A justiça
evangélica e política
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| Dom Lindomar |
A grandeza de
uma sociedade pode ser medida pela maneira como vivem aqueles que menos
possuem. Para conhecer um país, é preciso observar a vida dos pobres, as
oportunidades oferecidas às crianças, a condição dos trabalhadores e a
segurança daqueles que, depois de uma existência inteira de esforços,
envelheceram. É nesses lugares, afastados dos centros de decisão, que uma
sociedade revela o seu caráter moral.
Jesus Cristo
introduziu na história humana uma compreensão extraordinária da dignidade das
pessoas. Sua atenção aos últimos, aos enfermos e aos excluídos manifestava uma
nova maneira de compreender as relações. Quando anunciou, na sinagoga de
Nazaré, que havia sido enviado para levar a Boa-Nova aos pobres e libertar os
oprimidos (Lc 4,18), colocou no centro de sua missão aqueles que a organização
social marginalizava, e declarou que cada pessoa possui um valor anterior ao
mérito.
No capítulo 25
de Mateus, o destino moral da humanidade é considerado a partir do tratamento
dispensado aos mais pequeninos. A relação com Deus é uma expressão concreta da
responsabilidade pelo outro, sobretudo quando ele se encontra ameaçado.
Na parábola do
bom samaritano (Lc 10,25-37), a proximidade humana nasce da disposição de
reconhecer o sofrimento alheio como uma responsabilidade própria. O samaritano
percebe o homem ferido, aproxima-se, cuida de suas necessidades e providencia
meios para sua recuperação. Seu gesto ultrapassa as fronteiras sociais e
religiosas que poderiam justificar a indiferença.
No encontro
entre essa perspectiva e a perspectiva política, a compaixão pessoal puxa sua
necessária continuidade em instituições capazes de proteger as pessoas. Uma
sociedade solidária precisa cultivar virtudes humanas e organizar estruturas
justas. A generosidade que alimenta uma família faminta constitui um gesto
precioso e, nela, a caridade alcança sua expressão pública.
É precisamente
nesse horizonte que a Doutrina Social da Igreja faz afirmações muito
relevantes. A destinação universal dos bens, a dignidade do trabalho, o bem
comum e a opção preferencial pelos pobres recordam que a economia possui uma
finalidade humana. Os recursos materiais são instrumentos destinados a
sustentar a vida e favorecer seu desenvolvimento. A propriedade, a iniciativa
econômica e a capacidade produtiva encontram sua legitimidade social no serviço
que prestam à comunidade. Uma ordem econômica que multiplica riquezas, mas
conserva multidões privadas das condições elementares de existência precisa ser
reavaliada.
A sociedade
brasileira, bastante precária, oferece um campo largo para essa reflexão.
Vivemos num país de grande capacidade produtiva, riqueza natural e criatividade
humana. Ao mesmo tempo, permanecem grandes distâncias entre as condições de
vida de seus habitantes. O lugar de nascimento, a renda familiar e o acesso
desigual aos serviços públicos continuam exercendo influência considerável
sobre o futuro das pessoas. A superação dessas circunstâncias exige políticas
capazes de ampliar oportunidades, valorizar o trabalho e proteger os idosos,
assegurar educação de qualidade e, não apenas implementar projetos econômicos
liberais que não funcionam nem para quem os inventou.
A pobreza é uma questão que alcança a própria consciência moral de uma civilização. A necessidade de organizar instituições capazes de preservar a liberdade e a igualdade dos cidadãos, dando atenção especial à condição dos menos favorecidos, é uma exigência evangélica do amor e abre o horizonte de responsabilidade que interpela governos e instituições da humanidade.
Dom Lindomar Rocha Mota - Bispo de São Luís de Montes Belos (GO)

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