Chorar e confiar
José Antonio Pagola
Acontece o mesmo com todos nós. Não queremos pensar na morte. É melhor esquecê-la. Não falar disso. Continuar vivendo cada dia como se fôssemos eternos. Já sabemos que isto é um engano, mas não conseguimos viver de outra maneira. Seria insuportável para nós.
Mas, a qualquer momento, a enfermidade vem sacudir-nos da inconsciência. Nos nossos dias é cada vez mais frequente uma experiência antes desconhecida: a espera pelos resultados dos exames médicos. Qual será o diagnóstico? Negativo ou positivo? De repente descobrimos ao mesmo tempo a fragilidade de nossa vida e nosso desejo enorme de viver.
Se o tumor for benigno, um alívio: podemos continuar com nossas ilusões e projetos. Se for maligno, desabamos: por que agora, por que tão depressa, por que tenho que morrer? Sempre é assim. Seja qual for a nossa ideologia, nossa fé ou nossa postura diante da vida, todos teremos que enfrentar esse final inevitável. Diante da morte, sobram as teorias. O que podemos fazer: rebelar-nos, ficar deprimidos ou simplesmente enganar-nos? Diante da morte, Jesus fez duas coisas: chorar e confiar em Deus.
Em Betânia morreu seu amigo Lázaro. Ao ver sua irmã chorar e os que a acompanhavam, Jesus, profundamente comovido, se põe a chorar. As pessoas comentam: “Vede como Ele o amava!” É sua primeira reação: pena, compaixão e pranto. Jesus sofre ao ver a distância enorme que há entre o sofrimento dos seres humanos e a vida que Deus quer para todos eles.
Mas Jesus tem fé no Pai: “Esta enfermidade não acabará em morte”. É sua segunda reação: uma confiança total em Deus. Um dia Lázaro morrerá. O próprio Jesus terminará seus dias executado numa cruz. Ninguém escapa da morte. Mas Deus, amigo da vida, é mais forte do que a morte. Temos que confiar nele.
Inevitavelmente, um dia nossas análises médicas nos indicarão que nosso fim está próximo. Será duro. Certamente vamos começar a chorar. Nossos familiares e amigos mais queridos chorarão conosco sua aflição e impotência. Mas, se cremos em Jesus Cristo, poderemos dizer com fé: “Nem sequer esta enfermidade acabará em morte”, porque Deus só quer para nós vida, e vida eterna.
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JOSÉ ANTONIO PAGOLA cursou Teologia e Ciências Bíblicas na Pontifícia Universidade Gregoriana, no Pontifício Instituto Bíblico de Roma e na Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. É autor de diversas obras de teologia, pastoral e cristologia. Atualmente é diretor do Instituto de Teologia e Pastoral de São Sebastião. Este comentário é do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, da Editora Vozes.

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