O último lugar onde viram o Senhor
A despedida de
Jesus no monte da Galileia e depois nas proximidades de Jerusalém é a lembrança
de um evento que mais tarde revelará tudo. Pertencente àquela ordem misteriosa
das ausências fecundas, em que alguém se retira para que sua presença, deixando
de ser vista de fora, comece a trabalhar por dentro.
Os onze subiram
ao monte que lhes fora indicado. Já não eram os mesmos homens que haviam fugido
e fechado as portas, mas traziam aquele cansaço que sucede às grandes
transformações do coração. Tinham visto a morte em toda a sua brutalidade e
ouvido o silêncio da tarde cair sobre o Calvário. Tinham conhecido o sábado sem
explicação, a lentidão das horas dormentes, a impressão de que todas as
promessas haviam sido sepultadas junto com o corpo amado. E, no entanto, Ele
estava ali.
“Quando o viram,
prostraram-se; mas alguns duvidaram”. Como é humana, e por isso mesmo tão
verdadeira, esta frase. A adoração e a dúvida ajoelhadas no mesmo chão é o
retrato da fé e a hesitação convivendo no mesmo espaço. O coração querendo
acreditar e a inteligência fadigando ante a última névoa da dor. Dificuldade de
acreditar que a morte, tão exata em sua violência, tivesse sido desmentida.
E então Ele diz:
“Toda autoridade me foi dada no céu e sobre a terra, portanto, ide.” Uma
despedida que começa com um envio.
Quem ama e se
despede costuma querer reter os seus e multiplicar recomendações, como se as
palavras pudessem atrasar a ausência. Jesus, porém, despede-se abrindo o mundo
para que os seus não fiquem fechados em suas lembranças, mas sejam lançados na
estrada da missão para ser e fazer discípulos.
A despedida não
é mais para consolar, mas para entregar uma tarefa. Mesmo sem compreender os
discípulos são enviados. Isso os impedirá, mais tarde, de anunciar o Evangelho
com arrogância, pois pesava em suas memórias o fato de que eles mesmos haviam
sido alcançados na dispersão.
A melancolia
daquela hora não estava em perder Jesus, pois Ele mesmo prometia permanecer. A
melancolia vinha da consciência de que o modo antigo de o ter chegava ao fim.
Já não poderiam retê-lo como antes, à beira do lago ou nas noites de pergunta e
espanto. A intimidade afetuosa dos dias da Galileia entrava agora numa forma
mais alta e mais exigente. Teriam de aprender a presença do ausente e a
reconhecer o Mestre nos sinais, na Palavra, no pão, nos pobres, na assembleia,
no Espírito que sopra onde quer.
Retirar uma
forma de presença para inaugurar outra é uma das passagens delicadas da fé.
Nós, que somos feitos de lembranças, sofremos quando a graça muda sua feição.
Queremos o mesmo caminho, o mesmo modo, a mesma doçura antiga. Mas o Senhor nos
educa e tira-nos da dependência sensível para nos introduzir numa fidelidade
mais profunda e alargada.
Ele parte, mas
permanece. Sobe, mas acompanha. Retira-se dos olhos, mas não da história. A
esperança nasce dessa tensão. O Ressuscitado, antes de partir, quis
acostumar-nos à nova gramática da sua presença. Não basta recordar, é preciso
esperar e receber o Espírito Santo.
Há na Ascensão
uma beleza quase dolorosa. Os discípulos permanecem olhando para o alto, como
quem tenta conservar, no último contorno visível, a presença que se afasta.
Tentativa falida de reter a imagem, fixá-la na memória, impedir que o tempo a
desfizesse. Um desses instantes em que o olhar se torna avarento como se a
memória pudesse defender-se contra a perda recolhendo minúcias. Por isso
continuavam olhando.
Então aparecem
dois homens vestidos de branco e impede que a saudade se transforme em
melancolia. Os discípulos foram impedidos de permanecer prisioneiros do último
lugar onde viram o Senhor. O céu para onde Ele subiu não os dispensa da terra
para onde são enviados.
A esperança
fica, então, estendida entre duas vindas. A primeira, humilde e pascal; a
última, gloriosa e definitiva. Entre elas, vive a Igreja. Vive de memória e
promessa, de saudade e missão. Ela sabe que o Esposo partiu, mas não a
abandonou.
A despedida
final de Jesus foi a passagem do Evangelho para a vida da Igreja. Enquanto os
discípulos o viam subir, começava uma nova forma de existência – Cristo estaria
no anúncio dos apóstolos, na água do batismo e na travessia de todos os que,
mesmo sem tê-lo visto, continuariam amando-o.
O monte da
Galileia e o monte da Ascensão formam, assim, uma única narrativa. Na Galileia,
Jesus prometeu que estaria conosco até o fim dos tempos; em Jerusalém, anunciou
que receberíamos o Espírito. As duas cenas se completam como duas faces de uma
mesma despedida. E nós, seus discípulos, que tínhamos ficado olhando para o
alto, descemos de novo para o chão duro da vida, pois a esperança católica não
se sustenta apenas olhando para o céu, mas caminhando na terra com a certeza de
que o céu já foi aberto.
A melancolia
daquela hora era a penumbra entre a última visão e a primeira missão, entre o
rosto que se retirava e o Espírito que viria, entre a saudade dos olhos e a
confiança do coração.
Dom Lindomar Rocha Mota - Bispo de São Luís de Montes Belos (GO)
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Fonte: cnbb.org.br Imagem: vaticannews.va
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