domingo, 7 de setembro de 2025

Papa na canonização deste domingo:

os santos Frassati e Acutis convidam
a não desperdiçar a vida, mas a fazer dela uma obra-prima

"Os santos Pier Giorgio Frassati e Carlo Acutis são um convite dirigido a todos nós – especialmente aos jovens – a não desperdiçar a vida, mas a orientá-la para cima e a fazer dela uma obra-prima", disse Leão XIV ao presidir sua primeira santa missa com o rito de canonização.

Carlo Acutis e Pier Giorgio Frassati são santos! Os primeiros do pontificado do Papa Leão XIV.

O Santo Padre surpreendeu a todos saudando os cerca de 80 mil fiéis presentes na Praça São Pedro antes do início da cerimônia: "Irmãos e irmãs, hoje é uma belíssima festa para toda a Itália, para toda a Igreja e para todo o mundo. E antes de começar, gostaria de saudá-los e dizer uma palavra, porque, se de um lado a celebração é muito solene, de outro é um dia de muita alegria". O Papa ficou impressionado com a quantidade de jovens. "É realmente uma bênção", afirmou. "Nós nos preparamos para esta celebração com a oração, com o coração aberto desejosos de receber esta graça do Senhor, e sentimos todos no coração a mesma coisa que Pier Giorgio e Carlo viveram: este amor por Jesus Cristo, sobretudo na Eucaristia, mas também nos pobres, nos irmãos e irmãs. Todos vocês, todos nós, somos chamados a ser santos."

A solene celebração eucarística com o rito de canonização teve início com a "Petitio" (Petição), em que o prefeito do Dicastério das Causas dos Santos, card. Marcello Semeraro, acompanhado dos postuladores, pediu ao Santo Padre que inscrevesse os dois beatos no Álbum dos Santos. Na sequência, o cardeal apresentou brevemente as duas biografias e foi entoada a Ladainha dos Santos. Depois, o Pontífice leu a fórmula de canonização, estabelecendo que "em toda a Igreja eles sejam devotamente honrados entre os santos". Neste momento, foi oferecido o incenso para a veneração das relíquias.

A Santa Missa prosseguiu com a Liturgia da Palavra. Na homilia, o Papa Leão comentou as leituras do dia, cuja mensagem principal é uma advertência a não desperdiçar a vida fora do projeto de Deus, um convite a aderir sem hesitação à aventura que o Senhor nos propõe, despojando-nos de nós mesmos, das coisas e ideias às quais estamos apegados, para nos colocarmos à escuta da sua palavra.

"Muitos jovens, ao longo dos séculos, tiveram de enfrentar esta encruzilhada na vida", comentou o Pontífice, citando São Francisco de Assis. E como ele, muitos outros. "Às vezes, nós os retratamos como grandes personagens, esquecendo que tudo começou para eles quando, ainda jovens, responderam 'sim' a Deus e se entregaram totalmente a Ele, sem guardar nada para si mesmos."

O Papa convidou a olhar para São Pier Giorgio Frassati, um jovem do início do século XX, e São Carlo Acutis, um adolescente dos nossos dias, "ambos apaixonados por Jesus e prontos a dar tudo por Ele". E discorreu brevemente sobre cada um:

"Pier Giorgio encontrou o Senhor através da escola e dos grupos eclesiais e testemunhou-O com a sua alegria de viver e de ser cristão na oração, na amizade, na caridade. Ainda hoje, a vida de Pier Giorgio representa uma luz para a espiritualidade leiga. Para ele, a fé não era uma devoção privada: impulsionado pela força do Evangelho e pela pertença a associações eclesiais, comprometeu-se generosamente na sociedade, deu o seu contributo à vida política, dedicou-se com ardor ao serviço dos pobres."

"Carlo, por sua vez, encontrou Jesus na família, graças aos seus pais, Andrea e Antonia – presentes aqui hoje com os dois irmãos, Francesca e Michele –, depois também na escola, e sobretudo nos sacramentos, celebrados na comunidade paroquial. Assim, cresceu integrando naturalmente nas suas jornadas de criança e adolescente a oração, o desporto, o estudo e a caridade."

Ambos, Pier Giorgio e Carlo, cultivaram o amor a Deus e aos irmãos através de meios simples, ao alcance de todos: a Santa Missa diária, a oração, especialmente a Adoração Eucarística. Essencial para eles era a Confissão frequente. Ambos, finalmente, tinham uma grande devoção pelos santos e pela Virgem Maria, e praticavam generosamente a caridade. Quando a doença os atingiu e ceifou as suas jovens vidas, nem mesmo isso os impediu de amar, de se oferecerem a Deus, de bendizê-Lo e de orar por si próprios e por todos. 

"Queridos, os santos Pier Giorgio Frassati e Carlo Acutis são um convite dirigido a todos nós – especialmente aos jovens – a não desperdiçar a vida, mas a orientá-la para cima e a fazer dela uma obra-prima. Eles encorajam-nos com as suas palavras: «Não eu, mas Deus», dizia Carlo. E Pier Giorgio: «Se tiveres Deus no centro de todas as tuas ações, então chegarás até ao fim». Esta é a fórmula simples, mas vencedora, da sua santidade. E é também o testemunho que somos chamados a seguir, para saborear a vida até ao fim e ir ao encontro do Senhor na festa do Céu", concluiu o Pontífice.

