sábado, 25 de abril de 2026

Reflita com o Frei Almir Guimarães:

O Pastor e os pastores

Vim para que tenham a vida e a tenham em abundância. (Jo 10,10)

Aqueles  que governam devem ter no pensamento  não o poder  que o cargo lhes confere,  mas a igualdade da condição  humana;  que eles se  alegrem não por dar ordens  aos homens, mas em lhes ser  úteis;  Por  conseguinte, a função suprema  é exercida como deve ser,  quando aquele que preside domina  mais sobre os vícios  do que  sobre os irmãos. (São Gregório Magno - Lecionário Monástico  III,  p.281)

O Pastor chamado Jesus

 Continuamos a viver o tempo pascal na liturgia de nossa Igreja. Todo esse período é marcado por textos que nos ajudam a fortalecer a fé na presença do Ressuscitado no meio de nós. Neste domingo temos a ver com o tema do Bom Pastor. Desde a nossa infância, santinhos no livro de reza da mãe, ilustrações nos textos de catecismo ou em pôsteres nas paredes das igrejas nos mostravam Jesus carregando nos ombros a ovelha desgarrada que ele encontrou no meio dos espinheiros ou fatídicos despenhadeiros. Afeiçoamo-nos a esta imagem e, adultos que somos, ela nada perdeu de sua força. Ele, o pastor nos procura. É o pastor que procuramos. Quando a loucura do pecado nos domina sempre nos lembramos desse carregava as ovelhas perdidas às costas.

 Jesus é verdade, caminho, vida, pão e também pastor, mais precisamente a “porta das ovelhas”. Os que passam pela porta de sua vida e de seus gestos chegam a pastos verdejantes. A imagem do pastor é muito vigorosa no ambiente em que Jesus vivia: homem forte, imensas mãos, demonstra carinho pelas ovelhas, conta-as quando voltam dos pastos, cura das machucadas. Misturam-se cuidado e ternura. Encantamento.

 Quando Jesus diz o “Eu sou…” faz nos lembrar a definição que Deus se dá na Antiga Aliança: “Eu sou o que sou…”. Há os que informam que o termo pastor vem da raiz indo-europeia que quer dizer alimentar. Daí provieram pão, pastor, pastoral. O pastor alimenta. Há o pastor e há mercenário, este que não é dono das ovelhas. Não dá a vida por elas. Aproveita-se delas. Quando vem o lobo, o mercenário foge. O pastor bom conhece suas ovelhas e elas o conhecem pelo assobio e pela flauta. Os pastores conhecem suas ovelhas. Jesus, o bom pastor, vem para que todos tenham vida e vida em abundância. “Eu sou a porta. Quem entra por mim será salvo, entrará e sairá e encontrará pastagem”. Podem, hoje em dias os pastores que são os bispos e padres conhecer suas ovelhas?

Pastores e Pastoral

 As ações da Igreja anunciando Jesus, a Boa nova, suscitando a conversão ao Senhor, alimentando e celebrando a fé, levando as pessoas a viverem uma intimidade com o Senhor, dando-lhes consciência de serem sal da terra, luz do mundo e fermento na massa, transformadores da sociedade na buscando justiça, colocando-se perto dos seres humanos para que possam ser respeitados em sua humanidade de modo particularíssimo os mais pobres, organizando ações para cuidar mais especificamente de crianças, jovens, casais, idosos, doentes, envelhecidos, encarcerados são designadas de ações pastorais. Por detrás está o “espírito” do Bom Pastor. Bispos, padres e leigos se tornam agentes de pastoral e tentam ser continuação do Bom Pastor.

 Os tempos mudaram. Há muito deixamos a cristandade em que bastava uma pastoral de conservação. A continuação de um determinado tipo de vida cristã sem fé personalizada foi fazendo que perdêssemos o gosto de saborear a novidade do Bom Pastor. Fomos ficando engessados numa religião sem vida. Temos a impressão de viver um tempo de igrejas esvaziadas e de cristãos sem ossatura. O nó das pessoas não foi atingido. Soa agradável a nossos ouvidos a palavra evangelização. Uma catequese nocional se tornou um obstáculo. Sair, buscar, evangelizar, não aprisionar o Evangelho…

 Pastor, pastoral. Trata-se voltar ao vigor do Evangelho. Necessário criar grupos pequenos de cristãos, que busquem juntos, rezem juntos, cresçam juntos. Padres e leigos haverão de insistir numa primeira conversão verdadeira ao Senhor que está no meio de nós. Os tempos falam de discípulos missionários. Sim, grupos pequenos, não apenas de “amiguinhos”, laboratórios de proximidade, auxílio mútuo, espaço de criação de um cristão vigoroso sem pretensões de reivindicações marcadas por estrelismo e promoções pessoais tão alheios ao modo de viver dos cristãos. Pastoral de leigos sem clericalizações. Pastoral dos padres sem adaptações às propostas volúveis de “modernizações” ineficazes. Sempre em saída.

