sábado, 7 de março de 2026

Reflita com frei Almir Guimarães:

A história de uma mulher da Samaria

Como a corça suspira pelas águas correntes, assim a minha alma suspira por ti, ó Deus. Minha alma tem sede do Deus vivo: quando virei a contemplar o rosto de Deus? (Salmo 42, 2-3)

O desejo humano diferencia-se do desejo dos animais que se confunde com as necessidades, pois o destes visa unicamente no quadro da luta pela sobrevivência, à assimilação instintiva do objeto. O desejo do ser humano é uma sede diversa: é o desejo de ser amado, olhado, cuidado, desejado e reconhecido. Ser humano é sentir que a existência depende desse reconhecimento, mais do que de outra coisa qualquer, e por isso está pronto a ariscar tudo, até a própria vida. Enquanto desejamos objetos quaisquer que eles sejam, enquanto nos deixamos mover no encalço das coisas, carreiras, títulos, honorificências, o nosso desejar não é ainda um desejar verdadeiro. O puro desejo principia quando se formula, sem mais, como nua abertura ao outro. (José Tolentino Mendonça - Elogio da sede, Paulinas, p. 48)

Quaresma, tempo que nos leva ao esplendor da noite pascal, tempo de revisão de vida, tempo em que desejamos aquilo que a sede provoca em nós. Tempo de renovar nosso mergulho batismal na morte e ressurreição do Senhor. O encontro de Jesus com a mulher de Samaria faz parte do patrimônio da quaresma. Os que se preparavam para o batismo no clássico período do catecumenato (sec. IV e V) se afeiçoaram a esse poço e a essa mulher tão cheia de perguntas e de questionamentos. Como desfecho do encontro ela exclama: “Vinde ver um homem que me disse tudo o que fiz. Será que ele não é o Cristo?”

Assim a mulher poderia fazer o relato de seu inesperado e alvissareiro encontro:

“Quando eu cheguei ao poço aquele homem já estava se aproximando. Lembro-me que era um dia muito quente. Veio a Sicar e parecia exausto. Sentou-se à beira do poço. Era um judeu. Quando cheguei era bem por volta do meio-dia. Fui lá para encher o cântaro de água e nem podia imaginar o que ia acontecer.

Não é que aquele estrangeiro resolveu me dirigir a palavra! Pedia que lhe desse a beber. Fui categórica: “Onde se viu tu, judeu, pedir água a uma mulher samaritana!!” Ele não reagiu. Continuou a conversa.

Ele começou a me dizer que se eu soubesse quem ele era, eu que pediria a beber, que ele tinha uma água viva, e que quem dela bebesse não precisaria ir ao poço tantas vezes. Começou a dizer que eu deveria pedir o dom de Deus. Imaginem nem balde ele tinha. Como poderia me dar de beber? Ele queria ser maior do que nosso pai Jacó. Confesso que fiquei curiosa e quase revoltada.

Não esqueço nenhuma das palavras que ele disse. Elas martelavam em minha cabeça. Fiquei impressionada com aquela história de água viva que ele tinha a oferecer proveniente de Deus. Estas palavras calaram fundo dentro de mim: “Todo aquele que bebe desta água terá sede de novo. Mas quem beber da água que eu lhe der, esse nunca mais terá sede. E a água que eu lhe der se tornará nele uma fonte de água para a vida eterna”. Essas palavras ficaram gravadas em mim. Eu poderia ter uma misteriosa fonte dentro de mim. Lembro-me que lhe disse então: “Senhor, dá-me desta água, para que eu não tenha mais sede e nem tenha que vir aqui para tirá-la”. Penso que naquele momento eu não dizia coisa com coisa. Água, sede… sei lá…

Depois fui me dando conta que ele me conhecia por dentro… estranhamente. Pediu que eu fosse chamar meu marido e já estivera ciente que já tivera cinco e o homem com quem eu vivia não era meu marido… Curioso. Pareceu um profeta, um leitor do profundo das pessoas.

