partilhar um estilo pastoral, não uniformizar experiências
Na Assembleia da
Diocese de Roma na Basílica de São João de Latrão, o Papa convidou a Igreja em
Roma a encontrar Cristo, gerar comunidades "livres e reconciliadas" e
servir a cidade como um "local de missão". Leão XIV anunciou que aprovou
com alegria a abertura do processo de canonização do pe. Di Liegro, fundador da
Caritas de Roma, que nos ensina que o Evangelho não pode se encarnar sem
escutar a realidade.
O Papa Leão XIV
presidiu a Assembleia da Diocese de Roma, nesta sexta-feira (18/09), na
Basílica de São João de Latrão.
O Santo Padre
iniciou o seu discurso, recordando o que aconteceu na manhã de Páscoa, num
jardim e num túmulo vazio. Maria Madalena estava lá. "Um homem se aproxima
dela, que ela confunde com o jardineiro, e lhe faz duas perguntas: 'Por que
você está chorando? Quem você está procurando?'"
Leão XIV disse
que essas duas perguntas podem inspirar "o caminho imediato da Diocese de
Roma", pois podemos "ouvi-las hoje dirigidas à nossa Igreja e a toda
a cidade", sublinhou.
"Maria
Madalena acorda antes do amanhecer e corre para o túmulo, porque nela há vida,
há esperança! Assim, em Roma, há muitas pessoas que recomeçam a cada manhã, mas
também comunidades paroquiais, associações, movimentos, grupos e entidades
eclesiais que trabalham generosamente na evangelização, na caridade, no serviço
à oração litúrgica. Claro que, ao lado dessa riqueza, vocês reconheceram
honestamente algumas dificuldades. É o desânimo de quem não consegue encontrar
o Senhor. Uma experiência que partilhamos com muitos irmãos e irmãs, mas que
também vivenciamos. Às vezes, as propostas, as atividades e os encontros
se multiplicam, e o centro, o sentido evangélico do que fazemos, se
perde", disse o Papa.
“Em nossas
comunidades, podemos permanecer anônimos, invisíveis e incompreendidos, ou
podemos ser vistos, conhecidos e chamados pelo nome. E quem realmente encontra
Cristo, como Maria Madalena, sente o coração cheio e, então, não consegue ficar
parado; corre e vai anunciar. "Eu vi o Senhor!", diz a mulher aos
discípulos. Não uma lembrança, não um assunto privado, mas uma alegria profunda
que gera comunidade.”
Um momento do encontro na Basílica de São João de Latrão |
O método da
verificação pastoral
O Papa disse que
não estava ali para apresentar "um novo programa pastoral". "Não
estamos começando do zero, e nada do que vivemos deve ser arquivado. Nosso
trabalho sobre as "doenças espirituais" nos ensinou a reconhecer o
que, em nossa vida eclesial, precisa de cura, correção ou conversão. O
Caminho Sinodal nos ensinou a escutar e discernir juntos, corresponsáveis pela única missão", disse Leão XIV,
convidando a desenvolver a dimensão "da
verificação pastoral".
“Verificar, sob a luz do Espírito Santo, significa parar, reler o que aconteceu, reconhecer o que deu frutos, compreender o que não funcionou e buscar juntos as razões. Significa, em suma, estabelecer a verdade. Convido vocês a fazerem essa verificação envolvendo toda a comunidade e, sempre que possível, ouvindo também aqueles que não fazem parte dela e que veem as coisas, por assim dizer, "de fora".”
Para fazer essa
verificação pastoral, o Papa sugeriu alguns pontos: primeiro, encontrar Cristo
e fazer com que os outros o encontrem. "A Igreja não existe para si mesma,
mas para conduzir cada pessoa a um encontro com o Senhor." Segundo, gerar comunidade.
"A partir da Páscoa de Cristo, nascem novas comunidades livres e
reconciliadas." Terceiro, habitar e servir a cidade. "Roma não é o
cenário indiferente de nossas comunidades: é o local da nossa missão."
