Daniel: a fé
diante dos novos leões
Dom Leomar
Antônio Brustolin - Arcebispo de Santa Maria (RS)
Talvez a imagem
mais inquietante de Daniel na cova dos leões não sejam os leões. É a janela
aberta. Daniel sabe que existe um decreto proibindo sua oração. Sabe também que
seus adversários esperam encontrá-lo justamente ali. Mesmo assim, volta para
casa, abre a janela em direção a Jerusalém e reza como fazia todos os dias.
Ele não permite que o medo abafe sua relação com Deus.
A oração estava
tão integrada à sua vida que os inimigos sabiam exatamente onde
encontrá-lo. Sua fidelidade tinha endereço, hora e constância. Essa é
uma das perguntas mais fortes que o Livro de Daniel dirige aos cristãos de
hoje: onde nos encontrariam se quisessem encontrar
sinais concretos de nossa fé?
As covas mudaram
de lugar. Também os leões. Hoje, muitas vezes, não têm dentes nem rugem. Podem
assumir a forma da pressão para pensar como todos pensam, da conveniência de
permanecer calado, do medo de perder prestígio, da necessidade de aprovação ou
da sedução de uma vida na qual Deus vai, pouco a
pouco, tornando-se dispensável. Há ainda leões mais discretos: a
inveja, a difamação e a manipulação da verdade.
Daniel é atacado
também por ser estrangeiro e exilado. Quando não encontram falhas em sua
administração, seus adversários transformam sua identidade e sua fé em motivo
de suspeita. Há algo muito atual nisso. Nem toda perseguição começa com
violência. Às vezes, começa pela construção de uma
narrativa destinada a tornar alguém suspeito. A lei feita “sob
medida” contra Daniel mostra como até aquilo que deveria proteger a justiça
pode ser manipulado quando colocado a serviço de interesses
particulares.
Daniel, porém,
permanece livre. O homem lançado na cova é mais livre que o rei no
palácio. O rei Dario passa a noite sem dormir; Daniel atravessa a
noite sustentado por Deus. Um está cercado pelas consequências de suas
escolhas; o outro, cercado pelos leões, conserva a paz. Eis um dos
paradoxos da fé: podem aprisionar o corpo sem conseguir aprisionar o
coração. A verdadeira liberdade não depende apenas das circunstâncias
externas. Nasce de um coração que sabe a quem pertence.
Isso ajuda a
compreender a fé em nosso tempo. Ser cristão não significa procurar
conflitos, nem transformar cada diferença cultural em perseguição
religiosa. Daniel vive dentro de outra cultura, exerce função pública e serve
com competência. Sua fidelidade não gera isolamento. Ele sabe
conviver sem diluir aquilo em que crê. O limite aparece quando lhe exigem
entregar aquilo que pertence somente a Deus. Então ele permanece de pé — ou,
mais precisamente, permanece de joelhos
E justamente aí
acontece o inesperado. A cova, destinada a silenciar Daniel, torna-se lugar de
revelação. O rei que havia permitido sua condenação corre ao amanhecer e
pergunta se o “Deus vivo” conseguirá salvá-lo. O testemunho do fiel começa a
transformar o olhar daquele que estava fora da fé. A missão acontece sem
propaganda, sem imposição nem espetáculo: Daniel não vence Dario numa
discussão; sua fidelidade permite que Dario faça uma pergunta sobre Deus.
Para o cristão,
a imagem vai ainda mais longe. À luz de Cristo, é possível reconhecer em
Daniel uma figura que antecipa alguns traços da paixão: ambos são entregues por
inveja; não se encontra culpa neles; a autoridade percebe a injustiça, mas cede
à pressão; uma pedra é colocada e selada pelo poder; e, quando parecia que tudo
havia terminado, a vida triunfa.
Portanto, não
precisamos viver procurando leões; precisamos cuidar da janela.
Enquanto ela permanecer aberta para Deus, haverá em nós uma
liberdade que nenhum poder humano consegue conceder nem
retirar. É pela janela da oração que o coração continua voltado para Deus,
mesmo quando ao redor se fecha a cova.
E quando
chegar alguma noite, a fé saberá que a cova nunca pertence definitivamente aos
leões. Deus também sabe entrar nela. E onde Deus entra, nem mesmo a
noite tem a última palavra.

Nenhum comentário:
Postar um comentário