Bianca Fraccalvieri - Vatican News

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Saiba mais sobre os dois novo santos:

São Carlo Acutis

Eis a biografia lida diante do Santo Padre pelo prefeito do Dicastério das Causas dos Santos, card. Marcello Semeraro, na missa de canonização de Pier Giorgio Frassati e Carlo Acutis.

Carlo Acutis é o primeiro santo da geração millennial. Ele nasceu em Londres (Reino Unido) em 3 de maio de 1991. Na época, seus pais, ambos originários da Itália, moravam em Londres, onde seu pai trabalhava. Carlo foi batizado duas semanas após seu nascimento.

No outono daquele ano, a família retornou a Milão, onde Carlo frequentou a escola primária no Instituto Tommaseo, administrado pelas Irmãs de Santa Marcelina (Marcelinas). Ele foi autorizado a receber sua Primeira Comunhão aos sete anos de idade no Mosteiro das Eremitas Ambrosianas em Bernaga di Perego (Lecco).

Ao longo de sua vida, Carlo demonstrou profunda devoção à Eucaristia. Participava da Missa todos os dias e fazia uma "comunhão espiritual" nos dias em que estava ocupado com os estudos. Frequentemente realizava pequenos sacrifícios em reparação pela falta de amor demonstrada a Jesus na Eucaristia e contava histórias sobre isso aos seus amigos. Suas palavras, "A Eucaristia é minha auto-estrada para o céu", tornaram-se famosas.

Após o ensino fundamental, matriculou-se no clássico Instituto Leone XIII, em Milão, fundado pela Companhia de Jesus. Além de suas atividades escolares, foi catequista em sua paróquia, Santa Maria Segreta, em Milão, onde aprendeu a projetar e criar páginas web enquanto trabalhava no site da paróquia com um aluno de engenharia da computação. Desenvolveu tamanha paixão por esse tipo de trabalho que, no verão de 2006, projetou um site para um projeto de promoção do voluntariado em sua escola e trabalhou na página da Pontifícia Academia Cultorum Martyrum, da qual sua mãe participava. Ele também usou o computador para criar um layout para a oração do Rosário.

Carlo era um adolescente alegre e extrovertido, de bom coração. Não escondia sua fé e seu amor por Jesus. Estava sempre disposto a ajudar um colega necessitado e era amigo dos pobres de sua vizinhança, dando-lhes parte de sua mesada quando pediam ajuda. Ele costumava dizer: "Estar sempre perto de Jesus, esse é o meu projeto de vida". Enquanto passava parte das férias de verão em Assis (Perúgia), adotou a espiritualidade franciscana de alegria, contemplação e respeito pela criação, busca pela paz e proximidade com os mais necessitados.

Em outubro de 2006, foi diagnosticado com uma forma agressiva de leucemia. Em poucos dias, sua saúde piorou. Ele ofereceu seu sofrimento ao Santo Padre, pelo bem da Igreja e pela esperança de ir para o céu. Após ser internado no Hospital San Gerardo, em Monza, recebeu o Sacramento da Unção dos Enfermos. Em 12 de outubro de 2006, aos 15 anos e 5 meses, Carlo faleceu.

Seu corpo foi sepultado inicialmente no túmulo da família em Ternengo (Biella) e, posteriormente, transferido para o cemitério de Assis. Há alguns anos, ele é conservado no Santuário do Despojamento, na mesma cidade de São Francisco, onde é exposto à veneração de um grande número de fiéis provenientes de todo o mundo.

Apenas cinco anos após a morte de Carlo, foi fundada em Milão a Associação "Amigos de Carlo Acutis", com o objetivo de promover sua causa de beatificação e canonização. A investigação diocesana foi realizada em Milão entre 2013 e 2016 e, em 5 de julho de 2018, o Papa Francisco autorizou a então Congregação para as Causas dos Santos a promulgar o decreto declarando que Carlo havia praticado as virtudes cristãs em grau heroico.

Sucessivamente, o mesmo Papa reconheceu o primeiro milagre atribuído à intercessão de Carlo, ocorrido  na Arquidiocese de Campo Grande (Brasil), em 2013. Isso possibilitou a celebração de sua beatificação em 10 de outubro de 2020, na Basílica Superior de São Francisco, em Assis.

Por fim, o Papa Francisco, ao aprovar um segundo milagre realizado por Deus por intercessão do Beato Carlo Acutis, ocorrido em Florença em 2022, abriu caminho para sua canonização.

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São Pier Giorgio Frassati

Eis a biografia lida diante do Santo Padre pelo prefeito do Dicastério das Causas dos Santos, card. Marcello Semeraro, na missa de canonização de Pier Giorgio Frassati e Carlo Acutis.

Cem anos se passaram desde a morte do Beato Pier Giorgio FRASSATI, em 4 de julho de 1925. Ele nasceu em Turim em 6 de abril de 1901, em uma das famílias burguesas mais influentes da cidade.

