Perdas e ganhos
Normalmente no final de cada ano costuma-se fazer o balanço de uma loja, de um empreendimento, da vida de uma família ou de nossa vida pessoal. Costuma-se falar em perdas e ganhos. Os que já fizemos uma boa parte da caminhada gostamos de conhecer e reconhecer o que não deu certo, o que deu certo e o que poderia dar mais certo. Trata-se de uma atitude de prudência para desperdiçar o dom do tempo da vida. O evangelho de hoje fala curiosamente de perdas que são ganhos e ganhos que podem ser perdas.
Antes da audição do evangelho pouquíssimos versículos de Jeremias ocupam nossa atenção. Sente-se ele perseguido em sua missão de profeta. “A palavra tornou-se para mim fonte de vergonha e de chacota o dia inteiro. Disse comigo: Não quero mais lembrar-me disso, nem falar em nome dele”. Sente-se no limite de suas capacidade embora tenha sido seduzido pelo Senhor e fale de um fogo ardente a penetrar seu corpo todo. Mesmo assim ele não “quer falar em nome dele”.
O profeta não é alguém que diverte. Sua missão não é adivinhar o futuro, mas compreender o presente. Lançar uma luz que vem da Verdade e da Claridade para orientar os passos de seus ouvintes rumo a Deus. Ele capta a proximidade da luz do sol antes que chegue. Jean Sulivan diz que “o profeta é o diário de Deus”. Sofre, perde e morre. Ganha pela sua coerência e fidelidade a quem o seduziu. De forma alguma poderá ser infiel. O profeta fala de um claridade invisível. Novamente Sulivan: “Quem quiser falar do sol invisível, apresente-se todo ensolarado no meio das trevas. Filhos da luz, parai de provar e dizer: Deus…Deus… Apresentai-vos como aurora”.
Vivemos. Aprendemos a viver. Lutamos. Surge no horizonte de nossa vida a pessoa de Jesus a nos pedir seguimento efetivo, um colocar nossos passos nos seus passos, pede que olhemos o mundo com o seu modo de olhar, insinua que aqui e ali e quase sempre será preciso perder para ganhar. Será preciso não levar a sério a ofensa que foi feita e perdoar. Nem sempre todos os nossos desejos, por mais legítimos, podem ser satisfeitos ao nosso bel prazer. Há limitações naturais, incidentes desastrosos efeitos nossos ou causados por outros. Há desastres físicos, pessoais, familiares. Há esse vírus que mata. Há grãos de trigo para darem frutos aqui ou ali, agora ou depois. Mistério de morte e vida. Esperamos. Os que fomos seduzidos por Cristo daremos os testemunho custe o que custe. É a tal questão das perdas e ganhos.
Ressoam dentro de nós as palavras de Paulo aos Romanos: “Não vos conformeis com o mundo, mas transformai-vos, renovai vossa maneira de pensar e de julgar, para que possais distinguir o que é da vontade de Deus, isto é, o que é bom, o que lhe agrada, o que perfeito”. Trata-se da coragem de ser do Senhor no dia a dia: na lisura de todos os comportamentos, na defesa dos mais frágeis, na oposição a tudo o que minora o ser humano. Pouco importa se agradamos ou não.
Jesus anuncia sua morte. Causa escândalo. Pedro não aceita. O Mestre não tem a mentalidade de “vitimismo”. Assume livremente sua morte. Sua dolorida morte, mas acolhida sob o olhar do Pai que parecia silencioso e longínquo. “Em tuas mãos entrego o meu espirito”.
“O Senhor não esperou os teólogos para se explicar em poucas palavras. Todo o esforço de Deus desde a criação tem sido, por todos os meios, fazer o homem compreender que o amava. Esgotados todos os argumentos, apresenta a maior prova “Não há maior prova de amor que dar a vida por aqueles que amamos”. Eis tudo. Depois disso não há mais nada a dizer. Quem quiser que compreenda. Aí está o livro aberto sobre a cruz (…). Em vez de dizer que a Paixão foi a salvação para a humanidade, seria mais exato ver nela apelo: “Adão, onde estás?” É o grito que escapa de todas a chagas do crucificado e impede o autêntico cristão de dormir tranquilo” (Sulivan).
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FREI ALMIR GUIMARÃES, OFM, ingressou na Ordem Franciscana em 1958. Estudou catequese e pastoral no Institut Catholique de Paris, a partir de 1966, período em que fez licenciatura em Teologia. Em 1974, voltou a Paris para se doutorar em Teologia. Tem diversas obras sobre espiritualidade, sobretudo na área da Pastoral familiar. É o editor da Revista “Grande Sinal”.
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