sábado, 21 de fevereiro de 2026

Reflexão de frei Almir Guimarães

A difícil arte de bem escolher os caminhos da vida
As tentações de ontem e de sempre

Há tentações em nosso caminho que, se cairmos, podem arruinar nossa vida e nos afastar do seguimento de Jesus. Dizemos todos os dias: “Não nos deixeis cair em tentação!”

O deserto é o lugar onde ficamos completamente desprotegidos. Lá estamos sozinhos, frente a frente com nós mesmos, com nosso vazio interior, nosso desamparo, nossa solidão, com o imenso nada ao redor e dentro de nós. (Grün-Reepen)

 Tentações, sugestões que nos são feitas para apequenar nossa vida. Convites atraentes para que aproveitemos a vida, de nosso jeito e a partir de nossos interesses, nem sempre os mais generosos, nem sempre os mais transparentes. As tentações sugerem que acolhamos o que nos é proposto sem outras preocupações, deixando de lado de ouvir o grito de plenitude que ecoa dentro de nós nos momentos de verdade, sem prestar atenção ao murmúrio daqueles que perderam a força de viver e clamam à beira dos caminhos da vida.

 O tempo da quaresma sempre foi tido como uma bem propícia ocasião para exercitarmo-nos no combate contra as forças que sempre perturbaram e continuam perturbando a implantação de um mundo transparente que veio criar Cristo Jesus, nosso amado e nosso Senhor. Jesus, tentado no deserto, resiste aos convites do poder, do prestígio da autorreferencialidade. O homem vive, isto sim, de toda palavra que sai da boca de Deus.

 Começando sua vida pública Jesus vai ao deserto e sai vitorioso. Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus. Haverás de adorar ao Senhor teu Deus e só a ele servirás. Não tentarás ao Senhor teu Deus.

 “Dizer sim ao que posso fazer em conformidade com Cristo. Dizer não às pulsões idolátricas e egocêntricas que nos alienam e contradizem nossas relações com Deus, com os outros, com as coisas, conosco mesmos, relações chamadas a se caracterizarem pela liberdade e pelo amor” (Enzo Bianchi).

 Não somos completamente autônomos. Não existimos porque tenhamos nos inventado a nós mesmos. Somos parte dos sonhos de Deus. Escutaremos sempre sua voz, seus apelos para permanecer em seu amor e no bem querer de todos os que também por ele foram sonhados e inventados. Dependemos do Senhor e caminhamos com companheiros de viagem. Vivemos numa definitiva dependência. Não há como sair. Eu e tu, tu e eu.

 O diabo havia sugerido que Jesus transformasse pedras em pães. Jesus não se colocará a serviço de seu próprio interesse esquecendo o desígnio do Pai. “Nossas necessidades não ficam satisfeitas apenas com o fato de termos assegurado nosso pão material. O ser humano necessita de muito mais. Inclusive para regatar da fome e da miséria os que não têm pão, precisamos escutar a Deus, nosso Pai, e despertar em nossa consciência a fome de justiça, a compaixão e solidariedade (Pagola, A Boa Nova de Jesus, Vozes, p. 31). Os anseios do homem não se apagam com o consumo. Homem e mulher vão se tornando humanos quando aprendem a viver como irmãos.

 Terrível a tentação do poder, de dominar, de não possibilitar a participação de outros em nossos projetos, de deixar de ouvir o murmúrio que vem do mistério da vida do outro. Tal acontece em nossa vida pessoal, na sociedade e na Igreja. Quanto mais bens e prestigio se tem, mais se deseja. Francisco de Assis quis que seus seguidores e ele mesmo fossem designados de frades, irmãos menores: “E nenhum se chame prior, mas todos, indistintamente se chamem irmãos menores. E lavem os pés uns dos outros” (Regra não-bulada 6,3).

 Não se pode viver de maneira inerte e esperar presunçosamente tudo de Deus. Quem entendeu um pouco o que é ser fiel a um Deus que é Pai de todos, arrisca-se cada dia mais na luta pela construção de um mundo mais digno e justo para todos Não tentarás ao Senhor teu Deus.

 Tentações de retirar-se da luta, do isolamento, da ideia de que as pessoas se arranjem sozinhas. Do indiferentismo e do “salve-se-quem-puder”. Tentação de enfiar a cabeça na areia e não tomar consciências dos problemas que afetam o presente e o futuro. Tentações nos desertos de ontem e na aridez de nossa vida humana e cristã. Tentação da intolerância e da intransigência. Tentação de parar tomados pelo desânimo.

 Nossa escolha será a de tentar ouvir a voz do Senhor, de buscar simplicidade de vida, de colocar de lado a busca da realização de tantos desejos que, uma vez realizados, deixam um sem gosto em nossos lábios, de tentar olhar com carinho efetivo todos os rostos que andam nos olhando.

 AFINAL DE CONTAS, QUAL É A NOSSA ESCOLHA?

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Texto para reflexão

“Adão, onde estás?”

O Senhor não esperou os teólogos para se explicar em poucas palavras. Todo o esforço de Deus desde a criação tem sido, por todos os meios, fazer o homem compreender que o amava. Esgotados todos os argumentos, apresenta a maior prova. “Não há maior amor do que dar a vida por aqueles que amamos”. Eis tudo. Depois disso não há mais nada a dizer. Quem quiser que compreenda. Aí está o livro aberto sobre a cruz. Toda infelicidade dos homens vem do amor inimaginável que Deus lhes tem. O único pecado é o da recusa. Só se recusa o que é oferecido. “Se eu não tivesse vindo eles estariam sem pecado. Agora não têm mais desculpa”.

O Cristo na cruz traduz para o homem um uma linguagem universal, em um sinal tão simples como o pão e a água, o amor incompreensível que o consome. Eis por que não há pecado senão de infidelidade. Os moralistas podem esforçar-se por organizar listas e calcular as contas; é um meio como outro qualquer de escapar ao amor. A verdade é que os caminhos que permitem fugir são numerosos. Não importa qual seja o que se toma: o pecado é o afastamento. Cristo morreu por correr atrás do homem que o atraiu a uma sociedade que sempre mata quem a atrapalha.

Em vez de dizer que a Paixão foi a salvação para a humanidade, seria mais exato ver nela o derradeiro apelo: “Adão, onde estás?”

É o grito que escapa de todas as chagas do crucificado e impede o autêntico cristão de dormir tranquilo. (Jean Sulivan, Provocação ou a fraqueza de Deus, Ed. Herder, São Paulo 1966, p. 111-112)
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Oração

“E não nos deixeis cair em tentação”
Rezo devagar estas palavras, fazendo-as minhas.
Não me deixes quando as paredes do tempo se tornam instáveis e as palavras de hoje têm a dureza do pão amassado ontem.
Não me deixes quando recuo porque é difícil, quando quase me inclino perante idolatria do que é cômodo e vulgar.
Não me deixes atravessar sozinho os embaciados corredores da incerteza, ou perder-me no sentimento do cansaço e da desilusão.
Não me deixes tombar na maledicência e no descrédito quanto à vida.
Que a tua mão levante à altura da luz a minha esperança. (José Tolentino Mendonça - Um Deus que dança, Paulinas, p. 97)

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FREI ALMIR GUIMARÃES, OFM, ingressou na Ordem Franciscana em 1958. Estudou catequese e pastoral no Institut Catholique de Paris, a partir de 1966, período em que fez licenciatura em Teologia. Em 1974, voltou a Paris para se doutorar em Teologia. Tem diversas obras sobre espiritualidade, sobretudo na área da Pastoral familiar. É o editor da Revista “Grande Sinal”.

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