Após receber sua educação inicial em casa, frequentou a escola pública Massimo D'Azeglio. Aos 10 anos, recebeu sua Primeira Comunhão, juntamente com sua irmã Luciana, na capela da Sociedade das Irmãs Auxiliadoras das Almas do Purgatório, e no verão seguinte se inscreveu na companhia dos Pequenos Rosarianti. Durante sua formação, passou vários anos no Instituto Social, administrado pelos jesuítas, onde ingressou no Apostolado da Oração e na Liga Eucarística. Sua profunda fé é alimentada pela Eucaristia diária, pela oração e pela confissão frequente.

No outono de 1918, após concluir o ensino médio, matriculou-se na Faculdade de Engenharia Industrial Mecânica, com especialização em Engenharia de Minas, na Real Universidade Politécnica de Turim.

Seu nome aparece entre os inscritos na Sociedade de São Vicente do Beato Cottolengo, que reunia alguns ex-alunos do Instituto Social. Alegre e extrovertido, ele exemplificou os valores da amizade e da proximidade com todos na comunidade universitária, sem medo de viver sua fé.

Foi um membro zeloso e ativo da Federação Universitária Católica Italiana. Tornou-se membro do Centro estudantil católico Cesare Balbo e passou à Conferência de São Vicente, que havia surgido em seu interior. Dedicava a maior parte de seu tempo livre a visitar famílias pobres e sacrificar seu próprio dinheiro para ajudar os mais desfavorecidos. Também passou a fazer parte das Milites Mariæ em sua paróquia em Crocetta e participou da seção Jovens Adoradores noturnos Universitários.

A ligação que viveu com maior dedicação foi o compromisso com a Juventude Católica, que mais tarde se tornou a Ação Católica Italiana.

Em 28 de maio de 1922, recebeu o hábito da Ordem Terceira Dominicana, sob o nome de Fra Girolamo (Frei Jerônimo).

Durante os anos do fascismo, enfrentou dificuldades devido ao seu envolvimento em associações católicas e nas fileiras do Partido Popular, ao qual se filiou aos 19 anos.

Apaixonado por montanhismo desde a infância, manteve esse passatempo por toda a vida, filiando-se ao Club Alpino Italiano e à associação Giovane Montagna.

Junto com seus amigos, fundou a Società dei Tipi Loschi (Sociedade dos Personagens Sombrios, em tradução livre), onde momentos de diversão se transformavam em oportunidades para construir fraternidade e compartilhar a fé.

Certa vez, apaixonou-se por uma moça, mas movido por um incomum senso de modéstia e por não querer magoá-la, nunca declarou seus sentimentos.

No final de junho de 1925, desenvolveu sintomas graves de poliomielite, que, em poucos dias, o levaram à perda de apetite e paralisia. Após receber os sacramentos, entrou em coma e faleceu. Uma grande multidão compareceu ao seu funeral e à sua despedida.

Anos mais tarde, iniciou-se o processo canônico para o reconhecimento de sua santidade, culminando em sua beatificação, presidida por São João Paulo II em 20 de maio de 1990, na Praça de São Pedro. No ano passado, o Papa Francisco reconheceu um milagre de cura nos Estados Unidos da América, atribuído à intercessão do Beato Pier Giorgio Frassati.

Diversos círculos da Ação Católica levam seu nome, mantendo viva sua memória e apresentando-o ativamente como modelo para seus membros, especialmente para os jovens.

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                                                    Fonte: vaticannews.va  Vídeo e fotos: (@Vatican Media

Reflexão para este domingo:

O que é carregar a cruz?

José Antonio Pagola

A cruz é o critério decisivo para verificar o que merece trazer o nome de cristão. Quando as gerações cristãs o esquecem, sua religião se aburguesa, se dilui e se esvazia da verdade. Por isso, nós crentes precisamos perguntar-nos qual é o significado mais original do apelo de Jesus: “Quem não carregar sua cruz atrás de mim não pode ser meu discípulo”.

Embora pareça surpreendente, nós cristãos desenvolvemos frequentemente diversos aspectos da cruz, esvaziando-a de seu verdadeiro conteúdo. Assim, há cristãos que pensam que seguir o Crucificado é buscar pequenas mortificações, privando-se de satisfações e renunciando a prazeres legítimos para chegar – através do sofrimento – a uma comunhão mais profunda com Cristo.

Sem dúvida, é grande o valor de uma ascese cristã, e mais ainda numa sociedade como a nossa, mas Jesus não é um asceta que vive buscando mortificações; quando fala da cruz, não está convidando a uma “vida mortificada”.

Há outros para quem “carregar a cruz” é aceitar as contrariedades da vida, as desgraças ou adversidades. Mas os evangelhos nunca falam destes sofrimentos “naturais” de Jesus. Sua crucificação foi consequência de sua atuação de obediência absoluta ao Pai e de amor aos últimos.

Sem dúvida precisamos valorizar o conteúdo cristão desta aceitação, do “lado escuro e doloroso” da vida, a partir de uma atitude de fé; mas, se queremos descobrir o sentido original do chamado de Jesus, precisamos recordar com toda a simplicidade o que era “carregar a cruz”.

