é uma questão teológica
A Comissão
Teológica Internacional publica o documento “Cuidar da nossa Casa comum”, que
convida a uma “resposta responsável e fraterna ao Deus trinitário”. A questão
ecológica é uma questão teológica: a maneira como cuidamos da Criação revela e
molda a relação com Deus. A deterioração do meio ambiente é alarmante; é
necessária uma ação urgente em prol da sustentabilidade do planeta. Tudo está
interligado: ouvir o clamor da Terra e dos pobres.
Como responder,
de uma perspectiva cristã, à “crise ecológica e social”, “míope e suicida”, na
qual a humanidade se encontra? Essa é a questão que está na base do novo
documento da Comissão Teológica Internacional (CTI), intitulado “Cuidar de
nossa Casa comum – Resposta responsável e fraterna ao Deus trinitário”.
Publicado esta quarta-feira, 2 de setembro, com a autorização de Leão XIV, o
texto é fruto de reflexões realizadas entre 2022 e 2025. O ponto de partida é a
“tripla mutação” que levou, ao longo dos anos, à perda da percepção espontânea
da natureza como criação de Deus; ao surgimento de uma visão cada vez mais
antropocêntrica e predatória na relação entre o homem e a Criação; e à
propagação de uma crise planetária.
Ninguém é uma
mônada, tudo está interligado
O documento está
dividido em três capítulos: no primeiro – “A Casa Comum, obra do Deus
trinitário” – destaca-se “a marca não apenas divina, mas também trinitária”
presente na Criação. Essa marca apresenta os traços da sacramentalidade – ou
seja, é sinal de “uma realidade sagrada e oculta” que encontra sua “máxima
elevação” na Eucaristia – e da inter-relação, pois o ser humano responde à sua
vocação desenvolvendo corretamente as relações com Deus, com os outros e com a
Criação. “Nada nem ninguém é uma mônada – lê-se no documento – Tudo está
inter-relacionado” para formar “uma única comunidade de vida”.
A origem do
universo segundo a ciência e a fé
O primeiro
capítulo desenvolve, ademais, o diálogo com algumas visões científicas e
filosóficas do cosmos, ilustrando como a fé no Deus criador oferece algo que a
ciência não consegue proporcionar, embora indague “legitimamente” as primeiras
fases do universo. De fato, se a cosmologia reflete sobre como o mundo surgiu,
a fé explica o porquê: Deus dá ao universo uma origem metafísica, não
simplesmente física, e chama livremente à existência aquilo que, por si só, não
existiria.
À imagem e
semelhança de Deus
O segundo
capítulo – “O ser humano na Casa comum” – começa com uma reflexão sobre o homem
criado à “imagem e semelhança de Deus”, o que serve de ponto de partida para
reafirmar que as diferenças – de etnia, gênero, cultura, status social ou
econômico – não implicam, de forma alguma, em uma hierarquia. Utilizá-las para
discriminar ou subjugar o outro afasta-se do desígnio de Deus.
Apelo à
conversão ecológica
A CTI resume,
portanto, alguns dados “muito alarmantes sobre a deterioração ecológica”: o
desaparecimento da diversidade biológica; a poluição atmosférica; a piora da
qualidade da água; a guerra que acelera “brutalmente” a destruição do meio
ambiente; as repercussões “extremamente graves” de tudo isso sobre os mais
pobres, explorados em seus recursos naturais e forçados à migração. Daí o forte
apelo lançado pela Comissão: diante de uma crise ecológica “sem precedentes”,
são necessárias não apenas soluções científicas e técnicas, mas também e
sobretudo “uma mudança nos valores culturais”, uma verdadeira conversão
ecológica no modo de vida.
O pecado contra
a Criação e contra o Criador
O documento
propõe, ainda, falar de “pecado contra a Criação e contra o Criador”, uma
formulação teológica que une o dano ambiental à rejeição do desígnio divino da
criação, evitando tanto a linguagem puramente científica (como “ecocídio”)
quanto a dispersão da responsabilidade. O momento histórico atual, de fato,
“exige de todos, a começar por aqueles que são responsáveis pela vida pública,
uma ação urgente em favor da sustentabilidade do planeta e da habitabilidade da
Casa Comum. Não se trata apenas de uma exigência ética, mas também teológica”.
A Eucaristia,
“escola ecológica”
O olhar da fé
leva a rejeitar também “dois extremos inaceitáveis”: o antropocentrismo
predatório, que considera a humanidade como “dona absoluta de toda a criação”,
e o biocentrismo ou ecocentrismo, que absolutiza a natureza. A proposta cristã,
por outro lado, é a de um “antropocentrismo situado” (expressão do Papa
Francisco retomada por Leão XIV) que coloca o ser humano como “administrador e
servidor da Criação”. Essa dupla vocação encontra seu ápice na Eucaristia,
“escola ecológica” graças à qual se promove “uma atitude positiva e proativa em
relação à natureza”.
A lógica jubilar
e a espiritualidade ecológica
O terceiro
capítulo – “O cuidado da Casa comum” – oferece algumas diretrizes operacionais,
articuladas em torno de cinco relações fundamentais da pessoa. Da relação com
Deus deriva a “lógica jubilar”: baseada na fraternidade, na solidariedade, na
gratuidade e na humildade, ela conduz à justiça social. Da relação consigo
mesmo brota “uma espiritualidade ecológica” que convida a um estilo de vida
saudável, atento ao consumo (“cada ato de compra é um ato moral”) e
responsável.
O clamor da
Terra e dos pobres
Da relação com a
Criação decorrem princípios como a reverência; a sustentabilidade; a escuta do
“clamor comovente” da Terra, “tragicamente ligado ao clamor dos pobres”; o
respeito pela vida (que permite ao homem utilizar os recursos naturais, mas com
moderação e de acordo com as necessidades); a ascese e o jejum (resposta moral
à superexploração dos recursos, especialmente nos países ricos); e um
compromisso diferenciado de acordo com as responsabilidades das diversas
nações.
A sacralidade da
vida humana e a rejeição da guerra
Além disso: da
relação com o próximo emergem a sacralidade da vida humana (direito
incondicional e inalienável que os Estados devem proteger e promover, inclusive
por meio da rejeição da guerra); a destinação universal dos bens (a Casa comum
deve ser cuidada também para as gerações futuras); a fraternidade (antídoto
contra um individualismo “falso, egoísta, atroz e ávido”); a misericórdia; e a
opção preferencial pelos pobres.
A colaboração
inter-religiosa
Como quinta e
última relação, a CTI reflete sobre a oferecida contribuição das diversas
religiões para o cuidado da Criação. Destacam-se, em particular, os elementos
mais comuns: a interconexão entre tudo o que existe; o dever de respeitar todos
os seres vivos; a responsabilidade do homem. Portanto, “do ponto de vista da fé
cristã, as portas estão abertas para uma colaboração inter-religiosa na tarefa
comum de cuidar respeitosamente de toda a Criação”.
Responsabilidade
moral
Na conclusão do
documento, a Comissão reafirma que a questão ecológica é uma questão teológica:
a maneira como cuidamos da Criação molda a relação com o próprio Deus. O texto
convida a uma “virada ecológica” seguindo o exemplo de São Francisco de Assis e
encerra-se com uma nota de esperança: a crise ambiental, por mais grave que
seja, não abala a confiança em Deus, que faz “novas todas as coisas”.
Isabella Piro – Vatican News
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