Verdade e beleza
Dom Geraldo dos Reis Maia - Bispo de Araçuaí (MG)
Existe um nexo
entre verdade e beleza? A Filosofia Grega já relacionava a tríade: beleza,
verdade e bondade. Essa concepção levou pensadores a buscar a harmonia
estética, o conhecimento verdadeiro e a virtude moral como via para se chegar à
boa vida. Esse pensamento foi assim condensado pelo Papa Leão XIV: “O desejo do
bem, da beleza, da verdade está enraizado no ‘DNA da humanidade’”. (Discurso,
07/06/2026). Para São Tomás de Aquino, todo ser é bom, verdadeiro e belo na
medida em que participa do Ser em si, que é Deus. Esses três transcendentais do
ser se atraem na completude do ser.
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| Dom Geraldo dos Reis Maia |
Santo Agostinho
ensinava que não amamos senão o que é belo (cf. De musica, VI, 13, 38;
Confessiones, IV, 13, 20). Mais recentemente, o Papa Francisco nos falou sobre
a Via pulchritudinis (a via da beleza) como caminho para recuperar a estima da
beleza e poder chegar ao coração do homem, fazendo resplandecer nele a verdade
e a bondade. E advertiu para o risco de fomentar “um relativismo estético” que
pode obscurecer o vínculo indivisível entre verdade, bondade e beleza
(Evangelii gaudium, 167). Numa cultura em que se estetiza tudo, o risco de uma
dicotomia da beleza com a verdade é considerável.
Francisco
alertou os artistas para que estivessem atentos a “escapar ao poder sugestivo
daquela suposta beleza artificial e superficial, que hoje se difunde, e que é
muitas vezes cúmplice dos mecanismos econômicos geradores de desigualdades.
Aquela beleza não atrai, porque é uma beleza que nasce morta. Não há vida ali,
não atrai. É uma falsa beleza, cosmética, uma maquiagem que esconde em vez de
revelar” (Discurso aos Artistas, 23/06/2023). A cultura do esteticismo, com o
auxílio da tecnologia, cria essas belezas cosméticas, desvinculadas da dura
realidade.
O grande
escritor russo F. Dostoiévski abordou essa temática em sua memorável obra “O
Idiota”. Ali nos deparamos com um diálogo inesquecível. Disse Ippolit:
“Príncipe, é verdade que o senhor disse uma vez que a ‘beleza’ salvará o mundo?
Senhores – gritou alto para todos –, o príncipe afirma que a beleza salvará o
mundo! (…) Qual é a beleza que vai salvar o mundo?” (Ed. Presença, p. 396). O
príncipe a que se refere Ippolit é Lev Nikoláevitch Míchkin, protagonista da
obra, que encarna a figura de O Idiota.
O príncipe, tal
qual Jesus diante da pergunta de Pilatos – “o que é a verdade?” (Jo 18,38) –,
nada responde a Ippolit sobre que beleza salvará o mundo. Ele vai ao encontro
de um jovem de 18 anos que agonizava. Ali permanece, cheio de compaixão e amor,
até ele morrer. Com isso, quis dizer que a beleza é aquilo que nos conduz ao
amor solidário diante da dor do outro, que nos interpela. O mundo será salvo
hoje e sempre enquanto houver essa atitude: o amor solidário, característica
mais profunda do ser humano. Páginas à frente segue a descrição do impacto
causado pelo quadro do “Cristo Morto”, de Hans Hosbein (1521).
De fato,
Dostoiévski havia contemplado essa obra de arte quando visitara Basileia, na
Suíça, e passa a descrever o quadro. “A pintura não era grande coisa em termos
artísticos, mas mergulhou-me numa estranha inquietação. Nesse quadro está
pintado um Cristo que acabaram de tirar da cruz. Parece que os pintores têm o
hábito de representar Cristo, tanto crucificado como tirado da cruz, sempre com
um toque de beleza no rosto; mesmo nos momentos de sofrimento mais terrível,
acham que devem conservar-lhe a beleza”. O relato continua, e vem a afirmação
de que naquela pintura não havia o mínimo de beleza. E segue a descrição dos
sinais da crueldade no corpo representado pelo artista.
E continua a
narrativa da obra: “É estranho que, quando olhamos para este cadáver de homem
torturado, surge uma pergunta especial e curiosa: se um cadáver assim (…) foi
visto por todos os seus discípulos, pelos principais futuros apóstolos dele,
pelas mulheres que tinham fé nele e o adoravam, como foi possível que
acreditassem, à vista deste cadáver, que este mártir ia ressuscitar? Com este
quadro parece estar expressa precisamente a noção de uma força obscura,
descarada e eternamente sem sentido a que tudo fica submisso”. A pintura em
questão trata-se de uma espécie de antítese da beleza: a beleza de quem foi
fiel até o fim, sofreu os tormentos mais cruéis por amor à humanidade. É
precisamente esta a beleza que salva o mundo.
A verdadeira
beleza que salva o mundo está vinculada ao senso ético. Não se trata de um
esteticismo puro. A sensibilidade artística e profundamente humana consegue
perceber uma beleza no corpo torturado “de uma pessoa que sofreu infinitamente,
ainda antes da crucificação, feridas, torturas, espancamentos por parte dos
guardas e do povo (…). Também é verdade que há ainda muita vida, muito calor,
no rosto de um homem que acabaram de tirar da cruz: o cadáver ainda não teve
tempo de tornar-se rígido, no rosto do morto ainda transparece o sofrimento,
como que sentido no próprio instante (…)” (id., p. 421).
Não se pode
tolerar a dicotomia entre o ético, o verdadeiro e o bom. A “beleza cosmética”,
desvinculada da verdade e da bondade fica fadada à inautenticidade. Ela é
plástica, artificial, fora da realidade. A beleza do Cristo de Hosbein não
condiz com a beleza de um esteticismo convencional, mas está vinculada à
verdade e à bondade. É essa beleza que somos chamados a cultivar nos espaços de
nossa existência: Uma beleza que vai ao encontro do outro que nos interpela,
assim como Deus se apequenou, humilhou-se, “quenotizou-se” para assumir em tudo
a condição humana (cf. Filp 2,5-11) e nos apontar o horizonte da vocação
humana, a verdadeira humanização do ser humano (cf. GS, 22). É essa beleza que
salva o mundo.
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Fonte: cnbb.org.br