Carregar a cruz fazia parte do ritual da execução: o réu era obrigado a atravessar a cidade carregando a cruz e levando o titulus, um cartaz onde aparecia seu delito. Desta maneira, era mostrado como culpado perante a sociedade, excluído do povo, indigno de continuar vivendo entre os seus.

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JOSÉ ANTONIO PAGOLA cursou Teologia e Ciências Bíblicas na Pontifícia Universidade Gregoriana, no Pontifício Instituto Bíblico de Roma e na Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. É autor de diversas obras de teologia, pastoral e cristologia. Atualmente é diretor do Instituto de Teologia e Pastoral de São Sebastião. Este comentário é do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, da Editora Vozes.

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sábado, 6 de setembro de 2025

Papa Leão neste sábado:

Maria nos protege das ideologias

Realizou-se em Roma, de 3 a 6 de setembro, o 26º Congresso Mariológico Internacional, sobre o tema "Jubileu e sinodalidade: uma Igreja com rosto e prática mariana"

A primeira audiência do Papa Leão este sábado foi realizada na Sala Paulo VI e dedicada aos participantes do Congresso da Pontifícia Academia Mariana Internacional.

O Pontífice definiu esta instituição como um “cenáculo de pensamento, de espiritualidade e de diálogo”, que tem a tarefa de coordenar os estudos mariológicos.

Neste 26° Congresso, os participantes se interrogaram se uma Igreja com rosto mariano seja um resíduo do passado ou uma profecia de futuro, capaz de provocar as mentes e os corações, reconhecendo no jubileu e na sinodalidade duas categorias bíblicas para explicar de maneira eficaz a vocação e a missão da Mãe do Senhor.

“Uma Igreja de coração mariano preserva e compreende melhor a hierarquia das verdades de fé, integrando razão e afeto, corpo e alma, universal e local, pessoa e comunidade, humanidade e cosmo”, explicou o Pontífice. É uma Igreja que não renuncia a fazer a si mesma, aos outros e a Deus perguntas incômodas e a percorrer as vias exigentes da fé e do amor.

“Uma pietas e uma práxis marianas orientadas a serviço da esperança e da consolação libertam do fatalismo, da superficialidade e do fundamentalismo; levam a sério todas as realidades humanas, a partir dos últimos e dos descartados; dão voz e dignidade aos que são sacrificados nos altares dos ídolos antigos e novos.”

Para o Papa Leão, a teologia mariana tem a tarefa de cultivar em todo o povo de Deus, em primeiro lugar, a disponibilidade a “recomeçar” a partir de Deus, da sua Palavra e das necessidades do próximo, com humildade e coragem.  

“Contemplar o mistério de Deus e da história com o olhar interior de Maria nos protege das mistificações da propaganda, da ideologia e da informação doentia, que jamais saberão levar uma palavra desarmada e desarmante, e nos abre à gratuidade divina, que é a única que nos possibilita caminhar com as pessoas, os povos e as culturas na paz.”

É por isso que a Igreja precisa da mariologia, completou o Santo Padre, agradecendo e enaltecendo o trabalho e as iniciativas promovidas pela Academia Mariana ao longo destes anos.

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Papa  na Audiência Jubilar:
a Cruz de Jesus é a maior descoberta da nossa vida!

Leão XIV se inspirou na mãe do imperador Constantino, Santa Helena, para explicar a parábola do tesouro escondido, narrada em Mateus 13,44. Jesus é este tesouro, pelo qual vale a pena entregar a nossa vida.

“Esperar é escavar”: este foi o tema da audiência jubilar realizada pelo Papa Leão na manhã deste sábado, 6 de setembro.

Na Praça São Pedro, já enfeitada com a tapeçaria dos futuros santos Carlo Acutis e Pier Giorgio Frassati, o Pontífice recebeu milhares de peregrinos vindos a Roma seja para o Jubileu, seja para a cerimônia de canonização deste 7 de setembro.

Em sua catequese, o Santo Padre comentou a parábola do tesouro no campo, descrita no Evangelho de Mateus, na qual Jesus descreve o Reino de Deus: é preciso escavar para romper a crosta da realidade e reacender a esperança.

Assim que os cristãos puderam professar publicamente a sua fé, os discípulos começaram a escavar, em especial nos locais da paixão, morte e ressurreição de Cristo. A tradição recorda a mãe do imperador Constantino, Flávia Júlia Helena, como a alma daquelas escavações. Ao invés de desfrutar dos prazeres da corte, preferiu colocar-se nas pegadas de Cristo na periférica Jerusalém. O grande tesouro descoberto por Helena foi a Santa Cruz.

“Eis o tesouro escondido pelo qual vender tudo! A Cruz de Jesus é a maior descoberta da vida, o valor que modifica todos os valores.”

Helena pôde compreender tudo isso porque ela mesma carregou por muitos anos a própria cruz, já que foi repudiada pelo marido e distanciada do filho Constantino. Não obstante as dores e desilusões, manteve-se uma mulher à procura, decidiu se tornar cristã e sempre praticou a caridade, jamais se esquecendo dos humildes dos quais ela mesma provinha.

