Mês da Bíblia –
A fidelidade a Deus em tempos de incertezas
A vida pastoral
da Igreja Católica no Brasil caracteriza-se por um dinamismo pedagógico
singular que organiza o ano litúrgico e comunitário em torno de grandes eixos
temáticos. Essa metodologia visa aprofundar aspectos essenciais da fé, da
missão e da vida eclesial, permitindo que as comunidades paroquiais e os
pequenos grupos de reflexão caminhem em sintonia em todo o território nacional.
A cada mês, o
calendário pastoral propõe uma intenção central de reflexão e oração. Agosto,
por exemplo, destaca-se tradicionalmente como o Mês Vocacional, tempo dedicado
a rezar e discernir o chamado de Deus nas suas mais diversas formas, desde o
ministério ordenado e a vida consagrada até a vocação da família e dos leigos.
Em perfeita continuidade com essa caminhada de discernimento e amadurecimento
espiritual, surge o mês de setembro, totalmente consagrado à Sagrada Escritura
como fonte viva da fé e norma suprema da vida cristã.
A origem dessa
dinâmica remonta às transformações promovidas pelo Concílio Vaticano II na
década de 1960, que reapresentou a Bíblia como o coração da teologia e da
pastoral, incentivando o acesso direto do povo de Deus aos textos sagrados. No
Brasil, a experiência do Mês da Bíblia nasceu no início da década de 1970, mais
precisamente na Arquidiocese de Belo Horizonte, impulsionada pelo desejo de
fazer da Palavra de Deus um instrumento de formação, conscientização e
renovação comunitária. A iniciativa obteve rápida adesão e foi gradativamente
assumida pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que passou a
propor anualmente um livro ou tema específico da Escritura para ser estudado em
todo o país.
A escolha de
setembro para esse itinerário não ocorreu por acaso; o período foi estabelecido
em razão da festa litúrgica de São Jerônimo, celebrada no dia 30 de setembro.
Grande doutor da Igreja do século IV e tradutor dos textos bíblicos para o
latim na célebre versão conhecida como Vulgata, São Jerônimo imortalizou o
ensinamento de que ignorar as Escrituras equivale a ignorar o próprio Cristo. A
celebração de sua memória tornou-se o ancoradouro ideal para impulsionar a
leitura orante e o estudo sistemático das Sagradas Escrituras em solo
brasileiro.
Ao longo de mais
de cinco décadas de história, essa proposta evoluiu para além de uma simples
celebração devocional, consolidando-se como um pilar da Animação
Bíblico-Catequética e da Leitura Popular da Bíblia no país. A reflexão bíblica
de cada ano busca lançar luz sobre os desafios sociais, políticos e
existenciais vivenciados pelo povo, mostrando a atualidade do texto sagrado no
cotidiano. Para o ano de 2026, a Igreja no Brasil convida os fiéis a
mergulharem no Livro de Daniel, desdobrando suas intuições a partir do lema
inspirador que afirma que o seu reino jamais será destruído, extraído da
passagem de Dn 7,14.
A escolha do
Livro de Daniel ganha relevância especial por se tratar de uma obra nascida em
contexto de perseguição, exílio e forte pressão cultural e religiosa. Escrito
predominantemente no gênero apocalíptico e narrativo, o texto bíblico resgata a
figura de Daniel e seus companheiros no exílio da Babilônia para transmitir uma
mensagem de firmeza, resistência e esperança inabalável às comunidades que
enfrentavam a tentativa de apagamento de sua identidade de fé. Ao propor a
leitura desse Livro, a reflexão de 2026 convida o cristão contemporâneo a
renovar sua fidelidade a Deus em tempos de incertezas, fragilidades
institucionais e transformações culturais aceleradas.
As histórias de
resistência cotidiana presentes no Livro de Daniel lembram que a coerência
cristã se molda nas pequenas decisões diárias, na recusa em dobrar os joelhos
diante dos ídolos do poder e da opressão. A afirmação central de que o Reino de
Deus sobressai e prevalece sobre a transitoriedade dos impérios humanos oferece
um consolo profundo e um firme chamado à coragem pastoral. Assim, ao percorrer
os capítulos do Livro de Daniel durante o mês de setembro, a Igreja Católica no
Brasil não apenas celebra uma tradição histórica de amor à Palavra, mas reaviva
nas comunidades a certeza de que, em meio às tempestades da história, a
soberania e o amor de Deus permanecem inabaláveis.
Dom Vilson Dias de Oliveira - Bispo Emérito de Limeira (SP)

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