O delicado tema da correção de um irmão
♦ O amor que emana do Evangelho manda que corrijamos o irmão quando ele se desvia do bom caminho e envereda por trilhas perigosas. O bem-querer profundo ordena que, sem pretensões de superioridade, alertemos os que podem perder a alegria de viver e escapar da claridade do Evangelho. Tema sempre delicado esse da correção fraterna. Alguém que vive por viver, que sorve de todas as águas, que se mostra indiferente às dores do irmão, dores que escondem ou mostram as dores de Cristo presentes na vida do irmão. Com cuidado faremos a correção., não se pode omitir. Quanto receio… Pisamos em ovo…
♦ O evangelista tem como pano de fundo uma intensa vida de comunidade. Não uma multidão de pessoas que se encontram frequentemente em vários contextos. Pessoas que se conhecem, que percorrem juntas uma parte da estrada. Comunidades celebrantes diferentes de nossas assembleias de “desconhecidos”. Estas últimas pessoas que mal e mal se veem. Indubitavelmente, o cristianismo se vive mais fácil e densamente, em comunidades menores, sempre abertas ao mundo e não refúgio de pessoas timoratas.
♦ Normal que aqueles que tomam consciência da necessidade de corrigir o irmão estejam empenhados seriamente em corrigir-se a si mesmos ouvindo a voz de seu interior, cultivando delicadeza de consciência e compreendendo o mais pessoalmente possível os apelos ou ordens do Evangelho de corrigir. Uma lição antigo do catecismo dizia que a correção dos que erram é obra de misericórdia.
♦ Estas palavras de Luciano Manicardi devem nos fazer pensar: “A correção fraterna opõe-se ao silêncio cúmplice, à passividade de quem não quer brigar com o outro, aos mecanismos de autojustificação sempre prontos a encontrar bons motivos para não intervir e não denunciar o mal ali, onde é cometido. Em nível eclesial, a correção corresponde a uma palavra audaz e profética pronunciada a qualquer preço, porque no meio está o Evangelho. Um dos mais frequentes pecados de omissão é abster-se da denúncia do mal e do pecado, é abster-se da correção fraterna” (Comentários à Liturgia, p.137).
♦ Num linguajar jurídico, o Evangelho fala de alguns passos no movimento da correção: primeira etapa é falar em particular com aquele que erra, em seguida abordagem a dois e depois uma denúncia a Igreja. Estamos nitidamente num quadro de vida em as pessoas estão numa comunidade concreta. Há um pormenor que gostaria de realçar: se, em conversa particular, o irmão acolher correção ele estará salvo. Salvo de quê? De uma condenação eterna? Não em primeiro lugar. Ele passa a ser membro de uma comunidade em que Cristo se faz presente. Passa a ser membro viçoso e não peça morta. O meu amor por ele é tal que desejo que ele seja muito, mas muito feliz readquirido o amor de Cristo, a vontade de fazer morrer o homem velho, a ter saudade de Deus.
♦ Corrigimos a quem vive perto de nós e que amamos. Por vezes hesitamos em fazer a correção com medo de “perder o amigo”. Novamente Manicardi: “A correção fraterna é entendida do ponto de vista de quem a recebe, que é sempre um irmão, um membro da comunidade cristã. É necessária muita humildade e disponibilidade para se corrigir e para recomeçar. A correção fraterna autêntica não é um juízo, e ainda menos uma condenação, mas um acontecimento sacramental que faz reinar Cristo como terceiro entre quem a pratica e quem a recebe. Ela requer a coragem da palavra: coragem que apenas pode nascer enraizando sua própria palavra na Palavra do Evangelho (Idem, p. 138).
♦ Pagola: “Quanto bem pode fazer a todos nós essa crítica amistosa e leal, essa observação oportuna, esse apoio sincero no momento em que nos havíamos desorientado. Toda pessoa é capaz de sair de seu pecado e voltar à razão e a bondade. Mas frequentemente precisa encontrar alguém que a ame de verdade, a convide a interrogar-se e possa contagiá-la com um novo desejo de verdade e generosidade” (Mateus, p. 229).
♦ Cabe aqui ainda uma observação: nossos desvios, nossos pecados, as correções que nos são feitas… tudo podemos levar ao fundo de nossa verdade e celebrar o perdão no sacramento da reconciliação. Nossa vida, por mais alegre que possa ser, é também marcada pela condição de penitente. Até que ponto valorizamos o sacramento da confissão? Somos pessoas em estado “penitencial”? Há posturas que assumimos que precisam de um perdão que vai além do carinho do irmão, ou seja, a celebração do perdão na Igreja? Tudo o que ligares…
♦ Não podemos deixar de levar para nossa vida o último versículo do Evangelho hoje proclamado: “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou aí, no meio deles”. Será que vivenciamos isso. Uma presença do Ressuscitado. Onde existe amor de verdade, atenção, é terra sagrada… hora de tirar a sandália dos pés.
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Oração
Senhor,minha vida, minha única vida.Quero viver intensamente.Não tolero que empurremos a vida comose empurra um carrinho com bagagens no aeroporto.Vivo, corre, faço, desfaço, amo, odeio, choro, canto.Minha vida meio louca… meio sem eixo.Seria tão bom que alguém que me ama de verdadeviesse sentar do meu lado e me corrigirAssim não mais perderia o vigordessa aventurosa empreitada da vida.Dá-me, Senhor, quem corrija meus passos.
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FREI ALMIR GUIMARÃES, OFM, ingressou na Ordem Franciscana em 1958. Estudou catequese e pastoral no Institut Catholique de Paris, a partir de 1966, período em que fez licenciatura em Teologia. Em 1974, voltou a Paris para se doutorar em Teologia. Tem diversas obras sobre espiritualidade, sobretudo na área da Pastoral familiar. É o editor da Revista “Grande Sinal”.

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