Dom Paulo Mendes
Peixoto - Arcebispo de Uberaba (MG)
Quanto mais
simples, mais misterioso. Assim é Deus, pois, de tão simples, se
torna mistério incompatível com a capacidade cognitiva da pessoa humana. Ele se
deixa conhecer nas diversas formas de atuação da criação, principalmente do ser
humano. Isto está bem visível na vida das pessoas mais sofridas e sem expressão
de popularidade, escondidas no mundo dos sem vez e sem voz.
O mundo da
violência e guerras inconsequentes, daquelas que tiram a paz, não conhece
a lógica e a força da simplicidade, do respeito e do diálogo. O que
falta mesmo é perceber a mensagem da paz, revelada na Palavra de Deus, que
acolhe o coração dos simples e abate, mais cedo ou mais tarde, a intransigência
dos poderosos e envaidecidos pelo poder de força e de destruição que
têm.
Na visão do
apóstolo Paulo, muitas pessoas vivem segundo a carne e não segundo o Espírito
(cf. Rm 8,5). Com isto, não conseguem entender as surpresas de Deus nos fatos
ligados à vida. Sem ater-se a essas divinas e inspiradas referências, a
dignidade da pessoa humana é colocada em risco e, em última instância, a
morte. É isto que estamos presenciando, cotidianamente, no
mundo.
Usaram todo tipo
de artimanha e violência contra Jesus. Ele, sendo Deus, tinha toda força de
poder para vingar. Mas, seu poder estava na humildade, na capacidade de diálogo
e na misericórdia, naquilo que falta ser colocado em prática em nosso tempo.
Vemos o Brasil totalmente mergulhado em atitudes
desonestas, revelando um poder corroído, sem
humildade, humanidade e irresponsável.
A política
tornou-se instrumento de corrupção. É pena que isto esteja acontecendo, porque
é campo de fazer justiça, através de uma boa administração. Creio que as
Eleições sejam espaço próprio para se eliminar, de vez, os falsos
políticos. Cada eleitor deve votar com mais responsabilidade, porque isto
traz consequências sérias na vida. Políticos, em vez da simplicidade
e do serviço, exploram.
No cenário
nacional, é bem percebível, que há uma imagem distorcida sobre Deus.
Aliás, usam muito “o nome de Deus em vão”, principalmente
quando ele é invocado em vista
de poder, do dinheiro e da prosperidade simplesmente
material. São práticas que eliminam o Deus verdadeiro e a simplicidade, que é
rica de poder, desaparece. Quando nos despimos do poder, damos lugar para Deus
agir.
A carta enviada
por Leão XIV ao superior da Fraternidade São Pio X traz a data de 29 de junho,
festa dos Santos Pedro e Paulo, véspera da anunciada consagração episcopal sem
mandato pontifício, que constituiria um novo ato cismático.
Um breviário com a fotografia do fundador da Fraternidade São Pio X, o já falecido bispo Marcel Lefebvre (AFP or licensors)
Como havia
anunciado nos últimos dias ao encontrar os jornalistas em Castel Gandolfo, o
Papa Leão enviou um último apelo à Fraternidade Sacerdotal São Pio X, pedindo
que não prossiga com a consagração de quatro novos bispos sem mandato
pontifício, prevista para a manhã de 1º de julho, em Écône, na Suíça.
“Com sentimentos
paternos, desejo dirigir-me a Vossa Reverência e, por seu intermédio, aos
bispos, sacerdotes, seminaristas e fiéis vinculados à Fraternidade Sacerdotal
São Pio X, consciente da responsabilidade que o Senhor me confiou como Sucessor
do Apóstolo Pedro. A Igreja reconhece o apreço pela vida litúrgica, o empenho
na formação sacerdotal, o zelo apostólico e o desejo de fidelidade à Tradição
que caracterizam muitas pessoas e comunidades vinculadas a essa Fraternidade.
Tudo isto motivou a atenção e a benevolência que os meus Predecessores vos
manifestaram constantemente.”
“Neste espírito,
e repleto de afeto cristão, peço-vos e suplico-vos do fundo do coração:
Reconsiderai! Exorto-vos a ter em conta, com muita atenção, o bem espiritual
dos fiéis, porque a ação cismática que cometeríeis privá-los-ia da recepção
lícita e, n'alguns casos, até mesmo válida dos Sacramentos que eles amam e
procuram para a sua santificação.”
“A Igreja –
lê-se ainda na carta papal, redigida em francês e dirigida ao
Superior-Geral da Fraternidade, padre Davide Pagliarani – está disponível a um
caminho de diálogo e de entendimento, que o Espírito Santo pode tornar possível
e fecundo. Rezo por vós, pois rasgar a Túnica inconsútil de Cristo é um pecado
de extrema gravidade. Que o Senhor ilumine as vossas consciências e toque os
vossos corações. Pela autoridade que recebi de Cristo, com o coração
entristecido, mas ainda cheio de esperança, sinto o dever de vos pedir para
desistirdes do vosso propósito, confiando estas intenções ao Coração Imaculado
de Maria, Mãe do Bom Conselho.”
O Papa,
portanto, pede mais uma vez aos lefebvrianos que renunciem a levar adiante o
ato cismático das consagrações episcopais sem mandato pontifício. É
significativo que o argumento mais forte apresentado na carta seja o bem das
almas dos fiéis da Fraternidade São Pio X, uma vez que tal ato tornaria
ilícitos e, em alguns casos (como na confissão sacramental e no matrimônio)
também inválidos os sacramentos celebrados.
como Pedro
e Paulo, sejamos construtores de unidade
Na Solenidade
dos Santos Pedro e Paulo, Leão XIV presidiu à Santa Missa na Basílica de São
Pedro, durante a qual impôs o pálio aos arcebispos metropolitanos nomeados nos
últimos 12 meses. Entre eles, há quatro brasileiros.
