“É preciso
confiar, escutar e crer mais uma vez. Os pequenos e grandes recomeços com os
quais enfrentaram a dor ainda não são tudo. Se pararmos, voltaremos para trás”.
Palavras do Papa Leão XIV no encontro com o clero e familiares das vítimas na
cidade de Acerra, neste sábado (23/05), na Catedral de Nossa Senhora da
Assunção.
Na manhã deste
sábado (23/05) o Papa Leão XIV visitou a cidade de Acerra, localizada no sul da
Itália, na região da Campânia, tristemente chamada “Terra dos fogos”. Tal
nominativo deve-se à ação das máfias ambientais que causaram consequências
dramáticas para a saúde da população. Neste primeiro encontro, realizado na
Catedral de Nossa Senhora da Assunção, estavam presentes os bispos, o clero, os
religiosos e as famílias das vítimas da poluição ambiental.
Papa Francisco e
a Laudato si’
Papa Leão iniciou seu discurso recordando que Papa Francisco gostaria de ter visitado a cidade, mas não lhe foi possível. Por isso, disse, queremos realizar o seu desejo, reconhecendo o grande dom que a Encíclica Laudato si’ representou para a missão da Igreja nesta terra. “De fato, o grito da criação e dos pobres foi ouvido nesta comunidade de forma mais dramática, devido a uma concentração mortal de interesses obscuros e de indiferença ao bem comum, que envenenou o ambiente natural e social. É um grito que clama por conversão!”. “Vim, antes de tudo”, disse o Papa, “para colher as lágrimas daqueles que perderam pessoas queridas, mortas pela poluição ambiental causada por pessoas e organizações inescrupulosas, que por muito tempo puderam agir impunemente. [...] Também para agradecer a quem respondeu ao mal com o bem, especialmente a uma Igreja que soube ousar na denúncia e na profecia, para reunir o povo na esperança”.
Responsabilidade
com a ajuda de Deus
Em seguida o
Santo Padre citou das Sagradas Escrituras, a visão do profeta Ezequiel no vale
dos ossos secos (Ez 37, 1-10), quando , levado pelo Senhor a viver uma
experiência que, para o povo no exílio, deverá se tornar uma forte mensagem de
ressurreição. “Deus”, refletiu Papa Leão, “havia colocado o homem e a mulher em
um jardim para que o cultivassem e o guardassem. Tudo era vida, beleza,
fertilidade. Esta terra também, antigamente, era chamada de Campania
felix, porque era capaz de encantar por sua fecundidade. [...] No entanto, eis
a morte, da terra e dos homens. [...] Diante desta realidade, pode-se ter
duas atitudes: a indiferença ou a responsabilidade. Vocês escolheram a
responsabilidade e, com a ajuda de Deus, iniciaram um caminho de compromisso e
de busca pela justiça”.
Tu mesmo nos
pega pela mão
Citando
novamente o profeta Ezequiel no vale dos ossos, Leão recorda a passagem que o
Senhor faz uma pergunta a Ezequiel: “Filho do homem, porventura tornarão a
viver estes ossos? [...] ‘Senhor Deus, tu o sabes’, lhe responde. “Eis que Deus
tem novas perguntas para nós”, afirma o Santo Padre, “que alargam o nosso
horizonte. Ele sabe que temos um coração que busca a vida e suspira pela
eternidade, mas que facilmente as adia para um tempo indefinido e distante,
para um mundo diferente e que ainda não existe”. “Da mesma forma”, continua,
“as nossas Igrejas têm a missão de fazer ecoar aqui e hoje a Palavra de Deus.
Esta Palavra nos pergunta se acreditamos nas suas próprias possibilidades: é
Palavra de vida”. E voltando ao profeta Ezequiel repete que cremos e dizemos:
“Senhor Deus, tu o sabes!”. “Tu sabes que podemos nos levantar, porque tu mesmo
nos pega pela mão. Tu sabes que o nosso deserto pode florescer. Tu sabes
transformar o luto em alegria”.
Obstinada
resistência
Advertindo em
seguida: “Tudo isso é muito concreto: é uma promessa que já está se tornando
realidade. O Papa Francisco, na Encíclica Laudato si’, embora denunciando
um paradigma de morte, anunciou claramente o surgimento silencioso da vida nova
ao perguntar: “Será uma promessa permanente, apesar de tudo, que brota como uma
obstinada resistência daquilo que é autêntico?” (Laudato si’, 112).
“Caríssimos”, disse o Papa, “sejam testemunhas desta ‘obstinada resistência’
que se transforma em renascimento, lá onde o Evangelho ilumina e transforma a
vida”.
Confiar mais uma
vez para não voltar atrás
Tornando mais
uma vez ao profeta Ezequiel que obedece ao Senhor e percebe que os ossos, mesmo
se movimentando ainda não têm espírito, o Papa Leão observa:
"Compreendemos, portanto, que o milagre não acontece de uma só vez. O
profeta está certamente maravilhado com o que vê e ouve, mas ainda não basta,
ainda falta algo. Vale também para nós: é preciso confiar mais uma vez, escutar
mais uma vez, crer mais uma vez. As escolhas que vocês fizeram, o caminho
eclesial que percorreram, os pequenos e grandes recomeços com os quais
enfrentaram a dor ainda não são tudo. Se pararmos, voltaremos para trás”.
Exército de paz
Assim como se
formou o “exército” de Ezequiel após receberem o espírito, Papa Leão
acrescentou: “Que o Espírito Santo lhes conceda ver um ‘exército’ de paz que se
levanta e cura as feridas desta terra e das suas comunidades. Não mais o fogo
que destrói, mas o fogo que aviva e aquece, o fogo do Espírito que acende os
corações e as mentes de milhares e milhares de homens e mulheres, de crianças e
de idosos, e inspira cuidado, consolação, atenção, amor verdadeiro”.
Recomendando ainda: “Deixem morrer o ressentimento, pratiquem por primeiro a
justiça que pedem, testemunhem a vida, eduquem para o cuidado”.
A mudança começa
pelo coração
Por fim o
Pontífice disse ainda aos presentes: “Manifestem cotidianamente a autoridade do
serviço, que se abaixa e se aproxima, que dá o primeiro passo e perdoa. De
fato, deve ser desmantelada a cultura do privilégio, da arrogância, do não
prestamento de contas, que tanto mal fez a esta terra, como a muitas outras
regiões da Itália e do mundo”. "Existe, de fato, uma espiritualidade dos
lugares, mas que deve tudo à espiritualidade das pessoas. A mudança do mundo,
de fato, começa sempre pelo coração”.
Jane Nogara - Vatican News
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