sábado, 6 de junho de 2026

Quarta viagem apostólica de Leão XIV:

no voo para a Espanha,
a saudação aos jornalistas e o apelo pela paz

A bordo do voo para Madri, o Papa encontrou-se com os jornalistas para uma breve saudação. Em suas respostas às perguntas, reforçou a importância do diálogo para a Ucrânia, manifestou proximidade ao Líbano e refletiu sobre os abusos e a guerra, especialmente sobre a perigosidade das armas utilizadas nos conflitos atuais. Das monjas de clausura espanholas, um rosário para cada profissional da imprensa que acompanha a viagem papal.

“¡Muy buenos días a todos!”. Com estas palavras, pronunciadas em espanhol, Leão XIV saudou na manhã deste sábado, 6 de junho, os mais de oitenta jornalistas que o acompanham na viagem apostólica à Espanha. O voo papal decolou do Aeroporto Internacional de Roma-Fiumicino às 8h13, com destino a Madri, primeira etapa da visita que levará o Pontífice ao encontro de comunidades eclesiais, autoridades e fiéis do país ibérico.

Como acontece tradicionalmente nas viagens internacionais, o Papa dirigiu-se à parte traseira da aeronave pouco antes do pouso para cumprimentar pessoalmente os representantes dos meios de comunicação. O encontro, breve e cordial, foi marcado por apertos de mão, sorrisos e algumas perguntas sobre a atualidade internacional. Entre os temas mais sérios, também houve espaço para um momento descontraído. Ao ser perguntado, já a caminho da Espanha, se torcia pelo Real Madrid ou pelo Barcelona, Leão XIV respondeu sorrindo que torce “por todos os times”, provocando risos entre os presentes.


A Igreja tem uma mensagem para todos

“Esta é a primeira viagem de um Papa à Espanha depois de muito tempo, e pessoalmente estou muito feliz”, afirmou Leão XIV em sua saudação aos jornalistas. “É uma visita apostólica para encontrar os fiéis, celebrar a fé e anunciar a mensagem de Jesus Cristo, mas, ao mesmo tempo, para saudar a todos, toda a sociedade, porque a Igreja tem uma mensagem para todos, como acredito que tenha ficado muito claro na carta encíclica publicada em 25 de maio.”

Os jovens, mensageiros do amor de Deus

O Papa sabe que o entusiasmo dos jovens marcará de forma especial esta viagem. “Parece que haverá um grande número de jovens com todo o seu entusiasmo e acredito que, nesse sentido, compartilhando todos a alegria da fé, poderemos transmitir uma mensagem muito bonita”, destacou. Uma mensagem que, acrescentou, deverá ser levada a Madri, Barcelona e às Ilhas Canárias, “para viver a fé e anunciar a mensagem do amor de Deus, da caridade e do respeito por cada ser humano”.

Os abusos, uma ferida ainda aberta

Questionado sobre os abusos cometidos por membros do clero, o Papa afirmou que encontrará algumas vítimas durante a viagem, assegurando seu compromisso pessoal e o de toda a Igreja na luta contra aquilo que definiu como “uma ferida ainda aberta”. Na noite de ontem, 5 de junho, o diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, Matteo Bruni, já havia informado sobre esse encontro organizado pela Igreja local.

Irã: não existe uma “guerra justa”

Ao ser perguntado se haveria uma guerra justa no Irã, Leão XIV respondeu: “Creio que isso já foi dito com muita clareza: no Irã não se encontram os elementos de uma guerra justa. A teoria da guerra justa remonta a séculos passados, quando não se imaginavam as armas e a capacidade de destruição de que o ser humano dispõe hoje”. Entre os temas abordados pelos jornalistas esteve também o conflito na Ucrânia, sobre o qual o Papa reiterou a necessidade de prosseguir com determinação pelo caminho do diálogo e da paz. O Pontífice dirigiu ainda seu pensamento ao Líbano, confirmando a atenção da Santa Sé à situação do país por meio do contato constante com as autoridades religiosas. Ao responder, por fim, sobre a questão da guerra, Leão XIV recordou as reflexões desenvolvidas nos últimos anos pelo magistério da Igreja a respeito das profundas transformações introduzidas pelas modernas tecnologias militares e pelo poder destrutivo dos armamentos contemporâneos.


