O alimento do
discípulo
Dom Rodolfo Luís Weber - Arcebispo de Passo Fundo (RS)
O
Evangelho mostra as mudanças que Jesus ressuscitado realiza nos dois
discípulos de Emaús: conversão do desespero em esperança; conversão da
tristeza em alegria; e também conversão à vida comunitária (Atos
2,14.22-33, Salmo 15, 1 Pedro 1,17-21 e Lucas 24,13-35). Por vezes,
quando se fala em conversão, pensa-se no seu aspecto cansativo, de
desapego e renúncia. Mas toda autêntica conversão
cristã é fonte de alegria, de esperança, amor e aproximação
do outro e da comunidade.
Os discípulos de
Emaús acompanharam de perto a trajetória de Jesus e como ele foi tratado
pelos discípulos e adversários. Testemunharam a sua crucificação e a morte
na cruz. Depois destes fatos, estavam voltando para casa porque sua expectativa
foi frustrada: “nós esperávamos que fosse libertar Israel”. Este verbo no
passado diz tudo: acreditamos, seguimos, esperamos, mas acabou. Porque, “Jesus,
o Nazareno, que foi profeta poderoso em obras e palavras”, também falhou e
causou desilusão.
Este drama dos
discípulos de Emaús é espelho da situação de muitos cristãos em nosso
tempo. Parece que a esperança se tornou decepção. Há um poema
intitulado “Pegadas na areia” que expressa este sentimento de
abandono. “Sonhei que estava caminhando na praia juntamente com
Deus. E revi, espelhado no céu, todos os dias da minha vida. E
em cada dia vivido, apareciam na areia, duas pegadas: as minhas e as
d’Ele. No entanto, de quando em quando, vi que havia apenas as minhas
pegadas, e isso precisamente nos dias mais difíceis da minha
vida. Então perguntei a Deus: “Senhor, eu quis seguir-Te, e Tu
prometeste ficar sempre comigo. Porque deixaste-me sozinho, logo nos
momentos mais difíceis? Ao que Ele respondeu: “Meu filho, Eu te amo e
nunca te abandonei. Os dias em que viste só um par de pegadas na areia são
precisamente aqueles em que Eu te levei nos meus braços.”
Os discípulos de
Emaús se afastam desesperançados porque se sentiam sozinhos e sem
referência na hora difícil. É neste contexto que Jesus ressuscitado
se aproxima deles. Caminha com eles, pede para expressarem o motivo
da tristeza, escuta atentamente, recorda ensinamentos conhecidos, alimenta a
inteligência e o entendimento para não se deixarem guiar somente pelas
emoções.
Para devolver a
esperança, a alegria e fazer os discípulos voltarem à sua comunidade Jesus vai
usar meios já conhecidos por eles. Por razões de dificuldade de
compreensão e impactados pelos fatos não conseguiam perceber. O diálogo se
concentra na compreensão das Escrituras e na partilha do pão à
mesa.
Jesus faz os
discípulos de Emaús mergulharem na Escritura para lhes abrir a inteligência.
Porém, há algo de novo na interpretação das Escrituras. Elas são
lidas, a partir de agora, tendo como chave de leitura Jesus
Cristo, principalmente o Mistério Pascal. É o modo cristão de ler as
Escrituras. No plano amoroso e salvador de Deus revelado nas
Escrituras – desde a criação, passando por Moisés, os profetas, os fatos
históricos do povo de Deus – “falam a respeito de dele (Jesus)”. A imersão nas
Escrituras foi fonte de conversão dos discípulos de Emaús e é fonte para todos
os cristãos de todos os tempos. “Não estava ardendo o nosso coração quando ele
nos falava pelo caminho, e nos explicava as Escrituras”, testemunham.
A pessoa triste
e desiludida não pode somente receber e ser passiva. Ela precisa tomar
iniciativas, é o que fazem os discípulos de Emaús: “Fica conosco, pois já é
tarde e a noite vem chegando! E Jesus entrou para ficar com eles”.
Sentaram-se à mesa. Foi a oportunidade para Jesus recordar algo fundamental:
“Tomou o pão, abençoou-o, partiu-o e lhes distribuía”. Jesus antes de
padecer deixou a Eucaristia como forma de manter-se presente. Foi
o momento para os discípulos de Emaús reconheceram Jesus: “Nisso
os olhos dos discípulos de abriram e eles reconheceram Jesus”. Cristo
deixou para todos os seus seguidores o sinal da Eucaristia. Ele quer ser
convidado e sentar à mesa conosco. Ele quer nos alimentar com o pão da vida
eterna.
Eles voltam
imediatamente para Jerusalém onde estava reunida a comunidade.
Partilham o encontro com Jesus. Agora tem certeza que a causa que tinham
abraçado não estava perdida, pois Jesus continuava com eles e que
precisavam da comunidade para seguir.
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Fonte: cnbb.org.br Imagem: vaticannews.va
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