A viagem que
revela o pontificado
O desejo de
visitar, antes de tudo, a África, revela o coração do Papa missionário.
O primeiro dia
da viagem de Leão XIV à África e os dois seguintes foram marcados, do ponto de
vista midiático, por comentários sobre as declarações do presidente Donald
Trump. Uma polêmica que o próprio Papa procurou minimizar diante do risco de
que cada palavra sua dita durante a viagem fosse interpretada na ótica das
relações entre a Santa Sé e a Casa Branca.
Assim, ficou em
segundo plano, e quase esquecida, uma frase particularmente significativa que o
Sucessor de Pedro pronunciou na manhã de segunda-feira, 13 de abril, em sua
primeira saudação aos jornalistas no voo que acabara de decolar rumo a Argel: a
viagem à África "deveria ser a primeira viagem do pontificado".
"Já no ano passado, em maio, eu havia dito que a primeira viagem gostaria
de fazê-la à África." Assim, logo após ser eleito, Leão XIV havia expresso
aos seus colaboradores esse específico desejo, que acabou não podendo ser
realizado por razões logísticas, mas que diz muito sobre como o primeiro Papa
nascido nos Estados Unidos concebe sua missão. De fato, não se deve esquecer um
aspecto fundamental da biografia de Robert Francis Prevost: o de ser um
religioso missionário, uma característica única e rara na história dos últimos
séculos do papado.
Leão serviu por
muitos anos como missionário e pároco no Peru e depois retornou para lá para se
tornar bispo, a pedido do Papa Francisco. É à luz dessa vocação que podemos
entender seu desejo por sua primeira viagem à África e o que está acontecendo
nestes dias, com o Papa sorridente e à vontade enquanto acompanha os ritmos das
canções e danças tradicionais que acompanham as celebrações eucarísticas;
enquanto se dedica a encontrar e abraçar as crianças, enquanto passa muito
tempo apertando mãos e saudando. Mas, acima de tudo, enquanto fala da novidade
do Evangelho, que encontra culturas e povos, tornando-se uma força motriz para
a paz e a mudança.
Isso foi visto
em Bamenda, nos Camarões, onde o Bispo de Roma chegou para apoiar a construção
da paz e da convivência em um contexto dramaticamente marcado pela guerra
civil. Ou em Yaoundé, quando, dirigindo-se ao mundo universitário, falou da
importância de "formar consciências livres e santamente inquietas"
como "condição para que a fé cristã se apresente como uma proposta
plenamente humana, capaz de transformar a vida dos indivíduos e da sociedade,
de desencadear mudanças proféticas em relação às tragédias e à pobreza do nosso
tempo".
Não por acaso
que Leão XIV tenha indicado a retomada e o aprofundamento da Exortação
Apostólica de Francisco, "Evangelii Gaudium", como programa de
trabalho para o próximo consistório. Esse documento programático de seu
antecessor, cujo primeiro aniversário de falecimento ocorre hoje, é mais uma
vez recomendado à Igreja porque esclarece a essência de sua missão: o Kerygma,
isto é, o anúncio da essência da fé; o rosto de uma Igreja que sabe estar perto
daqueles que sofrem, compartilhando as tragédias da humanidade; e o compromisso
de transformar a sociedade de uma forma mais humana e justa. Uma Igreja, como
lemos na exortação "Dilexi te", que reconhece o amor pelos pobres
como parte essencial da mensagem cristã, porque "o contato com aqueles sem
poder e grandeza é uma forma fundamental de encontrar o Senhor da
história".
A insistência
sobre paz, no retorno à negociação e no respeito ao direito internacional —
intervenções que provocaram reações nos últimos dias — fazem parte deste
contexto. E ajudam a esclarecer mais uma vez a natureza do serviço da Igreja, e
em particular o do Sucessor de Pedro, que age não como político, mas como
pastor. Mas é inerente ao seu ser pastor, longe de qualquer redução
espiritualista e desencarnada, ter no coração a paz, a justiça, o diálogo, o
encontro, a construção de sociedades mais justas, a proximidade com os
perseguidos ou discriminados, a proximidade com as vítimas inocentes da guerra,
a profecia daqueles que se preocupam com o destino da humanidade nesta
"hora dramática da história".
_____________________________________________________________________
Fonte: vaticanews.va
Nenhum comentário:
Postar um comentário