A bordo do voo
para Madri, o Papa encontrou-se com os jornalistas para uma breve saudação. Em
suas respostas às perguntas, reforçou a importância do diálogo para a Ucrânia,
manifestou proximidade ao Líbano e refletiu sobre os abusos e a guerra,
especialmente sobre a perigosidade das armas utilizadas nos conflitos atuais.
Das monjas de clausura espanholas, um rosário para cada profissional da
imprensa que acompanha a viagem papal.
“¡Muy buenos
días a todos!”. Com estas palavras, pronunciadas em espanhol, Leão XIV saudou
na manhã deste sábado, 6 de junho, os mais de oitenta jornalistas que o
acompanham na viagem apostólica à Espanha. O voo papal decolou do Aeroporto
Internacional de Roma-Fiumicino às 8h13, com destino a Madri, primeira etapa da
visita que levará o Pontífice ao encontro de comunidades eclesiais, autoridades
e fiéis do país ibérico.
Como acontece
tradicionalmente nas viagens internacionais, o Papa dirigiu-se à parte traseira
da aeronave pouco antes do pouso para cumprimentar pessoalmente os
representantes dos meios de comunicação. O encontro, breve e cordial, foi
marcado por apertos de mão, sorrisos e algumas perguntas sobre a atualidade
internacional. Entre os temas mais sérios, também houve espaço para um momento
descontraído. Ao ser perguntado, já a caminho da Espanha, se torcia pelo Real
Madrid ou pelo Barcelona, Leão XIV respondeu sorrindo que torce “por todos os
times”, provocando risos entre os presentes.
A Igreja tem uma
mensagem para todos
“Esta é a
primeira viagem de um Papa à Espanha depois de muito tempo, e pessoalmente
estou muito feliz”, afirmou Leão XIV em sua saudação aos jornalistas. “É uma
visita apostólica para encontrar os fiéis, celebrar a fé e anunciar a mensagem
de Jesus Cristo, mas, ao mesmo tempo, para saudar a todos, toda a sociedade,
porque a Igreja tem uma mensagem para todos, como acredito que tenha ficado
muito claro na carta encíclica publicada em 25 de maio.”
Os jovens,
mensageiros do amor de Deus
O Papa sabe que
o entusiasmo dos jovens marcará de forma especial esta viagem. “Parece que
haverá um grande número de jovens com todo o seu entusiasmo e acredito que,
nesse sentido, compartilhando todos a alegria da fé, poderemos transmitir uma
mensagem muito bonita”, destacou. Uma mensagem que, acrescentou, deverá
ser levada a Madri, Barcelona e às Ilhas Canárias, “para viver a fé e anunciar
a mensagem do amor de Deus, da caridade e do respeito por cada ser humano”.
Os abusos, uma
ferida ainda aberta
Questionado
sobre os abusos cometidos por membros do clero, o Papa afirmou que encontrará
algumas vítimas durante a viagem, assegurando seu compromisso pessoal e o de
toda a Igreja na luta contra aquilo que definiu como “uma ferida ainda aberta”.
Na noite de ontem, 5 de junho, o diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé,
Matteo Bruni, já havia informado sobre esse encontro organizado pela Igreja
local.
Irã: não existe
uma “guerra justa”
Ao ser
perguntado se haveria uma guerra justa no Irã, Leão XIV respondeu: “Creio que
isso já foi dito com muita clareza: no Irã não se encontram os elementos de uma
guerra justa. A teoria da guerra justa remonta a séculos passados, quando não
se imaginavam as armas e a capacidade de destruição de que o ser humano dispõe
hoje”. Entre os temas abordados pelos jornalistas esteve também o conflito
na Ucrânia, sobre o qual o Papa reiterou a necessidade de prosseguir com
determinação pelo caminho do diálogo e da paz. O Pontífice dirigiu ainda seu
pensamento ao Líbano, confirmando a atenção da Santa Sé à situação do país por
meio do contato constante com as autoridades religiosas. Ao responder, por
fim, sobre a questão da guerra, Leão XIV recordou as reflexões desenvolvidas
nos últimos anos pelo magistério da Igreja a respeito das profundas
transformações introduzidas pelas modernas tecnologias militares e pelo poder
destrutivo dos armamentos contemporâneos.