O presente das monjas

Enquanto o avião sobrevoava o Mediterrâneo, a viagem era acompanhada também por um sinal discreto, mas significativo. Diversos mosteiros de clausura da Espanha decidiram sustentar espiritualmente a visita apostólica rezando um rosário por cada jornalista presente no voo papal. Cada profissional da imprensa recebeu uma coroa do rosário como presente das comunidades contemplativas, que confiaram à oração o trabalho daqueles que relatarão estes dias por meio de reportagens, fotografias, transmissões de rádio e serviços televisivos. Um gesto simples que une simbolicamente o trabalho da informação e a vida escondida da oração, duas realidades que frequentemente acompanham, cada uma à sua maneira, as viagens do Sucessor de Pedro. Ao Papa também foi entregue um desenho preparado pelos pequenos pacientes do Hospital Pediátrico Bambino Gesù.

Madri em festa

Enquanto isso, na Espanha, os sinos das igrejas de toda a arquidiocese de Madri repicavam para acolher a chegada do Pontífice. A capital espanhola recebe Leão XIV para uma das primeiras grandes viagens internacionais de seu pontificado. Entre palavras dedicadas à paz, o trabalho dos jornalistas e a oração silenciosa das comunidades contemplativas, a viagem rumo à Península Ibérica já ganhava vida durante as horas do voo.

Silvina Perez – do voo papal Roma-Madri

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Papa na Espanha:

é preciso abandonar as narrativas divisórias e polarizadoras

Em seu primeiro discurso no país ibérico, Leão XIV encontrou-se com as autoridades, representantes da sociedade civil e o corpo diplomático no Palácio Real de Madri. O Pontífice destacou as raízes cristãs do país, fez um apelo pela superação das polarizações e afirmou que a paz se constrói por meio da verdade, do diálogo e da educação.

A quarta Viagem Apostólica do Papa Leão XIV teve início neste sábado, 6 de junho, na Espanha. Após sua chegada a Madri, o Santo Padre dirigiu-se ao Palácio Real, onde se encontrou com o rei Felipe VI, a rainha Letizia, autoridades civis, representantes da sociedade e membros do corpo diplomático. Em seu primeiro discurso em território espanhol, o Papa apresentou uma reflexão sobre a identidade histórica do país, a busca da verdade, a necessidade da reconciliação e os desafios enfrentados pelo mundo contemporâneo.

Uma história marcada pelo Evangelho

Ao iniciar sua intervenção, Leão XIV agradeceu o convite para visitar a Espanha e recordou a antiga tradição que associa a evangelização da Península Ibérica ao apóstolo São Tiago Maior. Segundo o Pontífice, a ligação entre a fé cristã e a história espanhola moldou profundamente a cultura do país e continua sendo uma fonte de esperança diante dos desafios atuais.

O Papa também destacou a riqueza das manifestações da religiosidade popular, das irmandades, das associações de caridade e do vasto patrimônio artístico e musical espanhol, frutos do encontro entre o Evangelho e a vida do povo: “Com o patrimônio artístico-musical e as múltiplas irmandades e associações de caráter caritativo, dão testemunho do fecundo encontro entre Jesus Cristo e o vosso povo. Sois um povo cheio de paixão, que ama a vida e o manifesta!”

Papa com os monarcas espanhóis


A cultura do encontro

Leão XIV explicou que sua visita deseja fortalecer a fidelidade ao Evangelho e favorecer uma cooperação mais profunda entre os diversos setores da sociedade espanhola. Nesse contexto, destacou uma das principais lições da história do país: “Com efeito, a vossa própria história sugere que não é a cultura do confronto, mas a do encontro, que gera estabilidade e prosperidade.”

O Santo Padre recordou ainda um ensinamento do Papa Francisco sobre a necessidade de manter um diálogo constante entre as ideias e a realidade concreta. Segundo ele, a verdade nunca pode ser reduzida a construções ideológicas ou narrativas abstratas, mas deve ser procurada com humildade e abertura: “A verdade é sempre maior do que nós e, por isso, surpreende-nos e atrai-nos para caminhos de purificação e reconciliação.”

