O sofrimento como condição da existência humana
Existir é,
simultaneamente, dom e provação. Não se trata de um paradoxo retórico, mas de
uma verdade estrutural da condição humana. Desde que o ser humano tomou
consciência de si, percebeu que a vida não se oferece como um caminho linear de
satisfação, mas como uma travessia marcada por tensões, perdas, frustrações,
desejos não cumpridos e dores que escapam à lógica da razão instrumental.
A filosofia
moderna, especialmente a tradição pessimista alemã, ousou nomear essa ferida
constitutiva da existência sem subterfúgios. Entre seus expoentes,
destaca-se Arthur Schopenhauer, para quem o sofrimento não é um acidente
da vida, mas o seu traço estrutural. Sofremos não porque algo deu errado, mas
porque existimos. Essa afirmação, à primeira vista dura, não pretende negar a
beleza da vida, mas libertá-la de ilusões ingênuas. Existir é
uma dádiva, porém exigente, que cobra lucidez, maturidade e
coragem interior.
Em sua
obra O Mundo como Vontade e Representação, Schopenhauer sustenta que a
essência última da realidade não é a razão, mas a Vontade: um impulso cego,
incessante e irracional que impele o ser humano a desejar continuamente. O
sofrimento nasce exatamente desse movimento incessante da vontade. Enquanto
desejamos, sofremos pela falta; quando alcançamos o objeto desejado, sofremos
pela saciedade, da qual brotam o tédio e o vazio interior. A
existência oscila, assim, entre dois polos igualmente inquietantes: a carência
e o tédio.
Essa estrutura
não é episódica, mas universal: ninguém escapa a essa condição. Mudam apenas os
objetos do desejo: amor, reconhecimento, sucesso, prestígio, segurança
financeira, pertencimento, aceitação social. O sofrimento não se dissolve
com a posse do objeto desejado; ao ser alcançado, ele apenas se transforma,
assumindo novas formas.
O primeiro
grande modo do sofrimento é a carência. Sofremos porque nos falta algo ou
alguém: amor correspondido, amizade leal, reconhecimento, compreensão,
estabilidade, segurança. A falta fere porque revela nossa vulnerabilidade
radical. Esse sofrimento se intensifica quando nasce da não aceitação, da
frustração de expectativas alheias projetadas sobre nós. Quando o sujeito
percebe que não corresponde aos ideais de perfeição exigidos por pessoas
próximas, a dor deixa de ser apenas emocional e se torna existencial: sofre-se
não apenas pelo que falta, mas pelo que se é ou pelo que se julga ser.
Aqui o
sofrimento toca a dignidade. A alma nobre, sensível e profundamente humana é,
muitas vezes, a mais vulnerável a esse tipo de dor, justamente porque sente com
profundidade e não se protege com o cinismo.
Paradoxalmente,
quando a carência é satisfeita, não encontramos a paz prometida. Surge, então,
o segundo grande sofrimento: o tédio. Uma inquietação silenciosa instala-se
como sombra persistente sobre a existência. Essa experiência é retratada de
modo magistral e profundamente irônico na canção Ouro de Tolo, de Raul
Seixas, na qual o sujeito constata ter alcançado tudo aquilo que socialmente
lhe foi apresentado como sinônimo de felicidade — emprego estável,
reconhecimento, bens, conforto e sucesso — e, ainda assim, vê emergir o vazio e
o tédio, revelando a insuficiência dessas conquistas para conferir sentido
último à vida. A crítica não se dirige ao sucesso em si, mas à ilusão de que
ele seja capaz de redimir a condição humana. Assim, a saciedade não liberta; ao
contrário, evidencia a falta de sentido quando a existência é reduzida à lógica
da posse.
Há ainda um
terceiro nível de sofrimento: a dor propriamente dita — física, psíquica,
emocional e espiritual, a dor da alma. Essa dor não se resolve com
distrações nem com argumentos; exige presença, escuta, tempo e, muitas
vezes, silêncio. Negá-la ou rebelar-se contra ela apenas intensifica o drama. A
dor que não é acolhida torna-se corrosiva.
Schopenhauer
ensina que o sofrimento é inevitável porque existir é desejar. A fé cristã,
contudo, acrescenta uma palavra decisiva: o sofrimento não é definitivo.
Dom João Santos
Cardoso - Arcebispo de Natal (RN)
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