Consagrados para
cuidar do povo de Deus!
Dom Antônio
Carlos Altieri - Arcebispo Emérito de Passo Fundo (RS)
Mensalmente, a
Igreja no Brasil dedica-se a refletir sobre temas pertinentes tanto em sentido
ad intra como ad extra. Neste mês voltamo-nos para a dimensão vocacional e, ao
meditarmos sobre a pluralidade de dons com que o Espírito Santo enriquece a
Igreja, a reflexão sobre a Vida Religiosa Consagrada nos convida a contemplar
uma presença tão discreta quanto revolucionária. Para além dos claustros,
existe uma multidão de consagrados e consagradas que atuam no coração do mundo
secular, de forma quase “invisível” aos olhos desatentos, mas profundamente
transformadora: os missionários da Educação e da Saúde.
Distantes dos
holofotes, estes homens e mulheres encarnam a emblemática metáfora evangélica
do sal da terra e do fermento na massa. Eles não estão nos altares das grandes
igrejas, revestidos de túnicas solenes, mas fazem de suas ações e de seus
ambientes cotidianos o altar de sua consagração, o lugar teológico do exercício
de seus “ministérios”, de seu sacerdócio existencial e batismal; revestidos do
avental do serviço, do jaleco para o atendimento ou para a docência. Desde tal
perspectiva, a atuação da Vida Consagrada nas ciências da saúde e nas ciências
humanas não é fruto do improviso, mas de uma rigorosa e ampla formação
integral.
Os consagrados
compreendem que, para dialogar com a sociedade contemporânea e sanar as feridas
mais profundas da humanidade, é preciso unir a fé à razão, a espiritualidade à
técnica. Por isso, ao lado da densa bagagem filosófica e teológica, religiosos
e religiosas dedicam anos de suas vidas ao domínio de disciplinas diversas:
Ciências da Educação como Pedagogia, Licenciaturas, Psicologia do
Desenvolvimento e Gestão Escolar; Ciências da Saúde como Medicina, Enfermagem,
Fisioterapia, Bioética, Nutrição e Gestão Hospitalar; Ciências Humanas e
Sociais como Serviço Social, Filosofia, História e Sociologia.
Ao ocuparem
gabinetes de pesquisa, salas de aula do ensino básico às universidades, e
consultórios ou leitos de UTI, esses missionários oferecem ao mundo uma
competência técnica irretocável, mas impregnada de um “algo a mais”: a visão
integral da pessoa humana criada à imagem e semelhança de Deus. Esta presença
profissional e humanizadora no meio da sociedade ajuda a resgatar a imensa
dignidade da vocação dos Irmãos Religiosos e das Irmãs Consagradas, agentes
pastorais diversos que não pertencem ao ministério ordenado, mas que demonstram
que no Corpo Místico de Cristo, a grandeza da vocação não se mede pelo grau
hierárquico ou sacramental, mas pela radicalidade do amor doado.
O Irmão
consagrado e a Irmã consagrada, o agente pastoral no seu ofício diário,
recordam a toda a Igreja a fraternidade fundamental do Evangelho. Quando um
irmão religioso leciona física em uma escola ou uma irmã médica realiza uma
cirurgia complexa, eles proclamam que o mundo do trabalho e do conhecimento
humano é lugar teológico, espaço sagrado de santificação e de encontro com
Deus.
Nas escolas e
universidades, os Consagrados e agentes pastorais se estabelecem pela primazia
da formação do pensamento crítico, da educação em valores, da escuta de jovens
em crise e da humanização do saber. Nos hospitais e consultórios, pela primazia
da defesa
incondicional da
vida desde a concepção até a morte natural, do consolo aos enfermos e da
acolhida às famílias. Nos gabinetes e nas instâncias de gestão, pela primazia
das decisões pautadas pela ética, pela justiça social e pela promoção do bem
comum acima do lucro.
Aos jovens e
leigos que sentem no coração a inquietação vocacional e a paixão pela Educação,
pela Medicina, pela Enfermagem ou pelas Humanidades: não tenham medo de
consagrar a sua profissão a Deus! Se você percebe que o seu desejo de cuidar,
ensinar, pesquisar e educar transcende a busca por um simples salário ou
carreira secular, escute a voz do Mestre. A Igreja e o mundo precisam
urgentemente de profissionais que sejam, antes de tudo, apaixonados por Cristo
e pela humanidade.
Colocar o seu
diploma, a sua inteligência e as suas mãos nas esteiras da Saúde e da Educação
como um consagrado é uma das formas mais belas de evangelização do nosso tempo.
É ser o sal que dá sabor às realidades áridas da sociedade e o fermento
silencioso que faz levedar a cultura da paz, do cuidado e da verdade. Que os
santos educadores e cuidadores, como São João Bosco, São José de Calasanz, São
Camilo de Lellis e Santa Dulce dos Pobres, intercedam por todos os que já doam
suas vidas nesses campos e inspirem novas e generosas vocações!
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