“Cultivar o próprio coração requer empenho. É a principal missão. Mas escavando se encontra, curvando-se nos aproximamos sempre mais daquele Senhor que se despojou de si mesmo para se tornar como nós. A sua Cruz está sob a crosta da nossa terra.”

Podemos até caminhar orgulhosos, calcando distraidamente o tesouro sob nossos pés, concluiu o Papa. Mas se nos tornarmos como crianças, conheceremos outro Reino, outra força. “Deus está sempre sob nós para nos elevar.”

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                                                                 Fonte: vaticannews.va   Foto: (@Vatican Media

Bela reflexão para este sábado:

Que seja bem feita a construção da vida

Frei Almir Guimarães

De novo estamos com o tema da urgência de um vigoroso seguimento do Mestre. Jesus traça algumas orientações a respeito das qualidades do discípulo. Tudo deve ser centrado nele, o Mestre. Nada pela metade. Não pensamos no seguimento meio longínquo de um Jesus encerrado no tempo que se foi, refém das páginas impressas de um livro chamado Bíblia ou engessado em fórmulas que aprendemos de cor, mas sem condições de dar cores belas à nossa vida. Pensamos no Cristo vivo e misteriosamente presente.

Viemos da nada. Vivemos. Um corpo com suas necessidades e reclamos. Os olhos, as mãos, os pés, anelos e desejos do coração. Perguntas e mais perguntas. De onde vim? Para onde vou? Esses outros, tantos outros? Como conviver? Esse planeta, essas águas, essas flores, essas ruas, essa gente toda? Esses dias de paz e de encantadora beleza e esse tempo de dores, de incompreensão?

Cabe-nos construir nossa vida a partir de nós e com os outros. Respeitar os gritos de nosso interior. Queremos a beleza, o bem, a verdade e não a ilusão. Queremos ser gente atenta aos movimentos da vida e às sugestões que Deus que as anda fazendo através dos mais sábios, do perfume do Evangelho e dos sinais dos tempos e simplesmente pelo palpitar da vida.

Crescer, viver, respeitar os que nos cercam, estar atento aos misteriosos apelos que o Senhor nos faz, não construir de qualquer maneira, cuidar da terra e da água, construir espaços de união e pontos que unam, evitar tudo o que possa nos animalizar, tornar-nos indiferentes a tudo e a todos. Tentar, a duras penas, ouvir o que o Mistério anda sussurrando aos nossos ouvidos por suas visitas. “Estou à porta e bato”. Queremos viver de maneira evangélica.

Casa na rocha, sair para a guerra com certeza da vitória. Os que querem seguir a Jesus calculam gastos, procuram se prevenir as surpresas que podem acontecer com o tempo que vai passando. Perseverança para que a torre seja concluída com êxito e não fique inacabada, que o exército seja forte em coragem e número permitindo a vitória.

Como construir a vida com êxito e como discípulos do Senhor? Não existe receita mágica.

• Desde o tempo da juventude procurar a verdade do existir. Fugir de tudo que possa ser ilusão, mera aparência, ou seja, enganar-se a si mesmo. Sinceridade consigo mesmo, com sua verdade.

• No tempo privilegiado da juventude, entre os 16 aos 30 anos colocar as bases de uma vida sólida: viagens ao fundo do coração para escutar nossos sonhos mais legítimos, viver densas, profundas e sérias amizades, escolher com nitidez uma profissão que não somente dê bons salários, mas que seja também colaboração na construção de um mundo segundo o coração de Deus, fazer uma opção séria e bela pelo casamento, tomar a decisão de um vida de oração e de vivência da missa dominical. Lucidez, responsabilidade e firmeza de propósitos. Tudo feito sobre o sólido. Questão de decisão.

• A solidez uma existência humana e cristã se torna possível com o exercício do discernimento, tentar ver claro no meio do nevoeiro. Ter o hábito de refletir.

• Na formação sólida do discípulo de Cristo dever-se-á pensar em debates, exercício de meditação, revisões regulares do modo de viver.

• A primeira leitura, do livro da Sabedoria, afirma que os desígnios do Senhor só podem ser conhecidos precisamente pela sabedoria. Sabor das coisas. Sabor, sabedoria que acontece quando nos expomos à luz do Espírito que penetra o mais fundo de nós mesmos.

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Oração

A terra começará a ser teu reino…

Se nós sairmos para a vida

partindo nosso pão com o faminto,

eliminando, uma a uma, as discórdias,

pondo o bem em todos os teus caminhos,

a terra começará, Senhor, a ser teu reino.


Se sairmos para a vida

armados de concórdia e sem estrondo,

tirando a opressão do oprimido,

abrindo a casa ao forasteiro,

a terra começará, Senhor, a ser o teu reino.


Se sairmos para a vida

vivendo em nossa carne o teu Evangelho,

dizendo que é urgente despertar,

que só os sinceros vêm teu reino.

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                             Fonte: franciscanos.org.br   Banner:Frei Fábio M. Vasconcelos

sexta-feira, 5 de setembro de 2025

Papa inaugura o Borgo Laudato si':

cuidar da criação é vocação de cada pessoa

Leão XIV inaugura o projeto que ocupa 55 hectares de terreno, anteriormente pertencentes às Villas Pontifícias. “Somos criaturas entre as criaturas, e não criadores”, afirma na homilia do Rito de Bênção, exortando a transformar a natureza em um lugar de “proximidade”, que “não pode deixar de nos falar de Deus”.