"Rezemos a
São Pedro e São Paulo, para que nos apoiem no caminho da comunhão, seguindo as
pegadas do Salvador." Este foi o auspício formulado pelo Papa Leão XIV, ao
presidir à celebração eucarística na Solenidade dos santos padroeiros da cidade
e da diocese Roma. Como recordou o Pontífice, "neles veneramos duas
colunas da Igreja".
Esta cerimônia é
repleta de particularidades. Uma delas é a tradicional presença de uma
delegação do Patriarcado Ecumênico de Constantinopla. A Santa Sé retribui este
gesto fraterno enviando, por sua vez, um representante para a Festa de Santo
André, em 30 de novembro, padroeiro da Igreja de Constantinopla. Com efeito, o
Pontífice e o Metropolita de Calcedônia, Sua Eminência Emmanuel, enviado de Sua
Santidade Bartolomeu, rezam diante dos restos de Pedro, guardados sob o altar
principal da Basílica Vaticana.
O Papa se detém
em oração também diante da imagem de bronze de São Pedro, que se encontra
na nave principal, à direita do altar principal e do baldaquino de Bernini.
Nesta ocasião, a imagem é revestida de um manto vermelho. Outro símbolo
característico é o grande cesto colocado na entrada da Basílica Vaticana, em
referência à expressão "pescador de homens".
Papa reza diante do túmulo de São Pedro
Podemos ser
apóstolos e construtores de unidade
Já em sua homilia, Leão XIV se deteve nas características mais marcantes dos dois
santos. Pedro, guardião do Povo de Deus, aparece muitas vezes no Novo
Testamento empenhado em conservar a comunhão entre os irmãos. Esta
grandeza de espírito, observou o Papa, não significa que Pedro seja perfeito.
Durante a Paixão, nega o Mestre, para depois chorar lágrimas sinceras de
arrependimento. Porém, sabe reconhecer os seus erros e arrepender-se.
Esta solicitude
fiel e paciente pela unidade está representada no símbolo das chaves, com o
qual é identificado. Com efeito, uma chave não derruba portas, mas abre e
fecha-as de acordo com a situação. Da mesma forma, comparou o Papa, "a
comunhão na Igreja não se constrói endurecendo nas próprias posições, mas
procurando, no coração de todos, os pontos de encontro na Verdade, à luz da
qual cada um se torna, para o outro, instrumento de crescimento".
Assim, o exemplo
de Pedro é também um convite a cada cristão se tornar construtor de unidade,
colocando Deus no centro da sua existência. Este é também o ensinamento de
Paulo, que o Santo Padre definiu como "incansável anunciador da Boa
Nova". Os seus símbolos distintivos são o livro e a espada, estreitamente
unidos entre si. O Apóstolo dos gentios deixou-se transformar pelo poder
da Palavra de Deus, que o tirou à violência para o conduzir pelo caminho do
amor.
"Caríssimos,
hoje para nós é importante olhar para estes dois santos – Pedro e Paulo – a fim
de compreender como, no que nos diz respeito, podemos ser apóstolos e
construtores de unidade, servos generosos da verdade na caridade", exortou
o Papa.
Papa com os arcebispos que receberam o pálio
Tomar sobre os
próprios ombros os irmãos
É com este
espírito que se realiza o antigo e sugestivo rito da entrega dos pálios aos
arcebispos metropolitas. Estas faixas de lã branca embelezadas com cruzes,
explicou, expressam na verdade o compromisso de cada Pastor – mas também de
cada cristão – "de tomar sobre os próprios ombros os irmãos e irmãs que
lhe são confiados e de sacrificar por eles forças, tempo, canseiras e até mesmo
a vida, para que o Evangelho chegue a todos e o mundo inteiro encontre nele
harmonia e concórdia".
Após saudar os
membros da Delegação ecumênica, o Pontífice concluiu: "Rezemos a São Pedro
e São Paulo, para que nos apoiem no caminho da comunhão, seguindo as pegadas do
Salvador. É a via que Ele traçou, pela qual intercedeu ao Pai na Última Ceia, a
meta que nos ensinou a ansiar com esperança confiante".
A cerimônia
prosseguiu com a bênção e imposição do pálio aos novos arcebispos
metropolitanos. Eram 35 no total, dos quais quatro do Brasil. São eles: Dom
Júlio Endi Akamine, arcebispo de Belém do Pará (PA), Dom José Roberto Fortes
Palau, arcebispo de Sorocaba (SP), Dom Marco Aurélio Gubiotti, arcebispo de
Juiz de Fora (MG), e Dom Mário Antônio da Silva, arcebispo de Aparecida
(SP).
Dom Leomar Brustolin - Arcebispo de Santa Maria (RS)
Entre as grandes celebrações da Igreja, poucas possuem um significado tão profundo quanto a Solenidade de São Pedro e São Paulo. O Prefácio da Missa deste dia resume com admirável beleza, o lugar singular que ambos ocupam na vida da Igreja: Pedro foi o primeiro a proclamar a fé; Paulo, o mestre que a anunciou aos povos. Pedro reuniu os primeiros discípulos vindos de Israel; Paulo levou o Evangelho até os confins do mundo. Distintos em seus caminhos e dons, tornaram-se um só testemunho de Cristo.
Pedro era pescador. Homem simples, impulsivo, marcado por generosidades e fragilidades. Foi ele quem, em nome dos discípulos, professou: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. Sobre essa fé, Cristo edificou sua Igreja. Paulo, por sua vez, era homem culto, cidadão romano, profundo conhecedor das Escrituras. De perseguidor dos cristãos, tornou-se ardoroso anunciador do Evangelho após encontrar-se com Cristo ressuscitado no caminho de Damasco.
