Reflexão de dom João Santos Cardoso
Os pais,
geralmente, vivem cercados por grandes projetos para o futuro dos filhos.
Desde cedo, pensam na escola, nos cursos, no aprendizado de idiomas, na
universidade e na profissão. Tudo isso é importante.
Mas jamais podemos esquecer uma pergunta fundamental: que pessoa
queremos formar? Não basta desejar filhos bem-sucedidos; mas,
aspirar pessoas humanamente maduras, moralmente bem formadas e de reto
caráter.
Educar não é
apenas preparar alguém para ser profissionalmente competente. É preparar para a
vida. Uma pessoa pode acumular conhecimentos, dominar tecnologias e alcançar
sucesso profissional e, ainda assim, não saber enfrentar uma frustração,
respeitar quem pensa diferente, cuidar de alguém fragilizado, agradecer,
perdoar ou encontrar sentido para a própria existência.
Na família, a
formação humana acontece, em grande parte, nas pequenas experiências do
cotidiano. Arrumar a própria cama pode ensinar responsabilidade. Ajudar nas
tarefas de casa ensina que todos devem colaborar. Esperar pelos demais para
iniciar uma refeição educa para a convivência. Visitar um avô ou uma pessoa
enferma ensina que ninguém perde sua dignidade porque envelheceu ou adoeceu.
Pedir desculpas mostra que reconhecer um erro não nos diminui. Evitar
desperdícios educa para o cuidado com a criação. Rezar juntos abre o coração
para reconhecer que a vida é dom.
São gestos
simples, mas possuem enorme força educativa.
Talvez um dos desafios
de nosso tempo seja justamente recuperar o valor dessas pequenas coisas em
nossos lares e nas relações familiares. Numa sociedade marcada pela pressa,
podemos morar na mesma casa e, ainda assim, encontrar pouco tempo para
verdadeiramente estarmos juntos. Presença não significa apenas
proximidade física. Estar presente é olhar, escutar, perceber o outro e
interessar-se pelo que ele está vivendo.
Às vezes, dez
minutos de atenção verdadeira valem mais do que horas de convivência
distraída.
Por isso, algumas
práticas muito simples precisam ser valorizadas em nossas famílias: conversar
durante uma refeição, perguntar como foi o dia e realmente ouvir a resposta,
brincar com as crianças, cozinhar juntos, visitar os avós, repartir tarefas,
preservar momentos de convivência e encontrar tempo para a oração.
É assim que se
educa a pessoa inteira.
Naturalmente,
desejamos que nossos filhos estudem, trabalhem, desenvolvam seus talentos e
construam uma vida digna. Mas desejamos algo maior: que sejam pessoas capazes
de amar, livres e responsáveis, honestas e solidárias; que saibam perder e
recomeçar; que respeitem os outros, cuidem dos mais frágeis e não reduzam a
felicidade ao dinheiro ou ao sucesso.
Nenhuma dessas
virtudes nasce de repente na vida adulta. Elas são cultivadas lentamente no
ambiente familiar, por meio da convivência, do exemplo e das escolhas de cada
dia.
A educação
possui muito dessa pedagogia silenciosa: pequenos gestos, repetidos
cotidianamente, transformam-se em hábitos; os hábitos consolidam valores; e os
valores, pouco a pouco, formam o caráter.
Talvez não
possamos oferecer aos filhos tudo aquilo que desejamos. Podemos, porém,
oferecer-lhes algo indispensável: presença, exemplo, tempo, limites, afeto
e valores capazes de acompanhá-los pela vida inteira. E assim, nas
pequenas coisas de cada dia, que ajudamos a formar pessoas capazes não apenas
de construir o próprio futuro, mas também de tornar melhor o mundo ao seu
redor.
Dom João Santos Cardoso - Arcebispo de Natal (RN)
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