“Criaturas entre as criaturas”, e não “criadores”. A flora e a fauna, “os pássaros do céu”, os “lírios do campo”, são “síntese de extraordinária beleza”. Cuidar delas é uma “vocação” comum a todos os seres humanos, capaz de transformar a natureza em um lugar de “proximidade”, que “não pode deixar de nos falar de Deus”. São esses os horizontes que o Papa Leão XIV vislumbra para o Borgo Laudato si', inaugurado nesta sexta-feira, 5 de setembro, nos 55 hectares de terreno que outrora faziam parte das Vilas Pontifícias de Castel Gandolfo. O Borgo une duas almas: o Centro de Alta Formação Laudato si', instituído por dois quirógrafos do Pontífice e coração educativo do projeto, e um sistema agrícola baseado nos princípios da ecologia integral.

A visita ao Borgo

Durante a Liturgia da Palavra com o Rito da Bênção, após a proclamação de um trecho do Evangelho segundo Mateus e o Responsório, o Papa toma a palavra para a homilia, inspirando-se justamente no texto evangélico. Ele se detém no ensinamento de Jesus aos discípulos, quando os convida a olhar “as aves do céu” e a observar “como crescem os lírios do campo”. O Pontífice lembra como a flora e a fauna são frequentemente protagonistas das parábolas evangélicas, mas, neste caso, o convite serve para “compreender o desígnio original do Criador”.

Tudo foi sabiamente ordenado, desde o início, para que todas as criaturas contribuíssem para a realização do Reino de Deus. Cada criatura tem um papel importante e específico no seu projeto, e cada uma é “coisa boa”, como sublinha o Livro do Gênesis.

Privilégios e responsabilidades

A referência aos pássaros e aos lírios não é casual. “Vocês não valem mais do que eles?”, é a primeira pergunta que Jesus faz aos seus. “Se Deus veste assim a erva do campo, ... não fará ele muito mais por vocês?”, é a segunda.

Quase retomando implicitamente o relato do Gênesis, Jesus destaca o lugar especial reservado, no ato criativo, ao ser humano: a criatura mais bela, feita à imagem e semelhança de Deus. Mas a esse privilégio está associada uma grande responsabilidade: aquela de cuidar de todas as outras criaturas, respeitando o desígnio do Criador.

“Criaturas entre as criaturas”

O cuidado da criação torna-se assim uma “verdadeira vocação”, comum a todos, a ser vivida “dentro da própria criação”, sem esquecer que “somos criaturas entre as criaturas e não criadores”. A esse respeito, Leão XIV recorda as palavras do seu predecessor, Francisco, contidas na encíclica sobre o cuidado da casa comum Laudato si': “recuperar a harmonia serena com a criação”, refletindo-a nos nossos estilos de vida e ideais, “para contemplar o Criador, que vive entre nós e no que nos rodeia”.

Assista:

A vocação da Igreja

Não só a Laudato si', mas também a Exortação Apostólica Laudate Deum orientam a reflexão do Papa, que colocou a inauguração do Borgo Laudato si' entre as iniciativas da Igreja destinadas a realizar a sua “vocação de ser guardiã da obra de Deus”. Uma tarefa tão “exigente” quanto “bela, fascinante”, que constitui “um aspecto primordial da experiência cristã” .

Uma “semente”, herança do Papa Francisco

O Pontífice define o Borgo como uma “herança” do Papa Francisco, “uma semente que pode dar frutos de justiça e de paz”, retomando uma passagem da sua Mensagem para o X Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação. Uma semente que brotará “permanecendo fiel ao próprio mandato, ou seja, “ser um modelo tangível de pensamento, estrutura e ação” que favoreça “a conversão ecológica através da educação e da catequese”.

Lugar de proximidade e convívio

Leão XIV conclui destacando como as maravilhas do Borgo são “uma síntese de extraordinária beleza” que entrelaçam “espiritualidade, natureza, história, arte, trabalho e tecnologia”.

Esta é, em definitiva, a ideia do Borgo, um lugar de proximidade e convívio. E tudo isso não pode deixar de nos falar de Deus.

A saudação do cardeal Baggio

O Rito de Bênção é introduzido pelo cardeal Fabio Baggio, subsecretário do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral e diretor-geral do Centro de Alta Formação Laudato si’. O cardeal destaca a natureza profética do Borgo, “em uma época marcada por crises ambientais, conflitos e desigualdades”, indicando-o como símbolo de um futuro “diferente”, baseado “no cuidado da criação e de toda a família humana”. Ele define a inauguração como uma “mensagem de esperança”, lembrando que a conversão ecológica é possível e nasce do encontro entre fé, responsabilidade e esperança. Em seguida, convida a rezar por aqueles que animam a vida do Borgo e pelos visitantes, para que possam louvar e bendizer o Senhor com humildade e gratidão.