A Igreja não celebra dois homens iguais. Celebra dois santos profundamente diferentes. Um representa a estabilidade da rocha; o outro, o dinamismo da missão. Um guarda a unidade; o outro abre caminhos. Um confirma os irmãos na fé; o outro atravessa mares e fronteiras para anunciar Cristo. No entanto, ambos encontraram sua verdadeira identidade não em suas qualidades pessoais, mas na experiência transformadora do encontro e do amor ao Senhor.
Num tempo em que tantas diferenças se transformam em divisões, Pedro e Paulo recordam que a unidade não exige uniformidade. A Igreja é rica justamente porque reúne diversos carismas, sensibilidades, culturas e vocações. A comunhão nasce quando todos reconhecem que Cristo é maior do que nossas preferências e opiniões e projetos pessoais.
Os dois apóstolos terminaram seus dias em Roma, derramando o próprio sangue pelo Evangelho. Aquilo que começou de maneira tão diferente encontrou sua plenitude no mesmo testemunho de fé. A mesma cidade acolheu seus martírios; a mesma Igreja conserva sua memória; o mesmo amor a Cristo sustentou sua fidelidade até o fim.
Pedro nos ensina a permanecer firmes. Paulo nos ensina a partir em missão. Juntos, recordam à Igreja de todos os tempos que a fé precisa de raízes profundas e de horizontes amplos. A rocha e o caminho, a unidade e a missão, a permanência e a saída missionária: eis o legado dos dois grandes apóstolos, que continuam a fortalecer a Igreja com sua intercessão e a inspirar os discípulos de Cristo pelo testemunho de suas vidas.
Dom Rodolfo Luís Weber - Arcebispo de Passo Fundo (RS)
Celebramos solenemente o martírio dos santos apóstolos Pedro e Paulo. “Pedro, o primeiro a confessar a fé em Cristo; fundou a Igreja sobre a herança de Israel; Paulo, mestre e doutor da fé, iluminou as profundezas do mistério e anunciou o Evangelho a todas as nações. Assim, por diferentes meios, os dois congregaram a única família de Cristo e, unidos pela coroa do martírio, recebem hoje, por toda a terra, a mesma veneração”, reza o prefácio da missa da solenidade de São Pedro e São Paulo (Atos 12,1-11, Salmo 33(34), 2 Timóteo 4,6-8.17-18 e Mateus 16,13-19). Os dois prestaram o seu testemunho através de martírio em pouco tempo e espaço um do outro em Roma. Pedro foi crucificado e Paulo foi decapitado.
A tradição cristã considerou Pedro e Paulo inseparáveis um do outro, embora cada um tenha tido uma missão diferente a cumprir na Igreja. Depois de Pedro professar que Jesus “é o Messias, o Filho do Deus vivo”; Ele lhe diz: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja”, “eu te darei as chaves” para “ligar” e “desligar”. Paulo confessa: “o Senhor esteve ao meu lado e me deu forças; ele fez com que a mensagem fosse anunciada por mim integralmente, e ouvida por todas as nações”. Com carismas e qualidades humanas diferentes trabalharam por uma única causa: o anúncio do Evangelho para construção da Igreja de Cristo.
Através do Novo Testamento podemos reconstruir o itinerário da vida de Pedro e Paulo. Pedro era pescador no mar da Galileia. Durante uma pesca Jesus o chamou e seu irmão: “Vinde após mim, e eu vos farei pescadores de homens” (Mc 1,17). A partir daí, iniciou uma extraordinária aventura de seguimento de Jesus na Galileia e na Judeia. Testemunhou todo a pregação do mestre, presenciou os acontecimentos pascais da prisão, condenação, morte e ressurreição de Jesus. Depois de ter recebido o mandato de anunciar o Evangelho anda pela Palestina, se transfere para Antioquia e termina a missão em Roma. Lá repousam seus restos mortais na Basílica de São Pedro.
Paulo nasceu em Tarso, hoje sul da Turquia, filho de pais hebreus. Estava em Jerusalém durante os dias em que Jesus foi morto e ressuscitou estudando e aprofundando os escritos de Moisés e dos profetas. Um homem zeloso pelas tradições do seu povo. Quando surge a comunidade cristã a partir dos ensinamentos de Cristo, vê nela uma ameaça a ser combatida. Durante uma expedição para prender cristãos em Damasco acontece com ele um fato extraordinário. Uma forte experiência de Deus o derruba, e uma voz o chama: “Saul, Saul, porque me persegues? Saulo perguntou: “Quem és tu, Senhor? A voz respondeu: Eu sou Jesus a quem estás perseguindo”. A partir daí sua vida tomou um novo rumo. De perseguidor dos cristãos se tornou um missionário que não mediu esforços, nem limites geográficos ou sofrimentos físicos ou morais o impediram de anunciar Jesus Cristo. Ao final da vida confessa: “Eu vivo, mas não eu: é Cristo que vive em mim. Minha vida atual na carne, eu a vivo na fé, crendo no Filho de Deus que me amou e se entregou por mim” (Gal 2,20). “Combati o bom combate, completei a corrida, guardei a fé”.
A solenidade de Pedro e Paulo recorda os fundamentos da Igreja. Ela é a comunidade edificada por Cristo que colocou como fundamento os apóstolos, entre estes merecem destaque Pedro e Paulo. Foram escolhidos por Cristo como primeiras pedras do edifício espiritual da Igreja. Nasce assim uma das características da Igreja. Somos uma Igreja apostólica.
