Carregar a dor do outro
O mundo
contemporâneo, além das doenças antigas, padece com novos
adoecimentos. Consequentemente, são muitas e variadas dores. Ecoe,
pois, a indicação preciosa e humanitária do Papa Leão XIV na sua
mensagem para o 34º Dia Mundial do Doente, Festa de Nossa
Senhora de Lourdes. O modelo inspirador apresentado no texto é a
compaixão do samaritano: amar carregando a dor do outro. A imagem do bom
samaritano é sempre atual e inspiradora. Oferece
a possibilidade para se redescobrir que o exercício
da solidariedade é prática efetiva e eficaz no
tratamento das muitas dores humanas. Reconhecer, pois, o
sentido da solidariedade tem um desdobramento social relevante, pois
inspira gestos de compaixão dedicados aos necessitados,
sofredores e doentes.
A dor não é
privilégio ou castigo para alguns. Trata-se de um fenômeno existencial
que interfere no cotidiano de cada pessoa. Ninguém está
imune a dor. Assim, todos são chamados a ser solidários, e todos
precisam de solidariedades. Na exemplaridade do bom samaritano está guardada
lição preciosa: para além da afinidade ou de compromissos, vale
sempre o gesto de solidariedade dedicado a quem
enfrenta sofrimentos. Foi assim que o samaritano tratou o desconhecido que
tinha caído nas mãos de ladrões. Após ampará-lo, recomendou ao dono
da pensão para onde o levara a cuidar dele, assumindo todas as despesas no
seu retorno. O Papa Leão XIV relembra a cultura do efêmero deste
tempo atual, onde costuma-se estar sempre com pressa. Um contexto que
normaliza o olhar distante e descomprometido com a dor do
semelhante.
Na parábola do
Bom Samaritano, a atitude do sacerdote e dos levitas não é
exemplar. Eles, vendo o homem assaltado em condições
precárias, simplesmente passaram ao largo. Um olhar de indiferença
presidiu seus corações, na contramão do olhar de Jesus, marcado sempre pela
proximidade e pela solidariedade. O Bom Samaritano ensina a importância de
ser próximo para criar e estabelecer um mundo novo. O
mundo diferente nasce quando o ser humano se faz próximo de seu
semelhante, particularmente daquele que precisa de ajuda, consolo e
acolhimento. É preciso ir ao encontro do outro, especialmente do
outro que precisa de amparo. Trata-se de um gesto de amor, nascido
não exclusivamente da afinidade, mas fruto da solidariedade que faz enxergar
para além de circunstâncias. Ter compaixão, ressalta a mensagem do Papa
Leão XIV, implica experimentar uma emoção profunda. Um
sentimento que brota da interioridade e leva a assumir compromisso
com a dor do semelhante. Imagine o quanto se pode evitar violências e
garantir fraternidade solidária a partir do cultivo da
compaixão.
A compaixão
ajuda a constituir cenários bem diferentes desses que povoam os
noticiários todos os dias. Oferece a possibilidade de se viver mais
qualificadamente, produzindo uma cultura solidária. A disposição para
carregar a dor do semelhante é porta de entrada para uma sociedade
mais saudável, pelo remédio da solidariedade. Tenha-se presente que a dor
do semelhante aflige parte de um corpo formado por todos, a
humanidade. É, pois, mal comum a todos. E o alicerce
do amor a ser exercido por todos e que ajuda a tratar as dores
humanas é o amor de Deus, com o poder de criar condições para que cada
pessoa possa amar de modo desinteressado, sem buscar recompensas. É um
amor que transcende as normas rituais, sublinha o Papa, e se traduz em um culto
autêntico. Carregar a dor do semelhante é a revelação da
natureza espiritual do ser humano, na sua posição diante de
Deus.
O amor fraterno
é o remédio para curar a humanidade tão sofrida. Por isso,
para se construir um novo tempo é preciso dispor-se a carregar a dor
do semelhante. Uma disponibilidade que começa a ser exercida na
família, com repercussão no tecido social, possibilitando um novo
modo de convivência entre as pessoas. O caminho proposto, de
se carregar as dores do semelhante, pode não ser sedutor,
em comparação às lógicas alicerçadas na busca pelo sucesso
e bem-estar. Mas guarda uma singularidade com força de produzir o sentido
de viver e amar. Assim, alarga horizontes e permite encontrar
o remédio para a própria dor, com efeito terapêutico na própria alma e na
vida de quem é destinatário da solidariedade samaritana. Agindo
solidariamente, os sofrimentos serão minimizados, ganharão todos e a
sociedade se tornará mais saudável, com uma cultura que preza e
promove o nobre sentido igualitário. Carregar a dor
do semelhante é lição de nobreza, dinâmica de qualificação
existencial, investimento na construção de um tempo a ser escrito em
páginas novas, sonho de uma humanidade nova, com mais justiça e
fraternidade. Todos possam se abrir ao sentido divino do amor.
Dom Walmor Oliveira de Azevedo - Arcebispo de Belo Horizonte (MG)
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