Os Papas e as
guerras na era contemporânea
Diante do poder destrutivo das armas modernas, é muito difícil falar, como se fazia nos séculos passados, da possibilidade de uma "guerra justa". Já em 1963, João XXIII, na Pacem in Terris, escreveu que, na era atômica, é quase impossível pensar na guerra como instrumento de justiça. Leão XIV segue essa linha, fazendo da paz um dos temas centrais de seu pontificado.
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Leão XIV durante a vigília de oração pela paz, sábado, 11 de abril, na Basílica de São Pedro
Enquanto se
volta a falar de “guerra justa”, vale a pena recordar o magistério de paz dos
Pontífices que se sucederam na Cátedra de Pedro nos últimos cem anos. Um
magistério que foi-se enriquecendo e aprofundando gradualmente, chegando a
definir como cada vez mais difícil a possibilidade de que exista uma “guerra
justa”. As reflexões sobre a teologia dos séculos passados e sobre as possíveis
justificativas para a guerra não levam em conta o fato de que, quando os
teólogos do passado escreviam sobre esses temas, as guerras eram travadas com
espadas e bastões, e não com bombas e drones controlados por máquinas — um fato
que abre questões morais de intensidade dramática. De fato, amadureceu cada vez
mais a consciência de que a guerra não é um caminho a seguir.
Desde a carta de
Bento XV aos beligerantes, de 1917, que define a Primeira Guerra Mundial como
um “massacre inútil”, até às tentativas de Pio XII de evitar o início da
Segunda Guerra Mundial; das palavras de João XXIII na “Pacem in terris”, que já
em 1963 escrevia que “é quase impossível pensar que, na era atômica, a guerra
possa ser utilizada como instrumento de justiça”, ao grito de Paulo VI na ONU
“nunca mais a guerra”, até às tentativas ignoradas de João Paulo II de evitar
os desastrosos conflitos no Oriente Médio; os Sucessores de Pedro não deixaram
de levantar a sua voz, marcada pela profecia e pelo realismo, infelizmente, na
maioria das vezes, sem serem ouvidos.
O texto de
referência é, antes de tudo, o Catecismo da Igreja Católica, que contempla o
direito à legítima defesa, mas impõe “condições restritas” também à guerra
defensiva: “É necessário, contemporaneamente: que o dano causado pelo agressor
à nação ou à comunidade das nações seja duradouro, grave e certo; que todos os
outros meios de eliminá-lo se tenham revelado impraticáveis ou ineficazes; que
haja condições fundamentadas de sucesso; que o recurso às armas não provoque
males e desordens mais graves do que o mal a eliminar. Na avaliação dessa
condição, a potência dos meios modernos de destruição tem um peso enorme”. Quem
pode negar que a humanidade se encontra hoje à beira do abismo justamente por
causa da escalada do conflito e da potência dos “meios modernos de destruição”?
O “não” à guerra
foi reiterado com cada vez mais força também durante o pontificado do Papa
Francisco, que na Encíclica “Fratelli tutti” escreveu: “É fácil optar pela
guerra, invocando todo tipo de desculpas aparentemente humanitárias, defensivas
ou preventivas, recorrendo inclusive à manipulação da informação. De fato, nas
últimas décadas, todas as guerras alegaram ter uma ‘justificativa’ (...). A
questão é que, a partir do desenvolvimento de armas nucleares, químicas e
biológicas, e das enormes e crescentes possibilidades oferecidas pelas novas
tecnologias, foi conferido à guerra um poder destrutivo incontrolável, que
atinge muitos civis inocentes. Na verdade, “nunca a humanidade teve tanto poder
sobre si mesma e nada garante que o utilizará bem”. Portanto, não podemos mais
pensar na guerra como solução, já que os riscos provavelmente serão sempre
superiores à hipotética utilidade que se lhe atribui. Diante dessa realidade,
hoje é muito difícil defender os critérios racionais desenvolvidos em outros
séculos para falar de uma possível ‘guerra justa’. Nunca mais a guerra!”
Seu sucessor,
Leão XIV, fez da paz um dos temas centrais de seu pontificado: diante da
loucura da escalada bélica e dos gastos desmedidos com o rearmamento, ele
trilha com igual realismo e profecia o caminho já aberto por seus antecessores,
clamando por paz, diálogo e negociação. Os massacres de civis perpetrados nos
últimos anos abalam as consciências de bilhões de pessoas em todo o mundo, que
voltam os olhos para o Bispo de Roma. O Papa Leão, como fez Jesus no Getsêmani,
convida com veemência a colocar a espada na bainha: “Por toda parte, se ouvem
ameaças em vez de apelos à escuta e ao encontro”, disse ele durante a Vigília
de oração no sábado, 11 de abril, explicando que “quem reza não mata nem ameaça
com a morte, mas tem consciência dos próprios limites. Em vez disso, é escravo
da morte aquele que virou as costas ao Deus vivo, para fazer de si mesmo e do
próprio poder o ídolo mudo, cego e surdo, ao qual sacrifica todos os valores e
diante do qual pretende que o mundo inteiro se ajoelhe. Basta com a idolatria
de si mesmo e do dinheiro! Basta com a ostentação da força! Basta com a guerra!
A verdadeira força manifesta-se no serviço à vida”.
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Fonte: vaticanews.va Foto: (@Vatican Media)




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