Hoje quem exerce a missão de São Pedro é Leão XIV, 267º Papa da Igreja Católica. O Código de Direito Canônico, no cânon 331, resume assim quem é o papa. “O Bispo da Igreja de Roma, no qual permanece o múnus concedido pelo Senhor de forma singular a Pedro, o primeiro dos Apóstolos, para ser transmitido aos seus sucessores, é a cabeça do Colégio dos Bispos, Vigário de Cristo e Pastor da Igreja Universal neste mundo”.
Hoje todos os católicos são convidados a fazer o que fizeram os primeiros cristãos por Pedro: “a Igreja rezava continuamente a Deus por Pedro”. Supliquemos a intercessão de São Pedro e de São Paulo pelo Papa e por toda a Igreja.
obcecados
por ter e possuir, Jesus nos convida a abraçar a Cruz
No Angelus
dominical, Leão XIV agradeceu aos peregrinos que, numerosos, compareceram à
Praça São Pedro não obstante o calor. Muitos se refugiaram sob a colunata de
Bernini para se reparar do sol e da onda de calor que atinge toda a Europa.
Comentando o Evangelho do dia, o Pontífice indicou três atitudes: desapego,
perda e acolhimento.
O forte calor em
Roma - com máxima de 37 graus e sensação térmica superior - não impediu que
milhares de pessoas comparecessem à Praça São Pedro para rezar o Angelus com o
Papa Leão. Em sua alocução, o Pontífice comentou o Evangelho deste 13º Domingo do Tempo Comum, em que Jesus
faz algumas exortações para vivermos o seguimento e sermos testemunhas do
seu Reino. Não se trata de uma ação exterior, explicou o Papa, mas de nos
dedicarmos totalmente a uma relação de amor com Ele. E para dar fruto, o amor
requer três atitudes, como indicou o Santo
Padre: desapego, perda e acolhimento.
Em primeiro
lugar, o desapego. Jesus diz que quem ama mais os pais ou filhos não é
digo Dele. Quando começa a enviar os seus Apóstolos em missão, o Senhor deseja
que eles estejam livres de qualquer vínculo, pois até os afetos mais
importantes encontram a sua plenitude graças ao amor que Cristo nos dá. Santo
Agostinho afirma que «é doloroso separar-se do que se ama. Mas também o
agricultor perde temporariamente o que semeia».
Amar também é
perder
Neste sentido, o
amor é também perda. É difícil compreendê-lo, afirmou o Pontífice,
"especialmente num mundo no qual perder parece ser uma fraqueza e no qual
se vive obcecados por ter e possuir. O amor, porém, só produz fruto ao
doar-se". Ou seja, quando estamos dispostos a perder um pouco do nosso
“eu” para dar espaço ao outro. Diz o Evangelho: Quem conserva a vida apenas
para si mesmo, na realidade, perde-a, porque ela não se abre à alegria do amor
e torna-se estéril.
“Por isso, Jesus
convida-nos a abraçar a Cruz: Ele ofereceu-se, perdeu-se a si mesmo e,
precisamente assim, pudemos receber a sua vida em abundância. Da mesma forma,
se vivermos segundo a lógica do dom, também nós seremos capazes de gerar vida
nova nas nossas relações.”
Por fim, o
acolhimento. O amor, na verdade, expressa-se em escolhas e ações concretas, num
empenho feito de pequenos gestos quotidianos. Jesus, ao enviar os discípulos à
sua frente, pede-lhes para irem sem provisões, pois assim poderão suscitar acolhimento
naqueles que encontrarem. Deste modo, acolhendo quem vem em nome de Jesus,
acolhe-se a Ele e ao Pai celeste que O enviou. "O amor ao Senhor passa
sempre pelo acolhimento dos irmãos", recordou.
Leão XIV
concluiu pedindo que rezemos à Virgem Maria, que amou o seu Filho sabendo-o
também perder: "Que Ela nos ajude a ser testemunhas humildes e alegres do
amor de Cristo".
A pergunta de Jesus: “E vós, quem dizeis que Eu sou?” continua pedindo ainda uma resposta aos crentes do nosso tempo. Nem todos temos a mesma imagem de Jesus. E isto não só pelo caráter inesgotável de sua personalidade, mas, sobretudo, porque cada um de nós vai elaborando sua imagem de Jesus a partir de seus interesses e preocupações, condicionado por sua psicologia pessoal e pelo meio social ao qual pertence, e marcado pela formação religiosa que recebeu.
E, não obstante, a imagem que nos fazemos de Cristo tem importância decisiva para nossa vida, pois condiciona nossa maneira de entender e viver a fé. Uma imagem empobrecida, unilateral, parcial ou falsa de Jesus nos conduzirá a uma vivência empobrecida, unilateral, parcial ou falsa da fé. Daí a importância de evitar possíveis deformações de nossa visão de Jesus e de purificar nossa adesão a Ele.
Por outro lado, é pura ilusão pensar que alguém crê em Jesus Cristo porque “crê” em um dogma, ou porque está disposto a crer “no que a Santa Madre Igreja crê”. Na realidade, cada crente crê no que ele crê, isto é, no que pessoalmente vai descobrindo em seu seguimento a Jesus Cristo, ainda que, naturalmente, o faça dentro da comunidade cristã.
Infelizmente, não são poucos os cristãos que entendem e vivem sua religião de tal maneira que, provavelmente, nunca poderão ter uma experiência um pouco viva do que é encontrar-se pessoalmente com Cristo.
Já numa época bem cedo de sua vida se fizeram uma ideia infantil de Jesus, quando talvez ainda não se tinham feito, com suficiente lucidez, as questões e perguntas que Cristo pode responder.
