segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Catequese com dom Lindomar Rocha Mota

A justiça evangélica e política 

Dom Lindomar

A grandeza de uma sociedade pode ser medida pela maneira como vivem aqueles que menos possuem. Para conhecer um país, é preciso observar a vida dos pobres, as oportunidades oferecidas às crianças, a condição dos trabalhadores e a segurança daqueles que, depois de uma existência inteira de esforços, envelheceram. É nesses lugares, afastados dos centros de decisão, que uma sociedade revela o seu caráter moral. 

Jesus Cristo introduziu na história humana uma compreensão extraordinária da dignidade das pessoas. Sua atenção aos últimos, aos enfermos e aos excluídos manifestava uma nova maneira de compreender as relações. Quando anunciou, na sinagoga de Nazaré, que havia sido enviado para levar a Boa-Nova aos pobres e libertar os oprimidos (Lc 4,18), colocou no centro de sua missão aqueles que a organização social marginalizava, e declarou que cada pessoa possui um valor anterior ao mérito. 

No capítulo 25 de Mateus, o destino moral da humanidade é considerado a partir do tratamento dispensado aos mais pequeninos. A relação com Deus é uma expressão concreta da responsabilidade pelo outro, sobretudo quando ele se encontra ameaçado. 

Na parábola do bom samaritano (Lc 10,25-37), a proximidade humana nasce da disposição de reconhecer o sofrimento alheio como uma responsabilidade própria. O samaritano percebe o homem ferido, aproxima-se, cuida de suas necessidades e providencia meios para sua recuperação. Seu gesto ultrapassa as fronteiras sociais e religiosas que poderiam justificar a indiferença. 

No encontro entre essa perspectiva e a perspectiva política, a compaixão pessoal puxa sua necessária continuidade em instituições capazes de proteger as pessoas. Uma sociedade solidária precisa cultivar virtudes humanas e organizar estruturas justas. A generosidade que alimenta uma família faminta constitui um gesto precioso e, nela, a caridade alcança sua expressão pública. 

É precisamente nesse horizonte que a Doutrina Social da Igreja faz afirmações muito relevantes. A destinação universal dos bens, a dignidade do trabalho, o bem comum e a opção preferencial pelos pobres recordam que a economia possui uma finalidade humana. Os recursos materiais são instrumentos destinados a sustentar a vida e favorecer seu desenvolvimento. A propriedade, a iniciativa econômica e a capacidade produtiva encontram sua legitimidade social no serviço que prestam à comunidade. Uma ordem econômica que multiplica riquezas, mas conserva multidões privadas das condições elementares de existência precisa ser reavaliada. 

A sociedade brasileira, bastante precária, oferece um campo largo para essa reflexão. Vivemos num país de grande capacidade produtiva, riqueza natural e criatividade humana. Ao mesmo tempo, permanecem grandes distâncias entre as condições de vida de seus habitantes. O lugar de nascimento, a renda familiar e o acesso desigual aos serviços públicos continuam exercendo influência considerável sobre o futuro das pessoas. A superação dessas circunstâncias exige políticas capazes de ampliar oportunidades, valorizar o trabalho e proteger os idosos, assegurar educação de qualidade e, não apenas implementar projetos econômicos liberais que não funcionam nem para quem os inventou. 

A pobreza é uma questão que alcança a própria consciência moral de uma civilização. A necessidade de organizar instituições capazes de preservar a liberdade e a igualdade dos cidadãos, dando atenção especial à condição dos menos favorecidos, é uma exigência evangélica do amor e abre o horizonte de responsabilidade que interpela governos e instituições da humanidade.

Dom Lindomar Rocha Mota - Bispo de São Luís de Montes Belos (GO) 

__________________________________________________
                                                                                                                     Fonte: cnbb.org.br

Nenhum comentário:

Postar um comentário