São João da Cruz e Santa Teresa de Ávila

Ao refletir sobre os desafios do tempo presente, o Papa evocou duas das maiores figuras espirituais da Espanha: São João da Cruz e Santa Teresa de Ávila. Ambos, afirmou, ensinaram a descobrir a presença de Deus justamente nos momentos de escuridão e incerteza. Referindo-se ao Ano Jubilar dedicado a São João da Cruz, Leão XIV observou que muitos homens e mulheres vivem hoje a experiência da desorientação diante das rápidas transformações sociais, culturais e tecnológicas. Por isso, disse, é necessário aprender a reconhecer a luz que surge mesmo em meio às noites da história.

“Também hoje, o que mais nos assusta, provocando em muitos a escuridão da razão e a violência das emoções, é o desconhecido, diante do qual pode prevalecer a desorientação, a sensação de já não termos mapas.”

Um mundo que clama por paz

O Pontífice afirmou que, apesar dos conflitos e tensões que marcam o cenário internacional, existe um profundo desejo de paz no coração da humanidade:

“A nossa época, que aparentemente se vê abalada por terríveis desequilíbrios e conflitos, no seu íntimo clama por paz, por um novo conhecimento da pessoa humana e da sua dignidade inviolável, pela civilização do amor.”

Segundo o Papa, a construção dessa paz passa pela valorização da liberdade religiosa e de consciência, pela promoção da cultura e pela formação de pessoas capazes de cultivar a interioridade e a busca sincera da verdade.

Leão XIV profere seu discurso


Contra as polarizações

Leão XIV manifestou preocupação com o crescimento das divisões sociais e políticas que marcam muitas sociedades contemporâneas. Para ele, a tentação de obter consenso alimentando conflitos e antagonismos representa uma ameaça à dignidade humana e à convivência pacífica, e lançou um apelo direto aos espanhóis:

“Hoje, a tentação de ganhar popularidade atiçando o fogo das polarizações parece crescer, em vez de diminuir; a dignidade humana continua a ser violada. Convido todos, por amor à verdade, a abandonarem as narrativas divisórias e polarizadoras da vossa realidade social e da vossa história, a fim de que se passe das simplificações estéreis a uma apreciação fecunda da complexidade.”

Educação, tecnologia e responsabilidade

O Papa também dedicou parte significativa do seu discurso aos desafios trazidos pelas novas tecnologias. Segundo ele, o ambiente digital pode favorecer a difusão de preconceitos, enfraquecer o pensamento crítico e amplificar interesses que ameaçam a vida e a dignidade humana. Diante desse cenário, defendeu uma mudança de prioridades nos investimentos públicos e privados:

“É necessário — sobretudo por parte de quem tem responsabilidades econômicas, políticas e institucionais — dar um salto qualitativo, uma mudança de rumo nos investimentos destinados à escola, à universidade e à pesquisa, às comunidades locais e à sociedade civil.”

O Santo Padre ressaltou ainda que a verdadeira segurança não nasce da lógica dos muros e das armas, mas da capacidade de caminhar juntos. “A segurança — que pensamos, com demasiada frequência, provir das armas e dos muros — amadurece, pelo contrário, quando se aprende a avançar com o outro, a crescer juntos, ombro a ombro.”

Papa durante o encontro com as autoridades civis


A contribuição da Espanha para a Europa e para o mundo

Ao recordar momentos históricos de convivência entre cristãos, judeus e muçulmanos na Península Ibérica, o Papa destacou cidades como Toledo e Córdoba como exemplos de encontro entre culturas, religiões e saberes. Leão XIV afirmou que a Espanha possui uma vocação especial para ajudar a Europa a redescobrir sua missão de promover o diálogo e a cooperação entre os povos. Ao concluir seu discurso, agradeceu o compromisso espanhol com o direito internacional, o multilateralismo e a solidariedade:

“Encorajo a cultivar o diálogo e a amizade social também internamente, a levar em conta as perspectivas dos pobres e dos jovens ao imaginar o futuro, a harmonizar as exigências de autonomia e de unidade, e a impulsionar o processo de união europeia.”

Ao final, confiou o país à proteção divina e dirigiu uma breve invocação: “Que Deus abençoe a Espanha!”

Thulio Fonseca – Vatican News

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Fonte: vaticanews.va     Fotos e vídeo: (@Vatican Media)

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