 Pensamos na figura do padre. Vivemos perto de igrejas. Missas, batizados, casamentos (cada vez menos). Cursos de batismo, de crisma, de catequese… O padre está presente em tudo. Que padres para nossos tempos? Que tipo de homem líder da fé necessitamos ? Como estão sendo formados os padres diocesanos e religiosos? Transparece neles a figura do Bom Pastor?

 “É preciso cuidar para que no pastor, a bondade mostre aos súditos uma mãe, e o rigor moral de um pai. Deve-se prover com toda solicitude, para que a severidade não seja rígida nem frouxa a bondade” (São Gregório Magno).

 Costuma-se dizer, com certa razão, que “o padre é um outro Cristo”. Haverá de copiar em sua vida o perfil do Bom Pastor. Tal se concretizará num grande amor pelos que lhe foram confiados. Presença sensível na vida das crianças, dos jovens que precisam de sua voz. Ajudar as pessoas a tomar decisões importantíssimas em sua vida. Estar próximo dos que se casam e constituem a Igreja doméstica, dos sadios e dos doentes, dos que vivem e que morrem. Mesmo consciente de suas fragilidades, ele representa e refaz em sua vida a presença de Jesus do qual se diz que “amou-os até o fim”.

 O padre que é padre de verdade não se contenta em ser “funcionário” do sagrado e das coisas sagradas e “colocador” de gestos sacros. Ele terá paixão pelas pessoas. Não quer que ninguém se perca. Sofre porque muitos não procurem a Cristo e se fecham no universo do egoísmo e mesmo da maldade. O verdadeiro sacerdote é confidente e amigo de Deus. Vive de Deus. Consagra-lhe seu coração e seu corpo. Homem que reza. Reza no quarto e reza com os colegas de presbitério. Prepara- se bem para a missa. Cultiva silêncio interior e exterior. Vela para que os sacramentos sejam realizados condignamente. É pai, irmão, amigo.

 “Que o Pastor seja, pela humildade, um companheiro dos que fazem o bem; e contra os vícios dos que praticam o mal, possua um enérgico zelo de justiça. Nunca se considere melhor do que os outros homens de bem…” (São Gregório Magno).

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Oração

“Eu te escolhi…”

É o Senhor que fala:

Sacerdote, eu te escolhi gratuitamente do meio do meu povo
para que celebres dia após dia
minha nova e eterna Aliança de amor.
Nada fazes de mais grandioso do que oferecer
com mãos puras e coração ilibado esse sacrifício:
juntos o povo santo, tu e eu.
É a Pascoa libertadora em vista do Reino novo.
Tu haverás de fixar teu coração nessa mesa.

Eu te escolhi gratuitamente do meio do meu povo
para que sejas servidor de minha Palavra,
proclamada oportuna e inoportunamente.
Ela, em certos dias, vai arder em teu coração e teu espírito,
feito uma ferida antes de curar os corações machucados e feridos.
Não te imagines nunca possuir a Verdade;
procura humildemente no meio de teus irmãos dar um modesto testemunho dela.

Haverás de carregar comigo, em teus ombros, a ovelha perdida, perdoarás o filho que volta,
sentar-te-ás comigo à mesa dos que não contam,
farás com que os mudos cantem,
lavarás os pés dos pobres sem amor,
abrirás o ouvido dos surdos.

Mesmo com o cansaço da estrada
e para além dos medos e das dúvidas,
como Pedro, proclamarás a Vitória da fé.

Não te amedrontem os espinhos que em tua carne te humilham.
Aos olhos dos homens eles testemunham que a ti basta minha graça
e que meu Chamamento é um amor gratuito.

Homem de pouca fé e frágil,
haverás de gozar de minha força de ressurreição,
de libertação e de reconciliação num pobre vaso de argila.
Certamente aqui e ali tu conhecerás o fracasso
e não poderás dele escapar.
Deverás te despojar do peso de teus projetos pessoais
para atravessar o muro do impasse, para além do qual,
o sol de meu chamamento de novo haverá
de iluminar teu coração fiel.

Amando esta terra,
mas ardendo pelo Esplendor de meu Pai,
pela unção de minhas mãos, pelo poder do Espírito Santo
eu te associei ao meu único sacerdócio salvador
que te reveste de simples grandeza.
Eu te escolhi gratuitamente entre os homens.
Fiz de ti um pescador de homens.

(Inspirado em texto de Michel Hubaut)

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FREI ALMIR GUIMARÃES, OFM, ingressou na Ordem Franciscana em 1958. Estudou catequese e pastoral no Institut Catholique de Paris, a partir de 1966, período em que fez licenciatura em Teologia. Em 1974, voltou a Paris para se doutorar em Teologia. Tem diversas obras sobre espiritualidade, sobretudo na área da Pastoral familiar. É o editor da Revista “Grande Sinal”.

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