"A essas três vertentes de verificação soma-se uma quarta, que abrange
todas elas: a formação do Povo de Deus", acrescentou o Papa.
“O Bispo não está pedindo que vocês planejem novas atividades: está propondo um método compartilhado de escuta, discernimento, verificação e conversão. Os conteúdos e as prioridades continuam sendo de responsabilidade de suas comunidades, nos cinco âmbitos que são a catequese e a iniciação cristã, juventude, família, caridade e vocações, porque o objetivo é partilhar um estilo pastoral, não uniformizar as experiências. Nesse sentido, as Prefeituras são chamadas a se tornarem cada vez mais lugares de encontro, diálogo e elaboração pastoral compartilhada.”
| O testemunho de uma família |
Inicia o
processo de canonização do pe. Di Liegro
Uma grande
aplauso saudou o anúncio de Leão XIV a propósito do início do processo de
canonização do pe. Luigi Di Liegro — fundador e posteriormente diretor da
Caritas de Roma e promotor, em 1974, da histórica conferência diocesana sobre
"A responsabilidade dos cristãos diante das expectativas de caridade e
justiça na cidade de Roma", conhecida como "a conferência sobre os
males de Roma".
Aos presentes, representantes das 334 paróquias de um território de 881 quilômetros quadrados, o Papa indicou o pe. Di Liegro como referência para uma ação pastoral autêntica e concreta. O Pontífice reiterou que o testemunho desse sacerdote para a caminhada da Igreja "não reside primordialmente nas obras que realizou: o padre Luigi, antes de construir qualquer coisa, queria 'ver'. Em 1969, encomendou um levantamento sobre a religiosidade romana, pois aprendera que não há encarnação da mensagem sem escutar a realidade. Em seu último discurso, poucas semanas antes de morrer, pe. Luigi disse à sua equipe: "O discernimento é esta pergunta: Senhor, onde você está?"
Que os
presbíteros sejam homens de escuta
A seguir, o Papa
enfatizou que Roma precisa de sacerdotes que sejam homens de escuta e
discernimento, homens que permanecem "diante do Senhor" para conduzir
outros a um encontro verdadeiramente vivido com Ele. Sacerdotes que refletem
sua vocação todos os dias.
“O sacerdote não concentra toda a responsabilidade em si mesmo. Ele reconhece carismas, forma consciências e possibilita a corresponsabilidade dos leigos: não por falta de força, mas por fidelidade à natureza da Igreja. Uma comunidade em que tudo depende do pároco é uma comunidade frágil, e presidir não significa fazer tudo. Significa gerar comunhão, valorizar as energias dos outros, conectar pessoas e realidades e preservar a unidade.”
"O sacerdote integra-se e deseja pertencer a uma comunidade capaz de compreender seu entorno, compartilhar suas feridas e esperanças, responsável pela vida de todos, mesmo daqueles que nunca entram na Igreja. Esta é a forma que a caridade assume na presidência pastoral, e é o que impede uma paróquia de se autopreservar", sublinhou.
O presbitério é
uma fraternidade
"O
presbitério não é a soma de sacerdotes que se reúnem para fins
organizacionais: é uma fraternidade, e é o primeiro lugar para verificar
se o que fazemos realmente gera comunhão", disse Leão XIV. O Papa convidou
os seminaristas a deixarem-se "formar tanto pelos livros, necessários para
o encontro com bons mestres, quanto pelos rostos: dos pobres, dos doentes,
do povo de nossas paróquias. A vocês e aos seus formadores, expresso minha
gratidão e minha confiança. Os jovens não se entregam a um papel, mas
seguem homens e mulheres felizes com o que são".
O Papa concluiu,
dizendo: "Queridos irmãos e irmãs de Roma, não tenham medo de se deixarem
chamar pelo nome! O Senhor vivo se deixa encontrar por quem, como Maria no
amanhecer da Páscoa, ainda têm a coragem de procurá-lo, mesmo em lágrimas,
mesmo na escuridão. Que a Mãe de Deus, Salus Populi Romani, os acompanhe".
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