sejam artesãos de paz, o rearmamento enriquece as elites
Em incisivo
discurso na Universidade Sapienza de Roma, Leão XIV falou da vocação dos jovens
de não se fecharem entre ideologias e fronteiras nacionais. E fez uma dura
crítica diante do aumento dos gastos militares: "Não se chame de 'defesa'
um rearmamento que aumenta as tensões e a insegurança, empobrece os
investimentos em educação e saúde, desmente a confiança na diplomacia,
enriquece elites a quem nada importa o bem comum".
O Papa Leão
pronunciou um discurso eloquente diante do corpo docente e discente na Aula
Magna da Universidade Sapienza de Roma. Trata-se da primeira visita do
Pontífice a esta renomada instituição, uma das mais prestigiosas e antigas da
Europa, com 723 anos de fundação.
Ao chegar, o
Santo Padre rezou na Capela Universitária “Divina Sapienza”. Na sequência,
saudou um grupo de estudantes. No prédio do Reitorado, manteve um colóquio
privado com a Magnífica Reitora, Antonella Polimeni, e assinou o Livro de
Honra. Houve também a inauguração de uma placa de recordação da visita, a
saudação aos membros do Senado Acadêmico e aos funcionários da Universidade.
Ainda houve tempo para conhecer a mostra “La Sapienza e os Papas”.
Somos um desejo,
não um algoritmo!
Já na Aula
Magna, Leão XIV falou desta Universidade como um polo de excelência em diversas
disciplinas e enalteceu seu empenho em favor do direito ao estudo e maniestou
seu apreço pelo acordo assinado entre o instituto e a Diocese de Roma, para a
abertura de um "corredor humanitário universitário" com a Faixa de
Gaza. E a primeira mensagem do Pontífice foi dirigida aos estudantes.
"Imagino-os,
às vezes, despreocupados, felizes com a própria juventude que, mesmo em um
mundo conturbado e marcado por terríveis injustiças, lhes permite sentir que o
futuro ainda está por escrever e que ninguém pode roubá-lo de vocês."
Jovens, disse o Papa, como Santo Agostinho, irrequietos, como demonstram as centenas de perguntas que os estudantes dirigiram ao ele. Esta inquietude, todavia, esconde também um lado triste. Muitos sofrem com a pressão das expectativas e a exigência de desempenho, exacerbando a competitividade. "É justamente esse mal-estar espiritual de muitos jovens que nos lembra que não somos a soma do que possuímos nem uma matéria aleatoriamente agrupada de um cosmos mudo. Somos um desejo, não um algoritmo!"
Sim à vida dos
povos que clamam por paz e justiça!
E justamente
essa dignidade conduz a duas perguntas, uma de caráter existencial - "Quem
sou?" - e outra mais relacional - "Que mundo estamos deixando?".
Sobre esta segunda questão, o Pontífice se deteve de maneira mais contudente,
para responder que, infelizmente, se trata de mundo deformado pelas
guerras e pelas palavras de guerra.
"Trata-se
de uma contaminação da razão, que, a partir do plano geopolítico, invade todas
as relações sociais", explicou o Santo Padre. A simplificação que cria
inimigos deve, portanto, ser corrigida. O grito “nunca mais a guerra!” dos
antecessores deve se aliar com o senso de justiça que habita o coração dos
jovens, com a sua vocação de não se fecharem entre ideologias e fronteiras
nacionais. Ao falar da ecologia e do aumento com os gastos militares, Leão XIV
entrou no coração do seu discurso:
“Não se pode chamar de “defesa” um rearmamento que aumenta as tensões e a insegurança, empobrece os investimentos em educação e saúde, desmente a confiança na diplomacia e enriquece elites que nada se importam com o bem comum. É preciso, além disso, vigiar o desenvolvimento e a aplicação da inteligência artificial nos âmbitos militar e civil, para que ela não retire a responsabilidade das escolhas humanas e não agrave a tragédia dos conflitos. O que está acontecendo na Ucrânia, em Gaza e nos territórios palestinos, no Líbano e no Irã ilustra a evolução desumana da relação entre a guerra e as novas tecnologias numa espiral de aniquilação. O estudo, a pesquisa e os investimentos devem seguir na direção oposta: que sejam um «sim» radical à vida! Sim à vida inocente, sim à vida jovem, sim à vida dos povos que clamam por paz e justiça!”
Eis então a
exortação do Papa aos jovens: não ceder à resignação, transformando a
inquietação em profecia; estudar, cultivar e zelar pela justiça; ser artesãos
da verdadeira paz, usando a própria inteligência e coragem.
| Papa saúda a reitora |
A arte de
ensinar
Já os
professores ouviram de Leão XIV palavras exaltantes ao comparar o ensino a uma
forma de caridade: é como "socorrer um migrante no mar, um pobre na
rua, uma consciência desesperada".
"Trata-se
de amar sempre e em todas as circunstâncias a vida humana, de valorizar suas
possibilidades, de modo a falar ao coração dos jovens, sem se concentrar apenas
em seus conhecimentos. Ensinar torna-se, então, testemunhar valores com a vida:
é cuidado com a realidade, é senso de acolhimento para com o que ainda não se
compreende, é dizer a verdade." O conhecimento, acrescentou o Papa, não
serve apenas para alcançar objetivos profissionais, mas para discernir quem se
é. O Pontífice então concluiu:
"A minha
visita pretende ser um sinal de uma nova aliança educativa entre a Igreja que
está em Roma e essa prestigiosa Universidade, que nasceu e cresceu precisamente
no seio da Igreja. Asseguro a todos vocês que os terei presentes em minhas
orações e, de todo o coração, invoco sobre toda a comunidade da Sapienza a
bênção do Senhor. Obrigado!"
Vamos construir
um mundo novo!
Já do lado de
fora da Universidade, antes de regressar ao Vaticano, Leão XIV fez um último
convite aos jovens: "Vamos colaborar juntos, pois todos nós somos
construtores da paz no mundo; vamos trabalhar, estudar e fazer tudo o que for
possível — desde as relações entre amigos, nossas palavras e nossa maneira de
pensar — para construir a paz no mundo. Tenham sempre esperança na
possibilidade de construir um mundo novo!"
______________________________________________________
Assista:
Bianca Fraccalvieri - Vatican News
_____________________________________________________________________
Fonte: vaticanews.va Fotos: (@Vatican Media)
Nenhum comentário:
Postar um comentário