“estrela-guia” para o caminho da Igreja
Sessenta e um
anos após a sua conclusão, o Concílio Vaticano II continua sendo uma bússola
constante para a Igreja universal. Com essa convicção, no último dia 7 de
janeiro, Leão XIV deu início ao novo ciclo de aprofundamento dedicado aos
documentos do Concílio.
Dois fatores
orientaram a sua escolha: a constatação de que «a geração de bispos, teólogos e
fiéis do Concílio Vaticano II hoje já não existe mais» e «o apelo para não
extinguir a profecia» do Concílio, mas sim para «continuar buscando caminhos e
formas de pôr em prática as intuições». Acima de tudo, explicou o Papa, é
importante conhecer o Concílio «não por meio de “boatos” ou das interpretações
que foram feitas, mas relendo seus documentos e refletindo sobre o seu
conteúdo». Reler os textos de 1965 significa, portanto, oferecer à Igreja a
possibilidade de «perceber as mudanças e os desafios da era moderna» e de
«colaborar na construção de uma sociedade mais justa e mais fraterna»,
permanecendo com os «braços abertos» para a humanidade, suas esperanças e angústias.
A humanidade
integral de Cristo que revela o mistério divino
De 7 de janeiro
a 6 de maio — excluindo a pausa para os Exercícios Espirituais da Quaresma e a
viagem apostólica à África —, até o momento, foram 14 as reflexões do Pontífice
dedicadas a duas Constituições dogmáticas: a Dei Verbum sobre a revelação divina e a Lumen gentium sobre a Igreja.
A primeira, eixo
central de cinco catequeses, foi definida por Leão XIV como «um dos documentos
mais belos e importantes da assembleia conciliar», pois recorda que Deus fala à
humanidade e a convida à amizade com Ele. Cristo, de fato, é o rosto humano de
Deus e sua existência histórica, da encarnação à ressurreição, manifesta
plenamente o Pai. Não se trata de uma verdade que anula o humano, mas que o
realiza: é justamente a humanidade integral de Cristo que torna visível o
mistério divino, pois o Senhor «se encarna, nasce, cura, ensina, sofre, morre,
ressuscita e permanece entre nós». Daí deriva uma visão dinâmica do
cristianismo: ele se baseia na unidade entre Escritura e Tradição, consideradas
um único “depósito” confiado à Igreja.
A esse respeito,
o Pontífice alertou para dois riscos específicos: por um lado, uma leitura
fundamentalista que interpreta os textos sagrados de forma isolada «do contexto
histórico em que se desenvolveram e das formas literárias utilizadas». Por
outro lado, negligenciar a origem divina da Escritura, acabando por entendê-la
como «um mero ensinamento humano», um texto técnico ou já ultrapassado. Pelo
contrário — foi a advertência de Leão XIV —, o Evangelho deve ser compreendido
como «um espaço privilegiado de encontro, no qual Deus continua a falar aos
homens e às mulheres de todos os tempos». Em um mundo saturado de palavras
vazias, de fato, a Palavra de Deus se distingue como sempre nova, geradora e
saciante para uma humanidade em busca de sentido e verdade.
A Igreja em
favor dos pobres, explorados, vítimas, sofredores
Desde 18 de
fevereiro, o Bispo de Roma tem centrado suas catequeses na Lumen gentium,
à qual dedicou até agora oito reflexões. A partir delas, a Igreja surge como
«sinal eficaz de unidade e reconciliação entre os povos» e «presença
santificadora em meio a uma humanidade ainda fragmentada» por divisões e
conflitos. Investida da missão de «pronunciar palavras claras» para rejeitar
tudo o que mortifica a vida, a Igreja — destacou ainda o Papa — é chamada a
«tomar posição» em favor dos pobres, dos explorados, das vítimas, dos
sofredores. Em sua dimensão escatológica, de fato, ela é guardiã de uma
esperança que ilumina o caminho.
Também é
fundamental a reflexão que Leão XIV fez sobre duas dimensões eclesiais: a
hierárquica e a escatológica. A primeira tem como objetivo perpetuar a missão
confiada por Cristo aos Apóstolos, desde que nunca seja absolutizada. Pelo
contrário: para corresponder plenamente à sua missão, as instituições eclesiais
devem visar «uma conversão contínua, a renovação das formas e a reforma das
estruturas». A segunda dimensão — definida como «essencial» — convida, além
disso, a considerar a dimensão «comunitária e cósmica da salvação em Cristo»,
avaliando tudo nessa perspectiva.
Os leigos, cada
vez mais testemunhas de justiça e de paz
O Pontífice
reservou então uma atenção especial aos leigos, convidados a serem sempre
testemunhas de justiça e de paz: seu «vasto campo» de apostolado não deve
limitar-se ao espaço eclesial, mas alargar-se ao mundo, de modo a mostrar em
toda parte a beleza da vida cristã. Por fim, o Papa retomou o tema da
santidade: ela, disse Leão XIV, não é privilégio de poucos, mas compromisso de
todos os cristãos na caridade. Em meio às perseguições do mundo, os fiéis são,
portanto, exortados a deixar “sinais de fé e de amor”, empenhando-se pela
justiça e vivendo a cada dia sua missão de conversão e testemunho.
Isabella Piro - Vatican News
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Fonte: vaticanews.va Foto: (@Vatican Media)
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