Mais tarde não voltaram mais a repensar sua fé em Jesus Cristo, ou porque a consideram algo trivial e sem importância para sua vida, ou porque não se atrevem a examiná-la com seriedade e rigor, ou ainda porque se contentam em conservá-la de maneira indiferente e apática, sem eco algum em seu ser.
Infelizmente, não suspeitam o que Jesus poderia ser para eles. Marcel Légaut escrevia esta frase dura, mas talvez bem real: “Esses cristãos ignoram quem é Jesus e estão condenados por sua própria religião a não descobri-lo jamais”.
JOSÉ ANTONIO PAGOLAcursou Teologia e Ciências Bíblicas na Pontifícia Universidade Gregoriana, no Pontifício Instituto Bíblico de Roma e na Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. É autor de diversas obras de teologia, pastoral e cristologia. Atualmente é diretor do Instituto de Teologia e Pastoral de São Sebastião. Este comentário é do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, da Editora Vozes.
Deus deseja a paz. A violência não terá a última palavra.
Leão XIV conclui o encontro com os cardeais com a esperança renovada: "Estes dias fortalecem minha esperança. Não apenas pelo que compartilhamos, mas pela maneira como o fizemos. Em uma época marcada pela polarização, até mesmo a maneira como a Igreja escuta e dialoga torna-se parte de seu anúncio".
"Desejo expressar a nossa solidariedade — minha e de todo o Colégio Cardinalício — à população da Venezuela, duramente atingida pelo violento terremoto dos últimos dias." Antes de passar às considerações finais do Consistório Extraordinário, o Papa Leão dirigiu seu pensamento aos venezuelanos, assegurando orações pelas vítimas, por suas famílias e por todos aqueles que sofrem as consequências da tragédia ocorrida quarta-feira passada. O Pontífice confiou ao Senhor todos aqueles que estão empenhados nos trabalhos de socorro, pedindo a solidariedade da comunidade internacional.
Cardeais reunidos, motivo de consolo e de esperança
Já aos cardeais que participaram desses dois dias de reuniões, o sentimento do Santo Padre foi de gratidão "pela liberdade, pela fraternidade e pelo espírito eclesial" com que participaram dos trabalhos. "Levo comigo não apenas o conteúdo de suas reflexões, mas também a experiência que as tornou possíveis", afirmou.
“Ver cardeais provenientes de Igrejas, culturas e situações tão diversas ouvindo-se mutuamente e buscando juntos o que melhor serve ao Evangelho foi para mim motivo de consolo e de esperança.”
Se a imagem do bom samaritano guiou o início do evento, Leão XIV concluiu com a imagem dos discípulos de Emaús: "Caminhamos juntos, ouvimos uns aos outros e, se deixamos espaço para o Senhor, Ele reacendeu a esperança em nossos corações e agora nos remete às nossas Igrejas para retomarmos a caminhada com um olhar renovado".
Clima fraterno na Sala Paulo VI
Sinodalidade, um estilo espiritual
Esse caminho traz à tona o tema da sinodalidade. A questão, afirmou, não é sobre quem tem o poder de decisão, mas como guardar juntos o dom que o Senhor confiou à sua Igreja. "Quando essa pergunta se torna o centro do nosso discernimento, também as questões da autoridade, da corresponsabilidade e das decisões encontram seu devido lugar", disse o Papa, confiando aos cardeais, mais uma vez, o caminho de implementação do Sínodo nas Igrejas particulares.
Citando o pronunciamento do cardeal Grech, o Pontífice reiterou que a sinodalidade não é um conjunto de reuniões nem um método de trabalho. "É um estilo espiritual", em que se destaca a qualidade evangélica dos encontros, não o número.
De um coração reconciliado podem nascer palavras desarmadas
Em seguida, o Santo Padre falou dos assuntos debatidos, como guerras, violência, pobreza e injustiças. Por trás dessas dramas, os cardeais reconheceram um sofrimento ainda mais profundo: a solidão, a crise das relações, a perda da esperança, a dificuldade de se reconhecerem mutuamente como irmãos e irmãs. Isso impacta sobretudo a vida dos jovens e das famílias. A propósito, o Papa citou o encontro de outubro com os líderes das Igrejas orientais e os presidentes das Conferências Episcopais para avaliar os passos dados após a Amoris laetitia, inclusive com a participação de algumas famílias para compartilharem suas experiências.
Essas feridas, disse ainda Leão, revelam o coração do homem: "É justamente ali, no coração, que se decide também a paz. Antes de se manifestar na história, a guerra nasce dentro de nós, quando a desconfiança toma o lugar da confiança, o medo, da esperança, e o outro é percebido como uma ameaça. Mas é nesse mesmo coração que Cristo continua a nos encontrar, a falar conosco e a nos converter. De um coração reconciliado podem nascer palavras desarmadas, novas relações e uma paz capaz de alcançar até mesmo os povos".
O Papa chegando para os trabalhos (@Vatican Media)
Não violência e legítima defesa
O Pontífice declarou-se satisfeito com as reflexões sobre a Encílica Magnifica humanitas, que adverte para uma cultura do poder que permeia nossa maneira de pensar, de lidar com a economia, a tecnologia e até mesmo com a religião.
Isso exige reconstruir a cultura de cooperação e do diálogo, inclusive ecumênico e inter-religioso, dando nova força também ao multilateralismo. O Papa definiu "valiosa" a abordagem dos cardeais sobre a não violência. "Trata-se de uma forma profundamente evangélica de viver a história, fruto da contemplação da maneira de agir de Jesus. Não consiste em renunciar ao conflito nem em adotar uma atitude passiva, mas em optar por enfrentá-lo sem reproduzir sua lógica. (...) Essa é a força do Crucificado ressuscitado: uma força que não destrói o inimigo, mas torna possível reencontrar um irmão." Nessa perspectiva, Leão XIV defendeu o aprofundamento do tema da legítima defesa, com o necessário rigor teológico e pastoral.