A oração com a criação

O rito prossegue então com a recitação da Oração Cristã com a Criação, tirada da Laudato si'. Leão XIV pronuncia então a oração de bênção, confiando a Deus “a alegria de inaugurar um lugar onde somos formados para custodiar a obra da sua criação que nos foi confiada”, pedindo que “a admiração pela beleza das suas criaturas nos leve a contemplar a grandeza do teu amor, para saber vivê-la entre nós em todas as nossas relações”. Após a antífona mariana, o rito termina com a apresentação de Andrea Bocelli e de seu filho, Matteo, unidos em oração no canto Dolce Sentire.

Beleza e valor arqueológico do Borgo

A Liturgia da Palavra com o Rito de Bênção é precedida por uma visita aos diferentes locais que caracterizam o Borgo. O Pontífice foi recebido pelo cardeal Fabio Baggio, e pelo Pe. Manuel Dorantes, respectivamente diretor-geral e diretor-administrativo do Centro. Junto com eles, cerca de 15 famílias que se ocupam da hospitalidade dos visitantes estavam presentes para receber Leão XIV. Para o futuro, estima-se cerca de 250 mil entradas por ano, com ingresso pago, mas acesso gratuito para pessoas em dificuldades econômicas.

Formação para mais de 2 mil estudantes

A bordo de um carrinho de golfe elétrico, o Pontífice chegou aos locais da visita passando pela Villa Barberini, onde recentemente passou um período de descanso de verão, para depois parar no Giardino della Madonnina, detendo-se por alguns momentos em oração. Nesse local, em 9 de julho, celebrou a primeira missa com a nova liturgia dedicada à Custódia da Criação. Naquela ocasião, Leão XIV definiu o jardim como uma “catedral natural”, destacando a beleza da criação como um contexto privilegiado para a Eucaristia.

O encontro com quem anima o Borgo

A visita continuou no Giardino degli Specchi, onde o Papa encontrou quatro jardineiros com suas famílias e alimentou alguns peixes Koi vindos do Japão. Em seguida, dirigiu-se ao brasão pontifício, historicamente realizado pelos jardineiros da propriedade, e depois à vinha biodinâmica, desenvolvida em colaboração com a Universidade de Udine, onde encontrou os responsáveis pela fazenda e alguns animais, entre os quais dois cavalos vindos de Valência.

As salas de aula para a formação

Outro momento significativo foi aquele na nova área da Serra e do Santuário de Borgo Laudato si', destinada a atividades de formação dirigidas a estudantes, profissionais e comunidades vulneráveis. Todos os anos, o complexo receberá até 2 mil estudantes de todo o mundo, incluindo jovens com deficiência, enviados pelas dioceses. Entre as salas de aula e os espaços do Centro, o Papa também encontrou uma representação de estudantes das escolas vizinhas, alguns CEOs de empresas e pessoas vulneráveis envolvidas nos cursos de formação.

Edoardo Giribaldi - Vatican News

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                                                   Fonte: vaticannews.va   Foto e vídeo: (@Vatican Media)

23º Domingo do Tempo Comum:

Leituras e reflexão
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1ª Leitura: Sb 9,13-18

Leitura do Livro da Sabedoria

Qual é o homem que pode conhecer os desígnios de Deus? Ou quem pode imaginar o desígnio do Senhor? Na verdade, os pensamentos dos mortais são tímidos e nossas reflexões incertas: porque o corpo corruptível torna pesada a alma, e a tenda de argila oprime a mente que pensa. Mal podemos conhecer o que há na terra e com muito custo compreendemos o que está ao alcance de nossas mãos; quem, portanto, investigará o que há nos céus? Acaso alguém teria conhecido o teu desígnio, sem que lhe desses sabedoria e do alto lhe enviasses teu santo espírito? Só assim se tornaram retos os caminhos dos que estão na terra, e os homens aprenderam o que te agrada e pela sabedoria foram salvos.

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Responsório: Sl 89(90)

- Vós fostes, ó Senhor, um refúgio para nós.

- Vós fostes, ó Senhor, um refúgio para nós.

1. Vós fazeis voltar ao pó todo mortal / quando dizeis: “Voltai ao pó, filhos de Adão!” / Pois mil anos para vós são como ontem, / qual vigília de uma noite que passou.

2. Eles passam como o sono da manhã, / são iguais à erva verde pelos campos: / de manhã ela floresce vicejante, / mas à tarde é cortada e logo seca.

3. Ensinai-nos a contar os nossos dias / e dai ao nosso coração sabedoria! / Senhor, voltai-vos! Até quando tardareis? / Tende piedade e compaixão de vossos servos!

Saciai-nos de manhã com vosso amor, / e exultaremos de alegria todo o dia! / Que a bondade do Senhor e nosso Deus † repouse sobre nós e nos conduza! / Tornai fecundo, ó Senhor, nosso trabalho.

