Há tentações em nosso caminho que, se cairmos, podem arruinar nossa vida e nos afastar do seguimento de Jesus. Dizemos todos os dias: “Não nos deixeis cair em tentação!”
♦ Tentações, sugestões que nos são feitas para apequenar nossa vida. Convites atraentes para que aproveitemos a vida, de nosso jeito e a partir de nossos interesses, nem sempre os mais generosos, nem sempre os mais transparentes. As tentações sugerem que acolhamos o que nos é proposto sem outras preocupações, deixando de lado de ouvir o grito de plenitude que ecoa dentro de nós nos momentos de verdade, sem prestar atenção ao murmúrio daqueles que perderam a força de viver e clamam à beira dos caminhos da vida.
♦ O tempo da quaresma sempre foi tido como uma bem propícia ocasião para exercitarmo-nos no combate contra as forças que sempre perturbaram e continuam perturbando a implantação de um mundo transparente que veio criar Cristo Jesus, nosso amado e nosso Senhor. Jesus, tentado no deserto, resiste aos convites do poder, do prestígio da autorreferencialidade. O homem vive, isto sim, de toda palavra que sai da boca de Deus.
♦ Começando sua vida pública Jesus vai ao deserto e sai vitorioso. Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus. Haverás de adorar ao Senhor teu Deus e só a ele servirás. Não tentarás ao Senhor teu Deus.
♦ “Dizer sim ao que posso fazer em conformidade com Cristo. Dizer não às pulsões idolátricas e egocêntricas que nos alienam e contradizem nossas relações com Deus, com os outros, com as coisas, conosco mesmos, relações chamadas a se caracterizarem pela liberdade e pelo amor” (Enzo Bianchi).
♦ Não somos completamente autônomos. Não existimos porque tenhamos nos inventado a nós mesmos. Somos parte dos sonhos de Deus. Escutaremos sempre sua voz, seus apelos para permanecer em seu amor e no bem querer de todos os que também por ele foram sonhados e inventados. Dependemos do Senhor e caminhamos com companheiros de viagem. Vivemos numa definitiva dependência. Não há como sair. Eu e tu, tu e eu.
♦ O diabo havia sugerido que Jesus transformasse pedras em pães. Jesus não se colocará a serviço de seu próprio interesse esquecendo o desígnio do Pai. “Nossas necessidades não ficam satisfeitas apenas com o fato de termos assegurado nosso pão material. O ser humano necessita de muito mais. Inclusive para regatar da fome e da miséria os que não têm pão, precisamos escutar a Deus, nosso Pai, e despertar em nossa consciência a fome de justiça, a compaixão e solidariedade (Pagola, A Boa Nova de Jesus, Vozes, p. 31). Os anseios do homem não se apagam com o consumo. Homem e mulher vão se tornando humanos quando aprendem a viver como irmãos.
♦ Terrível a tentação do poder, de dominar, de não possibilitar a participação de outros em nossos projetos, de deixar de ouvir o murmúrio que vem do mistério da vida do outro. Tal acontece em nossa vida pessoal, na sociedade e na Igreja. Quanto mais bens e prestigio se tem, mais se deseja. Francisco de Assis quis que seus seguidores e ele mesmo fossem designados de frades, irmãos menores: “E nenhum se chame prior, mas todos, indistintamente se chamem irmãos menores. E lavem os pés uns dos outros” (Regra não-bulada 6,3).
♦ Não se pode viver de maneira inerte e esperar presunçosamente tudo de Deus. Quem entendeu um pouco o que é ser fiel a um Deus que é Pai de todos, arrisca-se cada dia mais na luta pela construção de um mundo mais digno e justo para todos Não tentarás ao Senhor teu Deus.
♦ Tentações de retirar-se da luta, do isolamento, da ideia de que as pessoas se arranjem sozinhas. Do indiferentismo e do “salve-se-quem-puder”. Tentação de enfiar a cabeça na areia e não tomar consciências dos problemas que afetam o presente e o futuro. Tentações nos desertos de ontem e na aridez de nossa vida humana e cristã. Tentação da intolerância e da intransigência. Tentação de parar tomados pelo desânimo.
♦ Nossa escolha será a de tentar ouvir a voz do Senhor, de buscar simplicidade de vida, de colocar de lado a busca da realização de tantos desejos que, uma vez realizados, deixam um sem gosto em nossos lábios, de tentar olhar com carinho efetivo todos os rostos que andam nos olhando.
♦ AFINAL DE CONTAS, QUAL É A NOSSA ESCOLHA?
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Texto para reflexão
“Adão, onde estás?”
O Senhor não esperou os teólogos para se explicar em poucas palavras. Todo o esforço de Deus desde a criação tem sido, por todos os meios, fazer o homem compreender que o amava. Esgotados todos os argumentos, apresenta a maior prova. “Não há maior amor do que dar a vida por aqueles que amamos”. Eis tudo. Depois disso não há mais nada a dizer. Quem quiser que compreenda. Aí está o livro aberto sobre a cruz. Toda infelicidade dos homens vem do amor inimaginável que Deus lhes tem. O único pecado é o da recusa. Só se recusa o que é oferecido. “Se eu não tivesse vindo eles estariam sem pecado. Agora não têm mais desculpa”.
O Cristo na cruz traduz para o homem um uma linguagem universal, em um sinal tão simples como o pão e a água, o amor incompreensível que o consome. Eis por que não há pecado senão de infidelidade. Os moralistas podem esforçar-se por organizar listas e calcular as contas; é um meio como outro qualquer de escapar ao amor. A verdade é que os caminhos que permitem fugir são numerosos. Não importa qual seja o que se toma: o pecado é o afastamento. Cristo morreu por correr atrás do homem que o atraiu a uma sociedade que sempre mata quem a atrapalha.
Oração
“E não nos deixeis cair em tentação”Rezo devagar estas palavras, fazendo-as minhas.Não me deixes quando as paredes do tempo se tornam instáveis e as palavras de hoje têm a dureza do pão amassado ontem.Não me deixes quando recuo porque é difícil, quando quase me inclino perante idolatria do que é cômodo e vulgar.Não me deixes atravessar sozinho os embaciados corredores da incerteza, ou perder-me no sentimento do cansaço e da desilusão.Não me deixes tombar na maledicência e no descrédito quanto à vida.Que a tua mão levante à altura da luz a minha esperança. (José Tolentino Mendonça - Um Deus que dança, Paulinas, p. 97)
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FREI ALMIR GUIMARÃES, OFM, ingressou na Ordem Franciscana em 1958. Estudou catequese e pastoral no Institut Catholique de Paris, a partir de 1966, período em que fez licenciatura em Teologia. Em 1974, voltou a Paris para se doutorar em Teologia. Tem diversas obras sobre espiritualidade, sobretudo na área da Pastoral familiar. É o editor da Revista “Grande Sinal”.
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