Leão XIV e o
Concílio Vaticano II
"O Concílio
trouxe uma renovação teológica para aproximarmos do Eterno na visão de um rosto
paterno e misericordioso do Pai, não mais de um juiz severo e intransigente,
capaz de condenar a todos. Por isso, o resgate de toda a Teologia da Revelação
na Constituição Dogmática Dei Verbum, que fala da Palavra de Deus, valorizando
a Sagrada Escritura, como fonte de inspiração para toda a ação eclesial".
Em diversas
ocasiões, o Papa Francisco falou sobre o tempo necessário para a plena
implementação de um Concílio. Na entrevista
ao Semanário belga "Tertio", publicada em fevereiro de 2023,
disse textualmente: "Os historiadores dizem que é preciso um século para
que as decisões de um Concílio tenham pleno efeito e sejam implementadas. Ainda
temos 40 anos pela frente.... Estou tão preocupado com o Concílio porque esse
evento foi na verdade uma visita de Deus à sua Igreja (...). O
Concílio...rejuvenesce a Igreja. A Igreja é uma mãe que sempre avança. O
Concílio abriu a porta para uma maior maturidade, mais em sintonia com os
sinais dos tempos".
Pouco mais de
dois anos após esta afirmação, para suceder Francisco é eleito o Papa Leão XIV,
que precisamente dentro deste espaço de tempo de "40 anos" que ainda
resta para implementar as decisões do Concílio, deu início em 2026 ao ciclo de
catequeses sobre os documentos do Concílio Vaticano II - aberto por João XXIII
em 11 de outubro de 1962 e concluído por São Paulo VI em 8 de dezembro de 1965. E este, é o tema da
reflexão do Pe. Gerson Schmidt* desta semana:
"Nas
Audiências Gerais de 2025, o novo Papa eleito no transcorrer da celebração do
Ano Jubilar, deu continuidade ao que já estava proposto pelo seu antecessor, ou
seja, refletir sobre o Ano da Esperança. Leão XIV dava continuidade ao que Papa
Francisco deixou encaminhado com seu grande e carismático Pontificado. Neste
ano, na primeira
audiência de 06 de janeiro de 2026, Papa Leão surpreendeu em propor sua
identidade na temática das Audiências Gerais de quartas-feiras, na Praça São
Pedro. O Papa quer resgatar o Concílio Vaticano II, grande riqueza e tesouro da
Igreja, que segundo os Papas anteriores, é uma bússola para orientar os
caminhos novos da Igreja do Terceiro Milênio. Nas catequeses de janeiro, propôs
a reflexão a partir da Constituição
Dogmática Dei Verbum. A escolha dos temas, que cabe tão somente ao
Papa, agora vem recheado com um cunho pessoal de Leão XIV, marcando seu
Pontificado com a valorização da volta às fontes, como se propuseram também os
padres conciliares, sem deixar de buscar abrir a Igreja para os novos e
surpreendentes desafios na atualidade.
O Sumo
Pontífice, Papa Leão, lembrou Bento XVI na Primeira mensagem no final da Missa
com os Cardeais eleitores, 20 de abril de 2005, que disse assim: “Com
o passar dos anos, os Documentos conciliares não perderam atualidade; os seus
ensinamentos revelam-se particularmente pertinentes em relação às novas
instâncias da Igreja e da atual sociedade globalizada”. Num mundo global e interplanetário,
vivendo uma verdadeira rede interligado, profetizava Bento XVI a importância do
resgate dos ensinamentos conciliares que não perderam a atualidade. E ainda
dizia Leão XIV assim na primeira audiência de 2026: “Quando o Papa São João
XXIII inaugurou a assembleia conciliar, em 11 de outubro de 1962, falou dele
como da aurora de um dia de luz para toda a Igreja. O trabalho dos numerosos
Padres convocados, provenientes das Igrejas de todos os continentes, abriu
efetivamente o caminho para uma nova era eclesial. Depois de uma rica reflexão
bíblica, teológica e litúrgica, que atravessou o século XX, o Concílio Vaticano
II redescobriu o rosto de Deus como Pai que, em Cristo, nos chama a
ser seus filhos; olhou para a Igreja à luz de Cristo, luz das nações, como
mistério de comunhão e sacramento de unidade entre Deus e o seu povo; iniciou
uma importante reforma litúrgica, colocando no centro o mistério da
salvação e a participação ativa e consciente de todo o Povo de Deus.
