A Quaresma é um
tempo de conversão e de preparação à Páscoa do Senhor. No Brasil nós temos um
tema muito importante, que diz respeito à nossa relação social da fé
e da caridade, e está sendo aprofundado, estudado nos grupos, nas assembleias,
que é o da Campanha da Fraternidade sobre Moradia e
Fraternidade. O seu lema é: “Ele veio morar entre nós”
(Jo 1,14). Jesus se encarnou na realidade humana e assumiu tudo
o que é humano, para dar a todas as pessoas a redenção, a
salvação. A Igreja antiga colocou a importância da Quaresma, como período de
quarenta dias sendo um período de ascese à Páscoa, de conversão, de vida nova
para o Senhor Ressuscitado dentre os mortos, como primícias de nossa vida
futura. A Igreja antiga convocava a todas as pessoas às práticas
caritativas.
Como é que foi a
quaresma?
Segundo Eusébio
de Cesareia e também Santo Atanásio, a Quaresma era um
período de seis semanas incluída também a própria semana santa,
um período de ascese que dizia respeito ao jejum, orações, práticas de
caridade e acolhida de pessoas estrangeiras. Aqui entra a importância da
Campanha da Fraternidade deste ano que diz também respeito às pessoas que
vinham de outras localidades, países para serem acolhidas e a palavra de
Jesus que diz: “Eu era estrangeiro e vós me
acolhestes” (Mt 25,35).
A sua
observância
Segundo alguns
estudiosos da Igreja antiga a Quaresma estava sendo observada, assumida a
partir da Epifania do Senhor. Ela estava em profunda imitação de
Jesus Cristo, que apenas batizado, foi no deserto, para preparar-se para a
missão evangelizadora, como Enviado do Pai para a humanidade (cfr. Mt 4,
1-11). A Quaresma era concluída com o batismo e outros sacramentos da
Iniciação à Vida Cristã, conferidos aos catecúmenos e às
catecúmenas em unidade em a Páscoa do Senhor. Para outras
pessoas a Quaresma foi um período de jejum surgido nos séculos III e IV e
oficializada em Nicéia, no ano de 325, por sua natureza ligada à festa móvel da
Páscoa.
O número
quarenta
Santo Agostinho
convidava o povo de Deus a viver bem os quarenta dias antes da Páscoa com
atitudes de humildade, de amor ao próximo, para viver em comunhão
com a Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor Jesus. O mistério que se
celebrava no número quarenta foi porque o próprio Senhor jejuou durante
este tempo após o seu batismo. Em comunhão com os
catecúmenos, sendo as pessoas que iriam ser batizadas, o Bispo
de Hipona convidava as pessoas cristãs também a jejuar e
praticar obras de caridade neste período tão importante da vida
cristã.
O tempo da
Quaresma
Santo
Agostinho também afirmava ao seu povo a necessidade de oferecer a
Deus obras que estivessem de acordo com o período especial da
Quaresma. Ele tinha presentes a oração, o jejum, a esmola,
conforme o Senhor recomendou no evangelho de Mateus, para que tudo se
realizasse na maior descrição, e o Pai do céu que vê o que é secreto, dará
a recompensa para os seus filhos e filhas (cfr. Mt ). A cada
ano havia uma repetição da solenidade da Quaresma na qual
Cristo Senhor sofreu por nós na sua única morte. Há uma perpétua memória de sua
Paixão, Morte e Ressurreição.
Ele veio morar
entre nós (Jo 1,14)
É o lema que nós
refletimos neste período da Quaresma proposto pela Conferência Nacional dos
Bispos do Brasil (CNBB) da qual nós estamos unidos e fazemos parte da Igreja do
Senhor. Jesus se encarnou na realidade humana, assumindo tudo o que é próprio
do ser humano, menos o pecado. Ele nos redimiu dos pecados, venceu a morte e
está vivo para nós lutarmos por moradia digna, com políticas públicas que
ajudem a todas as pessoas terem uma casa, um local onde possam viver bem e
atuar em favor do Senhor, de seu Reino.
Se a Igreja antiga com os seus pastores exortavam na Quaresma obras de jejum, de oração e de caridade conforme a Palavra do Senhor, hoje a Igreja exorta à práticas de vida, em unidade com as pessoas sofredoras, para que tenham terra, teto, trabalho. Nós somos chamados a viver bem o período da Quaresma em profunda unidade com o Senhor e com todas as pessoas que necessitam de moradia digna, aqui e agora, e um dia na eternidade.
Dom Vital Corbellini - Bispo de Marabá (PA)
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