a responsabilidade dos católicos no
combate à desinformação
A disseminação
de notícias falsas, o uso de inteligência artificial e a circulação de
conteúdos manipulados estão entre os desafios para o exercício consciente da
cidadania nas Eleições de 2026. O tema é abordado em mais um episódio da série
de podcasts “Discernimento Católico – Eleições 2026”, produzida a
partir da mensagem dos bispos ao povo de Deus para o período eleitoral.
Nesta edição, o
jornalista Luiz Lopes Júnior conversa com o presidente da Comissão Episcopal
para a Comunicação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom
Valdir José de Castro, e com o assessor de Comunicação da entidade, padre
Arnaldo Rodrigues. Os dois refletem sobre o enfrentamento à desinformação, o
papel dos católicos e das forças comunicativas da Igreja e os cuidados
necessários diante de conteúdos produzidos ou manipulados com inteligência
artificial.
Assista na
íntegra:
Fake news colocam
em risco a paz social e a democracia
Dom Valdir
recorda que a preocupação da Igreja com as notícias falsas não é recente. Em
2018, o Papa Francisco dedicou sua mensagem para o Dia Mundial das
Comunicações Sociais ao tema “A verdade vos tornará livres:
fake news e jornalismo de paz”. Para o bispo, as reflexões
apresentadas naquela ocasião permanecem atuais, especialmente em períodos
eleitorais, quando a circulação de desinformação tende a se intensificar.
“A preocupação da Igreja em relação às fake news é que, por não se pautarem na verdade, elas colocam em risco a própria paz social e o bem comum. As notícias falsas tendem sempre a criar polarização e conflitos, e isso, evidentemente, interfere na paz e coloca em risco também a própria democracia”, afirma.
Nesse cenário,
dom Valdir ressalta que os católicos têm responsabilidade pessoal sobre aquilo
que recebem e compartilham, especialmente no ambiente digital. A recomendação é
verificar a procedência das informações e interromper a circulação de conteúdos
quando houver dúvida sobre sua autenticidade.
“Cada pessoa, cada cristão católico, busque distinguir as informações verdadeiras das falsas, verificando a origem das mensagens e não compartilhando quando a gente vê que aquela mensagem é duvidosa. Se a gente tem dúvida, não mandemos para frente. Vamos primeiro nos certificar se ali tem mesmo a verdade”, orienta.
Critérios para
avaliar candidatos
O discernimento
também deve alcançar a escolha dos candidatos. Segundo dom Valdir, além de
conhecer as propostas apresentadas durante a campanha, o eleitor deve buscar
informações sobre a trajetória daqueles que disputam os cargos públicos.
Entre os
critérios indicados pelo bispo estão o compromisso com a justiça, o cuidado com
os pobres, a defesa da casa comum e a promoção da dignidade humana.
“A gente tem que saber quem ele é. Não é um nome que aparece de repente. Mesmo se aparece de repente um nome, vamos buscar conhecer mais profundamente essa pessoa”, afirma.
Para dom Valdir,
os católicos também são chamados a observar se as propostas apresentadas estão
em sintonia com valores que promovam integralmente a pessoa humana. “É ver se
nas propostas desse candidato estão os sinais do Evangelho, aqueles sinais que
têm a ver com os valores do Reino, com os valores que promovem o ser humano na
sua integralidade.”
Papel da
Pastoral da Comunicação
Ao tratar
especificamente da missão da Pastoral da Comunicação (Pascom), dos veículos de
inspiração católica e dos missionários digitais, dom Valdir destaca a
importância de ampliar a divulgação das orientações oficiais da Igreja para o
período eleitoral.
Segundo o bispo,
documentos e mensagens produzidos pela CNBB e por seus regionais oferecem
elementos para a reflexão dos eleitores sobre o voto consciente, a ética na
política e a defesa do bem comum.
Além de divulgar
essas orientações, dom Valdir considera que as forças comunicativas da Igreja
são chamadas, à luz da Doutrina Social da Igreja, a promover o diálogo e a
comunhão e a denunciar conteúdos que não correspondam à verdade dos
fatos.
Para isso, devem
ser utilizados tanto os meios tradicionais de comunicação quanto as plataformas
digitais. “A Pastoral da Comunicação deve utilizar todos os meios
técnicos para fazer um forte apelo e trabalhar insistentemente no combate
à desinformação”, destaca.