A conversa continuou. Num determinado momento houve uma declaração extraordinária. Eu lhe disse, então: “Sei que o Messias deve chegar, que se chama Cristo e que vai ensinar todas as coisas”. Então, pasmem, ele me disse: “O Messias sou eu que estou falando contigo”.

Nesse momento chegaram os que andavam com ele… e nem tive tempo de continuar a conversa. Não conseguia assimilar aquilo que ele me dissera. Deixei o cântaro lá. A água poço ficara em segundo plano. Agora sentia dentro de mim uma estranha sede. Comecei a pensar que ele tinha no poço de seu coração uma fonte borbulhante de vida. Estava começando a me ligar ao fascínio desse homem sentado à beira do poço. Fui correndo para a cidade dizendo que havia encontrado um homem que havia lido as páginas do livro da minha vida. Comecei a pensar seriamente que ele era mesmo o Messias. Uma sede louca e diferente ardia em minha garganta”.

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Concluindo:

 Esta admirável página do diário de uma mulher samaritana deve ser completa ainda com observações do quarto evangelista: “Muitos samaritanos daquela cidade abraçaram a fé em Jesus, por causa da mulher que testemunhava: Ele me disse tudo o que fiz. Por isso os samaritanos vieram ao encontro de Jesus e pediram que permanecesse com eles. Jesus permaneceu aí dois dias. E muitos outros creram por causa de sua palavra. E disseram à mulher: “Já não cremos por causa de tuas palavras, pois nós mesmo ouvimos e sabemos que este é verdadeiramente o salvador do mundo” (Jo 4, 39-42).

 Há homens e mulheres desejosos de plenitude e dos quais hoje o Cristo ressuscitado se aproxima questionando seus projetos de vida e insinuando-se em suas existências pela Palavra, pelos acontecimentos da vida, pelos apelos ao silêncio, pelos sinais dos tempos. Quem sabe, muitos de nossos contemporâneos, mesmo depois de certa caminhada de fé, podem também, como a mulher da Samaria, dizer: “Será que ele não é o Cristo?”

 “Hoje, torna-se cada vez mais claro que as sociedades capitalistas, organizadas à roda do consumo, explorando avidamente as compulsões de satisfação de necessidades induzidas pela publicidade, estão, na prática, removendo a sede e o desejo tipicamente humanos. O discurso capitalista promete liberta o desejo das inibições da lei e da moral em nome de uma satisfação ilimitada. Mas quando o gozo, a paixão, a alegria se esgotam no consumismo desenfreado, seja de objetos, seja das próprias pessoas, chegamos à extinção da sede, à agonia do desejo. A vida perde horizonte. Os tetos tornam-se cada vez mais baixos. Há nas nossas culturas, e nas nossas Igreja de igual modo, um déficit de desejo. Quando se adverte que estamos assistindo no presente à emergência, cada vez em escala maior, de sujeitos sem desejo, isto deve conduzir-nos a uma autocrítica eclesial. Nós, os batizados, formamos uma comunidade de desiderantes? Os cristãos têm sonhos?” (José Tolentino Mendonça - Elogio da sede, op.cit., p. 48-49)

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Oração

Tu não podes suportar, Senhor,
que um só dos teus se perca.
Tu nos procuras quando nos afastamos de ti.
Tu vais em busca dos que nós abandonamos.
E vais procurar aqueles dos quais ninguém sente falta.
Sempre te perdes entre os perdidos para encontra-los.
Nós nos entregamos a esta certeza,
a esta promessa que rompe nossos esquemas,
nos entregamos a teu amor cheio de ternura e imaginação
porque sentimos tua misericórdia e fidelidade em nossa vida. (F. Ulíbarri)

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FREI ALMIR GUIMARÃES, OFM, ingressou na Ordem Franciscana em 1958. Estudou catequese e pastoral no Institut Catholique de Paris, a partir de 1966, período em que fez licenciatura em Teologia. Em 1974, voltou a Paris para se doutorar em Teologia. Tem diversas obras sobre espiritualidade, sobretudo na área da Pastoral familiar. É o editor da Revista “Grande Sinal”.

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