O
impacto das Redes Sociais na cultura religiosa
As redes sociais
apresentam-se como um novo espaço de evangelização, que exige atenção redobrada
de nós, católicos e cristãos. Precisamos de um discernimento profundamente
eclesial para não permitir o enfraquecimento da nossa consciência...
Sempre
compreendi a Cultura no sentido mais amplo, conforme aprendi, ao iniciar
meus estudos em Filosofia: ela é o conjunto de costumes, crenças, valores,
expressões artísticas, normas, hábitos e conhecimentos adquiridos e
transmitidos pelos membros de uma sociedade. Como ministro ordenado, exercendo
meu ministério e percorrendo diversas regiões do Brasil, em cursos e
formações sobre dízimo, pastoral urbana, gestão eclesial e, mais recentemente,
sobre os impactos da Inteligência Artificial na evangelização, tenho aprendido
muito com o modo de vida e as experiências de diferentes grupos humanos. Como
primeiro servidor da Diocese de Leopoldina, reconheço, diariamente, o
desafio de compreender a Cultura em suas luzes e sombras, especialmente no
contexto da realidade eclesial e dos ministros ordenados do Sudeste, nas Minas
Gerais.
Assim sendo, o
conceito de Cultura também se desdobra em diversas dimensões: política,
econômica, psicológica e religiosa, entre tantas outras.
É, justamente, a partir dessa compreensão, que proponho uma
reflexão sobre como as tecnologias digitais vêm influenciando, de forma gradual
e, muitas vezes, imperceptível, todos os setores da Sociedade, alcançando
também as instituições e as subculturas das tradições religiosas. Esse será o
nosso ponto de partida para compreender os desafios e as oportunidades que a
transformação digital apresenta à vivência da fé.
As redes sociais
apresentam-se como um novo espaço de evangelização, que exige atenção
redobrada de nós, católicos e cristãos. Precisamos de um discernimento
profundamente eclesial para não permitir o enfraquecimento da nossa
consciência, moldada, ao longo dos séculos, sob três pilares
fundamentais: a revelação judaico-cristã, o direito romano e a lógica
aristotélica. Nesse contexto, a cultura religiosa e as nossas estruturas
tradicionais são, simultaneamente, impactadas e desafiadas pelas
liberdades e ferramentas oferecidas pelas mídias digitais.
No cotidiano,
somos bombardeados por conteúdos de padres com mensagens rápidas da passagem
litúrgica do Evangelho, de momentos de aconselhamentos espirituais apoiados em
eclesiologias e cristologias diversas, bem como por grupos de mensagens
voltados a interesses específicos, como devoção religiosa particular e regras
morais. Paralelamente, comunicadores e pregadores digitais promovem
transmissões eucarísticas com ritos variados e teologias das mais diversas
vertentes, muitas vezes, direcionando o Evangelho a linhas ou controles
ideológicos específicos e reforçando diferentes noções de hierarquia,
autoridade e infinitas maneiras light de vivenciar a fé.
Esse ecossistema
digital atua, diretamente, sobre o conceito dos sacramentos, de maneira
especial, o casamento, a criação dos filhos e o comportamento ético dos fiéis,
impactando indivíduos, comunidades e instituições. Por meio de debates
teológicos, memes, imagens virais e hashtags, esses conteúdos
são, frequentemente, desvinculados de seus contextos institucionais e
doutrinários originais, moldando sutilmente os hábitos das comunidades
paroquiais e eclesiais missionárias. Assim, a influência digital passa a
redefinir espectadores, preceitos religiosos e morais e estilos de vida,
reconfigurando os contornos da própria fé.
Diante dessas
transformações, o papa Leão XIV, na introdução da encíclica Magnifica
Humanitas, recorda-nos que a Igreja é chamada a "orientar a ação para
Deus, de modo que, à sua luz, o pluralismo não se disperse na desordem"
(MH 10). O ambiente digital, com sua velocidade e apelos sutis, não deve
enfraquecer a consciência nem fragmentar a riqueza da nossa fé. Cabe a nós,
portanto, cultivar um discernimento, profundamente eclesial e
evangelizador, capaz de acolher as novas mídias sem renunciar aos alicerces da
tradição e à dignidade da vocação humana.
Dom Edson José Oriolo dos Santos - Bispo da Igreja Particular de Leopoldina MG
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