O presente das
monjas
Enquanto o avião
sobrevoava o Mediterrâneo, a viagem era acompanhada também por um sinal
discreto, mas significativo. Diversos mosteiros de clausura da Espanha
decidiram sustentar espiritualmente a visita apostólica rezando um rosário por
cada jornalista presente no voo papal. Cada profissional da imprensa recebeu
uma coroa do rosário como presente das comunidades contemplativas, que
confiaram à oração o trabalho daqueles que relatarão estes dias por meio de
reportagens, fotografias, transmissões de rádio e serviços televisivos. Um
gesto simples que une simbolicamente o trabalho da informação e a vida
escondida da oração, duas realidades que frequentemente acompanham, cada uma à
sua maneira, as viagens do Sucessor de Pedro. Ao Papa também foi entregue um desenho
preparado pelos pequenos pacientes do Hospital Pediátrico Bambino Gesù.
Madri em festa
Enquanto isso,
na Espanha, os sinos das igrejas de toda a arquidiocese de Madri repicavam para
acolher a chegada do Pontífice. A capital espanhola recebe Leão XIV para uma
das primeiras grandes viagens internacionais de seu pontificado. Entre palavras
dedicadas à paz, o trabalho dos jornalistas e a oração silenciosa das
comunidades contemplativas, a viagem rumo à Península Ibérica já ganhava vida
durante as horas do voo.
Silvina Perez – do voo papal Roma-Madri
____________________________________________________________________________________Papa na Espanha:
Em seu primeiro discurso no país ibérico, Leão XIV encontrou-se com as autoridades, representantes da sociedade civil e o corpo diplomático no Palácio Real de Madri. O Pontífice destacou as raízes cristãs do país, fez um apelo pela superação das polarizações e afirmou que a paz se constrói por meio da verdade, do diálogo e da educação.
A quarta Viagem
Apostólica do Papa Leão XIV teve início neste sábado, 6 de junho, na Espanha.
Após sua chegada a Madri, o Santo Padre dirigiu-se ao Palácio Real, onde se
encontrou com o rei Felipe VI, a rainha Letizia, autoridades civis,
representantes da sociedade e membros do corpo diplomático. Em seu primeiro
discurso em território espanhol, o Papa apresentou uma reflexão sobre a
identidade histórica do país, a busca da verdade, a necessidade da
reconciliação e os desafios enfrentados pelo mundo contemporâneo.
Uma história
marcada pelo Evangelho
Ao iniciar sua
intervenção, Leão XIV agradeceu o convite para visitar a Espanha e recordou a
antiga tradição que associa a evangelização da Península Ibérica ao apóstolo
São Tiago Maior. Segundo o Pontífice, a ligação entre a fé cristã e a história
espanhola moldou profundamente a cultura do país e continua sendo uma fonte de
esperança diante dos desafios atuais.
O Papa também
destacou a riqueza das manifestações da religiosidade popular, das irmandades,
das associações de caridade e do vasto patrimônio artístico e musical espanhol,
frutos do encontro entre o Evangelho e a vida do povo: “Com o patrimônio
artístico-musical e as múltiplas irmandades e associações de caráter
caritativo, dão testemunho do fecundo encontro entre Jesus Cristo e o vosso
povo. Sois um povo cheio de paixão, que ama a vida e o manifesta!”
| Papa com os monarcas espanhóis |
A cultura do
encontro
Leão XIV
explicou que sua visita deseja fortalecer a fidelidade ao Evangelho e favorecer
uma cooperação mais profunda entre os diversos setores da sociedade espanhola.
Nesse contexto, destacou uma das principais lições da história do país: “Com
efeito, a vossa própria história sugere que não é a cultura do confronto, mas a
do encontro, que gera estabilidade e prosperidade.”
O Santo Padre
recordou ainda um ensinamento do Papa Francisco sobre a necessidade de manter
um diálogo constante entre as ideias e a realidade concreta. Segundo ele, a
verdade nunca pode ser reduzida a construções ideológicas ou narrativas
abstratas, mas deve ser procurada com humildade e abertura: “A verdade é sempre
maior do que nós e, por isso, surpreende-nos e atrai-nos para caminhos de
purificação e reconciliação.”