A Igreja é chamada a tornar-se cada vez mais aquilo que proclama
A Doutrina Social da Igreja e o bem comum também foram citados, assim como a importância do testemunho, da proximidade, da formação das consciências e da construção de comunidades fraternas e confiáveis. "A Igreja é chamada a tornar-se cada vez mais aquilo que proclama", afirmou, ressaltando a necessidade de reformas das estruturas, das instituições e dos processos:
“Estes dias fortalecem minha esperança. Não apenas pelo que compartilhamos, mas pela maneira como o fizemos. Em uma época marcada pela polarização, até mesmo a maneira como a Igreja escuta e dialoga torna-se parte de seu anúncio.”
O próprio evento destes dias faz parte deste diálogo. Não se trata de um parlamento nem de um congresso em que prevalecem opiniões ou interesses, "mas uma experiência de comunhão a serviço da missão", afirmou Leão XIV anunciando que até o final do ano comunicará a data de um novo Consistório:
"Este Consistório foi um momento precioso, mas não deve permanecer um evento isolado", disse o Papa. Ouvir-se, rezar, discernir e caminhar juntos é a essência do caminho de implementação do Sínodo, acrescentou, afirmando que este será também o espírito do próximo encontro dedicado à Amoris laetitia e de muitas outras iniciativas futuras. "O que importa não é multiplicar os encontros, mas aprender a viver encontros nos quais, ao nos ouvirmos mutuamente, aprendamos juntos a ouvir o Senhor."
A foto de grupo
A violência não terá a última palavra
Por fim, uma palavra sobre a paz, que surgiu como um apelo unânime neste Consistório: "Deus deseja a paz para cada nação e para cada povo. Por isso, não devemos nos resignar à violência. A violência não terá a última palavra. Deus continua a abrir, na história, caminhos de reconciliação e de paz. Temos a responsabilidade de trilhá-los com coragem e de ajudar o mundo a reconhecê-los".
Leão XIV se despediu agradecendo "de todo o coração" pela contribuição dos cardeais: "Obrigado por me ajudarem, mais uma vez, a reconhecer a obra que Cristo continua a realizar no meio de seu povo e no mundo. Confiemos os frutos deste Consistório à intercessão da Virgem Maria, Mãe da Igreja. Que ela nos ensine a preservar a unidade na diversidade e a servir o Evangelho da paz com humildade, coragem e esperança".
para a missão do Papa e ocorre neste final de
semana
No próximo
domingo, dia 28 de junho, quando a Igreja no Brasil celebra a Solenidade de São
Pedro e São Paulo, será realizada a coleta do Óbolo de São Pedro. Essa
iniciativa também é realizada em todo o mundo como forma concreta de apoiar o
Santo Padre na sua missão ao serviço da Igreja universal.
O Óbolo de São
Pedro é considerado um gesto concreto de comunhão com o Santo Padre e de
solidariedade com a sua missão de levar o Evangelho por todo o mundo. Os
recursos contribuem desde o anúncio do Evangelho até a promoção do
desenvolvimento humano integral, da educação, da paz e da fraternidade entre os
povos.
As doações para
o Óbolo de São Pedro também contribuem para a missão pontifícia que se estende
a todo o mundo por meio das atividades de serviço desenvolvidas pelos
dicastérios, entidades e organismos da Santa Sé, além das iniciativas
caritativas do Santo Padre em favor das pessoas e famílias em dificuldade, as
populações afetadas por catástrofes naturais ou guerras, e aquelas que
necessitam de assistência humanitária ou ajuda para o desenvolvimento.
Dia do Papa no
Brasil
Aqui no Brasil,
por determinação da VII Assembleia da CNBB, há a motivação de piedosa e
generosa contribuição na coleta do Óbolo de São Pedro. As indicações daquela
ocasião dizem respeito à comemoração do Dia do Papa, com pregações e orações
que traduzam amor, comunhão, respeito e obediência ao Vigário de Cristo na
terra, Cabeça da Santa Igreja universal em todas as igrejas e oratórios,
mosteiros, conventos e colégios.
Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja
Celebramos com muita alegria a memória de Pedro e Paulo, dois baluartes de nossa Igreja. Impulsionados pela força do alto os dois chegaram até Roma: Pedro o primeiro bispo de Roma e pastor da Igreja universal; Paulo, o andarilho, o lutador, o corajoso empreendedor, o inflamado. O Prefácio desta solenidade faz uma solene declaração a respeito das duas colunas: “ Hoje (Pai santo), vós nos concedeis a alegria de festejar os apóstolos São Pedro e São Paulo. Pedro, o primeiro a proclamar a fé, fundou a Igreja primitiva sobre a herança de Israel. Paulo, mestre e doutor das nações, anunciou-lhes o Evangelho da Salvação”.
A Igreja vai fazendo seu caminho ao longo dos milênios, santa e imaculada, mas sempre precisando que seus membros, santos e pecadores, se animem e tomem gosto pelo projeto de Jesus.
Neste dia do Papa, queremos enriquecer este momento com palavras do próprio Papa Francisco a quem aprendemos a estimar com filial afeto:
♦ A medida de Deus… é sem medida
O Papa conversa sobre o amor, mas o amor a todo e um amor sem medida.
