sábado, 9 de maio de 2026

Reflexão de frei Almir Guimarães para o seu dia:

“Não vos deixarei órfãos. Eu virei a vós”

Os cristãos são narradores da esperança. (Luciano Manicardi)

 Estamos vivendo as alegrias da Páscoa. Cinquenta dias nos são propostos para aprofundar esse evento único: aquele Jesus que percorreu nossos caminhos e que se entregou livremente nas mãos dos que lhe tiraram a vida, vive. Vive do que chamamos de vida eterna, vida com a Vida no Pai. Não se trata ter o mesmo corpo reanimado. A humanidade de Jesus foi assumida na glória do Pai. Não ocupa mais os espaços físicos do mundo, mas é capaz de passar por portas fechadas. Durante semanas, a liturgia da Igreja nos pede a delicadeza de ouvir esses antigos relatos que esquentam o coração e nos falam da presença do Senhor. O Espírito vem em nosso socorro.

 Uma das mais doloridas experiências que os humanos podem fazer é, seguramente, a da orfandade. Crianças, adolescentes e jovens que, por diferentes razões, perdem o pai e/ou a mãe experimentam uma punhalada: perdem carinho, apoio, nutrimento pela vida, confiança, esperança. Nada substitui completamente os pais. Multiplicam-se sentimentos de solidão, abandono, insegurança. Os apóstolos ao sentirem a iminência da partida de Jesus ficam atônitos. Jesus afirma que não os deixará órfãos.

 “Eu virei a vós…”. Trata-se da vinda do Espírito, alma da comunidade, força, água, energia, fogo. Esse Espírito o mundo não é capaz de receber. Receberão os discípulos do Senhor que não querem errar o Caminho. Haverão de suplicar essa força como vento e calor, como fogo e refrigério. Jesus afirma que esse Sopro será enviado por ele e pelo Pai. Na hora das decisões, nos momentos de reflexão sobre o amanhã do mundo, da comunidade e de nossa vida pessoal não estaremos em estado de orfandade. Ele estará dentro de nós. Luciano Manicardi afirma que os cristãos são “narradores da esperança”.

 “Como é descrito o Espírito? Vem descrito como um fogo, como um sopro enérgico, uma luz, um ânimo, um desassombro, um alento que nos faltava para podermos ser. Essa imagem, que é também uma experiência do Espírito que, penso, todos fazemos – pois em algum momento sentimos que a amizade com Deus nos atravessa de uma forma total – conduz-nos certamente à verdade de Deus, mas descrevendo-a como experiência de plenitude” (José Tolentino Mendonça, Nenhum caminho será longo, Paulinas, p. 56).

 “Quem me ama, será amado por meu Pai e eu o amarei e manifestarei a ele”. Amar Jesus. Ter em mente esse Jesus ressuscitado. Esse que percorreu os caminhos dos homens e vive. Desde nossa mais terna infância o “conhecemos”. Quem sabe ao longo do tempo da vida fomos nos aproximando dele ou ele querendo aproximar-se de nós. Na candura de nossa fé o acolhemos. Convicção de que ele vive. Fomos afirmando nossa adesão a ele… “A quem iremos?”. Cremos não apenas que ele vive, mas acreditamos que o caminho que ele andou traçando é aquele que abraçamos, apesar de falhas e do pecado. Tentamos estar com Jesus na eucaristia de todos dias. Sabemos que ele anda marcando encontros conosco nos mais abandonados. Queremos, nem sempre conseguindo, dizer com São Paulo que para nós viver é Cristo. Amamos o Senhor, queremos ama-lo. Temos fé que assim ele se nos manifestará. O que é, de fato, amar a Jesus? Fazer nossa a sua causa. Simplesmente. Gastar o tempo da vida por ele e seus sonhos.

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Texto para reflexão

Precisamos  que alguém nos faça lembrar  a verdade de Jesus.  Se  a esquecermos, não saberemos  quem somos  nem o  que estamos chamados a ser.   Vamos desviar-nos sempre de novo do Evangelho e defender em seu nome causas e interesses que pouco têm a ver  com ele. Vamos desfigurando a verdade , ao mesmo tempo  em que achamos estarem posse dela.  E preciso que o  Espírito ative nossa memória de Jesus,  sua presença viva,  sua imaginação criadora. Não se trata de despertar uma  lembrança do passado:  sublime, comovente, entranhável, mas  sempre uma lembrança. O que Espírito do Ressuscitado faz conosco é  abrir nosso coração ao encontro com Jesus como  alguém vivo. Só esta relação afetiva e cordial com Jesus Cristo é capaz de transformar-nos   e gerar em nós uma maneira  nova de ser e de viver. (Pagola,  João,  p.201).

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FREI ALMIR GUIMARÃES, OFM, ingressou na Ordem Franciscana em 1958. Estudou catequese e pastoral no Institut Catholique de Paris, a partir de 1966, período em que fez licenciatura em Teologia. Em 1974, voltou a Paris para se doutorar em Teologia. Tem diversas obras sobre espiritualidade, sobretudo na área da Pastoral familiar. É o editor da Revista “Grande Sinal”.

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