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2ª Leitura: Fm 9b-10.12-17

Leitura da Carta de São paulo a Filêmon

Caríssimo, 9eu, Paulo, velho como estou e agora também prisioneiro de Cristo Jesus, faço-te um pedido em favor do meu filho que fiz nascer para Cristo na prisão, Onésimo. Eu o estou mandando de volta para ti. Ele é como se fosse o meu próprio coração. Gostaria de tê-lo comigo, a fim de que fosse teu representante para cuidar de mim nesta prisão, que eu devo ao evangelho. Mas eu não quis fazer nada sem o teu parecer, para que a tua bondade não seja forçada, mas espontânea. Se ele te foi retirado por algum tempo, talvez seja para que o tenhas de volta para sempre, já não como escravo, mas, muito mais do que isso, como um irmão querido, muitíssimo querido para mim quanto mais ele o for para ti, tanto como pessoa humana quanto como irmão no Senhor. Assim, se estás em comunhão de fé comigo, recebe-o como se fosse a mim mesmo.

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Evangelho: Lc 14,25-33

Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo São Lucas

Grandes multidões acompanhavam Jesus. Voltando-se, ele disse: «Se alguém vem a mim, e não dá preferência mais a mim que ao seu pai, à sua mãe, à mulher, aos filhos, aos irmãos, às irmãs, e até mesmo à sua própria vida, esse não pode ser meu discípulo. Quem não carrega sua cruz e não caminha atrás de mim, não pode ser meu discípulo. De fato, se alguém de vocês quer construir uma torre, será que não vai primeiro sentar-se e calcular os gastos, para ver se tem o suficiente para terminar? Caso contrário, lançará o alicerce e não será capaz de acabar. E todos os que virem isso, começarão a caçoar, dizendo: ‘Esse homem começou a construir e não foi capaz de acabar!’ Ou ainda: Se um rei pretende sair para guerrear contra outro, será que não vai sentar-se primeiro e examinar bem, se com dez mil homens poderá enfrentar o outro que marcha contra ele com vinte mil? Se ele vê que não pode, envia mensageiros para negociar as condições de paz, enquanto o outro rei ainda está longe. Do mesmo modo, portanto, qualquer de vocês, se não renunciar a tudo o que tem, não pode ser meu discípulo.

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Reflexão do padre Johan Konings

Os cristãos e as estruturas sociais

“Se Deus só serve para deixar tudo como está, não precisamos dele”; palavra de uma agente de educação popular. O Deus que é apenas o arquiteto do universo, mas fica impassível diante da injustiça dos habitantes de sua arquitetura, não tem relevância alguma. O cristianismo serve ou não para mudar as estruturas da sociedade? São Paulo tinha um amigo, Filêmon.

Este – como todos os ricos de seu tempo – tinha escravos, que eram como se fossem as máquinas de hoje. Um dos escravos, sabendo que Paulo tinha sido preso, fugiu de Filêmon para ajudar Paulo na prisão. Paulo o batizou (“o fez nascer para Cristo”).

Depois mandou-o de volta a Filêmon, recomendando que este o acolhesse, não como escravo, mas como irmão… Mais: como se ele fosse o próprio Paulo (2ª leitura).

Essa história é emocionante, mas nos deixa insatisfeitos. Por que Paulo não exigiu que o escravo fosse libertado, em vez de acolhido como irmão, continuando como escravo? Aliás, a mesma pergunta surge ao ler outros textos do Novo Testamento (1 Cor 7,21; 1Pd 2,18). Por que o Novo Testamento não condena a escravidão?

A humanidade leva tempo para tomar consciência de certas incoerências, e mais tempo ainda para encontrar-lhes remédio. A escravidão, naquele tempo, era uma forma de compensação de dívidas contraídas ou de uma guerra perdida. Imagine que se resolvesse desse jeito a dívida externa do Brasil! Seríamos todos vendidos (se já não é o caso…) Antigamente (?), a escravidão fazia parte da estrutura econômica. Na Idade Média, com os numerosos raptos praticados pelos piratas mouros, surgiram ordens religiosas para resgatar os escravos, até tomando o lugar deles. Mas ainda na época moderna, a Igreja foi conivente com a escravidão dos negros. A consciência moral cresce devagar, e mudar alguma coisa nas estruturas é mais demorado ainda, porque depende da consciência e das possibilidades históricas. As estruturas manifestam só aos poucos sua injustiça, e então leva séculos para transformá-las.

Porém, a lição de Paulo é que, não obstante essa lentidão histórica, devemos viver já como irmãos, vivenciando um espírito novo, que vai muito além das estruturas vigentes e que – como uma bomba-relógio – fará explodir, cedo ou tarde, a estrutura injusta. Novas formas de convivência social, voluntariados dos mais diversos tipos, organismos não-governamentais, pastorais junto aos excluídos – a criatividade cristã pode inventar mil maneiras para viver aquilo que as estruturas só irão assimilar muito depois.

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PE. JOHAN KONINGS nasceu na Bélgica em 1941, onde se tornou Doutor em Teologia pela Universidade Católica de Lovaina, ligado ao Colégio para a América Latina (Fidei Donum). Veio ao Brasil, como sacerdote diocesano, em 1972. Em 1985 entrou na Companhia de Jesus (Jesuítas) e, desde 1986, atuou como professor de exegese bíblica na FAJE, Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, em Belo Horizonte. Faleceu no dia 21 de maio de 2022. Este comentário é do livro “Liturgia Dominical, Editora Vozes.

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 Fonte: franciscanos.org.br   Bannersmaterecclesiae.com.br Frei Fábio M. Vasconcelos