Celulares ao
Alto!
Uma das gerações
mais talentosas dos Meninos Cantores de Viena resolveu dissolver o grupo com
uma última apresentação. Os meninos estavam mudando de voz e não manteriam
mais o mesmo timbre na adolescência. Para a despedida, escolheram a ária
mais difícil e mais bela do repertório. Tudo foi preparado para que fosse uma
apresentação memorável. Para que se fizesse dela um registro impecável,
providenciaram a melhor aparelhagem de gravação, os técnicos mais competentes e
um local com excelente ambiente acústico. No dia marcado, até as condições
climáticas contribuíam favoravelmente para a gravação.
Quando, porém, o
grupo começou a cantar, a equipe de gravação desistiu de registrar a
apresentação e preferiu desfrutar daquele momento único. Tinha se tornado
evidente que, por melhores que fossem os recursos e as condições, não havia
como reproduzir a experiência do evento. A equipe de gravação não tinha como
captar a preciosidade originalíssima da apresentação musical; só quem estava
presente podia testemunhar algo que, em si mesmo, não podia ser reproduzido
artificialmente. Havia até uma certa vergonha por pensar que se poderia
transformar a experiência do momento em um produto de consumo. Pareceu
desrespeito e empobrecimento condenável querer se apropriar daquela
apresentação. Os presentes experimentaram o temor de violar a beleza indefesa
daquela ária se apoderando dela com meios virtuais extrínsecos. O único modo de
respeitá-la era acolhê-la com atenção e alegria, recebê-la com admiração, fazer
silêncio e desfrutá-la até sua última nota.
Esse relato pode
ajudar a entender por que não tem sentido participar da missa pela TV ou redes
sociais através de gravação. Temos que distinguir entre o evento e o seu
registro. Do evento nós podemos participar pessoalmente, ainda que seja
transmitido pelos meios de comunicação. A gravação não nos põe diante do
evento, somente de seu registro.
Essa analogia
indica também com que reverência devemos tomar parte da missa. Em uma de suas
catequeses, o Papa Francisco se queixou de que na missa nós rezamos corações ao
alto e não celulares ao alto. É um comportamento preocupante quando celebramos
os sagrados mistérios tirando fotos e fazendo vídeos.
O relato é
também uma advertência. Às vezes a facilidade de registrar um acontecimento
pode fazer com que se perca a oportunidade da experiência pessoal. Os
acontecimentos são únicos, e os registros analógicos ou virtuais não podem
reproduzi-los. Servem como recordação, mas não os atualizam.
Há, porém,
eventos do passado que se tornam presentes. Isso não por força de nossas
recordações ou registros, mas porque são fatos realizados por Deus. Eles têm
uma natureza diferente dos acontecimentos históricos, pois não permanecem
sepultados no passado distante nem são invalidados pelo tempo. Permanecendo
históricos, superam a história e são sempre atuais. A linguagem cristã designa
esses eventos realizados por Deus com uma palavra conhecida em
sua forma, mas não em seu conteúdo: mistérios.
Os mistérios
cristãos são a presença do eterno na nossa história,
a presencialização do inefável no aqui e no agora da vida, a efusão
do infinito de Deus na finitude caduca de nossa condição terrena. Toda vez que
os cristãos celebram os sagrados mistérios se tornam expectadores e testemunhas
da beleza sempre nova da morte e ressurreição de Jesus. Os ritos se repetem, as
palavras são sempre as mesmas, mas, como uma sinfonia tantas vezes executada
nunca é uma experiência insípida, com muito mais razão ainda os sagrados
mistérios nos põem diante da Realidade de Deus.
Dom Julio Endi Akamine - Arcebispo de Belém do Pará (PA)
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