Qual é a medida de Deus? Sem medida! A medida de Deus é sem medida! Tudo! Tudo! Tudo! Não pode ser medido o amor de Deus: é sem medida! E então nos tornamos capazes de amar até aqueles que não nos amam, e isso não é fácil… amar a quem não nos ama… Não é fácil! Porque sabemos que uma pessoa não nos ama também somos levados a não amar. Mas não!
Devemos amar também aqueles que não nos amam! Opormo-nos ao mal com o bem, perdoando, compartilhando, acolhendo. Graças a Jesus e seu Espírito, também a nossa vida se torna “pão repartido” para nossos irmãos. E vivendo dessa maneira, descobrimos a verdadeira alegria. Alegria de ser um presente, para retribuir o grande dom que nós, primeiramente, recebemos, sem merecimento nosso. Isso é belo: nossa vida se torna um presente! Isto é imitar Jesus, eu gostaria de lembrar estas duas coisas: Primeiro: a medida do amor de Deus é sem medida. Isso está claro? E a nossa vida com o amor de Jesus, recebendo a Eucaristia, se torna um dom como foi a vida de Jesus. Não se esqueça destas duas coisas: a medida do amor de Deus é amar sem medida. E seguindo Jesus, nós, com a Eucaristia, façamos de nossa vida um presente. (Angelus, 22 de junho de 2014)
♦ Reze com sua família
Que beleza quando os membros de uma família colocam-se juntos diante de Deus. O Papa sugere e deseja que as famílias rezem no sacrossanto espaço do lar.
Vocês costumam rezar em família? Alguns sim, eu sei. Mas muitos me dizem: Como se faz isso? Faz-se como fez o publicano, é claro, humildemente, diante de Deus. Cada um, humildemente, se coloca diante do Senhor e lhe pede sua bondade, que ele venha até nós. Mas, em família, como se faz? Porque parece que a oração é algo pessoal e, além disso, nunca se tem um momento adequado, tranquilo em família… Sim, é verdade mas é também questão de humildade, de reconhecer que precisamos de Deus, como o publicano! E todas as famílias têm necessidade de Deus: Todas! Necessidade de sua ajuda, de sua força, de sua bênção, de sua misericórdia, de seu perdão! É preciso simplicidade para rezar em família. Rezar juntos o Pai-nosso ao redor da mesa não é algo extraordinário, é fácil . Rezar o rosário em família, é muito bonito, fortalece tanto. E também rezar um pelo outro, o marido pela mulher e a mulher pelo marido, ambos juntos pelos filhos e dos filhos pelos pais, pelos avós… Rezar um pelo outro: isso é rezar em família, e isso fortalece a família, a oração (Homilia, 27 de outubro de 2013).
♦ A Igreja que eu amo
Sim, a Igreja é para ser amada. Ela é esposa do cordeiro. Ela nasceu do lado aberto de Jesus e no fogo de Pentecostes. Queridos amigos, esta é a Igreja, esta é a Igreja que todos nós amamos, esta é a Igreja que eu amo: uma mãe que se importa com o bem de seus filhos e que é capaz de dar a vida por eles. Nos não devemos esquecer, porém, que a Igreja não são apenas os sacerdotes ou nos bispos; somos todos! Todos somos a Igreja! Tudo bem? Além disse, nós também somos filhos, mas também mães de outros cristãos. Todos os batizados, homens e mulheres, juntos somos a Igreja. Quantas vezes, em nossa vida não damos testemunho dessa maternidade da Igreja’! Quantas vezes somos covardes! (Audiência geral, 3 de setembro de 2014).
Naqueles dias, o rei Herodes prendeu alguns membros da Igreja, para torturá-los. Mandou matar à espada Tiago, irmão de João. E, vendo que isso agradava aos judeus, mandou também prender a Pedro. Eram os dias dos Pães ázimos.
“Depois de prender Pedro, Herodes colocou-o na prisão, guardado por quatro grupos de soldados, com quatro soldados cada um. Herodes tinha a intenção de apresentá-lo ao povo, depois da festa da Páscoa.
Enquanto Pedro era mantido na prisão, a Igreja rezava continuamente a Deus por ele.
Herodes estava para apresentá-lo. Naquela mesma noite, Pedro dormia entre dois soldados, preso com duas correntes; e os guardas vigiavam a porta da prisão.
Eis que apareceu o anjo do Senhor e uma luz iluminou a cela. O anjo tocou o ombro de Pedro, acordou-o e disse: “Levanta-te depressa!” As correntes caíram-lhe das mãos.
O anjo continuou: “Coloca o cinto e calça tuas sandálias!” Pedro obedeceu e o anjo lhe disse: “Põe tua capa e vem comigo!”
Pedro acompanhou-o, e não sabia que era realidade o que estava acontecendo por meio do anjo, pois pensava que aquilo era uma visão.
Depois de passarem pela primeira e segunda guarda, chegaram ao portão de ferro que dava para a cidade. O portão abriu-se sozinho. Eles saíram, caminharam por uma rua e logo depois o anjo o deixou. Então Pedro caiu em si e disse: “Agora sei, de fato, que o Senhor enviou o seu anjo para me libertar do poder de Herodes e de tudo o que o povo judeu esperava!”
— Bendirei o Senhor Deus em todo o tempo,/ seu louvor estará sempre em minha boca./ Minha alma se gloria no Senhor;/ que ouçam os humildes e se alegrem!
— Comigo engrandecei ao Senhor Deus,/ exaltemos todos juntos o seu nome! / Todas as vezes que o busquei, ele me ouviu,/ e de todos os temores me livrou.
— Contemplai a sua face e alegrai-vos,/ e vosso rosto não se cubra de vergonha!/ Este infeliz gritou a Deus, e foi ouvido,/ e o Senhor o libertou de toda angústia.
