Testemunhas do
Evangelho através da unidade
O fio condutor do magistério de Leão XIV sobre a missão e as palavras de Jesus: “Nisto todos reconhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros”.
| O Papa Leão XIV no papamóvel na esplanada de Saurimo, Angola, em 20 de abril de 2026 |
A paz e a
unidade da Igreja foram os dois temas recorrentes e fundamentais do primeiro
ano de pontificado de Leão XIV, que continua a pedir orações por essas
intenções. Se a paz se impôs como uma urgência devido à multiplicação de
conflitos insensatos e à progressiva erosão do direito internacional, a unidade
da Igreja é um fio condutor que atravessa todo o magistério do Bispo de Roma,
nascido em Chicago e que se tornou missionário no Peru. A maneira como Leão
repetiu seus apelos à unidade dos fiéis em Cristo é particularmente
significativa e nada tem a ver com a exigência de “normalidade” ou de uma
tranquilidade que abata as diferenças e talvez dilua os contrastes. O Papa
explicou isso claramente no discurso aos cardeais durante o consistório extraordinário de 7
de janeiro de 2026, quando, ao apresentar a perspectiva conciliar abraçada
pelos pontificados de seus predecessores, falou da atração citando estas
palavras de Bento XVI: «A Igreja não faz proselitismo. Ela se desenvolve,
antes, por “atração”: assim como Cristo “atrai a todos a si” com a força do seu
amor, que culminou no sacrifício da Cruz, também a Igreja cumpre a sua missão
na medida em que, unida a Cristo, realiza todas as suas obras em conformidade
espiritual e concreta com a caridade do seu Senhor». O Papa Leão, depois de
recordar que seu predecessor imediato «se encontrou em perfeita sintonia com
esta abordagem e a repetiu várias vezes em diferentes contextos», acrescentava:
«Hoje, com alegria, retomo-a e a partilho convosco. E convido a mim e a vós a
prestarmos muita atenção ao que o Papa Bento indicava como a “força” que
preside a esse movimento de atração: tal força é a Charis, é a Ágape, é o Amor
de Deus que se encarnou em Jesus Cristo…».
Naquele
discurso, Leão XIV afirmava: «O amor de Cristo nos impele na medida em que nos
possui, nos envolve, nos cativa. Eis a força que atrai todos a Cristo... A
unidade atrai, a divisão dispersa. Parece-me que a física também confirma isso,
tanto no micro quanto no macrocosmo. Portanto, para sermos uma Igreja
verdadeiramente missionária, isto é, capaz de testemunhar a força atrativa da
caridade de Cristo, devemos sobretudo pôr em prática o seu mandamento, o único
que Ele nos deu, depois de ter lavado os pés dos discípulos: “Como eu vos amei,
assim também vós vos ameis uns aos outros”».
As palavras de
Jesus a esse respeito apontam para o cerne da missão: «Nisto todos reconhecerão
que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros». A unidade da Igreja
manifesta-se, portanto, nessa capacidade de viver, pela graça, novas relações
com os irmãos e irmãs. Manifesta-se nessa capacidade de amar-se e perdoar-se
mutuamente, fazendo resplandecer a comunhão que, na experiência cristã
autenticamente vivida, prevalece sobre qualquer diferença e divisão.
Manifesta-se nessa capacidade de superar tensões e conflitos, reconhecendo-nos
todos chamados, todos pecadores perdoados necessitados de misericórdia e servos
inúteis, todos igualmente inundados por um amor infinito que não merecemos.
Manifesta-se na capacidade de viver a sinodalidade, que nada mais é do que a
forma concreta de estar em comunhão na Igreja.
É assim, é
somente quando vive assim, que a comunidade cristã atrai. E atrai quando não é
autocentrada, quando não pensa em brilhar com luz própria ou imita as
estratégias de marketing das agências de publicidade, quando não fomenta a
polarização ideológica. A comunidade cristã atrai, e é, portanto, missionária,
quando reflete, por meio de sua unidade, a luz de Outro, sabendo oferecer a
todos aquele abraço de misericórdia que ela mesma, em primeiro lugar,
experimentou e continua a experimentar dia após dia no encontro com Cristo.
A unidade da
Igreja não é conformismo nem uma vida tranquila, mas o fruto de um amor que nos
envolve e deseja irradiar-se por toda parte, fazendo prevalecer o estar juntos
sobre o protagonismo, a comunhão sobre a divisão, a mansidão sobre a
prepotência, palavras de paz sobre a linguagem de ódio que, infelizmente,
aflige grande parte do mundo digital. A unidade da Igreja não diz respeito
apenas aos cristãos, nem apenas aos crentes. O Papa Leão explicou isso na Missa pelo início de seu ministério
petrino, expressando «o grande desejo» de «uma Igreja unida, sinal de
unidade e de comunhão, que se torne fermento para um mundo reconciliado»,
convidando o mundo a olhar para Cristo, a aproximar-se d’Ele, a ouvir «sua
proposta de amor para nos tornarmos sua única família: no único Cristo, nós
somos um. E este é o caminho a percorrer juntos, entre nós, mas também com as
Igrejas cristãs irmãs, com aqueles que trilham outros caminhos religiosos, com
quem cultiva a inquietação da busca de Deus, com todas as mulheres e homens de
boa vontade, para construir um mundo novo em que reine a paz».
Em um momento
dramático para a história da humanidade, em um mundo dilacerado pelas guerras,
a unidade da Igreja é profecia de paz para todos.
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Fonte: vaticanews.va Foto de arquivo: vaticanews.va
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