Ao mesmo tempo, ajudou-nos a abrir-nos ao mundo e a enfrentar as mudanças
e os desafios da época moderna no diálogo e na corresponsabilidade, como
uma Igreja que deseja abrir os braços à humanidade, fazendo ressoar as
esperanças e as angústias dos povos e colaborando na construção de uma sociedade
mais justa e fraterna”. Cada palavra do Papa nessa primeira audiência desse ano
é importante e traz um documento conciliar por detrás do que afirmou. O
Concílio trouxe uma renovação teológica para aproximarmos do Eterno na visão de
um rosto paterno e misericordioso do Pai, não mais de um juiz severo e
intransigente, capaz de condenar a todos. Por isso, o resgate de toda a
Teologia da Revelação na Constituição Dogmática Dei Verbum, que fala da
Palavra de Deus, valorizando a Sagrada Escritura, como fonte de inspiração para
toda a ação eclesial. Na audiência de 21 de janeiro, na Sala Paulo VI, repleta
de fiéis, o Pontífice recordou que Deus não se revela por meio de ideias
abstratas, mas em um verdadeiro “diálogo de aliança”, no qual se dirige à
humanidade como a amigos. Trata-se, explicou o Papa, de um conhecimento que não
se limita à comunicação de conteúdos, mas que “partilha uma história e nos
chama à comunhão mútua”.
O Concílio
Vaticano II olhou para a Igreja à luz de Cristo, luz das nações, na Constituição
Dogmática Lumen Gentium, que aponta a Igreja como mistério de comunhão
e sacramento de unidade entre Deus e o seu povo. O Concílio Vaticano II iniciou
uma profunda reforma litúrgica, colocando no centro o mistério da
salvação e a participação ativa e consciente de todo o Povo de Deus,
que é retratado na Constituição Sacrossanctum
Concilium. Finalmente, o Papa lembra a Gaudium et Spes, que traduz a missão
da Igreja no mundo, diante das mudanças e os desafios da época moderna no
diálogo e na corresponsabilidade, buscando uma Igreja que deseja abrir os
braços à humanidade, fazendo ressoar as esperanças e as angústias dos povos e
colaborando na construção de uma sociedade mais justa e fraterna.
”Graças ao
Concílio Vaticano II, «a Igreja torna-se palavra; a Igreja faz-se mensagem; a
Igreja torna-se diálogo» (São Paulo VI, Carta
enc. Ecclesiam suam, 67), comprometendo-se a procurar a verdade
através do caminho do ecumenismo, do diálogo inter-religioso e do diálogo com
as pessoas de boa vontade”. Há, pois, que se zelar por uma renovação do
Espírito Eclesial. “Este espírito, esta atitude interior, deve caracterizar a
nossa vida espiritual e a ação pastoral da Igreja, porque ainda devemos
realizar mais plenamente a reforma eclesial em chave ministerial e, diante dos
desafios atuais, somos chamados a permanecer atentos intérpretes dos sinais dos
tempos, alegres anunciadores do Evangelho, corajosas testemunhas de justiça e
paz”, disse o Papa".
*Padre Gerson
Schmidt foi ordenado em 2 de janeiro de 1993, em Estrela (RS). Além da
Filosofia e Teologia, também é graduado em Jornalismo e é Mestre em Comunicação
pela FAMECOS/PUCRS.
Jackson Erpen - Cidade do Vaticano
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