A comunicação sem corpo
A comunicação
digital deixou de ser apenas uma ferramenta para tornar-se o principal meio de
nos relacionarmos. Hoje, resolvemos quase tudo por aplicativos de mensagens:
conversamos com amigos, trabalhamos, fazemos compras, pagamos contas
e solucionamos problemas com empresas por meio de canais digitais de
atendimento. Em muitos lares, é comum que pessoas da mesma casa conversem mais
pela tela do que pessoalmente. Ganhamos rapidez e praticidade, mas será que não
estamos perdendo algo essencial?
Essa é a
inquietação do filósofo sul-coreano Byung-Chul Han em No Enxame. Ao
afirmar que “a mídia digital
furta à comunicação a tatilidade e a corporeidade”, ele não critica o avanço da tecnologia. Sua preocupação é mais profunda. A comunicação humana deixa de ser um verdadeiro encontro entre
pessoas para reduzir-se a uma simples troca de informações. Comunicar-se é
uma experiência essencialmente corporal e vai muito além das
palavras. A comunicação humana envolve o olhar, os gestos, as expressões
faciais, a entonação da voz, os silêncios e toda a riqueza dos sinais não
verbais que somente a presença física pode oferecer. É justamente essa dimensão
relacional que torna possível o encontro autêntico com o outro. A comunicação
digital, porém, empobrece essa experiência ao privilegiar a circulação de informações
em detrimento da presença humana, esvaziando a profundidade e a densidade
próprias das relações interpessoais.
Quando essa
dimensão corporal desaparece, também muda a nossa forma de perceber o outro. Ao
evitar o encontro direto, passamos gradualmente a nos relacionar mais com
imagens, perfis e mensagens do que com pessoas concretas. O smartphone
transforma-se num “espelho digital”, reforçando uma lógica narcísica na qual
estamos continuamente voltados para nós mesmos. O outro deixa de ser alguém que
nos interpela, nos desafia e nos surpreende para tornar-se um objeto
manipulável, que pode ser aceito, ignorado ou descartado com um simples
deslizar de dedo sobre a tela. Assim, a alteridade cede lugar à
lógica da seleção e do consumo, empobrecendo a experiência do encontro humano.
A comunicação
digital empobrece o olhar. Mesmo as videochamadas, que prometem
proximidade, não conseguem substituir o encontro presencial, pois
eliminam a experiência de ver e ser verdadeiramente visto. Embora aproximem
pessoas fisicamente distantes, elas não substituem a experiência de
olhar nos olhos, perceber a linguagem corporal, compartilhar os silêncios e
sentir a presença do outro. Como consequência, enfraquecem-se a escuta atenta,
a empatia e a capacidade de acolher a singularidade de cada pessoa.
É justamente
isso que Han deseja denunciar. A eficiência tecnológica tem um custo: a perda
da experiência humana do encontro. Quando o corpo, o silêncio, a proximidade e
a presença deixam de ocupar um lugar central na comunicação, tornam-se mais
frágeis também o diálogo, a amizade, o amor e a construção de uma autêntica
comunidade. Podemos estar permanentemente conectados e, ao mesmo tempo,
profundamente sós.
A crítica de Han
não é um convite a abandonar a tecnologia, mas a utilizá-la sem permitir que
ela substitua aquilo que nos torna verdadeiramente humanos. As mensagens são
úteis, facilitam a comunicação e aproximam quem está distante; os encontros,
porém, permanecem insubstituíveis. Sua advertência é, antes de tudo, ética e
antropológica. Uma sociedade que troca o encontro pela conexão, o rosto pela
tela e a presença pela simples circulação de informações corre o risco de
perder uma dimensão essencial da existência humana: a capacidade de
reconhecer o outro em sua singularidade e de deixar-se transformar pelo
encontro com ele. Afinal, nenhuma tecnologia é capaz de substituir plenamente a
força de um abraço, a profundidade de um olhar, a eloquência de um silêncio
compartilhado ou a riqueza da presença de duas pessoas que verdadeiramente se
encontram.
Dom João Santos Cardoso - Arcebispo de Natal (RN)
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