São João da Cruz
e Santa Teresa de Ávila
Ao refletir
sobre os desafios do tempo presente, o Papa evocou duas das maiores figuras
espirituais da Espanha: São João da Cruz e Santa Teresa de Ávila. Ambos,
afirmou, ensinaram a descobrir a presença de Deus justamente nos momentos de
escuridão e incerteza. Referindo-se ao Ano Jubilar dedicado a São João da Cruz,
Leão XIV observou que muitos homens e mulheres vivem hoje a experiência da
desorientação diante das rápidas transformações sociais, culturais e
tecnológicas. Por isso, disse, é necessário aprender a reconhecer a luz que
surge mesmo em meio às noites da história.
“Também hoje, o
que mais nos assusta, provocando em muitos a escuridão da razão e a violência
das emoções, é o desconhecido, diante do qual pode prevalecer a desorientação,
a sensação de já não termos mapas.”
Um mundo que
clama por paz
O Pontífice
afirmou que, apesar dos conflitos e tensões que marcam o cenário internacional,
existe um profundo desejo de paz no coração da humanidade:
“A nossa época, que aparentemente se vê abalada por terríveis desequilíbrios e conflitos, no seu íntimo clama por paz, por um novo conhecimento da pessoa humana e da sua dignidade inviolável, pela civilização do amor.”
Segundo o Papa,
a construção dessa paz passa pela valorização da liberdade religiosa e de
consciência, pela promoção da cultura e pela formação de pessoas capazes de
cultivar a interioridade e a busca sincera da verdade.
| Leão XIV profere seu discurso |
Contra as
polarizações
Leão XIV
manifestou preocupação com o crescimento das divisões sociais e políticas que
marcam muitas sociedades contemporâneas. Para ele, a tentação de obter consenso
alimentando conflitos e antagonismos representa uma ameaça à dignidade humana e
à convivência pacífica, e lançou um apelo direto aos espanhóis:
“Hoje, a tentação de ganhar popularidade atiçando o fogo das polarizações parece crescer, em vez de diminuir; a dignidade humana continua a ser violada. Convido todos, por amor à verdade, a abandonarem as narrativas divisórias e polarizadoras da vossa realidade social e da vossa história, a fim de que se passe das simplificações estéreis a uma apreciação fecunda da complexidade.”
Educação,
tecnologia e responsabilidade
O Papa também
dedicou parte significativa do seu discurso aos desafios trazidos pelas novas
tecnologias. Segundo ele, o ambiente digital pode favorecer a difusão de
preconceitos, enfraquecer o pensamento crítico e amplificar interesses que
ameaçam a vida e a dignidade humana. Diante desse cenário, defendeu uma mudança
de prioridades nos investimentos públicos e privados:
“É necessário —
sobretudo por parte de quem tem responsabilidades econômicas, políticas e
institucionais — dar um salto qualitativo, uma mudança de rumo nos
investimentos destinados à escola, à universidade e à pesquisa, às comunidades
locais e à sociedade civil.”
O Santo Padre
ressaltou ainda que a verdadeira segurança não nasce da lógica dos muros e das
armas, mas da capacidade de caminhar juntos. “A segurança — que pensamos, com
demasiada frequência, provir das armas e dos muros — amadurece, pelo contrário,
quando se aprende a avançar com o outro, a crescer juntos, ombro a ombro.”
| Papa durante o encontro com as autoridades civis |
A contribuição
da Espanha para a Europa e para o mundo
Ao recordar
momentos históricos de convivência entre cristãos, judeus e muçulmanos na
Península Ibérica, o Papa destacou cidades como Toledo e Córdoba como exemplos
de encontro entre culturas, religiões e saberes. Leão XIV afirmou que a Espanha
possui uma vocação especial para ajudar a Europa a redescobrir sua missão de
promover o diálogo e a cooperação entre os povos. Ao concluir seu discurso,
agradeceu o compromisso espanhol com o direito internacional, o
multilateralismo e a solidariedade:
“Encorajo a
cultivar o diálogo e a amizade social também internamente, a levar em conta as
perspectivas dos pobres e dos jovens ao imaginar o futuro, a harmonizar as
exigências de autonomia e de unidade, e a impulsionar o processo de união
europeia.”
Ao final,
confiou o país à proteção divina e dirigiu uma breve invocação: “Que Deus
abençoe a Espanha!”
Thulio Fonseca – Vatican News
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