Inteligência
artificial e deepfakes
Na segunda parte
do episódio, o assessor de Comunicação da CNBB, padre Arnaldo Rodrigues,
apresenta orientações práticas sobre inteligência artificial e deepfakes,
especialmente diante da presença cada vez maior dessas tecnologias nas redes
sociais.
O sacerdote
explica que conteúdos gerados por inteligência artificial podem incluir textos,
imagens, áudios e vídeos. A utilização da tecnologia, ressalta, não significa
necessariamente que o material seja falso ou produzido com intenção de enganar.
“É importante ressaltar que um conteúdo criado por inteligência artificial não é necessariamente falso ou mal-intencionado. Depende muito de quem vai utilizá-lo”, explica.
O cenário é
diferente quando se trata dos chamados deepfakes. Segundo padre Arnaldo,
eles utilizam recursos tecnológicos para produzir uma representação falsa e
convincente de determinada pessoa, fazendo parecer, por exemplo, que alguém
disse algo que nunca falou, praticou uma ação que não realizou ou esteve em um
lugar onde nunca esteve.
“O deepfake pode envolver rosto, voz e também movimento. Um exemplo clássico seria um vídeo em que o rosto de uma pessoa é colocado no corpo de outra. Ou a pessoa estar em um lugar em que ela nunca esteve, fazendo algo que nunca fez”, explica.
No contexto
eleitoral, esse tipo de manipulação pode ser empregado para interferir na
percepção dos eleitores sobre candidatos e outras pessoas envolvidas no debate
público.
Como identificar
conteúdos suspeitos
Padre Arnaldo
recomenda que, antes de compartilhar qualquer conteúdo, o usuário procure
confirmar a informação em fontes seguras e confiáveis. A orientação é ainda
mais importante quando uma publicação apresenta declarações ou situações
surpreendentes ou que destoem daquilo que normalmente se conhece sobre
determinada pessoa.
“Não saia compartilhando logo, de imediato. Recebeu, nem leu e já compartilhou. A primeira coisa é verificar se aquilo é real”, orienta.
Há também alguns
sinais que podem levantar suspeitas sobre vídeos manipulados. Entre eles, padre
Arnaldo cita movimentos estranhos da boca, expressões faciais pouco naturais,
iluminação ou sombras inconsistentes, entonações incomuns na voz e cortes suspeitos.
O assessor
pondera, no entanto, que o avanço tecnológico torna essas manipulações cada vez
mais sofisticadas e difíceis de identificar apenas pela observação. Por isso,
reforça uma orientação básica: diante da dúvida, não compartilhar e buscar a
confirmação da informação.
“Se você desconfia de que aquilo não é real, não compartilhe. Ou não simplesmente aceite aquilo ali como verdade imediata sem ter uma comprovação”, afirma.
Responsabilidade
também ao compartilhar
Além da
responsabilidade ética, padre Arnaldo chama a atenção para possíveis
implicações decorrentes da divulgação de conteúdos ilícitos. Segundo ele, o
usuário precisa considerar as consequências daquilo que decide reproduzir em
suas redes sociais e aplicativos de mensagens.
“Precisamos ter um certo cuidado para não sermos manipulados por pessoas que, às vezes, utilizam as plataformas e a tecnologia para criar uma narrativa e, muitas vezes, prejudicar outras pessoas”, afirma.
Para o assessor,
esse cuidado deve estar relacionado tanto aos valores cristãos quanto à
responsabilidade diante da legislação. Ao final do episódio, padre Arnaldo
reforça a importância de buscar informações em canais oficiais e fontes
confiáveis.
“Esperamos que, cada vez mais, as pessoas busquem sempre a verdade em fontes autênticas e oficiais”, afirma. Para ele, essa postura faz parte também da responsabilidade dos cristãos na vida pública: “Vamos exercer cada vez mais não apenas os nossos direitos, mas, principalmente, a nossa vocação cristã de conduzir e ajudar a sociedade na busca pelo bem comum e pela dignidade do próximo”.
A série “Discernimento Católico – Eleições 2026” aprofunda, a cada episódio, aspectos da mensagem dos bispos ao povo de Deus para o período eleitoral, oferecendo reflexões e orientações para a participação consciente dos católicos na vida política e social do país.
Por Larissa
Carvalho

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