Caminhar não na
aparência dos ritos religiosos
Dom Anuar Battisti - Arcebispo Emérito de Maringá (PR)
Viver o que se
celebra e prega no amor e na caridade! Cuidado com as aparências externas!
Há uma cena no
Evangelho deste 10º Domingo do Tempo Comum – Mt 9,9-13 – que merece atenção.
Jesus passa por uma coletoria de impostos, olha para um homem chamado Mateus e
diz apenas duas palavras: “Segue-me.” Mateus se levanta e o segue. Sem
negociação, sem lista de condições, sem exigência prévia de perfeição. O
chamado vem antes da conversão. A misericórdia precede a mudança.
Isso não é
detalhe. É o coração do Evangelho. A cena seguinte é igualmente reveladora.
Jesus está à mesa com cobradores de impostos e pecadores. Os fariseus
estranham. Para eles, a santidade se media pela distância: quanto mais longe do
impuro, mais perto de Deus. Jesus inverte essa lógica completamente. Ele cita
Oséias, o mesmo profeta que ouvimos na primeira leitura: “Quero misericórdia, e
não sacrifício” (Os 6,6). Não é uma citação decorativa. É uma correção de rota
para quem confunde religiosidade com proximidade de Deus.
O que Oséias já
havia dito? – Os 6,3-6 – Oséias fala a um povo que pratica o culto, mas não
pratica o amor. Oferece holocaustos, mas não oferece o coração. O Senhor, pela
voz do profeta, é direto: “O vosso amor é como nuvem pela manhã, como orvalho
que cedo se desfaz” (Os 6,4). Amor inconstante. Devoção de fachada. Essa é uma
tentação antiga e muito atual. É possível participar da Santa Missa, rezar o
terço, cumprir os ritos e, ao mesmo tempo, ter o coração fechado para o irmão
que está ao lado. É possível ser rigoroso na observância religiosa e
completamente indiferente ao sofrimento alheio. Oséias chama isso pelo nome:
não é conhecimento de Deus. É performance religiosa.
O que Deus quer
não é o sacrifício do animal sobre o altar. Quer o sacrifício do orgulho, da
autossuficiência, da ilusão de que somos melhores do que os outros. “Quero
amor, e não sacrifícios, conhecimento de Deus, mais do que holocaustos” (Os
6,6). Conhecer a Deus, na linguagem bíblica, não é acumular informação
teológica. É entrar em relação. É deixar que o coração de Deus toque o nosso
coração.
A fé de Abraão
como modelo. São Paulo, na carta aos Romanos – Rm 4,8-15 –, apresenta Abraão
como modelo de fé que não depende das circunstâncias. Abraão tinha cem anos.
Sara era estéril. Do ponto de vista humano, a promessa era impossível. Mas ele
“contra toda a humana esperança, firmou-se na esperança e na fé” (Rm 4,18). Não
fraquejou. Não calculou. Confiou. Essa fé não é ingenuidade. É a disposição de
colocar a vida nas mãos de Deus mesmo quando os sinais externos dizem o
contrário. É exatamente o que Mateus fez quando se levantou da coletoria. Ele
não pediu garantias. Não fez perguntas. Levantou-se e foi. Há momentos em que
Deus nos pede exatamente isso: levantar antes de entender. Confiar antes de
ver. Caminhar antes de ter o mapa completo.
O médico que
busca os doentes. Jesus, diante da crítica dos fariseus, usa uma imagem simples
e poderosa: o médico não vai visitar os que estão bem. Vai onde estão os
doentes. Não é uma defesa da mediocridade moral. É uma declaração sobre a
lógica da misericórdia divina. Deus não espera que estejamos prontos para nos
chamar. Ele nos chama no meio da nossa fragilidade, das nossas contradições,
das nossas cobranças que pesam sobre os outros. O chamado de Mateus é o chamado
de cada um de nós. Nenhum de nós foi chamado porque era perfeito. Fomos
chamados porque Deus quis.
Isso tem uma
consequência pastoral concreta: a Igreja não pode ser uma comunidade de
chegados que olha de longe para os que ainda estão de fora. A Igreja é a casa
do médico. E o médico sai para buscar quem precisa de cuidado.
Irmãos e irmãs,
neste domingo somos convidados a rever onde colocamos o peso da nossa vida de
fé. Nos rituais que cumprimos ou no amor que praticamos? Na observância que
exibimos ou na misericórdia que oferecemos?
A resposta de
Jesus é clara. E o lema que nos guia também: caminhai no Senhor, não na
aparência da religião, mas na profundidade do amor.
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