vida “acostumada” com as coisas da fé é impermeável a Deus e ao seu alvissareiro convite. O homem pode desviar o seu caminho, da primeira orientação de vida. O homem vive longe de seu ser verdadeiro. O coração contrito é um coração deslumbrado pela beleza e misericórdia de Deus. O coração contrito deixa Deus ser Deus. Éloi Leclerc: “O coração contrito é uma brecha íntima por onde pode entrar ainda qualquer coisa nova. É uma abertura ao Deus vivo e imprevisível; o Deus que vem”.
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Oração
NÃO TENHAS MEDO
Não tenhas medode olhar para trás,descobrirás que o amor está a um passo de ti.
Não tenhas medode olhar-Me nos olhos.Eu acolherei a tua inquietaçãoe a tua incompleta purificação de luz.
Não tenhas medo,Eu abençoarei a tua misericórdiaquando se faz abraço,a tua piedade quando se faz ternura,a tua dor quando se faz pão.
Não tenhas medo,a paz existirá para ti também,porque o Meu coração se recolhe ao lado do teu. (Luigi Verdi)
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FREI ALMIR GUIMARÃES, OFM, ingressou na Ordem Franciscana em 1958. Estudou catequese e pastoral no Institut Catholique de Paris, a partir de 1966, período em que fez licenciatura em Teologia. Em 1974, voltou a Paris para se doutorar em Teologia. Tem diversas obras sobre espiritualidade, sobretudo na área da Pastoral familiar. É o editor da Revista “Grande Sinal”.
_______________________________________________________________________________ Fonte: franciscanos.org.br Imagem: vaticannews.va

