sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Reflita com dom Vilson Dias de Oliveira:

Mês da Bíblia – A fidelidade a Deus em tempos de incertezas

A vida pastoral da Igreja Católica no Brasil caracteriza-se por um dinamismo pedagógico singular que organiza o ano litúrgico e comunitário em torno de grandes eixos temáticos. Essa metodologia visa aprofundar aspectos essenciais da fé, da missão e da vida eclesial, permitindo que as comunidades paroquiais e os pequenos grupos de reflexão caminhem em sintonia em todo o território nacional.

A cada mês, o calendário pastoral propõe uma intenção central de reflexão e oração. Agosto, por exemplo, destaca-se tradicionalmente como o Mês Vocacional, tempo dedicado a rezar e discernir o chamado de Deus nas suas mais diversas formas, desde o ministério ordenado e a vida consagrada até a vocação da família e dos leigos. Em perfeita continuidade com essa caminhada de discernimento e amadurecimento espiritual, surge o mês de setembro, totalmente consagrado à Sagrada Escritura como fonte viva da fé e norma suprema da vida cristã.

A origem dessa dinâmica remonta às transformações promovidas pelo Concílio Vaticano II na década de 1960, que reapresentou a Bíblia como o coração da teologia e da pastoral, incentivando o acesso direto do povo de Deus aos textos sagrados. No Brasil, a experiência do Mês da Bíblia nasceu no início da década de 1970, mais precisamente na Arquidiocese de Belo Horizonte, impulsionada pelo desejo de fazer da Palavra de Deus um instrumento de formação, conscientização e renovação comunitária. A iniciativa obteve rápida adesão e foi gradativamente assumida pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que passou a propor anualmente um livro ou tema específico da Escritura para ser estudado em todo o país.

A escolha de setembro para esse itinerário não ocorreu por acaso; o período foi estabelecido em razão da festa litúrgica de São Jerônimo, celebrada no dia 30 de setembro. Grande doutor da Igreja do século IV e tradutor dos textos bíblicos para o latim na célebre versão conhecida como Vulgata, São Jerônimo imortalizou o ensinamento de que ignorar as Escrituras equivale a ignorar o próprio Cristo. A celebração de sua memória tornou-se o ancoradouro ideal para impulsionar a leitura orante e o estudo sistemático das Sagradas Escrituras em solo brasileiro.

Ao longo de mais de cinco décadas de história, essa proposta evoluiu para além de uma simples celebração devocional, consolidando-se como um pilar da Animação Bíblico-Catequética e da Leitura Popular da Bíblia no país. A reflexão bíblica de cada ano busca lançar luz sobre os desafios sociais, políticos e existenciais vivenciados pelo povo, mostrando a atualidade do texto sagrado no cotidiano. Para o ano de 2026, a Igreja no Brasil convida os fiéis a mergulharem no Livro de Daniel, desdobrando suas intuições a partir do lema inspirador que afirma que o seu reino jamais será destruído, extraído da passagem de Dn 7,14.

A escolha do Livro de Daniel ganha relevância especial por se tratar de uma obra nascida em contexto de perseguição, exílio e forte pressão cultural e religiosa. Escrito predominantemente no gênero apocalíptico e narrativo, o texto bíblico resgata a figura de Daniel e seus companheiros no exílio da Babilônia para transmitir uma mensagem de firmeza, resistência e esperança inabalável às comunidades que enfrentavam a tentativa de apagamento de sua identidade de fé. Ao propor a leitura desse Livro, a reflexão de 2026 convida o cristão contemporâneo a renovar sua fidelidade a Deus em tempos de incertezas, fragilidades institucionais e transformações culturais aceleradas.

As histórias de resistência cotidiana presentes no Livro de Daniel lembram que a coerência cristã se molda nas pequenas decisões diárias, na recusa em dobrar os joelhos diante dos ídolos do poder e da opressão. A afirmação central de que o Reino de Deus sobressai e prevalece sobre a transitoriedade dos impérios humanos oferece um consolo profundo e um firme chamado à coragem pastoral. Assim, ao percorrer os capítulos do Livro de Daniel durante o mês de setembro, a Igreja Católica no Brasil não apenas celebra uma tradição histórica de amor à Palavra, mas reaviva nas comunidades a certeza de que, em meio às tempestades da história, a soberania e o amor de Deus permanecem inabaláveis.

Dom Vilson Dias de Oliveira - Bispo Emérito de Limeira (SP)

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                                                                                                                  Fonte: cnbb.org.br

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