A ressurreição
de Cristo: uma nova existência
A partir das
reflexões de Bento XVI, exploramos como o evento pascal inaugura uma nova
dimensão do ser e exige de nós um olhar profundo para reconhecer o divino.
A Páscoa é o
evento central da fé cristã, mas frequentemente corre o risco de ser mal
compreendida em uma visão simplória, como por exemplo, uma simples reanimação
de um cadáver. Bento XVI, na obra “Jesus de Nazaré: Da entrada em
Jerusalém até a Ressurreição”, convida-nos a olhar para este mistério não como
um evento do passado, mas como uma “mutação decisiva” na história da
humanidade. Baseados nesse livro, aprofundemo-nos nesse mistério.
O escândalo do
testemunho feminino
Um dos pontos
mais intrigantes das “novidades” da ressurreição é a escolha de Maria Madalena
como a primeira testemunha. Na tradição jurídica judaica da época, o testemunho
das mulheres não era aceito em tribunais; era considerado irrelevante e pouco
confiável.
Se a
ressurreição fosse uma invenção dos discípulos para convencer o mundo, eles
jamais teriam escolhido uma mulher como porta-voz inicial. No entanto, há uma
coerência profunda aqui: as mulheres, que permaneceram ao pé da cruz com João
enquanto os outros apóstolos fugiam, foram as mesmas que receberam o privilégio
do encontro. A fidelidade no sofrimento abriu as portas para a primazia no
reconhecimento da Glória. Como os evangelhos narram fatos reais, eles não
deixaram de colocar o que era estranho à sociedade da
época.
A natureza do
corpo ressuscitado
As narrativas
evangélicas apresentam uma tensão fascinante entre a corporeidade e a
transcendência.
A corporeidade
real: Jesus não é um fantasma. Ele caminha com os discípulos de Emaús,
convida Tomé a tocar Suas chagas e come peixe diante dos Apóstolos. Isso afirma
que a matéria é boa e que a nossa identidade corporal é redimida, não
descartada. Um exemplo dessa continuidade é que o Ressuscitado carrega as
marcas da crucificação.
A nova
existência: Ao mesmo tempo, Jesus atravessa portas fechadas e não é
imediatamente reconhecido. Ele não está mais sujeito às leis da física
biológica (espaço e tempo) da mesma forma que nós.
Bento XVI
enfatiza que Jesus entrou em um “novo gênero de existência”. Ele é o mesmo, mas
de uma forma totalmente diversa. Ele agora tem um corpo glorioso, primícias do
que teremos também. Esse é um “novo”, difícil de explicar, mas certo em sua
composição nas Escrituras.
As teofanias:
reconhecer “a partir de dentro”
Para compreender
como os discípulos viam o Ressuscitado, podemos olhar para algumas Teofanias
(manifestações de Deus) no Antigo Testamento.
Abraão em
Mambré: Vê três homens, mas dirige-se a eles como “Meu Senhor”. Há um
saber interior que vai além do olhar físico (Gn 18, 1-33).
Josué e o Chefe
do Exército: A figura parece um homem comum até que sua identidade divina
é revelada pela sua autoridade. Josué vê um homem com uma espada desembainhada
na mão. “És tu um dos nossos, ou dos nossos inimigos?”. “Não, mas sou chefe do
exército do Senhor” (Js 5, 13-15).
Gedeão e Sansão: Para
Gedeão (Jz 6, 11-24) e Sansão (Jz 13), o anjo do Senhor lhes aparece com
aspecto de homem, mas é reconhecido como tal quando se esquiva.
Estas foram
manifestações que reconheceram o caráter divino de quem ali se apresentava. Mas
também havia medo, pois na teologia do Antigo Testamento, acreditava-se que
ninguém poderia ver a face de Deus e sobreviver. Com Cristo, foi possível ir
mais adiante. Ao olhar para Ele, fazia-se mister ver o Deus e homem, em uma
única pessoa. Com Ele era possível ver o próprio Deus frente à frente! Contudo,
para isso, a visão externa não bastava. O Ressuscitado exige um reconhecimento
a partir de dentro. Só quem tem familiaridade com Ele, quem “sabe quem Ele
realmente é”, conseguia vê-Lo. Vejamos o Novo Testamento: assim como os
discípulos de Emaús só O reconheceram no “partir do pão”, nós também somos
chamados a um encontro que transcende os sentidos físicos.
Proximidade e
mistério
A Ressurreição
nos deixa duas grandes certezas. Primeiro, a proximidade: Deus não é um
motor imóvel distante, mas Alguém que quer ser nosso hóspede, que caminha
conosco e partilha da nossa mesa. Deus quer se fazer próximo de mim e de você.
Segundo, a necessidade de conversão do olhar: para ver o Ressuscitado, é
preciso que o nosso coração esteja iluminado por Ele, para conseguir reconhecer
quem Ele é em sua totalidade.
A Ressurreição
não é o final de uma história, mas a abertura de um novo horizonte para o que
significa ser humano: uma vida que, embora toque a terra, já não pertence mais
à morte. Cristo ressuscitou, e com Ele, somos chamados a esse novo também.
Pe. Rodrigo Rios
– Vatican News