— O anjo do Senhor vem acampar/ ao redor dos que o temem, e os salva./ Provai e vede quão suave é o Senhor!/ Feliz o homem que tem nele o seu refúgio!
Caríssimo, quanto a mim, eu já estou para ser derramado em sacrifício; aproxima-se o momento de minha partida. Combati o bom combate, completei a corrida, guardei a fé. Agora está reservada para mim a coroa da justiça, que o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos os que esperam com amor a sua manifestação gloriosa.
Mas o Senhor esteve a meu lado e me deu forças, ele fez com que a mensagem fosse anunciada por mim integralmente, e ouvida por todas as nações; e eu fui libertado da boca do leão. Senhor me libertará de todo mal e me salvará para o seu Reino celeste. A ele a glória, pelos séculos dos séculos! Amém.
Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo São Mateus
Jesus chegou à região de Cesaréia de Filipe, e perguntou aos seus discípulos: «Quem dizem os homens que é o Filho do Homem?» Eles responderam: «Alguns dizem que é João Batista; outros, que é Elias; outros ainda, que é Jeremias, ou algum dos profetas.» Então Jesus perguntou-lhes: «E vocês, quem dizem que eu sou?» Simão Pedro respondeu: «Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo.» Jesus disse: «Você é feliz, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que lhe revelou isso, mas o meu Pai que está no céu. Por isso eu lhe digo: você é Pedro, e sobre essa pedra construirei a minha Igreja, e o poder da morte nunca poderá vencê-la. Eu lhe darei as chaves do Reino do Céu, e o que você ligar na terra será ligado no céu, e o que você desligar na terra será desligado no céu.»
Popularmente, a festa de hoje é chamada o Dia do Papa, sucessor de Pedro. Mas não podemos esquecer que ao lado de Pedro é celebrado também Paulo, o Apóstolo, ou seja, missionário, por excelência. No evangelho, o apóstolo Simão responde pela fé de seus irmãos. Por isso, Jesus lhe dá o nome de Pedro. Este nome é uma vocação: Simão deve ser a “pedra”(rocha) que deve dar solidez à comunidade de Jesus (cf. Lc 22,32). Esta “nomeação” vai acompanhada de uma promessa: as “portas” (cidade, reino) do inferno não poderão nada contra a Igreja, que é uma realização do reino “dos Céus” (= de Deus). A 1ª leitura ilustra essa promessa: Pedro é libertado da prisão pelo anjo do Senhor. Pedro aparece, assim, como o fundamento institucional da Igreja.
Paulo aparece mais na qualidade de fundador carismático. Sua vocação se dá na visão de Cristo no caminho de Damasco: de perseguidor, ele se transforma em apóstolo e realiza, mais do que os outros apóstolos inclusive, a missão que Cristo lhes deixou, de serem suas testemunhas até os extremos da terra (At 1,8). Apóstolo dos pagãos, Paulo torna realidade a universalidade da Igreja, da qual Pedro é o guardião. A 2ª leitura é o resumo de sua vida de plena dedicação à evangelização entre os pagãos, nas circunstâncias mais difíceis: a palavra tinha que ser ouvida por todas as nações (v. 17). Não esconder a luz de Cristo para ninguém! O mundo em que Paulo se movimentava estava dividido entre a religiosidade rígida dos judeus farisaicos e o mundo pagão, cambaleando entre a dissolução moral e o fanatismo religioso. Neste contexto, o apóstolo anunciou o Cristo Crucificado como sendo a salvação: loucura para os gregos, escândalo para os judeus, mas alegria verdadeira para quem nele crê. Missão difícil. No fim de sua vida, Paulo pode dizer que “combateu o bom combate e conservou a fé/fidelidade”, a sua e a dos fiéis que ele ganhou. Como Cristo – o bom pastor – não deixa as ovelhas se perderem, assim também o apóstolo – o enviado de Cristo – conserva-lhes a fidelidade.
Pedro e Paulo representam duas dimensões da vocação apostólica, diferentes mas complementares. As duas foram necessárias, para que pudéssemos comemorar hoje os fundadores da Igreja universal. Esta complementariedade dos carismas de Pedro e Paulo continua atual na Igreja hoje: a responsabilidade institucional e a criatividade missionária. Pode até provocar tensões, por exemplo, uma teologia “romana” versus uma teologia latino-americana. Mas é uma tensão fecunda. Hoje, sabemos que o pastoreio dos fiéis – a pastoral – não é monopólio dos “pastores constituídos” como tais, a hierarquia. Todos fiéis são um pouco pastores uns para com os outros. Devemos conservar a fidelidade a Cristo – a nossa e a dos nossos irmãos – na solidariedade do “bom combate”.
E qual será, hoje, o bom combate? Como no tempo de Pedro e Paulo, uma luta pela justiça e a verdade em meio a abusos, contradições e deformações. Por um lado, a exploração desavergonhada, que até se serve dos símbolos da nossa religião; por outro, a tentação de largar tudo e de dizer que a religião é um obstáculo para a libertação. Nossa luta é, precisamente, assumir a libertação em nome de Jesus, sendo fiéis a ele; pois, na sua morte, ele realizou a solidariedade mais radical que podemos imaginar.
PE. JOHAN KONINGS nasceu na Bélgica em 1941, onde se tornou Doutor em Teologia pela Universidade Católica de Lovaina, ligado ao Colégio para a América Latina (Fidei Donum). Veio ao Brasil, como sacerdote diocesano, em 1972. Em 1985 entrou na Companhia de Jesus (Jesuítas) e, desde 1986, atuou como professor de exegese bíblica na FAJE, Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, em Belo Horizonte. Faleceu no dia 21 de maio de 2022. Este comentário é do livro “Liturgia Dominical, Editora Vozes.